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Escolha

Fardas, Poeira e Navalhas

A manhã em Sorriso nasceu com a mesma violência do dia anterior. O sol despontou no horizonte plano das lavouras de soja como uma brasa acesa jogada no capim seco, e antes mesmo das seis horas o ar dentro do quarto de Anthony já era espesso e sufocante.

Anthony mal havia dormido. Passara a noite revirando na cama estreita, o barulho do ventilador martelando em seus ouvidos como uma contagem regressiva para a sua própria execução. Quando o despertador do celular trincado tocou, ele já estava de pé, encarando a farda passada sobre a cadeira de plástico.

Ele caminhou até o espelho do banheiro. A marca avermelhada no lado direito de seu pescoço parecia ter ganhado vida própria durante a madrugada; não era enorme, mas contra o tom pardo de sua pele, parecia um carimbo de culpa. Com as mãos trêmulas, pegou a gilete e raspou os poucos pelos ralos do buço, cortando-se de leve no queixo por pura distração. Em seguida, abriu o armário de remédios da mãe, pegou uma base líquida velha e espalhou uma camada generosa sobre a mancha. Ficou horrível — a tonalidade era clara demais —, mas se ele mantivesse a gola do uniforme bem abotoada até o colarinho, talvez passasse batido pelos olhos de falcão dos monitores.

Na cozinha, o cheiro de café forte e fumaça de cigarro denunciava que seu pai já estava de pé. O homem, com o rosto vincado pelo sol e a camisa de botões encardida de poeira vermelha da terra, tomava café em um copo de vidro.

— Vai se atrasar — disse o pai, sem levantar os olhos da mesa. A voz dele era grave, áspera feito lixa. — O sargento não tolera moleza. Homem que não aprende a marchar direito na escola vira vagabundo na rua.

— Tô ligado, pai — respondeu Anthony, pegando um pedaço de pão seco e enfiando na boca apenas para não levantar suspeitas. Seu estômago estava amarrado em um nó cego. — Já tô indo.

— Endireita essa coluna, moleque. Parece que tá carregando uma saca de calcário nas costas.

Anthony forçou os ombros para trás, estalou a mandíbula e bateu a porta da cozinha ao sair. A cada passo pela rua asfaltada que cortava o bairro, o calor subia do chão como vapor de chaleira. Caminhões bitrens roncavam pesados pela rodovia próxima, levantando uma névoa contínua de poeira que impregnava os olhos e a garganta. Mas nada daquele inferno habitual incomodava tanto quanto a perspectiva de atravessar os portões da Escola Militar Tiradentes.

Ao avistar o imenso muro cinza com arame farpado e o brasão pintado na entrada, o coração de Anthony deu um solavanco. Alunos marchavam em pequenos grupos, fardas impecáveis, mochilas pretas padronizadas, gorros ajustados às cabeças raspadas. Entre eles, risadas, empurrões e a típica agitação de garotos de treze a dezessete anos. Mas, nos olhos de Anthony, cada risada parecia direcionada a ele. Cada cabeça virada parecia esconder um comentário sussurrado sobre o que acontecera no pátio.

Ele não foi para a fila de revista da entrada principal. Desviou pelo gramado lateral, fingindo ajustar o cadarço do coturno engraxado, e esgueirou-se para a parte de trás do ginásio de esportes.

O local fedia a urina velha e cimento úmido, esquecido à sombra de uma caixa d'água monumental. Lá estava ele.

Lucas estava encostado na parede de alvenaria nua, com os braços cruzados sobre o peito e uma das pernas dobrada, a sola do coturno apoiada no reboco. O cabelo preto com corte raspado nas laterais brilhava sob o feixe de sol que vazava entre as telhas de zinco. Ele mantinha um palito de fósforo apagado entre os lábios, mascando a ponta com um desdém que parecia quase teatral. Seus olhos castanhos, escuros e profundos como poços d’água parada, fixaram-se em Anthony no mesmo instante em que ele dobrou a esquina.

— Chegou atrasado, princesinha — Lucas zombou, tirando o palito da boca e cuspindo no chão. — Achei que tivesse tido um treco e ficado trancado no armário. Literalmente.

— Cala a boca, seu merda — Anthony avançou dois passos, a voz ríspida, cuspindo as palavras enquanto olhava para os dois lados para garantir que estavam sós. — Você tá achando que isso aqui é uma piada? O colégio inteiro viu ontem.

— Viu o quê? — Lucas deu um sorriso torto, provocador, desencostando-se da parede e dando um passo lento na direção de Anthony. O garoto tinha a mesma idade, treze anos, mas carregava nos ombros uma arrogância pesada, típica de quem já aprendera que o melhor ataque é nunca demonstrar fraqueza. — Viram um moleque dando uma gravata no outro e fazendo zoeira. Só isso.

— Zoeira? — Anthony sentiu o sangue ferver e puxou a gola da própria camisa para baixo, exibindo o roxo que tentara disfarçar com maquiagem barata. — Você me mordeu, seu doente! Isso aqui não é porra de gravata nenhuma. Parece que um bicho me atacou. Se o monitor ver essa merda na formatura, ele me manda direto pra diretoria e chama meus pais.

Lucas olhou para a marca. Por um segundo minúsculo, algo parecido com fascínio brilhou em seu olhar escuro, desfazendo a máscara de deboche. Ele estendeu a mão com rapidez, os dedos ásperos tocando a pele quente de Anthony logo abaixo da mandíbula.

O toque foi como um choque elétrico. Anthony recuou com um sobressalto, as costas batendo contra a lata oxidada da caixa d'água.

— Não encosta em mim, caralho! — chiou Anthony, o peito subindo e descendo com força. — Tá querendo foder com a minha vida de vez?

— Deixa de ser cagão — rebateu Lucas, embora tenha abaixado a mão, os nós dos dedos cerrando-se num punho fechado ao lado do corpo. Sua voz caiu para um tom mais baixo, urgente, quase cortante. — A gente alinhou o papo ontem ou não? Você é homem ou é um frouxo?

— Eu sou o cara que não quer levar uma surra de mangueira do próprio pai no meio da sala, Lucas! Você sabe muito bem o que acontece se desconfiarem.

— Ninguém vai desconfiar de porra nenhuma se a gente não deixar — Lucas deu outro passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Anthony até que suas fardas quase se tocassem. O cheiro de sabonete áspero e suor jovem emanava dele. — Se alguém vier com conversinha, a gente esmaga. A história é uma só: a gente tava zoando, apostamos dez conto pra ver quem tinha coragem de dar um selinho no pescoço do outro pra imitar aqueles viados da internet e rir da cara deles. Ponto final. "Coisa de moleque". "Zoeira pesada". É isso que eles entendem.

— E se o Gabriel não engolir? — Anthony rebateu, sustentando o olhar desafiador de Lucas, os olhos muito escuros faiscando com a raiva acumulada. — Ele tava a dois metros da gente. Ele viu a sua cara. Ele viu que você não tava rindo, seu imbecil.

— O Gabriel é um bosta — Lucas cuspiu as palavras com veneno puro. — O Gabriel mija na cama se eu levantar a voz com ele. Ele não é homem nem pra segurar a bandeira na formatura sem tremer as pernas. Se aquele arrombado abrir a boca torta pra falar qualquer merda, a gente quebra ele. Você e eu. No intervalo, atrás da quadra de vôlei de areia.

Anthony engoliu em seco. A ideia de espancar um colega para encobrir o que sentia causava-lhe uma pontada de repulsa visceral no estômago, mas, ao mesmo tempo, a presença sufocante de Lucas ali, com aquela certeza violenta, dava-lhe uma sensação doentia de segurança. Eles eram dois monstros criados pelo mesmo ambiente de fardas engomadas, marchas militares e ordens aos berros. Se a única língua que a cidade de Sorriso entendia era a da violência, então eles seriam os mais fluentes.

— Tá — Anthony cedeu, ajeitando a gola da farda com movimentos bruscos para tampar a base líquida. — Mas você fica longe de mim durante a aula. Nada de gracinha. Nada de olhar.

Lucas riu, aquele som seco e irritante que fazia o estômago de Anthony dar cambalhotas desconfortáveis.

— Nem se você me pedisse de joelhos, Anthony. Agora mexe esse rabo. O sino vai bater.

O apito estridente do sargento ecoou pelo pátio central, perfurando o ar pesado da manhã. O barulho de centenas de coturnos batendo em uníssono no concreto substituiu o murmúrio dos alunos.

— Pelo pelotão... Cobrir! — gritou a voz metálica do oficial de dia através do megafone.

Anthony e Lucas saíram de trás do ginásio separadamente, com uma distância calculada de dez segundos entre si. Entraram em formação no Pelotão C, correspondente ao nono ano. A disciplina da Tiradentes não perdoava um botão desabotoado ou um olhar de lado. Em poucos segundos, dezenas de garotos e garotas estavam perfilados em filas perfeitas, os braços direitos estendidos à frente para manter a distância exata, os rostos erguidos sob o sol que já começava a queimar a pele da nuca raspada.

Anthony sentia as gotas de suor escorrerem lentamente pelas suas têmporas. A base líquida em seu pescoço começava a coçar de maneira insuportável, misturando-se à poeira que pairava no pátio.

— Sentido! — berrou o sargento.

O baque seco de todos os calcanhares se unindo fez o chão tremer.

Ao lado de Anthony, a apenas duas posições de distância, estava Gabriel. Gabriel era alto, desengonçado e tinha dentes grandes demais para a boca, sempre entreaberta com um sorriso zombeteiro. Anthony sentiu o olhar de Gabriel queimar em sua direção, mas manteve os olhos fixos na nuca do aluno à sua frente, recusando-se a vacilar.

— Descansar! — veio a nova ordem após a execução gravada do hino de Mato Grosso e do hino da escola.

No momento em que o pelotão relaxou os braços para trás das costas, um sussurro venenoso cortou o silêncio entre as fileiras.

— E aí, Anthony... — a voz de Gabriel veio abafada, mas carregada de malícia. — A namoradinha dormiu bem essa noite?

O ar pareceu sumir dos pulmões de Anthony. Ele congelou no lugar, as unhas cravando-se na palma da própria mão atrás das costas. Ele sabia que o monitor da lateral estava virado de costas para eles, prestando atenção em uma aluna do oitavo ano que estava com o gorro torto. A janela de tempo era de meros segundos.

Antes que Anthony pudesse responder, a cabeça de Lucas virou-se bruscamente para o lado.

— O que você falou, seu lixo? — a voz de Lucas não foi um sussurro cauteloso; foi um rosnado áspero, audível o bastante para fazer os quatro garotos ao redor prenderem a respiração.

— Falei nada, não, Lucas — Gabriel deu um risinho nervoso, dando meio passo para trás dentro do alinhamento. — Só perguntei se o namoradinho dele...

Lucas nem sequer esperou o final da frase. Quebrando a formação militar com uma ousadia suicida, ele deu um passo à frente e empurrou o peito de Gabriel com os dois braços. O som do impacto da palma da mão contra o tecido cáqui da farda ecoou como um estalo.

— Fala de novo, seu arrombado! — Lucas rugiu, o rosto colado ao de Gabriel, as veias do pescoço saltadas. — Fala que eu vou enfiar a sua cabeça dentro da privada e puxar a descarga até você engolir a própria bosta!

A confusão quebrou a rigidez da fila. Gabriel cambaleou, os olhos arregalados de susto, a cor fugindo de suas bochechas.

Anthony sentiu a adrenalina disparar em suas veias como querosene puro. O plano. Era a hora de agir ou eles estariam destruídos. Ele não pensou; avançou para o outro lado de Gabriel, encurralando o garoto entre os dois.

— Você tá achando que eu sou viado igual aos merdas da sua laia, Gabriel? — Anthony cuspiu as palavras, seu tom transbordando um escárnio cruel e calculado, o deboche afiado como uma lâmina enferrujada. — Quer que eu te quebre na porrada aqui na frente de todo mundo pra você aprender a não inventar caô de homem? Hein, seu comédia?

Gabriel olhou de um para o outro, acuado pela violência repentina e desproporcional dos dois garotos. O medo agora estava estampado de forma cristalina no rosto do menino mais alto.

— Eu só tava brincando, caralho! — balbuciou Gabriel, levantando as mãos em sinal de rendição, a voz afinando. — Foi zoeira de ontem, pô! Todo mundo sabe que vocês são malucos!

— Zoeira de cu é rola! — Lucas vociferou, apontando um dedo indicador ossudo a centímetros do nariz de Gabriel. — Se você insinuar essa merda de novo, eu vou te pegar na saída da lavoura e você volta pra casa sem os dentes da frente. Tá me ouvindo, seu pedaço de lixo?

— Ei! Que palhaçada é essa aí atrás?! — O grito cortante do Sargento Ramos ecoou do palanque, seguido pelo som pesado de suas passadas rápidas em direção ao Pelotão C. — Silva! Oliveira! Parem já com essa porra!

O silêncio caiu como uma lona preta sobre o pelotão. Lucas e Anthony se afastaram lentamente de Gabriel, sem tirar os olhos do garoto amedrontado por um segundo sequer. Em seus rostos, não havia vestígio de medo do sargento, apenas a máscara impenetrável de dois jovens marginais e homofóbicos, prontos para a guerra civil se alguém ousasse manchar a reputação de sua suposta masculinidade.

— O que tá acontecendo aqui? — Ramos parou em frente ao trio, o rosto moreno e severo coberto de suor sob o quepe militar.

— Nada não, sargento — Lucas respondeu de imediato, a voz firme, quase respeitosa, mas com aquele veneno subterrâneo. — Esse bosta aqui esbarrou na minha perna de sacanagem e tava querendo arrumar graça.

— Não foi nada, sargento — Anthony emendou no mesmo tom, cruzando os braços e mantendo a postura ereta, os olhos escuros vazios de qualquer emoção. — Só tava colocando esse otário no lugar dele pra ele não atrasar a nossa marcha.

Ramos olhou para Gabriel, que estava pálido, com o peito subindo e descendo descompassado.

— É verdade, Gabriel?

O garoto hesitou por uma fração de segundo. Ele olhou para Lucas, que cerrou os dentes em uma promessa muda de destruição pura, e depois para Anthony, cujo sorriso cínico parecia esconder uma crueldade sem limites. Gabriel engoliu em seco.

— Foi... foi sem querer, sargento. Eu perdi o equilíbrio no passo.

Ramos bufou, desconfiado, mas sem vontade de perder tempo investigando rixas de adolescentes no meio da formatura geral sob um sol de trinta e oito graus.

— Os três. Vinte flexões. Agora. E se eu ouvir mais um pio de qualquer um, é parte disciplinar e suspensão de três dias. Ao solo!

Lucas e Anthony foram ao chão de terra batida simultaneamente, os corpos caindo com a precisão mecânica que o colégio militar exigia. Gabriel demorou um segundo a mais, desajeitado.

Enquanto descia e subia os braços contra o chão duro e escaldante, a poeira vermelha grudando no suor de suas palmas, Anthony sentiu o coração desacelerar lentamente. A náusea ainda estava lá, revirando seu interior pela podridão do que acabara de fazer — pelas palavras que usara, pela humilhação desnecessária imposta a um colega para salvar a própria pele. Mas havia também um alívio sombrio, quase viciante.

Eles tinham vencido. A mentira estava selada com gritos, ameaças e testosterona falsa. Ninguém mais no Tiradentes ousaria abrir a boca sobre o que acontecera no pátio. Eles eram os carrascos agora; e ninguém zomba dos carrascos.

Na vigésima flexão, Anthony empurrou o corpo para cima e se colocou de pé, batendo a poeira das calças cáqui.

A dois passos dele, Lucas também se levantava. O suor brilhava em sua testa e escorria pelo queixo raspado. Ele virou o rosto na direção de Anthony e, sob a sombra da aba de seu gorro, lançou um meio sorriso zombeteiro, cúmplice e perverso. Os olhos escuros de Lucas pareciam dizer: *Eu avisei.*

Anthony desviou o olhar para o céu escaldante de Sorriso, respirando o ar quente e seco que cheirava a terra e diesel. Ele odiava Lucas com todas as forças que um garoto de treze anos podia reunir em seu peito ferido. Mas, enquanto marchava de volta para a sala de aula sob os olhares temerosos dos outros alunos, ele sabia que aquele ódio era a única coisa que os mantinha vivos — e perigosamente, irremediavelmente juntos.

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