Estrelas
O Eco do Silêncio e o Rugido das Redes
A manhã em Vancouver nasceu fria, com uma névoa densa abraçando os arranha-céus, mas dentro da cobertura de Kuro, o clima ainda era de um calor absoluto. O sol começou a se infiltrar pelas frestas das cortinas blackout, iluminando os fios brancos e bagunçados de Kuro, que dormia com a expressão mais serena do mundo. Tatsuyo, no entanto, já estava acordada há algum tempo. Ela estava sentada na beirada da cama, envolta em um dos moletons gigantes de Kuro que cheirava a amaciante e ao perfume amadeirado dele.
Seu celular, que ela havia silenciado na noite anterior, parecia uma pequena bomba relógio sobre a mesa de cabeceira. Ela hesitou, os dedos roçando a tela. Quando finalmente o ligou, o aparelho quase travou. Eram milhares de notificações. Menções no Twitter, marcações no Instagram, mensagens de sua gravadora e, claro, o grupo da banda que estava em polvorosa.
— Bom dia, pequena... — a voz de Kuro surgiu, rouca e arrastada pelo sono. Ele se espreguiçou, os músculos das costas se contraindo sob a pele clara, e envolveu a cintura de Tatsuyo com um braço forte, puxando-a de volta para os lençóis. — Por que você já está com essa cara de quem viu um fantasma?
— O fantasma da internet, Kuro — ela murmurou, deixando-se ser puxada para o abraço dele. — Eu sabia que seria grande, mas... "Kuro e Tatsuyo" está nos assuntos mais comentados do país. Tem gente fazendo edit da nossa foto com as minhas músicas de fundo.
Kuro soltou uma risada vibrante, o peito vibrando contra as costas dela. Ele pegou o próprio celular, dando uma olhada rápida sem parecer nem um pouco abalado.
— Olha só essa — ele disse, apontando para um comentário. — "O prodígio do gelo finalmente foi domado por uma guitarra". Eu gostei dessa. E olha essa outra: "Eles são o conceito estético perfeito". As pessoas têm bom gosto, Tatsy.
— Você não entende, Kuro — ela se virou para encará-lo, os olhos pretos expressando uma ansiedade genuína. — Tem fotógrafos na frente do prédio da gravadora. Minha empresária já mandou três e-mails perguntando se queremos dar uma entrevista exclusiva. Eu não sei se consigo lidar com as pessoas me analisando assim. Eles estão dissecando minhas letras para ver se encontram pistas sobre você.
Kuro deixou o celular de lado e segurou o rosto dela com as duas mãos. O polegar dele acariciou a pele parda de sua bochecha com uma ternura que desarmava qualquer defesa.
— Ei, olha para mim. Eu sei que você é tímida. Eu sei que o palco é o seu único lugar de exposição por escolha. Mas você não está sozinha nessa. Se os repórteres forem chatos, eu dou um "body check" neles. Se as fãs forem intensas demais, eu te protejo.
Ele deu um beijo rápido na ponta do nariz dela.
— Além disso, você viu os comentários dos meus fãs? Eles estão obcecados por você. Estão dizendo que agora têm um motivo para ouvir rock de verdade. Você está expandindo o meu público e eu o seu. Somos um time agora, lembra?
Tatsuyo sorriu minimamente, sentindo o coração desacelerar. Kuro tinha esse dom. Ele era o caos em pessoa, barulhento e convencido, mas era também o seu porto seguro.
— O que vamos fazer hoje? — perguntou ela. — Eu tenho ensaio às duas.
— Eu tenho treino no rinque às onze — ele respondeu, consultando o relógio de parede. — E eu vou te levar. No meu carro. Pela porta da frente. Sem boné, sem óculos escuros, sem nos escondermos no banco de trás.
— Kuro... — ela começou a protestar.
— Nada de "Kuro". Já postamos a foto, Tatsy. O segredo acabou. Agora vamos viver como um casal normal. Ou o mais próximo de normal que um jogador de hóquei de 21 anos e uma rockstar de 20 conseguem ser.
O trajeto até o estúdio de ensaio foi, como Tatsuyo previu, um evento. O Mustang preto de Kuro não era exatamente discreto, e assim que estacionaram, alguns paparazzi que faziam plantão ali começaram a disparar os flashes. Tatsuyo sentiu os dedos gelarem, mas antes que pudesse se encolher, a mão grande e quente de Kuro envolveu a sua.
— Respira — sussurrou ele. — Só foca em mim.
Eles saíram do carro. Kuro, com sua jaqueta do time e o sorriso de quem era dono do mundo, não soltou a mão dela por um segundo. Ele caminhou com calma, ignorando as perguntas gritadas sobre "há quanto tempo estão juntos" ou "quem pediu quem em namoro". Quando chegaram à porta de vidro, ele parou, puxou-a para perto e deu um beijo demorado em sua testa, garantindo que todas as câmeras pegassem o momento.
— Te busco às seis? — perguntou ele.
— Se eu não morrer de vergonha antes, sim — ela brincou, sentindo o rosto arder.
— Você está linda quando está corada. Até depois, estrela.
Tatsuyo entrou no estúdio e foi imediatamente cercada pelos membros da sua banda. Sarah, a baixista, estava com o baixo pendurado no ombro e um sorriso malicioso no rosto.
— Olha só quem resolveu assumir o "Tanquinho de Ouro" de Vancouver! — exclamou Sarah, batendo palmas. — Menina, o seu Instagram ganhou duzentos mil seguidores em doze horas. Como é a sensação de ser a mulher mais invejada do Canadá?
— É a sensação de querer enfiar a cabeça em um buraco — Tatsuyo respondeu, caminhando até o suporte onde sua guitarra estava. — Podemos focar na música, por favor? Temos aquela ponte da terceira faixa para acertar.
— Ah, não! — Kenji, o baterista, interveio, girando as baquetas. — Primeiro você vai nos contar se aquela legenda dele foi ideia sua ou se ele realmente tem aquele lado meloso. "Minha melhor pontuação"? Sério, Tatsy? O cara é um atacante nato até na hora de legendar foto.
Tatsuyo revirou os olhos, mas não conseguiu esconder o sorriso.
— Ele é... ele é um bobo. Mas é sincero. Agora, por favor, posição de ensaio.
Enquanto isso, no Rogers Arena, o clima não era muito diferente. Kuro entrou no vestiário e foi recebido com assobios e batidas de tacos de hóquei contra o chão.
— Ora, ora, se não é o nosso Romeu do gelo! — gritou o capitão do time, um homem de trinta anos que via Kuro como um irmão mais novo talentoso e problemático. — Pensei que você só ficasse com modelos de passarela, Hatake. Mas uma vocalista de rock? Isso é subir de nível.
Kuro começou a se trocar, exibindo o abdômen definido que tanto fazia sucesso nas redes sociais. Ele deu de ombros, mas seus olhos brilhavam.
— Ela é melhor do que qualquer modelo, capitão. Ela escreve as próprias músicas, tem uma voz que faz você arrepiar e é a pessoa mais inteligente que eu já conheci.
— Ele está apaixonado — disse o goleiro, rindo. — Olhem para ele, está todo bobo. O garoto mais marrento da liga virou um gatinho manso.
— Manso nada — rebateu Kuro, calçando os patins com agilidade. — Eu estou inspirado. Se vocês achavam que eu jogava bem antes, esperem para ver hoje. Eu tenho uma plateia especial para impressionar agora.
O treino foi intenso. Kuro parecia voar sobre o gelo. Sua velocidade era absurda e sua precisão nos disparos estava impecável. Toda vez que ele marcava um gol, ele pensava em Tatsuyo, no jeito que ela mordia o lábio quando estava concentrada escrevendo ou na forma como ela se aninhava no peito dele à noite. Ele queria ser o melhor para ela. Queria que, quando ela olhasse para ele da arquibancada, sentisse orgulho de ter aquele "bruto do esporte" ao seu lado.
Ao final do dia, como prometido, Kuro estava na frente do estúdio. Mas, desta vez, ele não estava sozinho no carro. Ele tinha passado em uma floricultura e comprado um buquê imenso de tulipas negras e roxas — as favoritas dela, que combinavam com sua aura de rock n' roll.
Quando Tatsuyo saiu, parecendo exausta, mas com os olhos brilhando pelo ensaio produtivo, ela o viu encostado no carro. O contraste de Kuro — um atleta musculoso de cabelos brancos e pele clara, segurando flores delicadas — era algo que ela nunca se cansaria de ver.
— Para a melhor compositora de Vancouver — disse ele, entregando as flores enquanto ela se aproximava.
— Você é um exagerado — ela riu, escondendo o rosto nas flores para evitar os flashes que ainda persistiam, embora em menor número.
— Sou um homem de gestos grandiosos — ele abriu a porta para ela. — E então, como foi o ensaio? Seus amigos me odiaram muito por roubar a atenção da vocalista deles?
— Eles te amam, Kuro. Sarah já está planejando como usar sua fama para conseguirmos um show em um estádio maior — ela disse, entrando no carro. — E eu... eu acho que estou começando a me acostumar.
Kuro entrou no lado do motorista e ligou o motor, mas antes de dar a partida, ele se inclinou e segurou a mão dela.
— Eu sei que é assustador, Tatsy. Eu sei que você gosta do seu silêncio e da sua privacidade. Mas eu prometo que, por trás de toda essa barulheira da mídia, eu sempre vou ser o cara que só quer ouvir você tocar violão na minha sala enquanto a gente divide uma pizza fria.
Tatsuyo olhou para ele, sentindo uma onda de gratidão. Ela era parda, descendente de japoneses, uma mulher que encontrava sua força na introspecção e na arte. Ele era o oposto, o brilho, a força física, o barulho da torcida. E, no entanto, entre o gelo dele e o rock dela, havia uma harmonia perfeita.
— Eu sei que vai — ela respondeu, inclinando-se para beijá-lo. — Agora tira a gente daqui antes que eu mude de ideia e peça para você usar um disfarce de novo.
Kuro riu, acelerando o Mustang pelas ruas de Vancouver. O primeiro mês de namoro tinha sido um segredo doce, mas o segundo mês, agora sob os olhos do mundo, prometia ser uma aventura eletrizante. Ele era o rei do gelo, ela era a rainha do rock, e juntos, eles estavam prestes a escrever a música mais barulhenta e apaixonada que aquela cidade já tinha ouvido.
Ao chegarem na cobertura, a rotina de "famosos" ficou do lado de fora. Kuro preparou algo rápido para comerem, enquanto Tatsuyo se sentava ao piano que ele insistira em comprar para ela, mesmo que ela mal o usasse ainda. Ela começou a dedilhar uma melodia suave, algo que não era rock, algo que era apenas... eles.
Kuro parou na porta da sala, observando-a. Ele se sentia o homem mais sortudo do mundo. Não pelos troféus, não pelo dinheiro, mas por ter aquela garota tímida e talentosa compartilhando a vida com ele.
— Sabe o que as pessoas estão perguntando na internet? — ele perguntou, caminhando até ela e abraçando-a por trás enquanto ela ainda tocava.
— O quê?
— Estão perguntando quando vai ser o nosso primeiro evento oficial juntos. Tem um baile de caridade do time na próxima semana. Black tie. Tapete vermelho. Tudo o que você mais odeia.
Tatsuyo parou de tocar e suspirou, encostando a cabeça no peito dele.
— Se eu for... você promete que não vai me deixar sozinha nem por um minuto?
— Nem por um segundo — ele beijou o topo da cabeça dela. — Eu vou estar lá, segurando sua mão, pronto para te tirar de lá no momento em que você me der o sinal.
— Então eu vou — ela decidiu, virando-se nos braços dele. — Mas você vai ter que usar uma gravata borboleta roxa para combinar com as minhas flores.
Kuro fez uma careta de brincadeira, mas seus olhos brilhavam de satisfação.
— Por você, Tatsy, eu usaria até um uniforme de patinação artística rosa choque.
Ela riu, o som mais bonito que ele já tinha ouvido, superando qualquer ovação de estádio lotado. O mundo podia olhar, comentar e julgar o quanto quisesse. Ali, na segurança daquela cobertura, entre o gelo e o rock, eles eram apenas Kuro e Tatsuyo. E isso era mais do que suficiente.