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Estrelas

Vermelho Vivo sob os Holofotes

O camarim do programa *The Tonight Show* com Jimmy Fallon estava um caos controlado. O aroma de spray de cabelo e café forte preenchia o ar, enquanto assistentes corriam com araras de roupas e pranchetas. Tatsuyo Nakamura encarava seu reflexo no espelho cercado por lâmpadas de LED, sentindo o coração martelar contra as costelas.

Ela estava deslumbrante. Para aquela noite, a banda decidiu abandonar o visual sombrio habitual e abraçar o conceito "Vermelho Vivo". Tatsuyo vestia um espartilho de couro vermelho sangue que acentuava sua cintura fina, combinado com uma calça de alfaiataria da mesma cor e botas de plataforma pesadas. Seus cabelos pretos e ondulados caíam como uma cascata de seda pelas costas pardas, e a maquiagem destacava seus olhos pretos com um delineado gatinho afiado o suficiente para cortar vidro.

— Você vai furar o chão de tanto tremer, Tatsy — brincou Sarah, a baixista, que estava igualmente impactante em um vestido de veludo vermelho fenda lateral. — Respira. É só o Jimmy. Ele é legal.

— O problema não é o Jimmy — Tatsuyo murmurou, ajustando o anel de prata no dedo. — É o fato de que metade do Canadá e agora boa parte dos Estados Unidos está sintonizada para ver se eu vou confirmar as fofocas ou desmaiar ao vivo.

Seu celular vibrou sobre a bancada de mármore. Uma mensagem de Kuro.

*“Vi as fotos dos bastidores que a Sarah postou. Você está tão gostosa nesse vermelho que eu quase peguei um voo para Nova York agora mesmo. Quebra tudo lá, minha estrela. Estarei assistindo cada segundo do vestiário. Te amo.”*

Tatsuyo sorriu, sentindo uma onda de calor que não tinha nada a ver com o clima do estúdio. Kuro tinha um jogo naquela noite em Vancouver, mas ele prometera que daria um jeito de assistir à entrevista antes de entrar no gelo.

— Cinco minutos, pessoal! — gritou um produtor na porta.

Kenji e o guitarrista, Leo, deram um soco de leve no ombro de Tatsuyo. Eles estavam prontos. A banda, batizada de *Obsidian Echo*, estava vivendo o auge. Eles eram o fenômeno do rock canadense, quebrando barreiras em um gênero que, por décadas, foi dominado por vozes masculinas e guturais.

Quando as cortinas se abriram e a música da banda da casa começou a tocar, o rugido da plateia foi ensurdecedor. Jimmy Fallon surgiu com seu sorriso habitual, anunciando-os com entusiasmo.

— Senhoras e senhores, eles estão dominando as paradas, trazendo o rock de volta ao topo com uma força feminina inigualável! Recebam... Obsidian Echo!

Eles entraram sob luzes estroboscópicas. Tatsuyo caminhou com uma elegância tímida, mas firme, sentando-se no sofá ao lado de Jimmy, enquanto o resto da banda se acomodava nas poltronas extras.

— Tatsuyo! É um prazer ter vocês aqui — disse Jimmy, apertando a mão dela. — Uau, vocês vieram para incendiar o palco hoje, literalmente. Esse vermelho é incrível!

— Obrigada, Jimmy — Tatsuyo respondeu, sua voz suave contrastando com a imagem poderosa. — Queríamos algo que representasse a energia do nosso novo álbum.

— E que energia! — Jimmy pegou o disco da banda. — Vocês são a banda que mais cresce no Canadá e agora estão explodindo aqui nos Estados Unidos. É raro ver uma banda de rock puro, sem ser pop-rock, alcançar esses números hoje em dia. E ainda mais com uma vocalista feminina. Como é quebrar esse estereótipo de que "mulher não sabe fazer rock pesado"?

Tatsuyo respirou fundo, sentindo-se mais confortável ao falar de música.

— É um desafio constante — explicou ela. — Existe essa ideia arcaica de que o rock precisa de uma voz masculina rouca para ser legítimo. Mas o rock é sobre sentimento, sobre expurgar o que está dentro de você. E eu tenho muito o que colocar para fora. Minhas letras são viscerais porque minha experiência é real. Ser mulher no rock não é um detalhe estético, é um ato de resistência.

— E que resistência maravilhosa — Jimmy aplaudiu, e a plateia acompanhou. — Mas não é só a música de vocês que está dando o que falar.

O apresentador inclinou-se para frente com um olhar travesso, e Tatsuyo soube que o momento "perigoso" havia chegado. Uma foto gigante apareceu no telão atrás deles: a imagem de Kuro e Tatsuyo se beijando, postada no Instagram há poucos dias.

— Temos aqui um certo jogador de hóquei, o prodígio de Vancouver, Kuro Hatake — Jimmy sorriu enquanto o público gritava. — Tatsuyo, a internet quebrou. O "Golden Boy" e a "Rainha do Rock"? Como isso aconteceu?

Tatsuyo sentiu o rosto esquentar, a pele parda ganhando um tom rosado sob as luzes do estúdio.

— Bem... — ela começou, hesitante — nós nos conhecemos em um evento beneficente em Vancouver. Eu achei que ele seria apenas mais um atleta convencido e ele achou que eu seria uma rockstar inacessível.

— E quem deu o primeiro passo? — perguntou Jimmy, curioso.

— Ele, com certeza — Sarah interrompeu, rindo. — O Kuro é persistente. Ele apareceu em três ensaios nossos com comida japonesa e ingressos para os jogos antes que a Tatsy aceitasse tomar um café com ele.

— Ele é... totalmente bobo por ela — completou Kenji, o baterista. — Às vezes é até difícil ensaiar porque ele fica mandando vídeos de jogadas dele esperando que ela elogie.

A plateia riu, e Tatsuyo escondeu o rosto nas mãos por um segundo, rindo também.

— Ele é muito carinhoso — admitiu ela, finalmente encontrando a voz. — Estamos juntos oficialmente há um mês. Decidimos manter em segredo no começo porque eu sou uma pessoa muito tímida, como você pode ver, e o mundo do hóquei é muito intenso. Eu não sabia se estava pronta para ter tantos olhos sobre mim.

— Mas agora o mundo sabe — disse Jimmy. — E parece que as fãs dele amaram você. Estão chamando vocês de "Casal de Gelo e Fogo". Como o Kuro lida com as suas letras? Porque elas são bem intensas, algumas falam de ex-namorados ou de dores profundas.

— Ele entende que é arte — Tatsuyo explicou, séria. — Kuro é mais profundo do que as pessoas pensam. Ele lê todas as minhas letras antes de serem gravadas. Ele é meu maior fã, e eu sou a dele. É engraçado, porque o hóquei é um esporte bruto, e o rock também tem essa pegada, então nos entendemos nesse caos.

— Bom, agora que as fofocas foram esclarecidas — Jimmy mudou de assunto, voltando-se para o resto da banda —, vamos falar de turnê. Vocês estão indo para a Europa, certo?

A conversa fluiu para a carreira deles, discutindo como era ser uma banda independente que alcançou o sucesso mundial através de letras profundas e composições complexas de Tatsuyo. Ela falou sobre sua herança japonesa e como isso influenciava sua disciplina na escrita.

— Muitas pessoas acham que, por ser rock, é só barulho — disse Tatsuyo —, mas cada nota tem um propósito. Eu escrevo sobre a solidão, sobre ser diferente, sobre encontrar sua voz em um mundo que tenta te calar.

— E você encontrou a sua, com certeza — elogiou Jimmy. — Agora, chega de conversa. Vocês vieram aqui para mostrar por que são os melhores. Obsidian Echo, no palco principal!

A banda se posicionou. As luzes ficaram vermelhas e baixas. Tatsuyo segurou o microfone com as duas mãos, fechando os olhos por um breve momento para se concentrar. Quando Kenji deu a primeira batida na bateria, a timidez dela desapareceu instantaneamente.

Ela se transformou. A garota que corava ao falar do namorado deu lugar à vocalista poderosa. Sua voz ecoou pelo estúdio, alcançando notas altas e carregadas de distorção emocional. Ela se movia pelo palco com uma confiança magnética, o espartilho vermelho brilhando sob os refletores.

Ao final da performance, a plateia estava de pé. Jimmy Fallon voltou ao palco, parecendo genuinamente impressionado.

— Meu Deus! Isso foi incrível! Tatsuyo Nakamura, senhoras e senhores! Obsidian Echo!

Após as despedidas e os agradecimentos, a banda voltou para o camarim, exausta mas eufórica. Tatsuyo desabou na poltrona, sentindo a adrenalina começar a baixar. Ela pegou o celular e viu que havia uma nova notificação de vídeo.

Era Kuro. No vídeo, ele estava no vestiário, já com parte do equipamento de hóquei, cercado pelos colegas de time que gritavam ao fundo.

— Você foi perfeita, Tatsy! — Kuro dizia na gravação, com aquele sorriso largo e os olhos castanhos brilhando. — Eu vi você falando de mim, eu quase chorei aqui, não conta para ninguém! E aquela última nota? Eu juro que o gelo aqui do rinque rachou. Você é a mulher da minha vida. Agora eu vou entrar lá e marcar dois gols para você. Te amo, minha rainha vermelha!

Tatsuyo sorriu, sentindo as lágrimas arderem nos olhos.

— Ele é um idiota — Sarah disse, olhando por cima do ombro de Tatsuyo. — Um idiota musculoso, rico e completamente apaixonado por você.

— É — Tatsuyo suspirou, guardando o celular. — E eu sou completamente louca por ele.

— Bem, prepare-se — disse Leo, o guitarrista —, porque depois dessa entrevista, o mundo não vai mais nos deixar em paz. Você viu o que o Jimmy disse? "Rainha do Rock". O estereótipo de que mulher não faz rock pesado caiu por terra hoje à noite, Tatsy. E foi você quem derrubou.

Tatsuyo olhou para suas mãos, as mesmas mãos que escreviam poesias tristes e que agora seguravam o coração do jogador mais cobiçado de Vancouver. Ela ainda era tímida, ainda tinha medo da multidão, mas enquanto tivesse sua música e o apoio incondicional de Kuro, ela sentia que poderia enfrentar qualquer holofote.

— Vamos para casa — disse ela, levantando-se com renovada energia. — Eu tenho um jogo para assistir e um namorado para parabenizar.

Naquela noite, Vancouver e o mundo da música testemunharam o nascimento de uma nova era. Onde o gelo encontrava o fogo, e onde uma garota de 1,63m, descendente de japoneses e com uma alma carregada de rock, provou que o volume do seu talento era alto o suficiente para silenciar qualquer preconceito. E Kuro Hatake, do outro lado do continente, patinava com mais força do que nunca, sabendo que sua maior vitória não estava no placar, mas sim na mulher que brilhava em vermelho vivo em todos os televisores do país.