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Estrelas

O Som do Ápice e o Eco da Realeza

A cobertura de Kuro em Vancouver estava mergulhada em uma paz rara. Era um fim de tarde preguiçoso, e a luz alaranjada do pôr do sol pintava as paredes de vidro, refletindo-se nas medalhas de Kuro dispostas em uma estante e nos discos de vinil de Tatsuyo espalhados pela mesa de centro. Kuro, vestindo apenas uma bermuda de treino que deixava seu abdômen trincado e as tatuagens leves nos braços em evidência, estava deitado no tapete felpudo da sala, usando as pernas de Tatsuyo como travesseiro.

Tatsuyo estava sentada no sofá, com um caderno de composições no colo, os cabelos pretos ondulados presos em um coque frouxo. Ela passava a ponta da caneta nos lábios, concentrada em uma métrica difícil, enquanto Kuro brincava com um dos anéis de prata nos dedos dela, ocasionalmente beijando a palma de sua mão parda.

— Você está muito silenciosa, Tatsy — murmurou Kuro, a voz vibrando com aquele tom brincalhão e levemente rouco. — Isso geralmente significa que você está prestes a escrever algo que vai me fazer chorar ou que vai fazer o mundo inteiro querer bater cabeça.

Tatsuyo sorriu, desviando o olhar do caderno para os olhos castanhos e profundos do namorado.

— É apenas uma ideia, Kuro. Algo sobre como o silêncio da cidade parece diferente agora que... bem, agora que todo mundo sabe sobre nós.

Kuro se espreguiçou, a musculatura do peito se expandindo de forma impressionante.

— O mundo saber é a melhor parte. Posso finalmente postar stories de você roncando sem ter que apagar cinco segundos depois.

— Eu não ronco! — ela protestou, dando um tapinha leve no ombro dele, o que só o fez rir mais alto.

O momento de leveza foi interrompido pelo som agudo de uma notificação. O celular de Tatsuyo, que estava jogado em cima de uma almofada, vibrou insistentemente. Ela suspirou, esticando o braço para pegá-lo.

— Deve ser a Sarah querendo saber se vamos ensaiar no domingo — disse ela, desbloqueando a tela.

Kuro continuou observando-a, esperando a reclamação rotineira sobre o cronograma da banda. Mas a reclamação não veio. O que veio foi um silêncio absoluto, denso e gélido que pareceu sugar todo o oxigênio da sala.

Tatsuyo arregalou os olhos pretos. Suas mãos começaram a tremer de forma visível, e a cor pareceu fugir de seu rosto pardo, deixando-a pálida. O celular escorregou de seus dedos, caindo sobre o tapete com um baque surdo. Ela ficou imóvel, a boca entreaberta, mas nenhum som saía de sua garganta.

Kuro sentou-se num solavanco, a expressão de diversão sendo substituída por uma preocupação imediata. Ele segurou os ombros dela, sentindo-a tremer.

— Tatsy? Ei, o que foi? Você está passando mal? Tatsuyo, fala comigo! — Ele a sacudiu levemente, mas ela parecia estar em estado de choque, os olhos fixos em um ponto invisível na parede.

Sem obter resposta, Kuro pegou o celular no chão. Ele leu rapidamente a mensagem na tela, enviada pelo empresário da *Obsidian Echo*. Seus olhos percorreram as linhas duas, três vezes, até que ele próprio soltou um palavrão de puro espanto.

— Meu Deus... Tatsy, você leu isso direito? — Kuro perguntou, a voz subindo uma oitava. — Diz aqui que a equipe da Beyoncé... a *Beyoncé*... entrou em contato.

Tatsuyo finalmente conseguiu piscar, as lágrimas começando a inundar seus olhos.

— Toronto — ela sussurrou, a voz falhando. — O show da turnê em Toronto.

Kuro leu o restante em voz alta, a empolgação explodindo em seu peito:

— "Eles querem que a *Obsidian Echo* faça a abertura e o encerramento do show. A Queen B quer rock, e ela quer vocês." — Kuro largou o celular e envolveu Tatsuyo em um abraço de urso, levantando-a do sofá e girando-a no ar como se tivesse acabado de ganhar a Stanley Cup. — Tatsy! Isso é insano! É a Beyoncé! Você vai dividir o palco com a maior artista do planeta!

Tatsuyo finalmente soltou um grito, um som que misturava pavor, alegria e descrença absoluta. Ela escondeu o rosto no pescoço de Kuro, soluçando e rindo ao mesmo tempo.

— Eu vou desmaiar, Kuro. Eu vou tropeçar nos fios. É a Beyoncé! O que uma banda de rock como a nossa vai fazer lá?

— O que vocês fazem de melhor! — Kuro a colocou no chão, segurando o rosto dela com as mãos grandes, os polegares limpando as lágrimas que escorriam. — Vocês são a banda mais autêntica que existe. Ela viu isso. Ela sentiu a sua letra, a sua voz. Minha namorada vai abrir o show da realeza! Eu sou o cara mais sortudo da terra por estar ao seu lado.

— Eu preciso... eu preciso falar com eles — disse Tatsuyo, recuperando o celular com as mãos ainda instáveis. — Eles já devem saber. Meu Deus, meu coração vai sair pela boca.

Kuro a ajudou a se sentar novamente, sentando-se ao lado dela e passando o braço por seus ombros para dar suporte. Tatsuyo iniciou uma chamada de vídeo em grupo. Não demorou nem dois segundos para que as faces de Sarah, Kenji e Leo preenchessem a tela.

O caos sonoro foi imediato.

— A GENTE VAI ABRIR PARA A BEYONCÉ! — gritou Sarah, que parecia estar no meio de uma rua, pulando e agitando os braços enquanto as pessoas passavam e a olhavam como se fosse louca.

— Eu vou ter um ataque cardíaco! — Kenji estava em seu estúdio caseiro, batendo as baquetas na mesa com tanta força que uma delas voou para longe. — Alguém me diz que isso não é um trote da gravadora!

— Não é trote! — Leo gritou, a voz sumindo de tanto entusiasmo. — O contrato preliminar já está no e-mail. Toronto vai virar cinzas depois que a gente tocar! Tatsuyo, você está viva?

Tatsuyo riu, as lágrimas voltando a cair enquanto via seus melhores amigos naquele estado.

— Eu estou tentando não morrer! — respondeu ela para a câmera. — Gente, a gente escreveu aquelas músicas na garagem do Kenji comendo pizza barata. Como chegamos aqui?

— Chegamos porque você é um gênio, Nakamura! — disse Sarah, apontando para a tela. — E agora a Queen B sabe disso. Preparem os pulmões, porque a gente vai fazer o show das nossas vidas.

Kuro enfiou o rosto na frente da câmera, exibindo aquele sorriso convencido e orgulhoso.

— Ei, pessoal! Preparem um passe VIP para o namorado aqui, porque eu vou estar na primeira fila gritando como uma fã histérica!

— Você já é uma fã histérica, Hatake! — brincou Kenji, e todos riram, o som da amizade e da vitória ecoando pelos alto-falantes.

Eles passaram os próximos trinta minutos surtando juntos, discutindo o que iriam tocar, como seria o figurino e o medo absurdo de conhecer a diva pessoalmente. Quando a ligação finalmente terminou, um silêncio confortável, porém carregado de eletricidade, voltou à cobertura.

Tatsuyo encostou a cabeça no ombro de Kuro, sentindo o batimento cardíaco dele, que estava tão acelerado quanto o dela.

— Sabe o que isso significa, não é? — perguntou Kuro, a voz mais suave.

— Que minha vida vai mudar para sempre? — ela arriscou.

— Significa que aquela sua timidez vai ter que enfrentar cinquenta mil pessoas de uma vez só — ele disse, beijando a têmpora dela. — Mas também significa que ninguém mais vai poder questionar quem você é. Você não é mais "a namorada do jogador de hóquei". Você é a artista que a Beyoncé escolheu.

Tatsuyo sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A pressão era imensa, assustadora até a medula, mas o orgulho nos olhos de Kuro a fazia sentir que poderia escalar o Everest se ele estivesse segurando a corda.

— Eu estou com medo, Kuro — admitiu ela, a voz pequena. — E se eu não for boa o suficiente? O público dela é diferente do nosso.

Kuro virou-se para ela, a expressão ficando séria e intensamente apaixonada. Ele a puxou para o seu colo, fazendo-a horcajadas sobre suas pernas musculosas.

— Escuta aqui, Tatsuyo Nakamura. Eu vejo você ensaiar até seus dedos sangrarem. Eu vejo você reescrever uma única estrofe vinte vezes porque a "alma" da música ainda não está lá. Você é a pessoa mais dedicada e talentosa que eu já conheci. O público dela vai te amar porque é impossível não te amar quando você abre a boca para cantar.

Ele deslizou as mãos pela cintura dela, apertando levemente, o contato físico trazendo-a de volta para a terra.

— E se você ficar nervosa — continuou ele, o tom descendo para um sussurro provocador —, apenas procure por mim. Eu vou estar lá, provavelmente usando uma camiseta com a sua cara, sendo o cara mais barulhento da arena.

Tatsuyo riu, o som mais cristalino e feliz que Kuro já ouvira. Ela enlaçou o pescoço dele, sentindo os fios brancos e repicados entre seus dedos.

— Uma camiseta com a minha cara? Isso seria péssimo para a sua reputação de "bad boy" do hóquei, Hatake.

— Minha reputação que se dane — ele rebateu, antes de selar os lábios nos dela em um beijo que transbordava celebração.

O beijo começou doce, uma partilha de alívio e alegria, mas logo se tornou mais profundo. Kuro, com sua energia inesgotável de atleta, a segurava com uma possessividade carinhosa, enquanto as mãos de Tatsuyo exploravam os músculos das costas dele. A adrenalina da notícia estava se transformando em algo mais íntimo, um desejo de comemorar aquela vitória da forma mais privada possível.

— Kuro... — ela murmurou entre os beijos — a gente devia... devia pedir comida. Para comemorar.

— Comida pode esperar — ele disse, a voz carregada de segundas intenções enquanto a levantava sem esforço e começava a caminhar em direção ao quarto. — Eu tenho uma forma muito melhor de celebrar o seu sucesso.

Tatsuyo escondeu o rosto no ombro dele, sentindo-se a mulher mais sortuda do mundo. Há um mês, ela tinha medo de assumir o namoro. Hoje, ela estava prestes a abrir o show para a Beyoncé e tinha o homem que amava ao seu lado, apoiando cada um de seus passos trêmulos.

Enquanto as luzes de Vancouver brilhavam do lado de fora, alheias à revolução que acabara de acontecer na vida daquela vocalista tímida, dentro da cobertura, o som do rock e do hóquei se fundiam em uma harmonia perfeita. O futuro era incerto e barulhento, mas, pela primeira vez, Tatsuyo não queria se esconder. Ela queria brilhar, tão intensamente quanto as lâminas de Kuro no gelo e tão profundamente quanto as notas de sua guitarra no palco de Toronto.

A *Obsidian Echo* estava prestes a fazer história, e Kuro Hatake estaria lá para assistir a cada nota, a cada grito e a cada momento em que sua estrela do rock provaria ao mundo que a realeza não é apenas sobre coroas, mas sobre a coragem de ser quem você nasceu para ser.