eu com voce
Entre Taças de Cristal e o Teu Abraço
O crepúsculo cobria o horizonte de Nova York com tons de cobre e ametista quando a limusine blindada deslizou silenciosamente pelos portões de ferro forjado da imensa propriedade dos Piastri. Após a tarde atribulada no tribunal federal, a mansão oferecia o silêncio e a privacidade que o casal tanto prezava. No entanto, a noite ainda reservava um compromisso incontornável: o baile de gala beneficente anual da Associação dos Magistrados, um dos eventos mais exclusivos e vigiados da alta sociedade nov-iorquina.
No colossal closet da suíte principal, Lily terminava de abotoar os pequenos botões forrados de um vestido espetacular de seda pura em tom esmeralda profundo. O tecido abraçava sua silhueta delicada com perfeição, descendo em pregas fluidas até o chão e deixando seus ombros e colo à mostra de forma graciosa e sutil. Ela se olhava no espelho de corpo inteiro com uma ponta de timidez; não importava quantos eventos de gala frequentasse ao lado do marido, a confeiteira de alma simples ainda se maravilhava com aquele mundo de conto de fadas em que o amor por Oscar a havia colocado.
Seus cabelos castanhos estavam penteados em um arranjo clássico, com mechas onduladas emoldurando seu rosto delicado e realçando seus grandes olhos claros.
Pelo reflexo do cristal bisotado, Lily viu a porta do cômodo se abrir.
Oscar entrou. Ele já vestia o smoking preto sob medida, confeccionado pelos alfaiates mais renomados de Savile Row. A peça assentava com uma precisão cirúrgica em seus ombros largos e porte atlético. A camisa de linho branco impecável contrastava com a gravata-borboleta perfeitamente ajustada. Ele era uma visão estarrecedora: o cabelo castanho claro alinhado para trás, o maxilar firme, as maçãs do rosto esculpidas e aqueles olhos azuis-esverdeados que carregavam o poder de ditar o destino de homens poderosos.
Mas, ao pousar os olhos em Lily, o juiz impenetrável simplesmente perdeu o ar.
Oscar parou a poucos passos de distância. Os passos firmes cessaram, e sua expressão habitual de severidade dissolveu-se em pura e descarada adoração. Ele engoliu em seco, deslizando o olhar lento e meticuloso da bainha do vestido esmeralda até os lábios rosados da esposa.
— Oscar? — chamou ela baixinho, um sorriso tímido desabrochando em seus lábios enquanto as maçãs do rosto ganhavam um suave tom avermelhado. — Está tudo bem? Ficou exagerado?
Oscar deu os passos que faltavam até ela, como se estivesse sob um feitiço irresistível. Suas mãos grandes e firmes pousaram nos ombros desnudos de Lily, transmitindo um calor imediato que fez a jovem arrepiar-se da cabeça aos pés.
— Você está inacreditável — murmurou ele, com a voz grave e rouca, vibrando direto no fundo da alma dela. — Tão bonita que chega a ser um pecado tirar você desta casa hoje.
Lily riu, um som melodioso e cristalino que sempre desarmava as tensões do magistrado.
— Você diz isso para todos os meus vestidos.
— Porque em todos eles você é a criatura mais linda que já pisou nesta terra — afirmou ele, sem um pingo de hesitação. O olhar de Oscar desceu até o colo alvo de Lily, e uma sombra sutil de ciúme, sempre adormecida em seu íntimo, agitou-se. — Embora eu esteja seriamente inclinado a fazê-la cobrir esses ombros. Não gosto da ideia de dezenas de homens olhando para o que é unicamente meu.
— Ninguém vai olhar para mim quando o juiz Piastri estiver na sala — brincou Lily, levantando a mão macia para ajeitar a lapela de seda do terno dele, sentindo os músculos firmes do peito sob o tecido. — As mulheres do comitê mal conseguem disfarçar o encanto por você, excelência.
Oscar segurou a mão delicada de Lily contra o próprio peito, entrelaçando os dedos aos dela. O contraste da força dele com a delicadeza dela era uma constante que ambos amavam.
— Nenhuma mulher no mundo existe para mim, Lily. Apenas você. E se alguém ousar olhar para você com segundas intenções esta noite, terá que lidar com o meu pior lado.
— Você promete que não vai intimidar nenhum senador desta vez? — pediu ela, mordiscando o lábio inferior em um protesto fingido.
Oscar inclinou-se devagar, capturando os lábios dela em um beijo possessivo, quente e profundo, que fez os joelhos de Lily amolecerem. Ele a sustentou pela cintura com facilidade, aprofundando o toque por alguns segundos antes de se afastar apenas o bastante para que suas respirações se misturassem.
— Não prometo nada — sussurrou ele contra os lábios avermelhados de Lily.
Em seguida, retirou do bolso do paletó uma caixa de veludo preto forrada de cetim. Com movimentos precisos, abriu-a, revelando uma gargantilha de platina adornada com pequenos diamantes e uma deslumbrante esmeralda colombiana em formato de gota, idêntica ao tom do vestido dela.
— Oscar... — Lily arregalou os olhos. — É maravilhosa, mas você já me deu tantas...
— Nada é demais para minha esposa — cortou ele suavemente, pegando a joia com extremo cuidado. — Vire-se.
Lily obedeceu, sentindo o peso frio e luxuoso do metal descansar contra sua pele quente. Os dedos longos de Oscar roçaram a nuca dela enquanto ele fechava o fecho minucioso, e antes de soltá-la, depositou um beijo demorado e devoto no ponto sensível logo abaixo de sua orelha, fazendo-a suspirar.
— Perfeita — decretou o bilionário, admirando sua obra no espelho. — Agora, vamos. Quanto mais cedo chegarmos, mais cedo poderei trazê-la de volta para a nossa cama.
***
O grande salão de baile do hotel The Plaza brilhava sob a luz de candelabros monumentais de cristal Baccarat. O tilintar de taças de champanhe francês, o murmúrio de conversas sobre a bolsa de valores, acordos diplomáticos e processos de grande relevância compunham a sinfonia costumeira da elite de Manhattan. Bilionários, desembargadores, diplomatas estrangeiros e herdeiras disputavam a atenção e as alianças mais vantajosas.
No entanto, no momento em que as portas principais se abriram e o cerimonial anunciou o juiz Oscar Jack Piastri e sua esposa, Lily Piastri, o murmúrio geral sofreu uma queda perceptível.
Oscar caminhava com a imponência de um monarca. Sua postura irretocável, o olhar afiado e a elegância austera atraíam todos os holofotes. Mas o detalhe que realmente capturava a atenção de todos era a forma como ele conduzia a mulher ao seu lado. O braço do juiz estava firmemente enlaçado na cintura de Lily, mantendo-a colada ao seu corpo, em uma demonstração pública, inegável e quase feroz de posse e proteção.
Lily sentiu o peso dos olhares sobre si. Havia deslumbre genuíno nos olhos de muitos, surpresa pela beleza pura e radiante da confeiteira, e, inevitavelmente, faíscas de inveja viciosa vindo de várias damas que durante anos tentaram quebrar a barreira gélida do magistrado sem sucesso. Em vez de se intimidar, Lily ergueu o queixo de forma graciosa. Ela não precisava de títulos ou fortunas familiares para se firmar ali; o amor inabalável que sentia por Oscar — e que recebia em dobro — era a sua armadura.
— Não saia de perto de mim nem por um instante — murmurou Oscar, inclinando a cabeça levemente na direção dela, sem desviar os olhos penetrantes dos convidados ao redor. Sua mão na cintura dela apertou-se com delicadeza, mas com firmeza irredutível.
— Eu não planejava ir a lugar nenhum, meu amor — respondeu ela em um tom sereno, lançando-lhe um olhar tão doce que fez as sobrancelhas tensas do juiz relaxarem por uma fração de segundo.
Logo, figuras proeminentes começaram a se aproximar para cumprimentar o juiz.
— Meritíssimo Piastri, uma honra revê-lo — saudou o senador Vance, um homem mais velho acompanhado de sua esposa e de um jovem investidor imobiliário de Park Avenue. — Seus votos na corte de apelações na semana passada foram magistrais.
— Senador. Agradeço a gentileza — respondeu Oscar com sua cortesia calculada, o tom de voz grave e seguro que nunca dava espaço para intimidades desnecessárias.
O jovem investidor, contudo, mal prestava atenção às palavras sobre jurisprudência. Seus olhos haviam pousado sobre Lily, examinando o decote sutil do vestido verde e o brilho tímido de seus lábios com uma audácia que beirava a imprudência.
— E esta deve ser a mulher que comanda o coração da nossa maior autoridade — disse o investidor, estendendo a mão para Lily com um sorriso charmoso e ensaiado demais. — É um absoluto privilégio conhecê-la, senhora Piastri. Dificilmente vemos uma beleza tão autêntica nesta cidade.
Lily estendeu a mão com a educação que lhe era inata, pronta para retribuir a saudação de forma polida.
— Muito obrigada, senhor...
Antes que a mão do homem tocasse a de Lily por mais de meio segundo, Oscar moveu-se. Ele deu meio passo à frente, cobrindo sutilmente metade do corpo da esposa, e apertou a mão do investidor com uma força controlada, mas visceralmente ameaçadora. O jovem congelou, sentindo os ossos dos dedos protestarem sob a pressão de ferro.
— Ela é a minha esposa, Sr. Hayes — disse Oscar. A voz do juiz saiu suave, baixa, porém tão fria e cortante quanto uma lâmina de aço cirúrgico. Seus olhos azuis-esverdeados perfuraram o rapaz com a frieza de uma sentença irrevogável. — E seu tempo de admiração esgotou-se antes mesmo de começar.
O rapaz engoliu em seco, puxando a mão de volta assim que Oscar o liberou, o rosto empalidecendo rapidamente. O senador Vance interveio com uma tosse desconfortável, puxando o protegido para longe antes que o juiz Piastri decidisse destruir o império imobiliário da família Hayes com um simples telefonema no dia seguinte.
Lily deu uma cotovelada suave nas costelas do marido, contendo o riso enquanto pegava duas taças de champanhe de uma bandeja servida por um garçom.
— Você é impossível, Oscar — sussurrou ela, entregando-lhe uma das taças. — O pobre rapaz estava apenas sendo educado.
— Ele estava olhando para você como se não soubesse que cada pedaço do seu ser pertence a mim — rebateu Oscar, os olhos ainda faiscando em uma chama possessiva enquanto levava a taça aos lábios, sem tirar a atenção dos arredores. — Já avisei uma vez e repito: sou um homem territorial, Lily. Não aceito concorrência e não tolero desrespeito.
— Nunca houve concorrência, seu bobo — retrucou ela com infinita doçura, repousando a mão livre no peito dele, sentindo as batidas fortes e ritmadas do coração do juiz. — Meus olhos só veem você desde o dia em que nos conhecemos.
Oscar fechou os olhos por um segundo, engolindo a fúria e deixando-se afogar no calor que a voz dela sempre despertava em seu peito. Aquele era o poder de Lily: neutralizar qualquer tempestade que existisse dentro dele com um simples toque de suas mãos.
Naquele instante, a orquestra sinfônica instalada no mezanino do salão trocou o ritmo de música de câmara por uma valsa lenta e envolvente. As luzes principais do teto diminuíram de intensidade, banhando o salão em uma atmosfera dourada, íntima e quase mística.
Oscar colocou a taça de champanhe intocada sobre a mesa mais próxima e pegou a de Lily, fazendo o mesmo. Em seguida, estendeu a mão aberta diante dela.
— Conceda-me esta dança, Sra. Piastri.
Lily sorriu radiante, colocando sua mão pequena na palma grande e segura do marido.
— Sempre, Meritíssimo.
Oscar a conduziu com passos firmes até o centro do salão de mármore. Os outros casais que ensaiavam alguns passos abriram espaço instintivamente, como as águas de um mar diante de uma força soberana. Ninguém ousava disputar espaço com Oscar Piastri quando ele decidia algo, mas, acima de tudo, o que se via ali era um espetáculo raro. O homem que nunca participava de amenidades, que raramente permanecia mais de vinte minutos em eventos sociais, estava no centro do salão para dançar.
Ele passou a mão direita pelas costas de Lily, pousando-a com firmeza na curva de sua cintura e puxando-a contra si até que não restasse um centímetro de ar entre seus corpos. A mão esquerda dele envolveu os dedos delicados de Lily, elevando-os na altura exata dos ombros.
Lily apoiou a mão livre no ombro largo de Oscar, sentindo o tecido do smoking sob seus dedos e a pulsação viva sob o pescoço dele.
Quando os primeiros acordes do violoncelo ecoaram pelo salão, eles começaram a se mover.
Oscar dançava com a mesma precisão arrebatadora com que conduzia seus tribunais: seguro, elegante, dominando cada tempo da música com perfeição e guiando Lily em curvas suaves e fluidas. O vestido de seda esmeralda girava e ondulava ao redor das pernas longas do juiz, parecendo uma extensão líquida da própria dança.
Os sussurros e olhares de todo o salão simplesmente deixaram de existir. As joias, os bilhões, as taças de cristal, os cargos de poder e os jogos de interesses de Manhattan dissiparam-se como fumaça. Restavam apenas os dois.
Lily encostou a lateral do rosto no peito de Oscar, ouvindo o som reconfortante de seu coração. Ela aspirou profundamente o aroma dele — notas amadeiradas de sândalo, couro nobre e o perfume limpo e inebriante de sua pele.
— Você está muito quieto — murmurou ela, sentindo o calor do corpo dele envolvê-la inteira.
Oscar curvou a cabeça, colando os lábios na têmpora dela enquanto continuava a girá-la com maestria pelo salão.
— Estou apenas tentando memorizar este momento — confessou ele em um sussurro rouco, audível apenas para ela em meio à música. — A sensação de ter você em meus braços, sob a vista de todos, sem que ninguém possa tocá-la ou afastá-la de mim.
Lily levantou os olhos claros, encontrando o azul-esverdeado tempestuoso e apaixonado dele.
— Ninguém jamais poderia me afastar de você, Oscar. Eu sou sua. Em qualquer lugar. Seja nesta mansão de cristal ou na cozinha da minha confeitaria coberta de farinha.
Um sorriso suave, daqueles que faziam o juiz parecer o rapaz apaixonado de anos atrás, surgiu no canto de seus lábios bem desenhados.
— A confeiteira que roubou o coração do juiz mais temido de Nova York — ironizou ele carinhosamente, apertando um pouco mais a mão em sua cintura.
— E o juiz que roubou a confeiteira do mundo para guardá-la em um cofre de ouro — replicou ela, rindo baixinho.
— Um cofre onde você é a única dona da chave — retrucou Oscar com firmeza, os olhos brilhando com uma intensidade que quase tirava o fôlego de Lily. — Tudo o que construí, cada sentença que ditei, cada centavo acumulado... nada disso tem o menor valor se eu não tiver você esperando por mim no fim do dia com esse cheiro de baunilha e esse sorriso que me salva de tudo o que há de podre lá fora.
Lily sentiu os olhos marejarem diante de tamanha entrega. Oscar não era um homem de discursos vazios; suas palavras eram promessas eternas, sentenças lavradas em pedra. Ela ergueu a mão que descansava em seu ombro e acariciou de leve a linha tensa de sua mandíbula, sentindo o músculo ali relaxar sob seu carinho.
— Você é o meu porto seguro, Oscar. E eu nunca vou soltar você.
A valsa atingiu seu clímax, as cordas dos violinos elevando-se em um crescendo dramático e sublime. Oscar conduziu Lily em um giro impecável e, no instante em que a trouxe de volta para o encontro de seu corpo, não resistiu à tentação da proximidade daquela boca rosada.
Esquecendo juízes, senadores, colunistas sociais e fotógrafos de eventos que assistiam à cena do mezanino, Oscar inclinou-se e beijou Lily.
Foi um beijo de posse e devoção, lento, profundo e arrebatador. Os lábios dela se abriram contra os dele com uma doçura que fez o mundo do bilionário girar fora dos eixos. Ali, diante de toda a alta sociedade que tanto o temia e o cobiçava, o magistrado deixava a mais clara e definitiva de todas as suas decisões: ele pertencia de corpo, mente e alma à mulher em seus braços.
Quando a música finalmente cessou e os aplausos educados e admirados começaram a ressoar pelo salão, os dois se afastaram apenas o suficiente para respirar, mantendo as testas unidas e as mãos entrelaçadas.
Oscar respirou fundo, os olhos fixos nos dela com um brilho escuro e urgente.
— Vamos embora — disse ele, a voz tão baixa que fez o estômago de Lily dar um nó de doce antecipação.
— Já? Nós mal chegamos, Oscar...
Ele pegou a mão dela e a beijou com reverência no dorso.
— O comitê já teve sua cota da minha presença por um ano inteiro. Agora, tudo o que eu quero é levar a minha esposa para casa e tirar esse vestido esmeralda antes que eu perca a pouca razão que me resta.
Lily corou intensamente, mas seu sorriso foi cúmplice e rendido.
Enlaçados com a mesma firmeza inquebrável, eles cruzaram o salão em direção à saída, ignorando os cumprimentos restantes e os olhares cobiçosos que ficaram para trás. Naquela noite, a lei, a justiça e todo o ouro de Manhattan curvaram-se diante do único poder que Oscar Piastri jamais tentaria controlar: o amor imenso e incondicional que o unia para sempre à sua doce Lily.