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Eu (Não) Te Odeio

O Jogo das Sombras e o Eco do Silêncio

A manhã na universidade tinha um peso diferente. O sumiço do troféu não era apenas um furto; era um golpe direto no ego de Alexandre e na identidade de todo o time de basquete. Enquanto os corredores fervilhavam com sussurros e teorias conspiratórias, Beatriz tentava manter a fachada de indiferença. Ela se sentou em um banco de pedra no pátio central, abrindo o roteiro da peça "Antígona", mas as palavras pareciam flutuar sem sentido diante de seus olhos.

— Você viu a cara dele? — perguntou Mariana, sentando-se ao lado de Bea com um copo de café fumegante. — O Alexandre parecia que ia explodir, mas de um jeito estranho. Ele nem sequer xingou o segurança.

— Ele está processando o golpe — disse Alice, juntando-se a elas com Clara logo atrás. — Aquele troféu é o altar onde ele reza todas as manhãs. Quem quer que tenha deixado aquela máscara de teatro sabe exatamente como atingir o ponto fraco dele.

— E agora todos acham que foi alguém do nosso curso — comentou Clara, cruzando os braços com preocupação. — A Synna já está espalhando por aí que a Bea planejou tudo para se vingar da interrupção do ensaio ontem.

Beatriz finalmente fechou o roteiro com um estalo seco.

— Deixem que falem. Eu não tenho tempo para joguinhos de colégio. Temos um ensaio geral em duas horas e o diretor não vai aceitar nada menos que a perfeição só porque um pedaço de metal dourado desapareceu.

No entanto, por dentro, Bea sentia o estômago dar nós. A imagem de Alexandre na biblioteca, molhado pela chuva e com o olhar desarmado, não saía de sua mente. O toque dele em seu rosto ainda parecia queimar em sua pele, uma marca invisível que ela tentava apagar a todo custo.

Enquanto as meninas discutiam as possíveis represálias, um vulto alto projetou uma sombra sobre o grupo. Não era Alexandre, mas sim Gustavo, seu braço direito, acompanhado por Lucas e Rodrigo. O clima de descontração das amigas de Bea evaporou instantaneamente.

— Onde está, Beatriz? — Gustavo perguntou, a voz desprovida da habitual ironia. Ele parecia genuinamente irritado.

— Onde está o quê, Gustavo? — Bea levantou-se, mantendo a postura impecável. — Se está procurando o bom senso, sugiro que tente em outro campus.

— Não brinca comigo. A máscara era do estoque do teatro. Só vocês têm acesso àquela sala — Lucas interveio, dando um passo à frente. — O capitão está possesso. É melhor devolverem o troféu antes que a coisa fique feia para o lado de vocês.

— Nós não pegamos nada — rebateu Alice, colocando-se entre Bea e os jogadores. — E se querem acusar alguém, tragam provas. Caso contrário, voltem para o ginásio e chorem no ombro um do outro.

— Isso não vai ficar assim — rosnou Rodrigo, antes de o grupo de jogadores se afastar sob os olhares atentos de outros estudantes.

Beatriz sentiu um calafrio. Ela conhecia aquele tipo de tensão; era o prelúdio de uma tempestade.

Mais tarde, no corredor que levava aos camarins, a atmosfera estava carregada. Bea precisava de um momento sozinha antes de entrar no palco. Ela se desviou para uma área menos movimentada, perto das antigas escadas de incêndio, quando um braço forte a puxou para o vão escuro sob a escadaria.

Ela estava prestes a gritar quando uma mão quente cobriu sua boca. O cheiro de menta e chuva. Alexandre.

Ele a soltou devagar, mantendo-a encurralada entre seu corpo e a parede de tijolos aparentes.

— Você tem muita coragem ou é muito burra — sussurrou ele, os olhos fixos nos dela. A vaidade habitual tinha sido substituída por uma intensidade sombria.

— Eu não peguei o seu troféu, Alexandre — disse ela, a voz firme, embora seu coração estivesse martelando contra as costelas. — Se eu quisesse te destruir, faria isso na frente de todo mundo, não escondida nas sombras.

— Eu sei que não foi você — ele admitiu, para a surpresa de Beatriz. — Você é perfeccionista demais para deixar uma pista tão óbvia quanto aquela máscara. Mas a Synna... ela não pensa assim. E ela convenceu o resto do time de que você é a culpada.

— Por que você está me contando isso? — Beatriz franziu o cenho, tentando ler as intenções por trás daqueles olhos escuros. — Você deveria estar lá fora, liderando a caça às bruxas.

Alexandre soltou um riso curto e sem humor, inclinando-se mais perto.

— Porque eu não gosto que mexam nas minhas coisas. E, de certa forma, essa nossa... rivalidade... é algo que eu prefiro manter entre nós dois. Não quero figurantes estragando a cena principal.

— Você fala como se estivéssemos em uma das minhas peças — ironizou ela, embora sentisse o hálito dele em seu pescoço.

— Talvez estejamos. — Ele estendeu a mão e, desta vez, segurou o queixo dela, forçando-a a manter o contato visual. — Escuta bem, Perfeitinha. A Synna e os caras estão planejando algo para o seu ensaio de hoje. Eles querem "equilibrar o jogo".

— O que eles vão fazer? — O pânico começou a surgir nos olhos de Bea.

— Eu não sei os detalhes. Eu disse para pararem, mas pela primeira vez, eles não estão me ouvindo. A raiva por aquele troféu é maior que a lealdade ao capitão.

Antes que Beatriz pudesse responder, o som de saltos altos ecoou pelo corredor.

— Alê? Você está por aqui? — A voz de Synna era como uma navalha cortando o silêncio.

Alexandre praguejou baixo. Ele olhou para Beatriz por um último segundo — um olhar que misturava aviso e algo que parecia quase... proteção — e saiu do esconderijo antes que fossem vistos juntos.

— Ah, aí está você! — Beatriz ouviu Synna dizer, o tom mudando instantaneamente para uma doçura melosa e falsa. — O que está fazendo nesse lugar sujo? Vamos, o Tiago achou uma pista sobre o troféu perto do bloco de artes.

Beatriz esperou até que os passos desaparecessem para sair das sombras. Suas mãos tremiam. Ela precisava avisar as meninas, precisava cancelar o ensaio, mas seu orgulho falava mais alto. Se ela recuasse agora, daria a Synna e ao time exatamente o que eles queriam: a confirmação de sua fraqueza.

Duas horas depois, o auditório estava lotado. Não apenas pelos alunos de teatro, mas por uma massa considerável de estudantes que tinham ouvido rumores de que algo aconteceria. Na primeira fila, Synna estava sentada como uma rainha em seu trono, ladeada por Gustavo e os outros amigos de Alexandre. O próprio Alexandre estava no fundo, encostado na parede, os braços cruzados e o boné escondendo parte do rosto.

— Lembrem-se — sussurrou Beatriz para Clara, Mariana e Alice nos bastidores —, não importa o que aconteça, não parem de atuar. O palco é nosso território.

As luzes se apagaram. O foco âmbar iluminou Beatriz no centro do palco. Ela começou seu monólogo, a voz projetada com uma força que ela nem sabia que possuía. Por dez minutos, o público ficou hipnotizado. Até que o primeiro incidente ocorreu.

Um saco de farinha caiu do teto, explodindo a poucos centímetros de Beatriz. Uma nuvem branca subiu, cobrindo seu vestido de figurino. Algumas pessoas na plateia riram. Synna deu um sorriso satisfeito.

Beatriz não parou. Ela incorporou o susto à personagem, limpando o rosto com um gesto dramático, transformando a sujeira em cinzas simbólicas de sua dor em cena.

— Mais entrega! — gritou o diretor, sem perceber a malícia por trás do incidente.

Então, o som falhou. Onde deveria haver uma trilha sonora tensa, começou a tocar uma música de circo estridente. O caos se instalou na plateia. Alguém jogou ovos em direção ao palco, atingindo Mariana.

— Parem com isso! — gritou Clara, saindo da personagem e avançando para a beira do palco. — Vocês são animais?

— Cadê o troféu, atrizes de quinta? — gritou Felipe, um dos amigos de Alexandre, levantando-se. — Devolvam o que é nosso e a gente para com o show!

O auditório se tornou um campo de batalha de gritos. Beatriz permanecia no centro, a farinha grudada em seu cabelo, os olhos ardendo. Ela procurou Alexandre na multidão. Ele estava se movendo, empurrando as pessoas para chegar à frente, mas Synna o segurou pelo braço, dizendo algo em seu ouvido com um sorriso triunfante.

— Chega! — A voz de Beatriz não precisou de microfone. Ela caminhou até a beira do palco, encarando Synna diretamente. — Você quer o seu troféu, Synna? Você quer o seu "prêmio" de volta? Pois saiba que eu não tenho a menor ideia de onde ele está. Mas se você acha que essa palhaçada me assusta, você não conhece nada sobre teatro. Nós lidamos com tragédias todos os dias. Você é apenas uma comédia mal escrita.

Synna levantou-se, o rosto vermelho de fúria.

— Você se acha tão superior, não é? Vamos ver se continua assim quando for expulsa por vandalismo e roubo!

— Quem vai ser expulso é quem está sabotando um ensaio oficial — disse uma voz autoritária. O diretor de segurança do campus entrou pelas portas laterais, acompanhado por dois oficiais. — Recebemos uma denúncia anônima sobre o que estava planejado para hoje. Todos os envolvidos, para a minha sala. Agora!

O pânico mudou de lado. Gustavo, Lucas e os outros começaram a recuar, mas seus nomes já estavam sendo anotados. Synna tentou se desvencilhar, mas foi parada pelo segurança.

— Eu não fiz nada! Foi ideia do... — Ela olhou para Alexandre, buscando apoio, mas ele apenas a encarou com um desdém frio.

— Eu avisei para não fazerem isso — disse Alexandre, passando por ela sem parar.

Ele subiu os degraus do palco. O silêncio caiu sobre o auditório enquanto o "rei do campus" caminhava em direção à "perfeitinha" suja de farinha e ovos. Beatriz não recuou. Ela esperava um insulto, um deboche final.

Em vez disso, Alexandre tirou a própria jaqueta do time — o símbolo máximo de seu status — e a colocou sobre os ombros de Beatriz, cobrindo o figurino arruinado.

— Você terminou o seu monólogo? — perguntou ele, a voz baixa o suficiente para que apenas ela ouvisse.

— Eu... eu estava quase no fim — respondeu ela, atônita.

— Então termina. Eu vou garantir que ninguém mais interrompa.

Ele se virou para a plateia, o olhar de capitão silenciando qualquer sussurro restante. Alexandre sentou-se no chão do palco, bem ali, aos pés dela, como um guardião.

Beatriz respirou fundo. O cheiro da jaqueta dele — couro e perfume caro — a envolveu. Ela ignorou a farinha, ignorou a confusão que ainda acontecia nas saídas do auditório e terminou a cena. Foi a melhor atuação de sua vida.

Quando as cortinas finalmente se fecharam, o auditório estava quase vazio, restando apenas suas amigas e o diretor, que parecia em choque. Alexandre se levantou e ajudou Beatriz a descer do palco.

— Por que fez isso? — ela perguntou, quando estavam longe dos ouvidos dos outros, nos fundos do teatro. — Você acabou de trair o seu time. A Synna vai te odiar.

— A Synna eu resolvo depois — disse ele, encostando-se na parede. — E o meu time precisa aprender que existem regras, mesmo em uma guerra. Além disso... eu queria ver o final da peça. Você é boa, Beatriz. Irritantemente boa.

— E você continua sendo um idiota — retrucou ela, mas sem a acidez de antes. Ela tentou devolver a jaqueta, mas ele impediu.

— Fica com ela. Você está toda suja e o caminho até o seu dormitório é frio.

— Alexandre... — Ela hesitou. — Eu realmente não peguei o troféu.

— Eu sei. — Ele deu um passo à frente, estreitando o espaço entre eles novamente. — Porque fui eu que o escondi.

Beatriz arregalou os olhos, perdendo o fôlego.

— Você o quê? Por quê?

Um sorriso lento e perigoso surgiu nos lábios dele.

— Eu precisava de um motivo para agitar as coisas. Estava tudo muito monótono. E eu queria ver até onde você iria para defender o seu território. A máscara? Eu peguei do seu armário na semana passada, quando você esqueceu aberto.

— Você é um psicopata — sussurrou ela, embora uma parte dela estivesse fascinada pela audácia dele.

— Talvez. Mas funcionou, não funcionou? Agora todo mundo sabe que você não é apenas uma "estátua de porcelana". E eu descobri que você fica muito bem usando as minhas cores.

Ele se inclinou, seus lábios roçando a orelha de Beatriz.

— O jogo está apenas começando, Perfeitinha. E agora que eu sei que você morde, eu não pretendo parar tão cedo.

Ele se afastou, deixando Beatriz paralisada, envolta em sua jaqueta e em um mar de perguntas sem resposta. O suspense que antes envolvia o sumiço do troféu agora residia inteiramente na figura de Alexandre. Ele não era apenas o jogador vaidoso que ela pensava; ele era um estrategista que jogava com as emoções das pessoas como se fossem peças de um tabuleiro.

E o pior de tudo? Beatriz mal podia esperar pelo próximo lance.

Enquanto caminhava para o dormitório sob a luz da lua, ela sentiu algo no bolso da jaqueta de Alexandre. Ela tateou e puxou um pequeno objeto. Era uma chave. Com uma etiqueta que dizia apenas: "Depósito de Manutenção - Bloco C. 22h."

O convite estava feito. O drama tinha deixado o palco e invadido a realidade, e Beatriz sabia que, ao aceitar aquele encontro, ela estaria cruzando uma linha da qual jamais conseguiria retornar. A guerra entre eles tinha se transformado em algo muito mais sombrio, viciante e, inevitavelmente, perigoso.