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Eu (Não) Te Odeio

Reflexos Quebrados e Manobras de Ataque

O clima na Universidade de Artes e Esportes não era apenas de tensão; era de guerra declarada. O sumiço do troféu de ouro do time de basquete, substituído por aquela máscara de teatro branca e gélida, transformou os corredores em um campo minado. Beatriz caminhava em direção ao ensaio, sentindo o peso de cada olhar sobre si. Ela sabia que, para o resto do campus, ela era a suspeita número um. Afinal, quem mais teria acesso ao depósito de adereços e um motivo tão claro para humilhar o capitão do time?

— Bea, você viu a cara da Synna hoje cedo? — Clara perguntou, tentando acompanhar o passo apressado da amiga. — Ela estava possuída. Jurou que ia descobrir quem foi e "fazer a pessoa engolir a máscara".

— Deixa ela gritar, Clara — Beatriz respondeu, sem diminuir o ritmo. — Eu não peguei troféu nenhum. Tenho mais o que fazer, como decorar trinta páginas de monólogo.

— Mas a máscara era do nosso departamento, Bea — Mariana interveio, a voz carregada de preocupação. — E todos viram você e o Alexandre discutindo ontem no auditório. Alice acha que foi um gesto romântico distorcido, mas eu acho que alguém quer nos incriminar.

— Romântico? — Beatriz parou abruptamente, virando-se para as amigas. — Alice, você lê romances demais. Aquilo não foi romântico. Foi... um confronto.

Ela não mencionou o encontro na biblioteca. Não mencionou como a mão de Alexandre tinha sido quente contra sua pele fria, nem como o hálito de menta dele a fizera esquecer as falas que tanto ensaiara. Aquilo era um segredo que ela guardaria a sete chaves, trancado no fundo de sua mente perfeccionista.

Ao chegarem perto da entrada do teatro, o caminho foi bloqueado. Não por seguranças, mas por Alexandre e seus cinco amigos. Gustavo, Lucas, Tiago, Rodrigo e Felipe formavam uma barreira humana de jaquetas de time e testosterona. No centro, Alexandre girava uma chave no dedo, a expressão ilegível. Synna estava ao seu lado, os braços cruzados sobre uma blusa de grife, o lábio superior tremendo de fúria.

— Ora, ora — Synna disse, a voz cortante como uma navalha. — Se não é a nossa pequena ladra de troféus. Onde você escondeu, Beatriz? No meio dos seus figurinos cafonas?

— Eu não escondi nada, Synna — Beatriz rebateu, mantendo a postura ereta, o queixo erguido. — Se o seu namorado não consegue cuidar nem de um pedaço de metal, o problema é dele, não meu.

— Ele não é meu namorado, ele é o capitão — Alexandre interrompeu, dando um passo à frente. Os amigos dele se moveram em sincronia, fechando ainda mais o cerco. — E aquele "pedaço de metal" representa o esforço de muita gente, Perfeitinha. Inclusive o meu.

— Então procure no lugar certo — disse Alice, tentando soar corajosa por trás de Beatriz. — Nós estávamos ensaiando a noite toda.

— Engraçado — Lucas, um dos alas do time, comentou com um sorriso cínico. — Eu vi a Beatriz saindo da biblioteca bem tarde. E o Alexandre também. Coincidência, não é?

O silêncio que se seguiu foi pesado. Synna virou-se para Alexandre, os olhos estreitados.

— Você estava com ela, Alê? Na biblioteca? No escuro?

Alexandre não desviou o olhar de Beatriz. Havia um desafio mudo ali, uma pergunta silenciosa que só os dois entendiam.

— Eu estava lá — ele admitiu, a voz rouca. — Mas quando saí, a Beatriz ainda estava lá. Sozinha. Se ela pegou o troféu depois disso, eu não sei.

— Você está defendendo ela? — Synna explodiu, a voz subindo uma oitava. — Ela humilhou o time! Ela colocou aquela máscara ridícula no lugar da nossa glória!

— Eu não estou defendendo ninguém, Synna — Alexandre disse, finalmente desviando o olhar para a ficante. — Só estou dizendo que não vi nada. Mas... — ele voltou a encarar Bea — se eu descobrir que você teve algo a ver com isso, Beatriz, o seu precioso palco vai se tornar um lugar muito pequeno para você se esconder.

— Isso é uma ameaça? — Beatriz perguntou, sentindo o coração martelar contra as costelas.

— É um aviso — ele respondeu, inclinando-se para perto do ouvido dela, de forma que apenas ela pudesse ouvir. — A máscara foi um toque artístico interessante. Mas eu prefiro você sem ela.

Ele se afastou e fez um sinal para os amigos. O grupo de basquete se dispersou, mas Synna permaneceu parada por um segundo a mais. Ela se aproximou de Beatriz, o perfume doce e enjoativo invadindo o espaço pessoal da atriz.

— Você acha que é especial porque ele olha para você, não é? — Synna sibilou. — Mas você é só um passatempo, um enigma que ele quer resolver para depois jogar fora. Fica longe do meu homem e do meu time, ou eu vou garantir que você nunca mais consiga um papel, nem para ser árvore em peça infantil.

— Tente a sorte, Synna — Beatriz respondeu com uma calma que não sentia. — Mas cuidado para não tropeçar no seu próprio ego no caminho.

Synna deu as costas com um movimento brusco de cabelo e saiu batendo os saltos. As amigas de Beatriz soltaram o ar que nem sabiam que estavam segurando.

— Isso foi intenso — murmurou Mariana. — Bea, a gente precisa descobrir quem pegou esse troféu antes que a Synna realmente tente te destruir.

— Eu sei — disse Beatriz, olhando para a porta por onde Alexandre tinha saído. — Mas algo me diz que quem pegou o troféu não queria apenas me incriminar. Queria nos colocar um contra o outro.

***

A noite caiu novamente, mas desta vez Beatriz não foi para a biblioteca. Ela precisava de espaço, de ar. O jardim interno do conservatório era o único lugar que lhe trazia paz. As estátuas de mármore e os bancos de ferro pareciam testemunhas silenciosas de suas preocupações.

Ela se sentou em um dos bancos, abrindo o roteiro, mas as palavras pareciam dançar diante de seus olhos. Ela só conseguia pensar no modo como Alexandre a olhara. Não era o olhar de um inimigo, mas também não era o de um amigo. Era algo faminto, algo que exigia uma verdade que ela nem sabia se possuía.

— Você sempre se esconde quando as coisas ficam difíceis? — A voz veio de trás de uma grande trepadeira de jasmins.

Beatriz não precisou se virar para saber quem era.

— Eu não estou me escondendo, Alexandre. Estou apenas evitando o barulho.

Ele apareceu, desta vez sem a jaqueta do time, apenas com uma regata preta que destacava cada linha de seus braços. Ele se sentou ao lado dela, sem pedir permissão.

— Meus amigos querem o seu sangue — ele disse, olhando para as próprias mãos. — Eles acham que você é a mente por trás do plano para desestabilizar o time antes das finais.

— E você? O que você acha?

Alexandre deu uma risada curta e sem humor.

— Eu acho que você é orgulhosa demais para roubar algo. Você prefere ganhar as coisas por mérito, com aquela sua perfeição irritante. Roubar um troféu é... sujo. Não combina com a sua estética de porcelana.

— Obrigada, eu acho — Beatriz disse, surpresa com a análise dele. — Então, por que não disse isso para eles? Por que deixou a Synna me atacar daquele jeito?

— Porque eu queria ver como você reagiria — ele confessou, virando o rosto para ela. No escuro, os olhos dele pareciam poços de mistério. — Eu queria ver se a máscara caía. Mas você se manteve firme. Como sempre.

— Por que você é tão obcecado com essa ideia de máscara, Alexandre? — Beatriz perguntou, fechando o roteiro com força. — Só porque eu tenho disciplina? Só porque eu não saio por aí gritando e agindo como um idiota vaidoso que acha que o mundo lhe deve tudo?

— Porque eu reconheço uma em cada espelho que olho — ele respondeu, a voz baixando para um tom quase confessional. — Todo mundo acha que me conhece. O capitão, o cara que pega todas, o jogador que não sente pressão. Mas é tudo um papel, Beatriz. Assim como o seu. A diferença é que eu admito que estou atuando. Você se convenceu de que o papel é você.

Beatriz sentiu uma pontada no peito. Era como se ele tivesse arrancado uma camada de sua pele, expondo algo que ela passara anos tentando esconder.

— Você não sabe do que está falando — ela sussurrou, mas sua voz falhou.

— Sei, sim — ele disse, aproximando-se. — Eu vi você ontem na biblioteca. Quando a luz acabou e você achou que estava sozinha. Você não estava ensaiando. Você estava chorando sobre aquele roteiro. Por que uma "perfeitinha" choraria, Bea?

— Porque a personagem é triste! — ela mentiu, a voz tremendo.

— Mentira — ele rebateu, agora tão perto que ela podia sentir o calor de seu corpo. — Você estava chorando porque está exausta de carregar o mundo nas costas e fingir que não pesa.

Beatriz tentou se levantar, mas Alexandre segurou seu pulso. Não foi um gesto agressivo, mas firme, impedindo-a de fugir.

— Me solta, Alexandre.

— Por que você tem tanto medo de mim? — ele perguntou, os olhos fixos nos dela. — É porque eu sou o único que vê a garota por trás da atriz? Ou porque você sente a mesma coisa que eu sinto quando estamos perto?

— Eu não sinto nada por você — ela declarou, embora cada fibra de seu ser estivesse gritando o contrário. — Você é tudo o que eu desprezo.

— Então prova — ele desafiou.

Antes que ela pudesse processar a provocação, Alexandre reduziu o espaço final entre eles. O beijo não foi suave. Foi uma colisão de anos de rivalidade, de palavras não ditas e de uma tensão que havia se tornado insuportável. Beatriz tentou resistir por um segundo, as mãos espalmadas contra o peito dele, mas logo seus dedos se perderam no cabelo curto dele, puxando-o para mais perto.

Era fogo e gelo. Era o caos que ela tanto evitava e a paixão que ele tentava mascarar com arrogância. Naquele momento, no jardim escuro, não havia time de basquete, não havia teatro, não havia Synna. Havia apenas a verdade crua de dois inimigos que haviam encontrado um terreno comum na solidão um do outro.

Quando se separaram, ambos estavam ofegantes. Alexandre encostou a testa na dela, os olhos fechados.

— Viu só? — ele sussurrou. — Nenhuma máscara resiste a isso.

Beatriz abriu a boca para responder, mas o som de um flash e um clique mecânico vindo dos arbustos a fez congelar.

Eles se viraram a tempo de ver uma silhueta feminina correndo em direção ao prédio principal. O brilho de um celular era visível na mão da pessoa.

— Synna — Beatriz murmurou, o pânico subindo pela garganta.

Alexandre se levantou rapidamente, os olhos voltando a ficar frios e alertas.

— Se ela tirou uma foto... — ele começou, mas não precisou terminar.

Se aquela foto circulasse, a reputação de Beatriz como a "estrela intocável" do teatro seria destruída, e Alexandre seria visto como um traidor pelo seu próprio time. O escândalo seria o combustível perfeito para a fogueira que Synna vinha tentando acender.

— Ela vai acabar comigo — Beatriz disse, sentindo as pernas fraquejarem. — O diretor, a bolsa de estudos... se acharem que eu estou envolvida com o capitão do time rival em meio a um roubo...

— Ela não vai fazer nada — Alexandre disse, a voz subitamente dura. Ele olhou para Beatriz, e por um momento, a vulnerabilidade de antes desapareceu, substituída por uma determinação sombria. — Eu vou resolver isso.

— Como? Você não conhece a Synna como eu conheço. Ela é capaz de tudo quando se sente rejeitada.

— Eu sei exatamente do que ela é capaz — Alexandre respondeu, pegando a jaqueta que deixara no banco. — Mas ela se esqueceu de uma coisa: eu sou o melhor jogador deste campus. E eu nunca perco um jogo quando as apostas são altas.

Ele começou a se afastar, mas parou e olhou para trás.

— Vá para o seu dormitório, Beatriz. Tranque a porta e não fale com ninguém. Amanhã, o show continua. Mas desta vez, nós vamos mudar o final.

Beatriz ficou parada no jardim, o gosto de Alexandre ainda em seus lábios e o medo do futuro em seu coração. Ela percebeu que, embora o troféu continuasse sumido, ela acabara de perder algo muito mais valioso: o controle absoluto sobre sua vida perfeita.

Enquanto caminhava de volta, ela viu as luzes do ginásio acesas. Os amigos de Alexandre ainda estavam lá, treinando até tarde. Ela viu Gustavo e Lucas rindo, alheios ao drama que acabara de se desenrolar. No outro prédio, as luzes do departamento de teatro também brilhavam, onde suas amigas provavelmente a esperavam para repassar as falas.

Dois mundos que nunca deveriam se misturar agora estavam colidindo por causa de um beijo e uma foto roubada. O suspense que envolvia o sumiço do troféu agora era apenas a ponta do iceberg. A verdadeira guerra estava prestes a começar, e Beatriz sabia que, no teatro da universidade, as tragédias costumavam ser muito mais memoráveis do que os finais felizes.

Ela entrou no quarto e encontrou Clara, Mariana e Alice sentadas em sua cama, as expressões sombrias.

— Bea, você não vai acreditar — disse Alice, estendendo o celular.

No grupo da universidade, uma nova mensagem anônima acabara de ser postada. Não era a foto do beijo. Era uma foto da máscara de teatro, mas desta vez ela estava manchada de tinta vermelha, como se estivesse sangrando, com a legenda:

"A perfeição tem um preço. O troféu foi apenas o começo. Quem será o próximo a perder a cabeça?"

Beatriz sentiu o sangue fugir do rosto. O jogo de Alexandre com Synna era perigoso, mas havia alguém mais ali. Alguém que não queria apenas drama romântico, mas destruição total. E enquanto ela olhava para a imagem sinistra, percebeu que a máscara que Alexandre tanto mencionara não era apenas uma metáfora. Era um alvo.