Eu quero você

Point off view Giovana torres Três dias se passaram desde o teatro. Três dias em que eu tentei me convencer de que aquilo no vestíbulo tinha sido só um surto de raiva, um momento de fraqueza, nada mais. Mas toda vez que fechava os olhos, sentia de novo o calor dela, o jeito que ela apertava meus ombros, o som abafado do meu nome na sua boca. Estava na delegacia, debruçada sobre a mesa cheia de papéis, tentando forçar a cabeça a focar no caso, quando vi a porta se abrir e Larissa entrar. Ela parou ali na entrada, me olhou de cima a baixo e balançou a cabeça devagar. — Estão precisando muito de você lá fora, Giovanna. Levantei o olhar devagar, franzi a testa e soltei a caneta sobre os papéis. — Pra quê? — Peguei uns documentos aqui que você tem que entregar para a Dona Garcia — explicou Larissa, balançando a pasta na mão. Franzi a testa logo de cara. — E por que não manda a Mariana fazer isso? Ela é da Federal, devia estar acostumada com esse tipo de encargo. — Oh Giovanna, ela tá numa operação sigilosa lá na zona rural, né? Pelo visto só volta amanhã à noite — respondeu Larissa, dando de ombros. Bati a palma na mesa, impaciente. — Droga… Deixa aí então. Quando eu sair daqui, passo no escritório dela pra entregar. Point off view Maya Manoela Garcia Eu estava no escritório, debruçada sobre os autos, mais uma vez passando a noite trabalhando. Ultimamente era assim: enchia a cabeça de serviço para não sobrar espaço para pensar no que realmente importava — ou no que realmente doía. Ana entrou devagar na sala, parou ao lado da mesa e ficou me observando por um tempo. — Hum… tá tão calada hoje — comentou ela, cruzando os braços. — Saudades da namoradinha? — Ai Ana, cala a boca — rebati sem tirar os olhos dos papéis, sentindo o rosto esquentar. — E a Mari não é minha namorada não — completei, fechando a pasta com um pouco mais de força do que pretendia. — Só estamos ficando, só isso. — Por que então essa aflição toda? — insistiu ela, aproximando-se mais. — Minha filha, você tá com medo do quê? Aquela mulher é uma coisa… diferente, forte, decidida. Ou será que é justamente por causa dela que você tá assim? Revirei os olhos, impaciente. — Então fica pra você então. — Não, querida — ela sorriu de lado, sacudindo a cabeça. — Ela não faz o meu tipo. Faz o seu tipo. E muito bem feito, por sinal. Afinal… já rolou alguma coisa mais? — Não… e também eu… eu não consigo. Sei lá, toda vez que tento avançar… travo. Ana soltou uma risada leve, incrédula. — Ah, tá com bloqueio agora pra transar? Logo você, que era uma loba na cama? — Ai, larga de ser idiota — resmunguei, desviando o olhar. — E tô mentindo? — insistiu ela, apoiando-se na mesa. — Você mesma ficava aqui contando pra mim, quando era com a Giovanna… Sem querer, um sorriso leve escapou dos meus lábios. A lembrança veio nítida: Giovanna tinha um jeito, uma pegada, uma forma de me tocar que fazia eu perder o rumo, que me deixava toda mole, sem forças pra resistir a nada. — Esse sorriso aí… — apontou Ana, a voz suavizando, tornando-se mais séria. — An? O que foi? — perguntei, saindo do transe e sentindo meu coração acelerar. — Tá lembrando, né? E aí? Vai continuar negando o que tá na cara? Fechei os olhos por um segundo, sentindo a pulsação no pescoço. A imagem de Giovanna no teatro, o confronto, a raiva misturada com desejo... era demais. — Ah, cala a boca, Ana Clara! Quero que a Giovanna se dane! E vamos trabalhar, pelo amor de Deus! Bati a mão levemente nos papéis, tentando reorganizar meus pensamentos, mas o estrago já estava feito. O fantasma de Giovanna estava sentado ali, entre nós duas. ... O tempo passou arrastado. Quando finalmente terminei de organizar os documentos para a audiência do dia seguinte, a lua já estava alta. Despedi-me de Ana no saguão e caminhei em direção ao estacionamento privativo, o som dos meus saltos ecoando no concreto solitário. A noite estava fria, um vento cortante soprava entre os prédios. Eu estava prestes a destravar o carro quando um movimento brusco à minha direita me fez congelar. — Doutora Garcia? — uma voz grossa e desconhecida chamou. Antes que eu pudesse responder ou gritar, dois homens surgiram das sombras. Ambos usavam jaquetas escuras e capuzes. Um deles sacou uma pistola, o cano metálico brilhando sob a luz fraca do poste. — Nem mais um passo. Entra no carro. Agora! — ordenou o mais alto, agarrando meu braço com uma força que me fez gemer de dor. — O que vocês querem? Eu não tenho dinheiro aqui… — tentei dizer, a voz trêmula. — Cale a boca e entra! — ele me empurrou para o banco de trás de um sedan preto que encostou bruscamente ao nosso lado. Eu estava em pânico. O motor rugiu e o carro arrancou, cantando pneus. Narradora O que eles não sabiam era que, a poucos metros dali, estacionando sua viatura descaracterizada para entregar a maldita pasta, estava Giovanna. Point off view Giovana torres Eu tinha acabado de desligar o motor quando vi a cena. Meus instintos de delegada gritaram antes mesmo do meu cérebro processar a imagem de Maya sendo jogada para dentro daquele veículo. — Mas que inferno! — exclamei, socando o volante. Não hesitei. Liguei a ignição, a adrenalina substituindo o cansaço em um milissegundo. O sedan preto saiu em alta velocidade, furando o sinal vermelho na esquina. Eu fui atrás, mantendo uma distância segura, mas sem perder as lanternas traseiras de vista. Peguei o rádio, mas a interferência dos prédios altos estava horrível. — Central, aqui é a Delegada Torres! Estou em perseguição a um sedan preto, placa não identificada, possível sequestro da Dra. Maya Garcia! — gritei, enquanto desviava de um táxi. O carro dos criminosos entrou em uma via expressa, costurando o trânsito. Eu pisava no acelerador, sentindo o motor da viatura reclamar. Meus olhos estavam fixos no alvo. Eu não podia perdê-la. Não agora. Não depois de tudo. A perseguição durou minutos que pareceram horas. Eles saíram da via principal, entrando em uma área industrial mais afastada, cheia de galpões abandonados e pouca iluminação. O sedan começou a ziguezaguear, tentando me despistar. — Você não vai fugir, seu desgraçado — rosnei entre dentes. Vi o carro deles diminuir a velocidade para entrar em um pátio cercado. Era a minha chance. Se eles entrassem ali e fechassem o portão, eu a perderia. Acelerei tudo o que podia, o velocímetro marcando o limite. Eu ia interceptá-los. Ia bater na lateral traseira para fazê-los rodar. Mas o motorista do sedan era habilidoso. Ele percebeu minha manobra e freou bruscamente, fazendo com que eu perdesse o ângulo. Tentei corrigir a direção, mas o asfalto estava sujo de óleo ou areia. Os pneus perderam a aderência. O mundo girou. O som do metal colidindo contra um poste de concreto foi ensurdecedor. O airbag estourou no meu rosto com um impacto seco, enchendo a cabine de um pó branco e um cheiro de queimado. Minha visão ficou turva, um zumbido agudo tomou conta dos meus ouvidos. Tentei me mexer, mas meu corpo pesava toneladas. Olhei pelo para-brisa trincado e vi, com a visão embaçada, o sedan preto parar a poucos metros. Os homens desceram, armas em punho, olhando para os destroços do meu carro. — Maya… — sussurrei, embora soubesse que ninguém podia me ouvir. A dor na minha lateral era aguda. Um dos homens se aproximou da viatura destruída, apontando a arma para a minha cabeça através do vidro quebrado. Ele sorriu, um gesto cruel que me fez gelar o sangue. — Parece que a delegada não sabe dirigir — ele debochou, engatilhando a pistola. Dentro do sedan, eu vi o vulto de Maya lutando contra o homem que a segurava. Ela gritava meu nome, o desespero na voz dela atravessando o metal e a dor. Eu precisava reagir. Minha mão tateou o coldre na cintura, mas a porta estava amassada contra mim, prendendo meu braço. O cano da arma do criminoso estava agora a centímetros do meu rosto. A escuridão começou a fechar as bordas da minha visão, mas o rosto de Maya, aterrorizada, foi a última coisa que vi antes de um segundo impacto — desta vez, não do carro, mas de algo que explodiu no pátio, iluminando a noite em chamas. A confusão se instalou. Tiros começaram a ecoar, mas não vinham dos sequestradores. Eram disparos precisos, rítmicos. — Polícia! Mãos para o alto! — o grito ecoou, e eu reconheci aquela voz. Era a equipe de apoio tático da DP. Larissa deve ter conseguido rastrear meu sinal antes do rádio morrer. Aproveitando a distração, forcei meu corpo para o lado oposto, ignorando a dor lancinante na costela. Com um grito abafado, consegui destravar meu braço e sacar a Glock. O vidro lateral já estava estilhaçado. Eu chutei o que restava dele e me arrastei para fora, caindo sobre o asfalto frio e sujo. Meus olhos buscaram desesperadamente o sedan preto. Ele estava tentando manobrar para fugir pelo fundo do galpão, mas os pneus derrapavam nos detritos da explosão. — Maya! — gritei, mas minha voz saiu como um sussurro rouco. Limpei o sangue que caía sobre meu olho esquerdo e me levantei, cambaleando. O mundo girava, mas a imagem dela, encolhida no banco de trás daquele carro, era a única coisa que me mantinha de pé. O motorista do sedan, vendo que estava cercado, tomou uma decisão desesperada. Ele acelerou em direção ao portão dos fundos, mas eu já estava no caminho. Apontei a arma, a visão oscilando. Eu não podia atirar no motorista, o risco de o carro desgovernado matar Maya era alto demais. — Para o carro! — berrei, disparando dois tiros nos pneus dianteiros. O sedan rodou, a traseira batendo contra uma viga de sustentação do galpão. O impacto foi forte o suficiente para parar o veículo. Um dos sequestradores saiu pela porta do passageiro, disparando a esmo. Eu me joguei atrás de um pilar de concreto, sentindo as balas lascarem a pedra acima da minha cabeça. — Giovanna! — o grito de Maya rasgou o ar. Era um grito de puro terror, mas também de reconhecimento. Eu não esperei o reforço chegar até mim. Saí da cobertura, disparando três vezes contra o sequestrador que tentava se posicionar. Ele caiu, segurando a perna. Avancei com o coração martelando contra as costelas, cada passo uma agonia. Cheguei à porta traseira do sedan. Ela estava travada. Por dentro, vi o rosto de Maya. Ela estava pálida, os olhos arregalados, as mãos atadas por lacres de plástico. O homem que a segurava no banco de trás estava atordoado pelo impacto, mas começava a recobrar os sentidos, tateando em busca de uma faca no cinto. — Afasta, Maya! — ordenei. Ela se encolheu contra o outro canto do banco. Eu disparei contra a fechadura e puxei a maçaneta com toda a força que me restava. A porta cedeu com um rangido metálico. O sequestrador avançou com a faca, mas eu não dei chance. Acertei a coronha da arma na têmpora dele com um movimento seco. Ele desabou sobre o banco. Por um segundo, o tempo parou. O barulho dos tiros ao fundo, as sirenes se aproximando, os gritos da equipe de Larissa... tudo se tornou ruído branco. Havia apenas Maya. — Você está bem? — perguntei, minha voz falhando enquanto eu entrava no carro para cortar os lacres dela com um canivete que levava no colete. Maya não respondeu com palavras. Assim que as mãos dela ficaram livres, ela se atirou contra o meu peito. O impacto me fez gemer de dor devido às costelas possivelmente quebradas, mas eu a segurei. Eu a segurei como se a minha vida dependesse daquele contato. — Eu achei que... eu achei que você tinha morrido naquele poste — ela soluçou contra o meu pescoço, as mãos trêmulas agarrando o tecido do meu uniforme sujo de graxa e sangue. — Eu sou difícil de morrer, Garcia — murmurei, fechando os olhos por um breve momento e aspirando o perfume dela, que ainda lutava contra o cheiro de queimado do ambiente. — Eu disse que viria entregar os documentos. Só não esperava que fosse assim. Ela soltou uma risada histérica, entremeada por um choro que parecia vir do fundo da alma. — Delegada Torres! — a voz de Larissa surgiu na porta do carro. — Afastem-se do veículo. O esquadrão de bombas está entrando, pode haver vazamento de combustível. Eu ajudei Maya a sair. Minhas pernas fraquejaram assim que toquei o chão, e foi ela quem me sustentou. Estávamos ali, duas mulheres destruídas pela adrenalina e pelo passado, apoiadas uma na outra enquanto o pátio era tomado por luzes azuis e vermelhas. (...) Horas depois, o hospital da polícia estava mergulhado em um silêncio estéril. Eu estava sentada na maca, com três pontos na testa e uma faixa apertada em volta do tórax. O médico tinha dito que eu tivera sorte: apenas duas costelas trincadas e uma concussão leve. A porta do quarto se abriu devagar. Maya entrou. Ela tinha trocado de roupa — estava usando um moletom grande demais, provavelmente emprestado de alguma enfermeira, e o cabelo estava preso em um coque apressado. Ela parecia pequena, vulnerável, longe da advogada implacável que costumava ser. — Eles me deram alta — disse ela, parando ao pé da maca. — Disseram que foi só o susto e as escoriações nos pulsos. — Que bom — respondi, tentando me ajeitar, mas uma pontada de dor me fez fazer uma careta. Maya caminhou até mim e, sem pedir licença, sentou-se na beirada da maca. O silêncio entre nós não era mais o silêncio tenso da delegacia. Era algo diferente. Algo carregado de uma verdade que nenhuma de nós queria admitir em voz alta. — Por que você foi atrás de mim sozinha, Giovanna? — perguntou ela, a voz baixa, os olhos fixos nos meus. — Você podia ter esperado o apoio. Podia ter morrido. — Eu não tive tempo de pensar — confessei, desviando o olhar para as minhas mãos enfaixadas. — Quando vi aqueles caras te jogando no carro... algo simplesmente estalou. Eu não podia deixar que te levassem. .chat quero um clima acontecendo e Giovanna beija Maya mais Maya n gosta ela fala eu tô com a Mariana sorri me deitando na cama você realmente tá levando a sério esse negócio ne