Eu quero você
O Eco de um Adeus Inacabado
O som da porta se fechando foi o ponto final de uma frase que eu ainda não estava pronta para terminar de ler. O silêncio que se seguiu no quarto de hospital era pesado, preenchido apenas pelo zumbido mecânico dos aparelhos e pelo latejar rítmico na minha lateral. Eu fechei os olhos com força, tentando expulsar o gosto de Maya da minha boca, mas o fantasma do beijo dela ainda estava ali, queimando, uma brasa viva em meio aos destroços do que sobrou de nós.
— Droga, Giovanna... — sussurrei para o teto descascado.
Eu sabia que ela estava mentindo. Ou melhor, ela estava tentando acreditar na própria mentira. Mariana era o porto seguro, a calmaria depois da tempestade, a escolha racional de quem não queria mais ter que limpar sangue do para-brisa ou do próprio coração. Mas eu conhecia Maya. Conhecia o jeito que o pulso dela acelerava quando eu chegava perto, o jeito que os olhos dela brilhavam com um desafio silencioso toda vez que brigávamos. Ela não era feita para a calmaria. Ela era o próprio olho do furacão.
A noite passou arrastada, um borrão de enfermeiras trocando soro e o efeito dos analgésicos me fazendo flutuar entre a realidade e sonhos desconexos onde eu ainda estava correndo atrás daquele sedan preto, mas, em vez de Maya, era eu quem estava presa, e ela era quem não conseguia me alcançar.
Na manhã seguinte, o sol entrou agressivo pela janela, denunciando cada partícula de poeira no ar. O médico passou cedo, fez os testes de reflexo, apertou minhas costelas — o que me fez soltar um palavrão que quase me custou a alta — e finalmente assinou os papéis.
— Repouso, Delegada. E quando eu digo repouso, não é "ficar sentada na delegacia dando ordens". É cama, canja e nada de perseguições por pelo menos duas semanas — avisou ele, com aquele tom autoritário que médicos adoram usar.
— Vou tentar, doutor. Promessa de escoteira — menti, já pensando em como ia conseguir dirigir com o tórax enfaixado.
Peguei minha mochila com as roupas que Larissa tinha trazido e me troquei devagar, cada movimento sendo uma pequena tortura. O uniforme da polícia estava em um saco plástico, imundo e rasgado, um troféu de uma guerra que eu não tinha certeza se tinha vencido.
Quando saí pelo saguão do hospital, o ar condicionado me atingiu como um tapa. Eu esperava encontrar Larissa ou talvez um carro da delegacia para me levar para casa. O que eu não esperava era ver o SUV prata estacionado bem na frente da entrada principal.
A porta do motorista se abriu e Maya desceu. Ela parecia ter dormido tão pouco quanto eu. Usava óculos escuros, escondendo o cansaço, mas a postura era rígida. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, a porta traseira também se abriu.
Uma garota de quinze anos, com os mesmos olhos expressivos de Maya e o cabelo castanho ondulado preso em um rabo de cavalo alto, saltou do carro. Helena.
— Tio Gi! — Helena exclamou, correndo em minha direção. Ela parou bruscamente a um passo de distância, os olhos arregalados ao ver o curativo na minha testa e o jeito que eu segurava o braço contra o corpo. — Meu Deus, você tá horrível!
Eu soltei uma risada curta, que logo se transformou em uma careta de dor.
— Bom ver você também, pequena. E obrigado pela parte que me toca. A sinceridade da juventude é realmente revigorante.
— A mamãe me contou o que aconteceu. Quer dizer, ela tentou esconder os detalhes, mas eu vi o jornal — Helena disse, aproximando-se com cuidado e passando o braço pela minha cintura para me apoiar. — Você foi tipo uma super-heroína. De novo.
— Só fiz meu trabalho, Helena — respondi, sentindo o olhar de Maya queimando sobre mim do outro lado do carro.
Maya caminhou até nós, as mãos nos bolsos da calça jeans. Ela não sorria, mas não havia a mesma agressividade da noite anterior. Havia apenas... resignação.
— Eu disse que te levaria para casa — disse Maya, a voz neutra. — Você não tem condições de dirigir e a Larissa está atolada em depoimentos sobre o caso de ontem.
— Eu podia ter pegado um táxi, Garcia. Não precisa se dar ao trabalho — rebati, tentando manter minha dignidade enquanto me apoiava no ombro de Helena.
— Não seja teimosa, Giovanna. Entra logo no carro — Maya abriu a porta do carona para mim.
O trajeto até meu apartamento foi estranhamente silencioso. Helena, geralmente uma matraca, parecia sentir a tensão elétrica que pairava entre os dois bancos dianteiros. Ela ficava no banco de trás, mexendo no celular, mas eu via pelo reflexo do retrovisor que ela nos observava.
— E a escola, Helena? — perguntei, tentando quebrar o gelo. — Como vão as notas?
— Estão ótimas, Gi. Mas a mamãe está um saco ultimamente. Quer que eu estude Direito de qualquer jeito. Diz que o mundo precisa de mais advogadas e menos... bom, menos gente que leva tiro — Helena comentou, lançando um olhar significativo para a mãe.
— O mundo precisa de gente que saiba se proteger, Helena — Maya retrucou, sem tirar os olhos da estrada. — E o Direito é uma ferramenta de poder.
— É uma ferramenta de papel, mãe. A Gi usa ferramentas de verdade — a garota rebateu, com aquele tom de rebeldia típico da idade.
— Helena, não comece — suspirou Maya.
Eu sorri de canto. Helena sempre teve essa admiração pelo meu trabalho, algo que sempre foi um ponto de discórdia entre mim e Maya. Maya queria segurança; eu era o lembrete constante de que a segurança é uma ilusão que pode ser estilhaçada por uma bala ou uma batida de carro.
Quando chegamos ao meu prédio, Maya estacionou e desligou o motor. O silêncio voltou a pesar.
— Eu ajudo ela a subir, mãe! — Helena se prontificou, já abrindo a porta.
— Não, Helena. Fica aqui. Eu ajudo a Giovanna — a voz de Maya foi firme, sem espaço para discussão.
Helena bufou, mas obedeceu, recostando-se no banco com os braços cruzados.
Saímos do carro devagar. Maya deu a volta e parou ao meu lado, oferecendo o braço. Eu hesitei por um segundo, mas a dor nas costelas me lembrou que eu não era de ferro. Enlacei meu braço no dela e caminhamos em direção ao elevador.
O contato físico era torturante. Eu conseguia sentir o calor do corpo dela através do tecido fino da blusa, o cheiro de baunilha e café que sempre a acompanhava. Cada passo era uma lembrança do que tínhamos perdido.
Dentro do elevador, o espaço parecia ter encolhido. Olhei para o painel de metal escovado, vendo nossos reflexos distorcidos.
— Você não precisava ter vindo, Maya — eu disse, a voz baixa. — Sei que você tem sua vida... sua namorada... suas coisas.
Maya apertou o botão do meu andar com mais força do que o necessário.
— Eu não ia deixar você sair do hospital sozinha naquele estado, Giovanna. Apesar de tudo o que aconteceu, eu ainda me importo.
— Se importar é diferente de estar presente — retruquei.
— Eu estou presente agora, não estou? — ela se virou para mim, os olhos faiscando por trás das lentes. — Eu passei a noite em claro, pensando se você ia acordar com alguma hemorragia interna que os médicos não viram. Eu trouxe a minha filha para te ver porque ela não parava de chorar perguntando se você ia ficar bem. Então, não venha me dizer que eu não estou presente.
O elevador parou com um tranco leve. As portas se abriram. Caminhamos até a minha porta e eu peguei as chaves com a mão trêmula. Maya as tirou da minha mão e abriu a porta para mim.
O apartamento estava escuro e cheirava a fechado. Maya me ajudou a sentar no sofá, ajeitando as almofadas atrás das minhas costas com uma delicadeza que me desarmava.
— Vou preparar algo para você comer antes de ir — disse ela, caminhando em direção à cozinha.
— Maya, para — eu pedi, minha voz saindo mais cansada do que eu pretendia.
Ela parou no meio da sala e se virou.
— Para com o quê?
— Com esse teatro de "boa samaritana". Ontem você me empurrou. Me disse que estava com a Mariana. Me disse que eu era sangue e que você queria paz. Então por que está aqui cuidando de mim como se ainda fôssemos... nós?
Maya baixou o olhar. Ela caminhou até a janela e abriu as cortinas, deixando a luz da tarde inundar a sala.
— Porque eu não sei não cuidar de você, Giovanna — confessou ela, ainda de costas. — É um hábito maldito que eu não consigo quebrar. Mesmo quando eu tento me convencer de que a Mariana é o que eu quero, eu vejo você se jogando na frente de um carro por mim e tudo o que eu construí na minha cabeça desmorona.
Eu me levantei com esforço, caminhando até ela. A dor era suportável agora, comparada ao vazio no peito. Parei logo atrás dela, sentindo a tensão nos ombros de Maya.
— Então para de tentar construir muros, Maya. Eles nunca funcionaram com a gente.
— A Mariana me faz sentir segura, Giovanna — ela se virou, e eu vi as lágrimas começando a se formar. — Com ela, eu sei que vou dormir e que ela vai estar lá de manhã. Com você... eu nunca sei se o telefone vai tocar às três da manhã com alguém me dizendo que você está em uma mesa de cirurgia. Ou pior.
— Esse é o preço — eu disse, dando um passo à frente, diminuindo a distância entre nós. — O preço de sentir tudo. Você prefere uma vida morna e segura, ou o incêndio que a gente tem?
Maya soltou um soluço sufocado e balançou a cabeça.
— Eu não quero mais queimar, Gi. Eu estou exausta.
Eu estendi a mão, tocando o rosto dela com as pontas dos dedos, limpando uma lágrima que teimava em cair.
— Você diz isso, mas olha para você. Você está aqui. No meu apartamento. Com a sua filha esperando no carro. Você não consegue ir embora, Maya.
Ela fechou os olhos, entregando-se ao meu toque por um breve momento. O silêncio da sala era preenchido apenas pelas nossas respirações descompassadas. Eu podia sentir a resistência dela cedendo, tijolo por tijolo.
— Eu preciso ir — sussurrou ela, embora não fizesse menção de se mover. — A Helena... a Mariana deve estar voltando de viagem hoje à noite.
— Então vai — eu disse, retirando a mão, a dor da rejeição voltando com força total. — Vai para a sua vida segura. Vai para a sua namorada estável. Mas não volta aqui para me cuidar se você não pretende ficar.
Maya me olhou com uma tristeza profunda, uma mistura de desejo e medo que eu conhecia tão bem. Ela abriu a boca para falar algo, mas o som de uma buzina lá embaixo a interrompeu. Helena estava perdendo a paciência.
— Toma os seus remédios, Giovanna — disse Maya, a voz agora recuperando a frieza profissional. — Eu vou pedir para a Larissa passar aqui mais tarde para ver se você precisa de algo.
Ela caminhou até a porta, mas parou antes de sair. Sem se virar, ela completou:
— Você salvou minha vida ontem. Eu nunca vou esquecer disso. Mas salvar uma vida não significa que você pode ser a dona dela.
A porta se fechou com um clique suave, muito diferente do estrondo da noite anterior, mas doeu exatamente da mesma forma.
Caminhei até a janela e observei o SUV prata sair do meio-fio. Vi Helena acenar da janela traseira, um pequeno gesto de carinho que foi a única coisa que me impediu de chutar a mesa de centro.
Deitei-me na cama, sentindo o cheiro de Maya que ainda pairava no ar do apartamento. Eu sabia que a Mariana era o escudo dela. Mas escudos são feitos para serem usados em batalhas, e a verdadeira guerra de Maya não era contra o crime ou contra o perigo. Era contra o que ela sentia toda vez que ouvia o meu nome.
Fechei os olhos e deixei o cansaço finalmente me levar. Eu tinha perdido a batalha de hoje, mas a guerra entre nós dois estava longe de terminar. Porque, no fundo, Maya Garcia sabia de uma coisa que ela ainda não tinha coragem de admitir: a calmaria pode ser confortável, mas é no fogo que a gente descobre de que material é feito.
E nós éramos feitas de ferro e brasa. E o ferro, por mais que tente, nunca esquece o calor que o moldou.