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Everyone is a suspect

O Peso do Chumbo e do Giz

A manhã no internato de Anakt não começou com o som do sino, mas com o eco abafado de um grito que ricocheteou pelas paredes de pedra do Bloco Leste. Era um prédio antigo, usado apenas para aulas eletivas de artes plásticas e depósitos de material de limpeza. Um lugar onde a poeira dançava nos raios de sol e o silêncio era a regra, até que um monitor do segundo ano, ao buscar cavaletes extras, abriu a porta da sala 4-B.

O que ele encontrou não foi o cenário de uma luta épica, mas a quietude perturbadora da morte.

Duas horas depois, a escola estava sob um cerco invisível. As aulas não haviam sido canceladas — a direção de Anakt prezava pela "normalidade" acima de tudo —, mas o ar estava carregado. Policiais de uniforme escuro guardavam as entradas, e investigadores de sobretudo circulavam pelos corredores, contrastando com o azul vibrante dos uniformes dos alunos.

No refeitório, o clima era de um velório tenso.

— Eles dizem que foi um dos nossos — sussurrou uma garota aleatória em uma mesa próxima, com os olhos arregalados. — Dizem que não tinha sangue. Ele só... parou.

Till, sentado em sua mesa habitual, remexia a comida com o garfo, a expressão fechada. Ele não suportava o burburinho. A cada cinco minutos, um oficial passava anotando nomes.

— Você acha que eles vão revistar os dormitórios? — perguntou Mizi, sentada à frente dele. Ela não parecia assustada, apenas genuinamente curiosa, como se estivesse assistindo a um documentário de crimes reais.

— Se revistarem, você está ferrada — respondeu Till, sem olhar para ela. — Com aquela bagunça no seu quarto, eles vão achar que houve uma luta corporal entre você e um furacão.

— Engraçadinho. Pelo menos eu não tenho desenhos de pessoas sendo decapitadas no meu caderno. Se virem o seu portfólio, você vai direto para a sala de interrogatório, "bad boy".

Till deu um sorriso de canto, seco.

— Que tentem.

Mizi olhou de soslaio para a mesa do outro lado do refeitório. Lá estavam eles: o grupo que parecia orbitar em uma galáxia diferente. Hyuna estava com a mão sobre o ombro de Luka, que parecia estar tendo um colapso interno enquanto observava um detetive anotar algo em um caderninho. Ivan estava encostado na parede, observando a movimentação com um sorriso enigmático, enquanto Sua... bem, Sua era a mesma de sempre. Ela lia um livro, a coluna reta, ignorando completamente o fato de que havia um corpo sendo retirado em um saco preto a poucos metros dali.

Mizi sentiu aquela pontada familiar de irritação. Elas dividiam o mesmo teto, respiravam o mesmo ar, e ainda assim, o abismo entre elas parecia maior do que a distância entre o refeitório e a cena do crime.

— Aquela garota é feita de gelo — murmurou Mizi, voltando-se para Till.

— Quem? A Sua? — Till deu de ombros. — Ela é irmã do Ivan. A esquisitice está no sangue.

Na mesa vizinha, a tensão era palpável de uma forma diferente. Luka ajustava os óculos a cada trinta segundos.

— Isso é um desastre logístico — murmurou Luka, a voz trêmula de indignação. — A polícia está contaminando as áreas de estudo. Como esperam que mantenhamos o cronograma para as provas de nivelamento com investigadores bloqueando o acesso à ala de química?

— Relaxa, Luka — disse Hyuna, embora seu tom fosse mais sério do que o habitual. — Alguém morreu. Acho que as provas de química podem esperar um dia.

— Mas a ordem, Hyuna! A ordem foi quebrada. — Ele apontou discretamente para um detetive que passava. — Aquele homem acabou de pisar na grama proibida do pátio interno. Ninguém pisa ali.

Ivan soltou uma risada curta, cruzando os braços.

— Talvez o assassino tenha pisado na grama também, Luka. Talvez o crime tenha sido justamente esse: desrespeitar o seu precioso regulamento.

Sua não levantou os olhos do livro, mas suas unhas cravaram levemente na capa de couro. Ivan percebeu. Ele sempre percebia.

— O que foi, maninha? — provocou Ivan, inclinando-se para frente. — O mistério está atrapalhando a sua leitura? Ou você está preocupada que a polícia descubra que você não fala com a sua colega de quarto porque tem medo de que o charme da Mizi derreta o seu coração de pedra?

Sua finalmente fechou o livro. O estalo foi como um tiro no silêncio da mesa.

— Cale a boca, Ivan — disse ela, a voz baixa e fria.

Ela se levantou, pegou sua bandeja e caminhou em direção à saída, sem olhar para trás. Hyuna suspirou, olhando para Ivan com reprovação.

— Você não consegue evitar, não é?

— É o meu passatempo favorito — respondeu Ivan, embora seus olhos seguissem a irmã com uma intensidade que sugeria algo além da simples provocação.

Enquanto isso, no andar de cima, a Detetive Sarah examinava a sala 4-B pela décima vez. O corpo já havia sido levado, mas o contorno em giz permanecia, uma mancha branca no chão de madeira escura.

— O que temos, inspetor? — perguntou ela, sem tirar os olhos da janela aberta.

— Um quebra-cabeça de peças que não se encaixam, senhora — respondeu o assistente. — A vítima é um aluno do terceiro ano. Causa provável da morte: parada cardiorrespiratória, mas aguardamos a toxicologia. O estranho são os objetos.

Ele apontou para a mesa lateral onde as evidências estavam ensacadas.

— Um celular com a tela estraçalhada, mas que ainda estava no bolso. Um caderno aberto em uma página de anotações de história, mas a vítima não cursava história. Uma caneta-tinteiro cara, gravada com iniciais que não correspondem à vítima. E este relógio.

A detetive pegou o saco plástico com o relógio. Os ponteiros estavam parados exatamente às 10:14.

— A janela estava aberta — continuou o inspetor. — Mas não há marcas de escalada. E a pegada no chão... é de um sapato padrão da escola, tamanho 40. Metade dos alunos calça 40.

Sarah suspirou. Era o crime perfeito ou o acidente mais confuso da história.

— E o bilhete?

O inspetor hesitou antes de mostrar um pequeno pedaço de papel amassado. Nele, escrito com uma caligrafia apressada, dizia apenas: *“O silêncio é a nota mais alta.”*

— Poético — ironizou a detetive. — E inútil.

As aulas da tarde continuaram sob a sombra da investigação. Mizi estava na aula de artes, mas seus olhos não saíam da porta lateral, onde policiais passavam ocasionalmente. Ela sentia um formigamento na nuca. O internato de Anakt sempre foi um lugar de segredos, mas agora, o segredo tinha um nome e um rosto que não respirava mais.

Ao final do dia, o sol se pôs tingindo os prédios de um vermelho sangrento. Mizi voltou para o dormitório, exausta. Ela abriu a porta do quarto 302 e parou.

Sua estava lá, sentada na cama, olhando para a janela. O quarto estava mergulhado na penumbra. Mizi jogou a mochila no chão, o som ecoando no vazio entre as duas. Ela queria falar. Queria perguntar o que Sua achava do que tinha acontecido. Queria saber se ela estava com medo.

Mas o acordo silencioso era uma barreira física. Mizi caminhou até sua escrivaninha e viu algo que a fez congelar.

Havia uma caneta sobre seu caderno. Uma caneta-tinteiro preta, elegante.

Mizi olhou para a caneta, depois para Sua. Sua não se moveu.

— Você viu quem deixou isso aqui? — a pergunta quase escapou dos lábios de Mizi, mas ela a engoliu.

Se ela falasse, ela perdia. Se ela falasse, o silêncio que as protegia — ou as isolava — seria quebrado.

Mizi pegou a caneta. Era pesada. No topo da tampa, havia uma pequena gravação: uma nota musical.

Do outro lado do corredor, no quarto de Ivan e Luka, a situação era oposta.

— Eu vou protocolar uma reclamação formal! — exclamava Luka, andando de um lado para o outro. — Um dos investigadores mexeu na minha coleção de réguas! Ele não as colocou de volta na ordem de milímetros!

— Luka, pelo amor de Deus, tem um assassino à solta e você está preocupado com réguas? — Ivan estava deitado, jogando uma bolinha de papel para o alto.

— A desordem atrai o caos, Ivan! Se permitirmos que pequenas regras sejam quebradas, o tecido social da escola se desfaz!

— O tecido já rasgou, meu caro — disse Ivan, sentando-se abruptamente. — Você não percebeu? A polícia não está aqui só por causa do corpo. Eles estão procurando algo. Aquele bilhete que comentaram no refeitório... "O silêncio é a nota mais alta".

Luka parou de andar.

— Como você sabe o que dizia no bilhete? A polícia não divulgou isso.

Ivan deu um sorriso lento, aquele que sempre fazia Luka sentir que estava perdendo o controle da conversa.

— Eu tenho meus métodos, Luka. E eu acho que esse semestre vai ser muito mais interessante do que o cronograma da coordenação previu.

Luka olhou para Ivan com desconfiança.

— Você é um maníaco.

— E você é um chato. Mas somos os únicos que sobraram, não é?

No pátio externo, Till estava sozinho, sentado sob a árvore mais afastada das câmeras de segurança. Ele segurava seu caderno de desenho, mas não estava desenhando. Ele olhava para a janela da sala 4-B, agora lacrada com fita amarela.

Ele levou a mão ao bolso e tirou um pequeno objeto. Um relógio de pulso, idêntico ao que a polícia havia encontrado, mas este ainda funcionava. O tique-tique metálico parecia um martelo batendo em sua têmpora.

— Merda — sussurrou ele para o vento frio.

A escola interna de Anakt dormia, ou tentava dormir. Nos dormitórios femininos, Mizi e Sua permaneciam em seus respectivos mundos, separadas por dois metros de assoalho e um oceano de coisas não ditas. Mizi guardou a caneta na gaveta, trancando-a.

Ela se deitou e fechou os olhos, mas a imagem do contorno de giz não saía de sua mente.

Quem quer que fosse o culpado, ele ainda estava ali. Ele comia no mesmo refeitório, caminhava pelos mesmos corredores e, talvez, estivesse agora mesmo deitado em uma cama idêntica à dela, ouvindo o som da própria respiração.

O internato nunca pareceu tão pequeno. E as regras, antes apenas irritantes, agora pareciam a única coisa que impedia que todos eles se destruíssem.

No escuro do quarto, Sua finalmente se moveu. Ela se virou para o lado, ficando de frente para a cama de Mizi. No silêncio absoluto, seus lábios se moveram, formando palavras que não emitiram som algum.

Um segredo compartilhado no vácuo.

A investigação estava apenas começando, e as pistas falsas eram apenas o começo de um jogo onde ninguém era verdadeiramente inocente. Em Anakt, a verdade era como a sala 4-B: trancada, empoeirada e esperando que alguém tivesse a coragem — ou a estupidez — de abrir a porta.

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