Everyone is a suspect
O Veneno na Tinta e o Vácuo no Olhar
O silêncio do internato de Anakt durante o horário das aulas era quase absoluto, quebrado apenas pelo som distante de giz batendo no quadro negro ou pelo murmúrio monótono de algum professor de história. Era o momento em que a escola se tornava um organismo vulnerável. Enquanto os alunos estavam confinados nas salas, o Bloco C — o dormitório feminino — foi invadido por passos pesados que não pertenciam a adolescentes.
A detetive Sarah liderava a equipe de busca. Ela não precisou de muito tempo. O quarto 302, dividido por Mizi e Sua, era um estudo de contrastes: um lado meticulosamente arrumado, quase estéril; o outro, um caos de roupas, fones de ouvido e cadernos abertos. Sarah dirigiu-se diretamente à escrivaninha de Mizi.
— Inspetor, verifique a gaveta de cima — ordenou Sarah, ajustando as luvas de látex.
O policial puxou a gaveta, revelando o emaranhado de pertences de Mizi. E lá estava ela. Entre um batom barato e um bloco de notas, a caneta-tinteiro preta brilhava sob a luz fluorescente. O modelo era idêntico ao encontrado na cena do crime na sala 4-B. O peso, a gravação da nota musical no topo... era uma correspondência perfeita.
— Encontramos a nossa primeira conexão sólida — murmurou Sarah, selando o objeto em um saco de evidências. — Vamos buscá-la.
Na sala de aula do segundo ano, Mizi estava distraída. Ela desenhava espirais na margem do caderno, sentindo um peso estranho no estômago. Hyuna, sentada duas fileiras atrás, observava a amiga com uma expressão preocupada. O clima na sala estava denso, e a ausência de Till, que estava em outra ala com os "veteranos" e o grupo de Luka, deixava Mizi sem sua âncora habitual de sarcasmo.
A porta da sala se abriu com um estrondo controlado. O professor parou de falar no meio de uma frase sobre a Revolução Industrial. Sarah entrou, seguida por dois policiais.
— Mizi? — A voz da detetive era fria como o mármore dos corredores. — Você precisa vir conosco agora.
Um murmúrio percorreu a sala. Hyuna se inclinou para frente, os olhos arregalados. Mizi sentiu o sangue fugir do rosto, mas antes que pudesse protestar, sentiu o toque firme de um policial em seu braço.
— O quê? Por quê? Eu não fiz nada! — Mizi exclamou, sendo puxada para fora da cadeira.
Ela não teve tempo de pegar suas coisas. Foi conduzida pelo corredor sob o olhar estupefato de outros alunos que espiavam pelas frestas das portas. A detetive não a levou para a diretoria, mas para uma sala de reuniões desativada no subsolo do prédio administrativo. Era um lugar úmido, com cheiro de papel velho e mofo. Dois guardas ficaram do lado de fora, e outros dois se posicionaram nos cantos da sala.
Mizi foi forçada a sentar-se em uma cadeira de metal aparafusada ao chão. O som das algemas prendendo seus pulsos sobre a mesa ecoou como uma sentença.
— Vamos pular as apresentações, Mizi — disse Sarah, jogando o saco de evidências sobre a mesa. A caneta deslizou até parar diante dos olhos da garota. — Encontramos isso na sua gaveta. O mesmo modelo, a mesma marca, a mesma gravação da cena do crime. Como você explica isso?
Mizi olhou para a caneta, o ódio começando a substituir o medo.
— Eu já disse ontem à noite, ou pelo menos pensei em dizer... essa coisa apareceu na minha escrivaninha! — Mizi balançou as mãos, fazendo as algemas tilintarem. — Eu cheguei no quarto e ela estava lá. Eu nem sabia de quem era!
Sarah soltou uma risada seca, sem humor.
— E você espera que eu acredite que um assassino entrou no seu quarto, deixou a arma do crime — ou pelo menos a assinatura dele — na sua gaveta e saiu sem que ninguém visse? Em um dormitório vigiado?
— Eu não estou mentindo! — gritou Mizi, inclinando-se para frente. — Por que eu guardaria algo assim se eu tivesse matado alguém? Eu não sou idiota!
— Talvez você seja arrogante — retrucou a detetive, levantando-se. — Talvez você ache que é intocável. Fique aí e pense um pouco na sua história. Ela está cheia de furos, garota.
Sarah saiu da sala, batendo a porta pesada de metal. Mizi ficou sozinha, a respiração ofegante, olhando para as próprias mãos algemadas. O ódio fervia em suas veias. Alguém a estava incriminando, e o pior de tudo era a sensação de impotência.
Enquanto isso, o sinal do intervalo tocou. Till saiu da sala de música com a guitarra nas costas, os olhos varrendo o pátio em busca da cabeleira rosa de Mizi. Ele deu três voltas pelo refeitório e nada. Onde ela estava? Mizi nunca perdia o horário do lanche.
Ele avistou Hyuna perto da fonte, cercada por Ivan, Luka e Sua. Till hesitou. Ele não gostava de falar com o "grupo dos certinhos", mas a preocupação falava mais alto.
— Ei — Till se aproximou, a voz rouca. — Cadê a Mizi?
Hyuna olhou para ele, a expressão sombria.
— A polícia levou ela, Till. No meio da aula de literatura.
Till travou.
— Levou? Pra onde? Por quê?
— Ninguém sabe ao certo — Luka interveio, ajustando os óculos com um ar de importância clínica. — Mas os boatos dizem que encontraram algo no quarto dela. Algo relacionado ao incidente na sala 4-B.
— Isso é ridículo — rosnou Till, as mãos fechando-se em punhos. — A Mizi não mataria uma mosca, a menos que a mosca a irritasse muito. Mas ela não é... ela não faria isso.
Ivan deu um sorriso de lado, observando a reação de Till.
— O amor é cego, não é, Till? Mas a justiça é cega e tem algemas.
— Cala a boca, Ivan — Till disparou, dando um passo à frente.
Sua, que até então estava em silêncio absoluto, apenas observando a grama, levantou os olhos. Havia um brilho estranho em suas pupilas, algo que ninguém conseguia decifrar. Antes que a discussão escalasse, a detetive Sarah apareceu no corredor lateral, apontando diretamente para o grupo.
— Você. Sua. Venha comigo.
Sua não hesitou. Ela fechou seu livro com a calma de quem vai para um chá da tarde e seguiu a detetive. Ivan tentou ir atrás, mas foi barrado por um policial.
Sarah levou Sua para um canto isolado do corredor, longe dos ouvidos curiosos.
— Sua, você divide o quarto com a Mizi — começou a detetive, adotando um tom mais suave, tentando ganhar a confiança da garota. — Preciso que seja honesta. Você já viu aquela caneta-tinteiro com ela antes? Alguma vez ela mencionou ter comprado ou ganhado uma?
Sua olhou para o vazio por alguns segundos. Sua voz saiu monótona, desprovida de qualquer emoção.
— Eu nunca vi a Mizi com aquela caneta.
Sarah anotou algo.
— E no dia anterior? Você notou se havia algo novo na escrivaninha dela antes de vocês dormirem? Algum movimento estranho no quarto? Alguém entrou lá enquanto você estava presente?
Sua negou com a cabeça lentamente.
— Eu não vi a caneta na escrivaninha dela ontem. E ninguém entrou no quarto.
— Tem certeza? — insistiu Sarah. — Pense bem.
— Eu não converso com a Mizi — disse Sua, com uma frieza que fez a detetive franzir a testa. — Eu não presto atenção nela. Ela é apenas um ruído de fundo no meu espaço. Se alguém entrou ou se ela trouxe algo, eu não teria notado a menos que ela batesse na minha mesa.
A detetive suspirou, frustrada. O depoimento de Sua não ajudava Mizi, mas também não a condenava definitivamente. Na verdade, ao dizer que não viu a caneta no dia anterior e que ninguém entrou, Sua involuntariamente tornava a versão de Mizi — de que a caneta "simplesmente apareceu" — ainda mais difícil de acreditar. Para a polícia, se ninguém entrou e a caneta não estava lá antes, Mizi devia estar escondendo-a o tempo todo.
As horas passaram arrastadas. Mizi permaneceu na sala de interrogatório até o cair da noite. Sem provas físicas de que ela estivera na sala 4-B no momento da morte, e sem uma causa de morte confirmada que a ligasse diretamente ao ato, a inspetora-chefe ordenou sua soltura temporária. Ela era a principal suspeita, mas não podiam mantê-la presa sem um laudo da toxicologia.
Quando Mizi finalmente voltou para o Bloco C, ela parecia um fantasma. Seus pulsos estavam vermelhos por causa das algemas e seu cabelo estava desgrenhado. Ao entrar no quarto 302, ela ignorou a presença de Sua.
Mizi foi direto para o banheiro. O som da água do chuveiro batendo no azulejo era a única coisa que abafava os soluços de raiva que ela tentava engolir. Ela se sentia suja, marcada. Ao sair, enrolada em um roupão, ela pegou o celular escondido sob o travesseiro.
Havia dezenas de mensagens de Till.
"Onde você está?" "O que aconteceu?" "Eu vou quebrar a cara daquele detetive se ele encostar em você."
Mizi começou a digitar com os dedos trêmulos.
— Eles acharam a caneta, Till — escreveu ela. — Alguém colocou lá. Eles acham que eu matei aquele cara. Eu não sei o que fazer.
Do outro lado do quarto, Sua estava sentada em sua cama, com o livro aberto no colo, mas suas páginas não viravam. Ela ouvia o som das teclas do celular de Mizi, o fungar baixo da colega de quarto. Pela primeira vez, o silêncio entre as duas não era apenas um vácuo social; era uma barreira de medo.
Sua olhou para Mizi pelo reflexo da janela. A dúvida começou a rastejar em sua mente. E se Mizi realmente tivesse feito aquilo? E se a garota barulhenta e sarcástica que dormia a poucos metros dela fosse capaz de uma violência tão silenciosa?
Sua sentiu um calafrio. Ela apertou o livro contra o peito. Ela havia dito à detetive que não prestava atenção em Mizi, mas a verdade era que ela observava cada detalhe, cada movimento, cada suspiro. E o fato de não ter visto ninguém entrar no quarto a assombrava.
Mizi desligou o celular e apagou a luz do seu lado. O escuro engoliu o quarto, mas nenhuma das duas dormiu.
— Você está acordada? — A pergunta quase saiu da boca de Mizi. Ela queria gritar, queria exigir que Sua dissesse que acreditava nela.
Mas Sua permaneceu imóvel, uma silhueta de pedra na penumbra.
O silêncio de Anakt nunca fora tão perigoso. Entre a caneta que apareceu do nada e o relógio que parou no tempo, a escola estava se tornando um labirinto onde as paredes começavam a se fechar. E no quarto 302, a desconfiança era o veneno que, lentamente, começava a matar a única coisa que ainda restava entre elas: a segurança de não estarem sozinhas.