Everyone is a suspect
O Labirinto de Vidro e a Sombra no Pátio
A detetive Sarah não era uma mulher que acreditava em coincidências, mas acreditava fervorosamente em padrões. Sentada em sua mesa improvisada, cercada por pilhas de fichas escolares e fotos de cenas de crime, ela revisava pela décima vez o dossiê de Mizi. As notas da garota eram erráticas — excelentes em artes e literatura, desastrosas em química e matemática —, mas os testes psicotécnicos e de raciocínio lógico realizados no ingresso de Anakt revelavam algo que os professores muitas vezes ignoravam devido ao comportamento rebelde: um QI excepcionalmente alto e uma capacidade de percepção espacial invejável.
— Inteligente demais para o próprio bem — murmurou Sarah, batendo a caneta no queixo. — Ou inteligente o suficiente para montar um palco onde ela é a vítima.
Ela ordenou que seus policiais mantivessem uma vigilância discreta, observando cada movimento de Mizi pelos corredores, enquanto ela mesma se preparava para uma abordagem diferente. Se Mizi fosse a assassina, Sarah a manteria por perto para ver a máscara cair. Se não fosse, ela seria a ferramenta perfeita para desvendar o que a polícia, limitada por protocolos, não conseguia ver.
Ao fim das aulas da tarde, Mizi foi interceptada novamente. Ela esperava ser levada de volta ao subsolo úmido, mas Sarah a conduziu para uma sala de conferências com janelas amplas, embora vigiada por guardas na porta.
— De novo isso? — Mizi bufou, jogando a mochila em uma cadeira. — Já disse que não tenho mais nada para confessar.
— Sente-se, Mizi — disse Sarah, sem agressividade. — Li sua ficha. Você é brilhante quando quer. E eu decidi que, em vez de perder tempo tentando provar que você é o gênio por trás disso, vou usar esse seu cérebro para algo útil.
Mizi franziu a testa, desconfiada.
— Você quer minha ajuda?
— Quero que você olhe o que eu vejo — Sarah espalhou as fotos do primeiro e do segundo crime, além das evidências coletadas. — O assassino está jogando. Ele usa símbolos. A caneta, o relógio, o bilhete, a foto. Ele quer uma narrativa.
Mizi hesitou, mas a curiosidade foi maior que o rancor. Ela se aproximou da mesa, examinando as fotos com uma intensidade felina. O silêncio durou minutos.
— O primeiro crime foi clínico — observou Mizi, apontando para o corpo na sala 4-B. — Sem sangue, apenas a parada cardíaca. A caneta e o relógio parado às 10:14. Dez e quatorze... se você olhar no mapa da escola, a sala 10 no setor 14 é o antigo depósito de música. Já o segundo crime, na cantina, foi um caos. Sangue, luta, uma faca de cozinha.
— Contrastes — pontuou Sarah.
— Não — corrigiu Mizi, os olhos brilhando. — É uma evolução. Ele está testando métodos. O primeiro foi sobre controle. O segundo foi sobre pânico. Ele não queria apenas matar a garota na cantina; ele queria que o grito dela acordasse a escola toda. Ele queria a plateia. E a foto de mim pulando a janela... ele não quer me incriminar para eu ser presa. Ele quer me incriminar para que ninguém confie em mim quando eu descobrir quem ele é.
Sarah sentiu um calafrio. A lógica de Mizi era afiada e fazia um sentido perturbador.
— Você acha que há um terceiro ato? — perguntou a detetive.
— Com certeza — Mizi se afastou da mesa, a expressão sombria. — E ele vai ser o mais barulhento de todos.
Sarah observou a garota sair. Ela ainda não estava convencida da inocência de Mizi, mas agora tinha certeza de uma coisa: a garota de cabelos rosa era a chave, fosse como salvadora ou como a peça final do tabuleiro.
Mizi caminhou de volta para o dormitório com a mente a mil por hora. As luzes dos corredores pareciam mais fracas, e cada sombra projetada pelas estátuas de pedra parecia ganhar vida. Ao chegar à porta do quarto 302, ela sentiu um cheiro metálico antes mesmo de girar a maçaneta.
Ao abrir a porta, o coração de Mizi quase parou.
Sua estava caída perto da escrivaninha, tremendo violentamente. O uniforme branco e azul estava manchado de um vermelho vivo, respingos que decoravam o tecido como uma pintura macabra. Suas mãos estavam sujas e ela segurava um estilete com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos.
— Sua! — Mizi correu até ela, o pânico tomando conta. — O que... que porra é essa? Você está ferida? Onde ele está?
Mizi tentou tocar os ombros de Sua, mas a garota recuou com um ganido de terror, levantando o estilete.
— Não encosta em mim! — gritou Sua, a voz falhando.
— Sou eu, Sua! Sou eu! — Mizi levantou as mãos, mantendo distância. — O que aconteceu?
Sua começou a soluçar, o ar escapando de seus pulmões em arfadas curtas.
— Alguém... alguém com capuz — ela começou, as palavras saindo truncadas. — Eu estava no campus, perto do prédio antigo... eu precisava de ar. Alguém apareceu atrás de mim. Luvas pretas... ele tentou me enforcar.
Mizi sentiu um aperto no próprio pescoço ao ouvir aquilo.
— Eu peguei um vaso de flores que estava no parapeito — continuou Sua, limpando o rosto com a mão suja de sangue, borrando a pele. — Eu dei na cabeça dele. Eu corri, Mizi, eu corri tanto... mas ele me pegou de novo perto da entrada lateral. Nós caímos no chão. Ele era forte, ele apertou meu pescoço de novo... eu achei que ia morrer.
Sua soltou o estilete, que caiu no chão com um som seco.
— Eu estava com isso no bolso desde ontem. Por sua causa... porque eu achei que você era perigosa. Eu tirei o estilete e enfiei na cintura dele. Eu senti o metal entrando... ele gritou e me soltou. Eu corri para cá. O sangue... o sangue é dele.
Mizi olhou para o sangue nas mãos de Sua. A realização a atingiu como um trem. O assassino tinha tentado levar Sua.
Sua, ainda tremendo, olhou para Mizi com uma dúvida dolorosa nos olhos. Com um movimento rápido e desesperado, ela se aproximou e levantou a barra da blusa do uniforme de Mizi. Ela procurava por um ferimento, por uma marca de corte na cintura que provasse que Mizi era a pessoa que ela acabara de esfaquear.
Não havia nada. A pele de Mizi estava intacta.
O estilete caiu da mão de Sua. As pernas da garota fraquejaram e ela desabou nos braços de Mizi, chorando copiosamente, um som que Mizi nunca imaginou ouvir da "Rainha do Gelo".
— Me desculpa... me desculpa, Mizi — soluçava Sua, escondendo o rosto no pescoço da colega. — Eu tive tanto medo. Eu achei que era você. Eu achei que ia morrer odiando você.
Mizi a segurou com força, sentindo o calor do corpo de Sua contra o seu. O cheiro de ferro e o tremor da garota a enchiam de uma proteção feroz.
— Está tudo bem, Sua. Eu estou aqui. Eu não vou deixar ninguém te tocar de novo.
Pouco tempo depois, a sala da detetive Sarah estava cheia novamente. Sua prestou seu depoimento, ainda em estado de choque, enquanto Ivan, que fora avisado por uma mensagem urgente de Mizi, esperava do lado fora, andando de um lado para o outro como um animal enjaulado. Quando a porta se abriu, Ivan praticamente atropelou os guardas para abraçar a irmã.
— Eu mato quem fez isso — rosnou Ivan, a voz carregada de uma fúria sombria que raramente mostrava. — Eu juro por Deus, Sua, eu vou acabar com ele.
Ele a acompanhou de volta ao dormitório, recusando-se a deixá-la sozinha por um segundo sequer. Mizi ficou para trás por alguns minutos, conversando com Sarah sobre o ataque. O fato de o assassino estar ferido mudava tudo.
— Procurem por alguém com um ferimento na lateral do abdômen — disse Mizi para a detetive. — E façam isso rápido antes que ele se esconda ou se trate sozinho.
Quando Mizi finalmente retornou ao quarto 302, Ivan já havia saído, convencido por Sua de que ela precisava descansar. Sua estava sentada na cama, usando um pijama limpo, mas ainda segurava um livro de forma mecânica, as mãos tremendo tanto que as páginas balançavam.
Mizi fechou a porta e trancou-a. Ela caminhou lentamente até a cama de Sua. A luz do abajur criava sombras longas, e o silêncio que antes era uma guerra, agora era um refúgio.
— Ei — chamou Mizi suavemente.
Sua levantou os olhos. Eles estavam vermelhos e inchados.
— Desculpa por tudo o que eu disse antes — começou Mizi, sentando-se na beira da cama de Sua. — Sobre você ser feia por dentro, ou sobre o silêncio. Eu só estava com raiva porque a polícia estava na minha cola. Tudo o que eu falei... é mentira.
Sua baixou o olhar, envergonhada.
— Eu também fui horrível. Eu desconfiei de você.
— Você tinha motivos — Mizi deu um sorriso triste. — Mas, falando sério... você é a pessoa mais longe de ser feia que eu já vi. Você só é... na sua. E eu acho que demorei para entender que seu silêncio não era arrogância, era só o seu jeito de lidar com esse lugar maluco.
Sua sentiu o rosto esquentar. A vergonha e o alívio se misturaram em seu peito. Mizi a achava bonita? A garota que ela ignorou por meses estava ali, sendo seu único porto seguro.
— Você é muito barulhenta, Mizi — murmurou Sua, com um vestígio de sorriso.
— E você é muito fofa quando está com vergonha — rebateu Mizi, aproximando-se.
O espaço entre elas diminuiu. A tensão da morte e do medo que pairava sobre Anakt pareceu desaparecer por um instante, substituída por uma necessidade urgente de conexão. Mizi inclinou-se e selou seus lábios nos de Sua. Foi um beijo suave, com gosto de promessa e alívio. Sua correspondeu, segurando a gola do pijama de Mizi como se temesse que, se a soltasse, o mundo lá fora a engoliria.
Enquanto isso, no Bloco A, Till não conseguia fechar os olhos. O quarto que dividia com a garota aleatória parecia sufocante. Ele pegou seu caderno de desenho e um lápis, saindo furtivamente para o corredor. Ele sabia que era proibido estar fora após o horário, especialmente com um assassino à solta, mas o silêncio do corredor o ajudava a pensar.
Ele se sentou no chão, encostado na parede fria, perto de uma das grandes janelas que davam para o pátio interno. O carvão deslizava pelo papel, criando formas abstratas e sombrias.
De repente, Till parou.
Ele sentiu um arrepio na espinha. Um movimento no final do corredor, perto das sombras da escadaria. Ele apertou os olhos. Havia alguém ali. Uma silhueta alta, parada, observando-o. A luz da lua, filtrada pelos vitrais, revelou apenas um detalhe: um coque de cabelo preto, perfeitamente alinhado, e um brilho de óculos que refletia a luz de forma sinistra.
Till sentiu o coração martelar nas costelas. A figura não se moveu, apenas ficou lá, como um predador avaliando a presa.
— Quem está aí? — perguntou Till, a voz saindo mais trêmula do que ele gostaria.
A figura deu um passo para trás, desaparecendo na escuridão da escada. Till não esperou para ver se ela voltaria. Ele juntou suas coisas e correu de volta para o dormitório, o som de seus próprios passos ecoando como tiros no corredor vazio. Ele entrou no quarto, trancou a porta e encostou-se nela, tentando recuperar o fôlego.
Ele pegou o celular e mandou uma mensagem para Mizi.
"Acho que vi alguém. No corredor do Bloco A. Fique trancada. Não saia por nada."
No quarto 302, o celular de Mizi vibrou sobre a escrivaninha, mas ela não ouviu.
Mizi estava deitada na cama de Sua. Elas estavam abraçadas, em uma conchinha apertada onde Sua era a parte menor, protegida pelos braços de Mizi. O calor uma da outra era a única barreira contra o frio de Anakt. Pela primeira vez em meses, o quarto 302 não estava em silêncio por causa de um acordo de indiferença, mas sim porque as palavras não eram mais necessárias.
Lá fora, a sombra com o coque preto caminhava calmamente pelos túneis de manutenção, segurando o lado esquerdo da cintura onde o sangue ainda escorria, manchando a camisa branca sob o uniforme impecável. O jogo estava longe de terminar, e o terceiro ato prometia ser exatamente como Mizi previra: inesquecível.