Everyone is a suspect
O Labirinto de Vidro e a Sombra no Pátio
O silêncio da madrugada em Anakt não era um silêncio de paz; era uma pressão nos ouvidos, o peso de séculos de pedras frias e segredos guardados sob o tapete. Eram exatamente três horas da manhã quando o ar foi rasgado por um grito. Não foi um grito curto ou abafado. Foi um som visceral, agudo, que subiu pelas tubulações dos dormitórios e arrancou cada aluno de seu sono com a violência de um choque elétrico.
Em questão de segundos, o Bloco C e o Bloco A se tornaram colmeias em pânico. Portas batiam, pés descalços corriam pelo mármore e lanternas de celulares cortavam a escuridão como sabres de luz frenéticos.
— O que foi isso? — gritou uma voz anônima no corredor.
— Veio da cantina! — respondeu outra.
A cena no pátio central era um pesadelo em tecnicolor. Debaixo das luzes de segurança que piscavam, dezenas de alunos de pijamas coloridos, rostos pálidos e descabelados, se aglomeravam nas janelas de vidro da cantina. Lá dentro, o cenário era o oposto da ordem maníaca de Anakt. Mesas estavam viradas, cadeiras de metal jaziam espalhadas como se um furacão tivesse passado por ali. E, no centro do caos, caída sobre o piso quadriculado, estava uma aluna do segundo ano.
O sangue formava uma auréola escura ao redor de seu corpo. Uma faca de cozinha estava cravada profundamente em seu peito, exatamente sobre o coração. Mas o detalhe mais perturbador era o pescoço da garota: marcas roxas e profundas de enforcamento, causadas por um fio fino, talvez náilon ou corda de piano, que ainda deixava um sulco avermelhado na pele alva.
— Afastem-se! Todos vocês, voltem para os quartos agora! — a voz da Detetive Sarah ecoou, autoritária, enquanto ela e uma equipe de policiais abriam caminho pela multidão de adolescentes aterrorizados.
Sarah olhou para o corpo, sentindo uma pontada de frustração. Dois crimes em menos de quarenta e oito horas. Ela se virou para o inspetor.
— Isolem a área. Não deixem ninguém tocar em nada. Eu preciso verificar uma coisa. Agora!
Sarah não esperou resposta. Ela correu em direção ao dormitório feminino, subindo as escadas de dois em dois degraus. Sua mente trabalhava rápido. Se Mizi fosse a assassina, ela teria tido tempo de voltar? Ela estaria fingindo sono?
Ao chegar à porta do quarto 302, a detetive entrou sem bater. A luz já estava acesa. Sua estava sentada na beira da cama, com as mãos entrelaçadas, tremendo levemente. Mizi estava em pé, perto da janela, com o rosto colado ao vidro, tentando ver o movimento lá embaixo. Ela usava um pijama de flanela amassado e parecia genuinamente em choque.
— Mizi! — Sarah exclamou, recuperando o fôlego. — Você saiu deste quarto nos últimos vinte minutos?
Mizi virou-se, os olhos arregalados.
— O quê? Não! Eu acordei com o grito! Eu estava dormindo até... até aquela coisa horrível acontecer. O que houve lá embaixo? É verdade que alguém morreu de novo?
Sarah ignorou a pergunta e olhou para Sua, que permanecia imóvel.
— Sua, você é a colega de quarto dela. Seja precisa. A Mizi saiu daqui em algum momento da noite?
Sua levantou os olhos, a expressão melancólica dando lugar a um medo palpável.
— Não — disse ela, a voz baixa, mas firme. — Eu perco o sono com facilidade. Eu estava acordada, apenas deitada no escuro. Quando o grito aconteceu, a Mizi deu um pulo da cama. Ela estava aqui o tempo todo.
Sarah cerrou os dentes. O álibi de Sua era forte. Se Mizi não saiu do quarto, ela não poderia ter matado a garota na cantina. Pelo menos não fisicamente. Mas a detetive ainda sentia que algo estava errado. A caneta na gaveta não fora uma coincidência.
No dia seguinte, a escola tentou, de forma doentia, manter a normalidade. O refeitório foi limpo, as mesas desviradas, e o cheiro de desinfetante industrial tentava, sem sucesso, mascarar o cheiro de ferro do sangue. Os alunos comiam em silêncio, trocando olhares de pura paranoia.
Sarah estava em sua sala improvisada, cercada pelas evidências: a caneta-tinteiro, a faca retirada do peito da vítima, o bilhete com a letra elegante e, agora, o celular da segunda vítima, que os técnicos tinham acabado de desbloquear.
— Inspetor, veja isso — Sarah chamou, apontando para a tela do aparelho.
Na galeria de fotos, a imagem mais recente não era um selfie ou uma foto de comida. Era uma fotografia granulada, tirada de longe, mostrando uma garota de cabelos rosa pulando a janela do primeiro andar do Bloco Leste.
— É a Mizi — disse o inspetor. — A foto é de meses atrás, pelo ângulo do sol e as folhas nas árvores.
— O assassino enviou isso para a vítima na madrugada — Sarah deduziu, analisando os metadados. — Ele apagou as mensagens, mas deixou a foto. Ele queria que a garota fosse até a cantina pensando que tinha provas contra a Mizi. Ele atraiu a vítima para uma armadilha usando a Mizi como isca.
A detetive não esperou. Ela cruzou o pátio durante o intervalo e interceptou Mizi, que estava sentada com Till. Sem palavras, ela a arrastou novamente para a sala de interrogatório, algemando-a à mesa.
— Explique isso — Sarah jogou o celular à frente de Mizi, exibindo a foto.
Mizi olhou para a imagem e sentiu o mundo girar.
— Isso... isso foi no semestre passado — gaguejou Mizi. — Eu estava matando a aula de química. Eu pulei a janela para ir até a cidade comprar doces. Todo mundo faz isso!
— Mas o assassino tirou essa foto, Mizi. Ele guardou isso por meses. E ele usou essa foto para atrair uma colega sua para a morte, fazendo-a acreditar que você era a pessoa na cena do crime original. Como eu vou saber que você não está apenas limpando os rastros de quem descobriu seu segredo?
Mizi bateu com as mãos algemadas na mesa, o som metálico cortando o ar.
— Escute aqui, Detetive "Inteligente"! — Mizi gritou, os olhos faiscando. — Se eu fosse a assassina e tivesse essa foto, eu teria apagado ela do celular da garota depois de matá-la! Por que eu deixaria a única prova que me liga à cena do crime no bolso da vítima?
Sarah parou. Ela piscou, processando a lógica direta de Mizi.
— Além disso — continuou Mizi, recuperando o fôlego —, olhe para a foto de novo. A pessoa que tirou essa foto estava no telhado do prédio de manutenção. Para chegar lá, você precisa de uma chave mestra ou ser muito bom em escalada. Eu peso 50 quilos e odeio altura. Eu pulo janelas, eu não escalo telhados para tirar fotos de mim mesma!
Sarah recuou um passo. Mizi tinha razão. A foto era uma armadilha óbvia, feita para que a polícia focasse nela enquanto o verdadeiro culpado observava das sombras.
— Você está livre por enquanto, Mizi — disse Sarah, soltando as algemas. — Mas não saia da escola.
Mizi saiu da sala furiosa. Ela encontrou seu grupo perto da biblioteca. Till correu até ela, mas Hyuna, Luka, Ivan e Sua estavam logo atrás, ouvindo cada palavra. Mizi contou tudo — a foto, a armadilha, a acusação.
— Então alguém está tentando te transformar no monstro da história? — perguntou Hyuna, cruzando os braços.
— Parece que sim — disse Mizi, olhando para Sua.
Sua deu um passo para trás, o rosto mais pálido do que o normal. O medo em seus olhos era genuíno, quase paralisante.
Naquela noite, o quarto 302 estava mais frio do que nunca. Mizi estava deitada, encarando o teto, quando ouviu um ruído vindo do outro lado do quarto. Sua estava encolhida em sua cama, enrolada nos lençóis até o queixo.
— Mizi? — A voz de Sua quebrou o silêncio de dias. Era trêmula, pequena.
Mizi não respondeu de imediato. O coração disparou.
— O que foi? — perguntou Mizi, seca.
— Você... você não vai me matar, vai? — A pergunta de Sua foi como um soco. Havia um pavor real ali, uma desconfiança que ia além do acordo de silêncio.
Mizi sentou-se na cama abruptamente, a raiva transbordando.
— O quê? Você está falando sério, Sua? Você realmente acha que eu sou uma assassina? Depois de tudo o que eu passei hoje?
— Tudo aponta para você! — Sua retrucou, a voz subindo de tom pela primeira vez. — A caneta, a foto... ninguém entra aqui, Mizi! Como eu vou saber se você não está escondendo uma faca debaixo desse travesseiro?
— Ah, claro! Porque eu sou a "barulhenta", a "esquisita", a que não segue as regras, né? — Mizi levantou-se e começou a andar pelo quarto. — E você? Você é a perfeita, a boneca de porcelana que não fala, não sente e não reage! Sabe o que eu acho? Esse seu jeito melancólico, essa sua cara de quem está sempre em um funeral... isso é que é bizarro! Você é mais feia por dentro do que esse silêncio ridículo faz parecer!
— Pelo menos eu não sou uma criminosa! — gritou Sua, as lágrimas começando a rolar. — Eu tenho medo de fechar os olhos e não acordar porque você decidiu que eu sou o próximo alvo!
— Pois fique com seu medo! — Mizi chutou a própria mochila. — Eu preferia dividir o quarto com o assassino de verdade do que com alguém tão covarde quanto você!
Mizi apagou a luz com um tapa violento no interruptor. O silêncio voltou, mas agora estava quebrado pelo choro abafado de Sua e pela respiração pesada de Mizi. A ponte entre elas, que nunca fora construída, agora estava em ruínas.
Enquanto isso, na sala de segurança, a Detetive Sarah recebia uma nova informação. Um investigador entrou com uma pasta.
— Encontramos a origem da letra do bilhete, senhora. Batia com os arquivos da escola. Pertence a um aluno chamado Kael, do primeiro ano.
Sarah foi até a cela temporária onde o garoto estava sendo mantido. Kael era um jovem magro, que parecia prestes a desmaiar de pavor.
— Eu não fiz nada! — ele chorou antes mesmo de Sarah abrir a boca. — Um número desconhecido me mandou uma mensagem dez dias atrás! Eles disseram que me pagariam se eu escrevesse aquela frase em um papel e deixasse na sala de física na madrugada.
— E você simplesmente fez? — perguntou Sarah, incrédula.
— Eu precisava do dinheiro para pagar uma dívida na cantina! Eu fui lá, deixei o papel, peguei o envelope com o dinheiro e saí correndo. Eu nem vi quem era! Eu juro, eu não matei ninguém!
Sarah suspirou, esfregando as têmporas. O assassino era um mestre em marionetes. Ele usava a ganância de uns, o passado de outros e o medo de todos para tecer uma teia onde ele permanecia invisível.
Mizi ainda era a peça central, a culpada perfeita. Mas, enquanto a escola mergulhava em mais uma noite de terror, uma coisa ficava clara: em Anakt, as regras não serviam para proteger os alunos. Elas serviam apenas para garantir que, quando o lobo atacasse, as ovelhas estivessem bem organizadas e fáceis de encontrar.
E no quarto 302, a maior tragédia não era a morte que rondava os corredores, mas o fato de que, no momento em que mais precisavam uma da outra, Mizi e Sua nunca estiveram tão sozinhas.