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O Eco das Chupetas e o Rugido do Leão
A sala de estar da mansão Haaland estava mergulhada em um silêncio raro, quebrado apenas pelo som rítmico de Erling batendo uma caneta contra o joelho. Ele estava sentado no sofá de couro, cercado por álbuns de fotos físicos que Maria insistira em imprimir ao longo dos anos. Ao seu lado, as trigêmeas — agora adolescentes que mal cabiam no abraço do pai sem reclamar do penteado — olhavam as imagens com uma mistura de vergonha e ternura.
— Olhem para isso — disse Erling, apontando para uma foto granulada. — Vocês três pareciam três pequenos pães de batata loiros.
— Pai, por favor, eu estava usando um chapéu de sapo — resmungou Astrid, tentando fechar o álbum. — Isso é humilhante. O Liam nunca pode ver isso.
— Humilhante? — Erling fingiu indignação, seu peito estufando como se estivesse prestes a entrar em campo. — Isso foi o auge da moda infantil norueguesa! Mas o que me impressiona não é o chapéu. É o silêncio. Vocês se lembram de quando a única palavra que sabiam dizer era "Papai"?
Maria, que trazia uma bandeja com chocolate quente, soltou uma risada cristalina.
— "Papai"? Erling, você tem uma memória muito seletiva. Elas não diziam "Papai". Elas gritavam "Papai" como se estivessem convocando um exército para a guerra toda vez que queriam um biscoito.
— Eu me lembro da primeira vez — disse Ingrid, a voz mais suave, os olhos fixos em uma foto onde ela segurava o dedo mindinho de Erling. — Eu lembro que o mundo parecia muito alto, e você era como uma montanha que se abaixava para me ouvir.
Erling encostou a cabeça no sofá, fechando os olhos por um segundo. As memórias começaram a fluir, não como estatísticas de gols, mas como fragmentos de uma vida que passara rápido demais.
— Foi em um domingo de folga — começou Erling, sua voz assumindo aquele tom de contador de histórias que ele só usava com elas. — Vocês tinham pouco mais de um ano. Eu estava tentando ensinar vocês a chutar uma bola de pelúcia no tapete, mas vocês estavam mais interessadas em morder as minhas caneleiras.
— Eu lembro desse dia — Maria interveio, sentando-se no braço do sofá. — Eu estava na cozinha e, de repente, ouvi um som que não era choro, nem risada. Era uma sílaba perfeita.
— Foi a Ingrid — Erling sorriu, a lembrança brilhando em seus olhos. — Ela parou de morder a bola, olhou para mim com aqueles olhos azuis enormes, apontou para o meu nariz e disse: "Pa-pai".
— "Pa-pai!" — repetiu Ingrid no presente, imitando a voz de bebê, o que fez suas irmãs rirem.
— E no segundo seguinte — continuou Erling —, foi como um efeito dominó tático. Freya, que estava ocupada tentando escalar o sofá, parou no meio do caminho, olhou para a Ingrid, olhou para mim e soltou um "Pa-pa!" tão alto que o cachorro do vizinho deve ter ouvido.
— Eu sempre fui a mais barulhenta — admitiu Freya, dando um gole no chocolate quente.
— E a Astrid? — perguntou Liam, que havia entrado na sala silenciosamente e agora observava a cena da porta, fascinado pela vulnerabilidade do sogro.
Erling não se incomodou com a presença do genro. Naquele momento, ele estava em paz.
— A Astrid — Erling riu, balançando a cabeça — não disse apenas "Papai". Ela esperou até eu pegar as outras duas no colo. Ela ficou de pé, cambaleando, cruzou os bracinhos minúsculos e gritou: "MEU PA-PAI!". Foi a primeira vez que eu entendi que teria que lidar com crises de ciúmes pelo resto da minha vida.
— "Meu Pa-pai!" — Astrid repetiu, a voz carregada de nostalgia. — Eu acho que eu já sabia que teria que lutar por atenção com essas duas desde cedo.
— O problema — disse Maria, olhando para Erling com um olhar cúmplice — é que, depois que elas aprenderam a palavra, elas descobriram o poder que tinham sobre você.
— É verdade — admitiu o gigante. — Eu podia enfrentar os zagueiros mais violentos da Europa, mas se uma dessas três puxasse a minha calça e dissesse "Papai, fome", eu corria para a cozinha como se estivesse disputando uma final de Champions.
— Vocês se lembram de quando o papai tentou nos levar para o treino e a gente não parava de gritar "Papai" na beira do campo? — perguntou Ingrid para as irmãs.
— Oh, Deus — Erling cobriu o rosto com as mãos. — O treinador teve que parar a atividade. Toda vez que eu tocava na bola, vocês três começavam um coro: "Papai! Papai! Papai!". Os rapazes do time não me deixaram esquecer disso por meses. O Jack Grealish até hoje me chama de "Papai" quando quer me irritar.
— Mas era a nossa forma de torcer — defendeu-se Freya. — Para o mundo, você era o artilheiro. Para nós, você era apenas o homem que fazia as melhores panquecas e que sempre tinha espaço no colo, não importa o quão cansado estivesse.
O clima na sala tornou-se denso de afeto. Os namorados, que agora estavam todos ali, ouvindo as histórias, sentiram um respeito renovado por Erling. Eles viam que a superproteção dele não vinha de um desejo de controle, mas de uma memória profunda de quando ele era o centro do universo daquelas três meninas.
— Às vezes — disse Erling, olhando para os três rapazes — eu fecho os olhos e ainda ouço aquele som. Aquelas vozes fininhas chamando por mim no meio da noite porque tinham tido um pesadelo ou porque queriam água.
— E agora — disse Astrid, aproximando-se do pai e encostando a cabeça em seu ombro — nós chamamos você para pedir as chaves do carro ou para reclamar que você está sendo chato com os nossos namorados.
— A terminologia mudou — Erling suspirou, passando o braço ao redor dela —, mas o som ainda é o mesmo para mim. Quando vocês dizem "Pai", eu ainda sinto a mesma necessidade de proteger a área que sentia quando vocês eram bebês.
— Você se lembra daquela vez em que a gente se perdeu no shopping por cinco minutos? — perguntou Ingrid.
— Cinco minutos? — Erling exclamou. — Foram os trezentos segundos mais longos da minha vida! Eu quase acionei a Interpol. E quando eu finalmente encontrei vocês três sentadas perto da fonte, o que vocês fizeram?
— Nós olhamos para você e dissemos em uníssono: "Papai demorou" — riu Freya.
— Exatamente! — Erling apontou para ela. — Nenhuma lágrima. Nenhum medo. Vocês sabiam que eu ia aparecer. Vocês tinham essa confiança absoluta de que o "Papai" sempre resolve o problema.
— E você sempre resolve — disse Maria, suavemente. — Mesmo quando o problema é aceitar que elas não precisam mais que você segure a mão delas para atravessar a rua.
Erling olhou para as mãos das filhas. Elas não eram mais as mãos gordinhas que se agarravam aos seus dedos. Eram mãos que agora usavam anéis, que digitavam mensagens rápidas, que seguravam as mãos de outros rapazes.
— Eu acho — começou Erling, sua voz vibrando com uma sinceridade que silenciou a sala — que o meu maior medo não é que vocês parem de me chamar de "Papai". Meu medo é que um dia vocês não precisem mais dizer essa palavra com a mesma urgência.
— Pai — disse Ingrid, pegando a mão dele e apertando-a firme —, a urgência mudou, mas a importância não.
— É — concordou Astrid. — Pode ser que a gente não grite mais no meio do shopping, mas toda vez que a vida fica difícil, ou que a gente marca um "gol" importante nas nossas vidas, a primeira pessoa para quem a gente quer correr e gritar "Papai" ainda é você.
Freya levantou-se e sentou-se do outro lado de Erling, de modo que o gigante ficou cercado pelas suas três "leoas".
— Sabe, pai — disse ela —, o Thomas me perguntou outro dia por que eu ainda peço a sua opinião sobre tudo, desde a faculdade até que tênis comprar.
— E o que você disse? — perguntou Erling, curioso.
— Eu disse a ele que, não importa o quanto eu cresça, o som da sua voz dizendo "Tudo bem, pequena" é o único que realmente faz o meu mundo entrar nos eixos. Para mim, você sempre vai ser o "Pa-pai" do tapete da sala.
Erling sentiu um nó na garganta. Ele olhou para Maria, que tinha lágrimas nos olhos, e depois para os namorados, que observavam a cena com uma reverência silenciosa.
— Tudo bem — disse Erling, tentando recuperar sua compostura de viking. — Chega de sentimentalismo tático. O tempo de jogo da nostalgia acabou.
— Ah, não! — protestou Astrid. — Tem uma foto aqui de quando você tentou trocar as nossas fraldas ao mesmo tempo e acabou coberto de talco!
— Essa foto foi destruída por ordens superiores! — Erling tentou pegar o álbum, mas as três irmãs foram mais rápidas, levantando-se e correndo para o outro lado da sala, rindo alto.
— "Papai! Papai! Olha o pó de mico!" — gritou Freya, lembrando de uma brincadeira antiga.
— Parem com isso! — Erling levantou-se, fingindo estar bravo, mas o sorriso em seu rosto entregava tudo. — Eu sou um atleta profissional! Eu tenho uma imagem a zelar!
— Você é o nosso Papai! — gritou Astrid, correndo em volta da mesa de centro. — E o Papai de talco é a nossa imagem favorita!
A perseguição começou. Erling, com suas pernas longas, fingia que não conseguia alcançá-las, enquanto as trigêmeas corriam e gritavam, exatamente como faziam dez anos atrás. O som de "Papai! Papai!" ecoava pela mansão, preenchendo cada canto com uma alegria que nenhum troféu poderia proporcionar.
Maria e os namorados observavam a cena, rindo.
— Ele nunca vai ganhar essa partida, não é? — perguntou Liam para Maria.
— Ele já ganhou, Liam — respondeu Maria, observando o marido finalmente "capturar" as três em um abraço coletivo no meio do tapete. — No momento em que elas disseram aquela primeira palavra, ele ganhou o campeonato mais importante da vida dele.
No chão da sala, ofegantes de tanto rir, Erling e as filhas formavam um emaranhado de braços e pernas. O gigante olhou para as três e, por um momento, as adolescentes desapareceram. Ele viu novamente as três bolinhas loiras, os chapéus de sapo, as camisas de futebol gigantes e as vozes fininhas que mudaram o seu mundo.
— Eu amo vocês — sussurrou Erling, beijando o topo da cabeça de cada uma.
— A gente também te ama, Papai — responderam as três, quase em uníssono, a palavra soando tão doce e poderosa quanto na primeira vez.
A noite em Manchester continuou, mas dentro daquela casa, o tempo parecia ter parado. O rugido do leão norueguês havia se tornado um ronronar de satisfação. Ele sabia que elas cresceriam, que o mundo as levaria para longe, mas o eco daquelas vozes chamando por ele seria a trilha sonora eterna de sua vida.
E, enquanto elas ainda o chamassem de "Papai", Erling Haaland sabia que, não importa o placar lá fora, ele sempre seria o capitão do time mais vitorioso do mundo.
— Agora — disse Erling, levantando-se e limpando o terno —, quem quer ver o vídeo de quando a Astrid tentou comer a grama do estádio?
— PAI! — o grito de protesto foi unânime, mas o sorriso no rosto de Erling era de pura e absoluta vitória.
O jogo da vida continuava, e o placar, para o Papai Haaland, nunca esteve tão favorável.