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O Primeiro Derby do Coração

A manhã de domingo na residência Haaland começou com um silêncio suspeito, daqueles que Erling aprendeu a temer mais do que uma marcação individual de dois zagueiros na grande área. Geralmente, o som de discussões sobre quem usaria o secador de cabelo primeiro ou a batida rítmica de uma bola de futebol no jardim serviam como o despertador da casa. Mas hoje, o corredor estava deserto.

Erling desceu para a cozinha, onde Maria já servia o café. Ela tinha um brilho divertido nos olhos, o que geralmente significava que ela sabia de algo que ele ainda não tinha processado.

— Elas ainda estão dormindo? — perguntou ele, servindo-se de um copo de leite com uma precisão quase mecânica.

— Estão em "conclave" no quarto da Ingrid — Maria respondeu, apoiando-se no balcão. — Parece que o passeio de ontem rendeu mais do que apenas pipoca murcha e sustos com seguranças.

— Eu sabia — Erling murmurou, sentando-se à mesa. — Eu senti uma perturbação na força ontem à noite. Aquele garoto da camisa apertada... ele tem cara de quem causa problemas táticos.

— O problema não são os meninos, Erling. O problema é que a Ingrid e a Astrid estão em pé de guerra.

Antes que ele pudesse perguntar o motivo, o som de passos pesados ecoou na escada. Ingrid entrou na cozinha como uma tempestade nórdica, o rosto vermelho de indignação. Ela ignorou os pais, foi direto para a geladeira e pegou uma garrafa de água, batendo a porta com força excessiva.

— Ele é um traidor! — exclamou Ingrid, virando-se para os pais. — Um vira-folha! Um oportunista!

— Quem? O primeiro-ministro? — brincou Erling, tentando aliviar o clima.

— O Liam! O "amigo" da Astrid! — Ingrid gesticulou freneticamente. — Vocês sabem o que ele postou hoje de manhã? Uma foto com a camisa do United! Do United, pai!

O copo de leite de Erling parou a meio caminho da boca. O ar na cozinha pareceu esfriar dez graus. Maria cobriu o rosto com as mãos, já prevendo o desastre. Se havia uma coisa que não era negociável naquela casa, além da hora de dormir e do consumo de proteína, era a lealdade clubística.

— Na minha casa? — Erling perguntou, a voz subindo uma oitava. — Um "Red Devil" frequentando a minha sala? Usando o meu Wi-Fi? Comendo a minha comida?

— Ele não comeu a sua comida, Erling, ele só foi ao cinema — Maria tentou intervir, mas foi atropelada pela entrada de Astrid, que vinha logo atrás da irmã, usando fones de ouvido e uma expressão de tédio absoluto.

— Ele tem direito à liberdade de expressão, Ingrid — Astrid disse, pegando uma maçã. — O pai dele é de Londres, a família toda torce para o United. O que você queria? Que ele mudasse de religião por causa de um encontro?

— É uma questão de princípios! — Ingrid rebateu. — Como você pode sair com alguém que celebra quando o papai perde um clássico? Imagine os jantares de Natal! Imagine a traição!

— Eu não estou planejando me casar com ele, sua dramática! — Astrid revirou os olhos. — E, para sua informação, ele disse que o papai é "tecnicamente bom", mas que o estilo de jogo dele é muito previsível.

Erling engasgou com o leite. Ele se levantou, sua estatura de quase dois metros projetando uma sombra intimidadora sobre a mesa de café da manhã.

— Previsível? — ele repetiu, a voz perigosamente calma. — Ele disse que eu sou previsível? O garoto que não consegue escolher uma camisa do tamanho certo para o próprio corpo está fazendo análise técnica sobre o maior artilheiro da Premier League?

— Viu o que você fez? — Freya apareceu na porta, sendo a única que parecia ter tido uma noite de sono decente. — Agora o papai vai entrar em modo de combate. Parabéns, Astrid.

— Eu só estou dizendo a verdade — Astrid deu de ombros, embora um sorrisinho de canto de boca revelasse que ela estava adorando provocar o pai. — Ele disse que se o United tivesse um sistema de marcação por zona mais eficiente, você não teria tocado na bola no último derby.

— Maria, onde estão as minhas chuteiras? — Erling perguntou, olhando para a esposa com uma seriedade assustadora. — Eu preciso organizar um jogo beneficente. Agora. E eu preciso que esse Liam seja o zagueiro central do time adversário.

— Você não vai organizar um jogo para atropelar um adolescente de quinze anos, Erling — Maria disse, levantando-se e colocando as mãos no peito do marido para impedi-lo de sair correndo. — Meninas, chega. Ingrid, pare de pilhar o seu pai. Astrid, pare de inventar críticas técnicas só para irritar ele.

— Eu não inventei! — Astrid protestou. — Ele realmente disse isso. E ele disse que o cabelo do papai parece um rabo de cavalo de um pônei norueguês.

— Ok, agora é pessoal — Erling declarou, cruzando os braços. — Freya, o seu namorado... o loirinho que parece que vai desmaiar... de que time ele é?

Freya hesitou. Ela olhou para as irmãs, buscando apoio, mas Ingrid estava ocupada demais bufando e Astrid estava focada na sua maçã.

— Ele... ele gosta de críquete, pai.

— Críquete? — Erling franziu a testa. — Isso é aceitável. É neutro. É um esporte de cavalheiros que ficam parados no sol. Ele pode ficar. Mas o "Red Devil" da Astrid está na lista negra.

— Isso é injusto! — Astrid gritou. — A Ingrid está saindo com o filho do assistente técnico do City, isso é basicamente nepotismo! Ela só quer garantir ingressos VIP para o resto da vida!

— Pelo menos eu tenho bom gosto! — Ingrid retrucou. — O Oliver entende de tática. Ele me deu uma análise de desempenho da minha última partida na escola. Ele me valoriza como atleta!

— Ele só quer que você peça para o papai autografar a camisa dele, Ingrid, acorda! — Astrid riu.

A discussão escalou rapidamente. As três começaram a falar ao mesmo tempo, uma cacofonia de acusações sobre roupas emprestadas, curtidas em fotos do Instagram e lealdades esportivas. Erling olhava de uma para a outra, sentindo-se como se estivesse no meio de um rondo de aquecimento onde ele era o bobinho e a bola passava por cima da sua cabeça em uma velocidade impossível de acompanhar.

— SILÊNCIO! — Erling rugiu.

O silêncio foi instantâneo. Até o cachorro da família, que estava dormindo no canto, levantou a cabeça.

— Nós vamos resolver isso como atletas — declarou o pai. — Hoje à tarde. No campo do jardim. Um torneio de pênaltis. Se a Astrid vencer, o namorado dela pode continuar vindo aqui, mas ele terá que usar uma camisa neutra e nunca, jamais, falar sobre o meu cabelo. Se a Ingrid vencer, ela ganha o gloss que a Astrid pegou e o direito de escolher o filme da próxima sexta.

— E se a Freya vencer? — Maria perguntou, achando graça da proposta.

— Se a Freya vencer, o namorado dela tem que vir aqui e me explicar as regras do críquete, porque eu ainda não entendo como aquele jogo dura cinco dias e termina em empate.

As três irmãs se entreolharam. O espírito competitivo, herdado diretamente do DNA viking do pai, brilhou em seus olhos azuis.

— Fechado — disseram as três em uníssono.

O resto da manhã foi uma preparação intensa. As meninas subiram para trocar de roupa, colocando seus uniformes de treino. Erling, por outro lado, foi para o jardim preparar o "estádio". Ele mediu a distância da marca do pênalti com passos precisos, limpou as traves e selecionou as melhores bolas.

Maria observava da varanda, bebendo seu chá. Ela sabia que aquilo era a maneira de Erling lidar com o fato de que suas filhas estavam se tornando mulheres com vontades próprias. Ele não podia impedir o mundo de entrar na vida delas, mas podia garantir que, dentro dos muros daquela casa, as regras ainda eram as dele.

Às três da tarde, a competição começou. Erling estava no gol, parecendo uma parede intransponível de músculos e reflexos.

— Vamos lá, Ingrid! — ele gritou. — Mostre que o sangue Haaland corre nessas veias!

Ingrid foi a primeira. Ela se posicionou com uma confiança inabalável. O chute foi forte, rasteiro, no canto esquerdo. Erling se esticou todo, mas a bola beijou a rede.

— Gol! — Ingrid comemorou, fazendo a celebração de meditação do pai, o que o fez rir orgulhoso.

Freya foi a próxima. Ela era a mais técnica das três, preferindo a precisão à força. Ela olhou para um lado e chutou para o outro, deslocando o pai completamente.

— Classe pura! — Erling elogiou, batendo palmas.

Então, foi a vez de Astrid. Ela caminhou até a bola com um olhar desafiador. Ela sabia que o pai não facilitaria para ela, especialmente depois dos comentários sobre o United e o "pônei norueguês".

— Prepare-se para a derrota, "primeiro-ministro" — disse ela.

— Venha com tudo, pequena rebelde.

Astrid tomou distância. Ela correu para a bola, mas no último segundo, fez uma cavadinha audaciosa. A bola subiu suavemente, descrevendo um arco perfeito sobre as mãos estendidas de Erling, que já tinha mergulhado para o lado. A bola caiu mansamente dentro do gol.

O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo som da bola quicando na grama. Erling ficou deitado no chão por um momento, olhando para o céu de Manchester.

— Uma Panenka? — ele murmurou, incrédulo. — Você teve a audácia de fazer uma Panenka no seu próprio pai?

Astrid estava com as mãos na cintura, um sorriso vitorioso no rosto.

— Previsível, não é, pai?

Erling levantou-se, limpando a grama dos calções. Ele caminhou até a filha e, em vez de ficar bravo, soltou uma gargalhada estrondosa que poderia ser ouvida em todo o bairro. Ele a pegou no colo e a girou no ar.

— Isso foi brilhante! — ele exclamou. — Horrível para o meu ego, mas brilhante para o futebol. Tudo bem, o "Red Devil" pode vir. Mas se ele falar de marcação por zona de novo, eu vou mostrar para ele como é uma marcação individual de verdade.

As três irmãs se juntaram em um abraço coletivo com o pai no meio do campo. A tensão da manhã tinha evaporado, substituída pela camaradagem que só o esporte proporcionava.

— Ei, pai? — Ingrid chamou, enquanto caminhavam de volta para a casa.

— Sim?

— O Oliver... o meu namorado... ele perguntou se você pode dar umas dicas de posicionamento para ele. Ele quer ser atacante, mas o pai dele insiste que ele seja volante.

Erling parou e olhou para a filha mais velha. Um brilho de conspiração surgiu em seus olhos.

— Digam aos três para virem jantar aqui na terça-feira — disse Erling. — Mas avisem: será uma noite de análise de vídeo. Vamos assistir aos meus melhores gols e eu vou explicar por que cada um deles foi uma obra de arte tática. Se eles sobreviverem a três horas de palestra técnica, eles são dignos de sair com as minhas filhas.

— Pai, isso é tortura! — Freya reclamou, embora estivesse rindo.

— Não é tortura, Freya — Maria disse, aparecendo na porta dos fundos. — É o processo de seleção da Academia Haaland. E, honestamente, é melhor do que o plano original dele, que envolvia um detector de mentiras e um teste de DNA.

Enquanto entravam em casa, as trigêmeas já começavam a discutir sobre o que vestir no "jantar de análise tática". Erling ficou para trás por um segundo, olhando para o campo vazio. Ele sabia que os desafios só iam aumentar. Haveria corações partidos, discussões mais sérias e, eventualmente, o dia em que ele não seria mais o centro do universo delas.

Mas, por enquanto, ele ainda era o capitão daquele time.

— Maria! — ele gritou, entrando na cozinha. — Onde está aquele meu quadro tático branco? Eu preciso preparar os slides para terça-feira. E compre mais corações de boi. Vamos ver quem realmente tem estômago para ser um Haaland!

Maria apenas balançou a cabeça, sorrindo. A mansão em Manchester podia ser grande, mas nunca haveria espaço suficiente para conter o ego e o amor de Erling pelas suas três cópias idênticas. A adolescência delas estava apenas começando, e se o primeiro "derby" era um indicativo do que viria, a temporada seria longa, barulhenta e absolutamente inesquecível.