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O Protocolo de Segurança Nível Viking
A terça-feira chegou com uma atmosfera de final de campeonato. Erling Haaland não era um homem de meias medidas; se ele ia aceitar a presença daqueles "intrusos" em seu domínio, faria isso sob seus próprios termos. O quadro tático branco, geralmente reservado para discussões profundas com treinadores de elite, agora ocupava o centro da sala de estar, exibindo diagramas complexos que fariam qualquer estudante de educação física chorar de exaustão.
— Erling, você colocou um projetor na sala? — Maria perguntou, entrando no cômodo com uma bandeja de petiscos saudáveis. — Eu pensei que seria um jantar, não uma conferência da UEFA.
— É uma integração cultural, Maria — Erling respondeu, ajustando o foco da lente que projetava seus gols contra o Bayern de Munique na parede de mármore. — Se esses rapazes querem fazer parte da dinâmica da família, precisam entender a nossa linguagem. E a nossa linguagem é o gol.
As trigêmeas desceram as escadas em fila, cada uma expressando um nível diferente de mortificação. Ingrid parecia resignada, Astrid estava pronta para o combate verbal e Freya parecia que estava indo para um funeral.
— Pai, o Liam mandou mensagem — Astrid disse, olhando para o celular com uma careta. — Ele perguntou se precisa trazer as próprias caneleiras. Você o traumatizou!
— Proteção nunca é demais, Astrid — Erling deu de ombros, verificando o relógio. — Faltam cinco minutos. Onde está a pontualidade desses jovens? No meu tempo, se você chegasse um minuto atrasado para o treino do mestre Alfie, você corria dez voltas extras.
O interfone tocou exatamente às 19:00. Os três rapazes entraram na casa parecendo um pelotão de fuzilamento prestes a enfrentar o carrasco. Liam, o torcedor do United, tentava manter a postura, apesar de estar visivelmente pálido. Oliver, o namorado de Ingrid, trazia um caderno de anotações, o que imediatamente rendeu pontos positivos com Erling. E Thomas, o jogador de críquete de Freya, parecia estar em um estado de choque catatônico.
— Entrem, entrem! — Erling exclamou, sua voz trovejando pelo hall. — Sintam-se em casa. Mas não muito em casa. Sentem-se na primeira fila.
Maria aproximou-se dos meninos com um sorriso acolhedor, tentando neutralizar a aura intimidadora do marido.
— Não deem ouvidos a ele, meninos. O jantar será servido em breve. Erling só quer... compartilhar algumas memórias.
— Memórias de como eu destruí a defesa do time dele — Erling sussurrou para Maria, apontando para Liam, antes de se virar para o projetor. — Muito bem! Primeira lição: O Atacante como Predador Ápice. Observem este movimento de ruptura no minuto 23...
A hora seguinte foi uma experiência surreal. Erling analisava seus próprios lances com a intensidade de um cirurgião. Ele pausava o vídeo, desenhava setas vermelhas sobre a imagem de defensores desesperados e fazia perguntas diretas aos rapazes.
— Oliver! — Erling apontou para o namorado de Ingrid. — Se você fosse o lateral-direito aqui, o que faria para impedir esse arranque?
Oliver ajeitou os óculos, nervoso.
— Eu... eu acho que tentaria fazer uma falta tática antes de você entrar na área, senhor?
Erling sorriu, um brilho perigoso nos olhos.
— Resposta correta. Mas você não seria rápido o suficiente para me alcançar. Dez pontos para o time da Ingrid.
Astrid bufou, afundando no sofá.
— Isso é tão injusto. O Liam não pode responder nada porque ele torce para o time que levou seis gols naquele dia.
— Exatamente, Astrid — Erling piscou para ela. — Isso se chama contexto histórico. Agora, Thomas... sobre o críquete. Eu pesquisei. Explique-me como vocês conseguem tomar chá no meio de uma partida. Isso não afeta a explosão muscular?
Thomas limpou a garganta, a voz saindo um pouco aguda.
— É... é uma questão de resistência mental, Sr. Haaland. É um esporte de paciência.
— Paciência é para quem não tem fome de gol — Erling sentenciou, mas depois relaxou a postura. — Mas eu respeito a tradição. Quem gosta de chá não costuma causar brigas em estádios.
O jantar foi servido sob a supervisão rigorosa de Maria. Ela garantiu que a conversa mudasse para temas mais mundanos, como a escola e os planos para o verão, mas Erling não conseguia se desligar completamente. Ele observava como cada rapaz interagia com suas filhas. Ele notou como Oliver cedia o melhor pedaço de carne para Ingrid, como Liam ria das piadas sarcásticas de Astrid e como Thomas ouvia atentamente Freya falar sobre suas aulas de piano.
— Eles não são tão ruins — Erling sussurrou para Maria enquanto buscava mais água na cozinha. — O de críquete é educado. O do United é teimoso, o que eu respeito. E o técnico é... bem, ele é um nerd, mas a Ingrid gosta de nerds.
— Viu só? O mundo não acabou — Maria sorriu, dando um tapinha no braço dele. — Agora vá lá e tente ser um humano normal, não um robô de marcar gols.
Na volta para a mesa, o clima estava mais leve. Mas o ciúme de Erling, sempre à espreita, encontrou um novo alvo.
— Então, Liam — começou Erling, cortando o bife com precisão. — Eu vi que você curtiu todas as fotos da Astrid nos últimos três meses. Até as fotos de quando ela tinha doze anos e usava aparelho. Isso é um comportamento de observador técnico ou há segundas intenções?
O silêncio caiu sobre a mesa. Astrid ficou vermelha como um tomate.
— Papai! — ela exclamou. — Você está stalkeando as curtidas dela?
— Eu não stalkeio, Astrid. Eu monitoro o perímetro — Erling respondeu calmamente. — É uma função defensiva básica.
Liam engoliu em seco, olhando para o prato.
— Eu só... eu acho a Astrid muito inteligente, Sr. Haaland. E as fotos antigas são... fofas?
— "Fofas" é uma palavra perigosa — Erling estreitou os olhos. — Mas vou deixar passar desta vez. Agora, vamos falar sobre o horário de recolhimento. O sol se põe às 21:00 nesta época do ano. Eu espero que as luzes do jardim estejam apagadas e o portão fechado às 21:30.
— 21:30? — Ingrid protestou. — Pai, nós não estamos no jardim de infância!
— No futebol, o tempo de recuperação é essencial para o desempenho — Erling argumentou. — Se vocês ficarem acordadas até tarde conversando sobre... o que quer que adolescentes conversem... o treino de amanhã será um desastre.
— Nós nem temos treino amanhã! — Freya lembrou.
— A vida é um treino constante, Freya — Erling retrucou, embora houvesse um traço de diversão em sua voz.
Após o jantar, Maria sugeriu que os jovens fossem para o jardim aproveitar o resto da noite, enquanto ela e Erling arrumavam a cozinha. Erling, claro, posicionou-se estrategicamente perto da janela que dava para o quintal.
— O que você está fazendo? — Maria perguntou, guardando os pratos.
— Só verificando se o Thomas não está tentando ensinar críquete para a Freya com as minhas laranjas importadas — ele respondeu, sem desviar os olhos.
Lá fora, as trigêmeas e os namorados estavam sentados em volta da fogueira moderna. O clima era de alívio por terem sobrevivido ao interrogatório.
— Seu pai é... intenso — Liam comentou, olhando para a silhueta gigante de Erling na janela.
— Ele é um viking que nasceu no século errado — Astrid disse, encostando a cabeça no ombro de Liam, mas logo se afastando ao ver o pai tossir alto dentro da cozinha. — Ele está nos vigiando, não está?
— Como um falcão — Ingrid confirmou. — Oliver, não tente me dar a mão agora. Ele provavelmente tem um sensor infravermelho apontado para nós.
Oliver, que estava com o caderno de anotações aberto, começou a desenhar algo.
— Sabe, o posicionamento dele na janela é perfeito. Ele cobre o ângulo da piscina e da fogueira ao mesmo tempo. É uma defesa em zona impressionante.
Ingrid revirou os olhos, mas não conseguiu esconder o sorriso.
— Você é tão bobo quanto ele.
De volta à cozinha, Erling suspirou e finalmente se afastou da janela. Ele viu Maria o observando com aquela expressão de "eu avisei".
— Eles estão crescendo, Erling — ela disse suavemente. — E o mais importante é que eles escolheram meninos que, de alguma forma, respeitam você. Eles estão com medo, sim, mas estão aqui. Eles não fugiram.
— É porque eles sabem que eu sou mais rápido — Erling resmungou, mas depois sorriu. — Tudo bem. Eu vou dar a eles mais quinze minutos. Mas depois disso, eu vou ligar os irrigadores do jardim "por acidente".
— Erling!
— É apenas um teste de reflexos, Maria! Um bom atleta precisa estar pronto para mudanças súbitas no terreno de jogo.
A noite terminou com os três rapazes saindo em fila indiana, despedindo-se de Erling com apertos de mão firmes (que Erling retribuiu com força suficiente para testar a resistência óssea de cada um). Quando a porta se fechou, as trigêmeas subiram para o andar de cima, mas não antes de darem um beijo de boa noite no pai.
— Foi um bom jantar, pai — Freya disse. — Apesar da palestra técnica.
— É, até que você não foi um ogro completo hoje — Astrid acrescentou, piscando para ele.
Erling ficou parado no hall, ouvindo o som das risadas delas sumindo no corredor superior. Ele olhou para Maria, que já estava apagando as luzes da sala.
— Eu ainda não gosto da camisa do United — ele disse.
— Eu sei, querido.
— E eu ainda acho que o de críquete é muito magro.
— Nós vamos dar mais proteína para ele no próximo jantar, Erling.
— Ótimo — ele suspirou, sentindo o peso do dia. — Maria?
— Sim?
— Você acha que eu fui muito duro com a Panenka da Astrid?
Maria parou e olhou para o marido, vendo o brilho de orgulho que ele tentava esconder atrás da fachada de pai severo.
— Acho que foi o momento em que você percebeu que criou três leoas, Erling. E leoas não seguem as regras de ninguém. Nem as suas.
Erling Haaland subiu as escadas, sentindo-se, pela primeira vez na carreira, como se tivesse empatado um jogo difícil em casa. Não era uma vitória total, mas o ponto conquistado era valioso. Ele parou diante das portas dos quartos das filhas, ouvindo o burburinho das conversas entre elas através das paredes.
Ele sabia que o ciúme voltaria amanhã. Ele sabia que haveria mais namorados, mais dramas e mais camisas de times rivais em sua sala de estar. Mas, enquanto elas voltassem para casa e lhe dessem aquele beijo de boa noite, o placar da vida estaria sempre a seu favor.
— Amanhã — Erling murmurou para si mesmo, antes de entrar no quarto — eu vou ensinar para elas como fazer uma marcação individual em namorados que demoram a responder mensagens. É uma habilidade de vida essencial.
E assim, o gigante norueguês finalmente descansou, sonhando com campos de futebol onde ele era o único atacante, mas sabendo que, na realidade, suas filhas eram as verdadeiras estrelas do show. E ele? Ele era apenas o técnico mais orgulhoso (e ciumento) do mundo.