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O Plano de Jogo do Primeiro Baile
O silêncio na mansão Haaland era um fenômeno meteorológico raro, geralmente indicando que uma tempestade de proporções épicas estava sendo gestada. Naquela tarde de sexta-feira, o epicentro da pressão atmosférica era o quarto de Freya, onde as trigêmeas estavam em estado de alerta máximo. O motivo? O Baile de Primavera da escola, o primeiro evento oficial em que elas não apareceriam como "as filhas do Haaland", mas como adolescentes com acompanhantes.
Erling, por outro lado, estava na academia particular, descontando sua ansiedade em um saco de pancadas. Cada golpe ecoava como um tiro de canhão. Ele sabia que o dia havia chegado. O dia em que três vestidos caros, três pares de saltos altos e, consequentemente, três rapazes com hormônios à flor da pele cruzariam seu hall de entrada.
— Erling, se você continuar batendo nesse saco com tanta força, vai acabar atravessando a parede — Maria disse, aparecendo na porta da academia com um tablet na mão. Ela parecia estranhamente calma, o que Erling considerava uma tática de guerra psicológica.
— Eu estou apenas mantendo o tônus muscular, Maria — ele respondeu, ofegante, limpando o suor da testa com o antebraço. — E pensando.
— Pensando em quê? Em como instalar rastreadores GPS nos corpetes dos vestidos das meninas? — Maria arqueou uma sobrancelha.
— Isso seria ilegal? — Erling perguntou com uma seriedade que assustou Maria por um segundo. — Porque eu tenho contatos na inteligência norueguesa que poderiam facilitar a tecnologia.
— Erling Braut Haaland, você vai subir, tomar um banho e colocar o seu melhor terno — Maria ordenou, apontando para a escada. — Hoje nós somos os anfitriões da "pré-festa". Os pais dos meninos também vêm para as fotos. Tente não parecer um segurança de boate russa.
— Eu sou um pai dedicado, Maria. Existe uma diferença técnica — ele resmungou, mas obedeceu.
Duas horas depois, a cena no topo da escada era digna de uma capa de revista de moda, se a revista fosse editada por alguém com obsessão por simetria. Ingrid usava um vestido verde-esmeralda que realçava seus olhos; Astrid optara por um vermelho vibrante que gritava "perigo"; e Freya estava deslumbrante em um azul-celeste que combinava com a calma que ela tentava, sem sucesso, manter.
Erling estava parado no pé da escada, usando um terno sob medida que o fazia parecer ainda mais monumental. Ele segurava uma câmera fotográfica como se fosse uma arma de precisão.
— Vocês estão... — ele começou, mas a voz falhou. O gigante de gelo sentiu o coração derreter por um breve momento. — Vocês parecem zagueiras de elite prontas para uma final de Copa do Mundo. Impecáveis.
— Pai, isso é um elogio ou uma análise de elenco? — Astrid perguntou, descendo os degraus com cuidado para não tropeçar no salto.
— É o maior elogio que eu posso dar, Astrid — ele respondeu, recuperando a compostura. — Agora, vamos ao protocolo. Eu revisei as rotas de trânsito até o hotel do baile. Se houver qualquer desvio de mais de duzentos metros do trajeto original, meu celular vai apitar.
— Você não fez isso — Freya sussurrou, horrorizada.
— Eu não precisei. O motorista que contratamos é um ex-sargento da polícia de Manchester — Erling sorriu, um brilho vitorioso nos olhos. — Ele entende de logística.
A campainha tocou, sinalizando o início das hostilidades. Os três rapazes — Liam, Oliver e Thomas — entraram juntos, parecendo um grupo de pinguins nervosos em seus smokings alugados. Atrás deles, seus respectivos pais tentavam esconder o deslumbramento de estarem na casa do homem que viajavam quilômetros para ver jogar todos os finais de semana.
— Boa noite, senhores — Erling disse, sua voz baixando para aquele tom grave que ele usava para intimidar árbitros. — Bem-vindos. Rapazes, vocês conhecem as regras. Pais, vocês conhecem a minha reputação.
— Erling, querido, menos — Maria interveio, cumprimentando os convidados com elegância. — Vamos tirar as fotos no jardim. O pôr do sol está perfeito para o contraste.
No jardim, o caos adolescente se misturou ao protocolo Haaland. Enquanto as mães dos meninos arrumavam as gravatas borboletas e Maria organizava as meninas, Erling chamou os três rapazes para um "canto tático" perto da piscina.
— Escutem bem — Erling começou, cruzando os braços. — Hoje é uma noite de celebração. Mas, para um atacante, o jogo só termina quando o juiz apita. E o juiz, neste caso, sou eu.
— Sim, Sr. Haaland — disseram os três em uníssono, as vozes falhando em sincronia.
— Se eu receber um alerta de que alguém tentou ser "criativo" na pista de dança, ou se o toque de recolher for ignorado por um segundo sequer... — Erling inclinou-se para frente, a sombra de sua estatura cobrindo os três. — Eu vou fazer vocês treinarem finalização comigo às cinco da manhã de amanhã. Sem chuteiras. Na lama.
— Nós seremos exemplares, senhor — Oliver prometeu, segurando o caderno de anotações que, por milagre, ele não tinha levado para o baile, mas cujos ensinamentos pareciam gravados em seu cérebro.
As fotos foram tiradas sob a direção rigorosa de Erling. Ele insistia em ângulos que mostrassem a "postura defensiva" das filhas.
— Ingrid, feche mais o ângulo! — ele instruía. — Astrid, não dê tanto espaço para o Liam na foto! Mantenha a distância regulamentar!
— Pai, é uma foto de casal, não uma barreira contra falta! — Ingrid reclamou, embora estivesse sorrindo para a câmera.
Após as fotos, os carros chegaram. O momento da partida foi tenso. Erling observou cada filha entrar no veículo, conferindo se os cintos de segurança estavam colocados e se os rapazes mantinham as mãos onde ele pudesse ver através dos vidros escurecidos.
— Divirtam-se — Maria disse, acenando enquanto os carros se afastavam pelo portão principal.
Quando o silêncio finalmente retornou à mansão, Erling soltou um suspiro que pareceu esvaziar todo o seu peito. Ele caminhou até o sofá e se jogou nele, parecendo subitamente exausto.
— Eu odeio bailes — ele murmurou. — Por que as pessoas não podem simplesmente ficar em casa assistindo a reprises de jogos da Bundesliga? É muito mais seguro.
— Porque elas têm quinze anos, Erling — Maria sentou-se ao lado dele, colocando a cabeça em seu ombro. — E porque você fez um ótimo trabalho. Elas são confiantes. Elas sabem se cuidar.
— Eu sei. Mas aquele Liam... ele estava usando um perfume muito forte. Isso é sinal de excesso de confiança. Eu não gosto de oponentes excessivamente confiantes.
Maria riu e pegou o controle remoto.
— Vamos assistir a um filme. Nada de rastreamento por trinta minutos, combinado?
— Dez minutos — Erling negociou. — E eu só vou verificar o mapa uma vez.
No entanto, a paz durou pouco. Cerca de uma hora depois, o celular de Erling, que estava estrategicamente posicionado sobre a mesa de centro, começou a vibrar freneticamente. Não era o rastreador. Era o grupo de mensagens das trigêmeas.
— Aconteceu alguma coisa — Erling disse, saltando do sofá como se estivesse reagindo a um rebote na pequena área.
Ele abriu a mensagem. Era uma foto enviada por Astrid. Nela, as três irmãs apareciam sentadas em uma mesa no canto do salão do baile, com expressões de tédio absoluto. Ao fundo, os três rapazes estavam cercados por um grupo de outros estudantes, parecendo estar em meio a uma discussão acalorada.
A legenda de Astrid dizia: "O Liam e o Oliver começaram uma briga tática com os meninos do time de rúgbi sobre quem é o melhor finalizador da história. O Thomas está tentando mediar usando estatísticas de críquete. Ninguém está dançando com a gente. Venha nos buscar?"
Erling olhou para Maria. Um sorriso lento e predatório começou a se formar em seu rosto.
— O que foi? — Maria perguntou, já temendo a resposta.
— O sistema defensivo deles falhou, Maria — Erling disse, já pegando as chaves do carro. — Eles priorizaram a teoria sobre a prática. Deixaram as minhas filhas sozinhas para discutir estatísticas. Isso é um erro tático imperdoável.
— Erling, não ouse...
— Eu sou o pai, Maria! É meu dever resgatar as minhas jogadoras de um ambiente tecnicamente pobre!
Vinte minutos depois, o SUV preto de Erling Haaland estacionou bruscamente na frente do hotel de luxo. Ele não esperou pelo manobrista. Ele saiu do carro com a determinação de quem está prestes a entrar em campo nos acréscimos de uma final de Champions League.
Quando ele entrou no salão, a música parou quase instantaneamente. Não era apenas a sua fama; era a sua presença. Ele caminhou entre os adolescentes, que se afastavam como o Mar Vermelho diante de um Moisés norueguês de terno.
Ele chegou à mesa onde as três filhas estavam. Elas se levantaram no momento em que o viram, os rostos iluminados por uma mistura de alívio e diversão.
— O resgate chegou? — Freya perguntou, pegando sua bolsa.
— O jogo foi cancelado por falta de qualidade técnica dos adversários — Erling declarou, olhando brevemente para o grupo de rapazes que ainda discutia estatísticas a alguns metros de distância, alheios à sua chegada.
— Papai, você realmente veio — Ingrid disse, abraçando-o. — Eles são uns tontos. Passaram a noite inteira tentando provar quem sabia mais sobre a sua carreira para impressionar os amigos, e esqueceram que nós estávamos lá.
— Um erro clássico de subestimação do elenco principal — Erling sentenciou. — Vamos. A mãe de vocês preparou pizza de verdade em casa. Nada desse buffet de hotel.
Enquanto caminhavam para a saída, os três namorados finalmente notaram a presença do "Chefe Final". Eles correram em direção ao grupo, tropeçando nos próprios pés.
— Sr. Haaland! Espere! — Liam gritou. — Nós só estávamos defendendo a sua honra contra aqueles caras do rúgbi! Eles disseram que você não duraria um tempo em um jogo de contato!
Erling parou e virou-se lentamente. Ele olhou para os três rapazes, que agora pareciam muito menores do que pareciam no jardim de sua casa.
— Rapazes — Erling disse, a voz ecoando pelo salão agora silencioso. — A honra de um Haaland não precisa ser defendida em palavras. Ela é demonstrada em campo. E hoje, vocês perderam a posse de bola.
— Mas... — Thomas tentou intervir.
— Sem mas. O treinamento de amanhã às cinco da manhã está mantido. E tragam as estatísticas de críquete, Thomas. Vamos ver se elas ajudam você a correr dez quilômetros na chuva.
As trigêmeas saíram do hotel rindo, deixando para trás um rastro de adolescentes em choque. No carro, o clima era de pura euforia.
— Foi o melhor baile de todos — Astrid exclamou, tirando os saltos e colocando os pés no painel do carro, o que Erling normalmente proibiria, mas hoje ele abriu uma exceção. — Ver a cara do Liam quando você apareceu foi impagável.
— Vocês não estão bravas porque eu interrompi a noite? — Erling perguntou, olhando pelo retrovisor.
— Pai, nós mandamos a mensagem esperando que você viesse — Freya admitiu. — A gente sabia que você não aguentaria ficar em casa sem saber o que estava acontecendo.
— Eu estava monitorando o perímetro — Erling defendeu-se. — É uma função vital.
Ao chegarem em casa, Maria os esperava com pizzas e um olhar de "eu sabia". Eles passaram o resto da noite na cozinha, as meninas contando cada detalhe do fiasco dos namorados e Erling analisando onde os rapazes tinham falhado emocionalmente.
— Eles tentaram ser você, pai — Ingrid disse, pegando uma fatia de pizza. — Esse foi o erro. Eles acharam que, para saírem com a gente, precisavam ser especialistas em você.
— Ninguém precisa ser um especialista em mim — Erling disse, olhando para as três. — Só precisam saber que, para estarem com vocês, precisam ser melhores do que eu. E isso, minhas queridas, é um nível de dificuldade que poucos alcançam.
— Você é tão modesto, Erling — Maria riu, servindo suco para as filhas.
— Eu sou realista, Maria. No futebol e na vida, a qualidade é o que define o vencedor.
Quando as meninas finalmente subiram para dormir, exaustas mas felizes, Erling e Maria ficaram sozinhos na cozinha. Ele limpou o balcão com uma satisfação silenciosa.
— Você sabe que eles vão pedir desculpas amanhã, não sabe? — Maria comentou.
— Eu sei. E eu vou aceitar. Mas o treino das cinco da manhã continua de pé. Eu preciso ver se eles têm resistência mental para aguentar uma pressão alta.
— Você é impossível — Maria o abraçou.
— Eu sou um pai de trigêmeas, Maria. Na minha posição, o ataque é a melhor defesa.
Naquela noite, Erling Haaland dormiu o sono dos vitoriosos. Ele sabia que a adolescência das filhas traria muitos outros "bailes", muitas outras brigas e muitos outros namorados que torciam para o time errado ou falavam demais. Mas ele também sabia que, enquanto ele fosse o técnico desse time, a defesa estaria sólida.
E, no fundo, ele mal podia esperar pelo treino das cinco da manhã. Afinal, não havia nada que Erling gostasse mais do que um bom desafio tático — especialmente quando envolvia proteger o tesouro mais valioso da sua vida: a sua própria e caótica dose tripla de felicidade.