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O Alvo no Gramado e o Ultimato Viking
A manhã de domingo em Manchester não trouxe o descanso esperado. Às seis horas em ponto, o som de um apito profissional ecoou pelos corredores da mansão, fazendo com que as trigêmeas saltassem de suas camas como se tivessem sido atingidas por um choque elétrico. Erling Haaland não estava brincando quando mencionou o treino de "recuperação emocional".
— Cinco minutos para estarem no campo! — a voz de Erling trovejou do andar de baixo. — Equipamento completo! Quem chegar por último vai carregar os galões de água na subida!
— Eu odeio esse DNA de atleta — resmungou Astrid, tropeçando em seus próprios pés enquanto tentava calçar as meias. — Por que não podíamos ser filhas de um mestre de xadrez? Ou de um bibliotecário?
— Menos reclamação, mais ação — Ingrid disse, já prendendo o cabelo em um rabo de cavalo firme. — Se ele desconfiar que a gente não dormiu direito por causa das mensagens, o treino vai dobrar de intensidade. Ele sente o cheiro de cansaço a quilômetros.
Dez minutos depois, as três estavam perfiladas no gramado perfeito dos fundos da casa. O orvalho da manhã brilhava sob os refletores que Erling insistira em ligar, mesmo com a luz do dia começando a surgir. Ele estava parado diante delas, usando um cronômetro no pescoço e uma expressão que misturava seriedade tática com um brilho travesso nos olhos azuis.
— Muito bem — começou o pai, caminhando diante delas como um general inspecionando suas tropas. — Ontem eu percebi que o foco de vocês está... disperso. A atenção está sendo desviada para elementos externos. E no futebol, assim como na vida, um segundo de distração é o que permite o contra-ataque do adversário.
— Pai, são seis da manhã — Freya bocejou discretamente. — Que adversário? O único adversário aqui é o seu despertador.
— O adversário é a complacência, Freya — Erling rebateu, apontando para o centro do campo, onde três bonecos de treinamento (aqueles manequins infláveis usados para faltas) estavam posicionados. — Hoje, o nosso treino não será apenas físico. Será sobre proteção de perímetro.
Ele entregou uma bola para cada uma.
— Aqueles bonecos representam as distrações. Liam, Oliver e Thomas. Eles estão tentando invadir a área de vocês. O objetivo de hoje é simples: drible, finalização e, acima de tudo, manter a distância regulamentar. Se alguma de vocês deixar a bola encostar no "boneco-namorado", são dez flexões.
As irmãs se entreolharam. O nível de ciúmes de Erling tinha atingido um patamar tecnológico e metafórico sem precedentes.
— Você deu nomes aos bonecos? — Astrid perguntou, incrédula. — Isso é doentio, pai. Até para os seus padrões.
— Eu chamo de "simulação de realidade" — Erling deu de ombros. — Comecem! Aquecimento de três quilômetros ao redor do campo, agora!
Enquanto elas corriam, Maria observava da varanda, segurando uma caneca de café fumegante. Ela sabia que aquele teatro de Erling era a sua forma de processar o fato de que as filhas estavam crescendo. Ele não sabia como lidar com sentimentos que não pudessem ser quantificados em estatísticas ou resolvidos com um chute potente, então ele transformava o namoro em um exercício de defesa.
Após trinta minutos de exercícios intensos, as meninas estavam exaustas, mas o espírito competitivo começava a falar mais alto. Ingrid, irritada com a menção ao nome de Oliver, chutou a bola com tanta força que o boneco inflável voou para trás.
— Ótima potência, Ingrid! — gritou Erling. — Mas lembre-se: o excesso de força sem controle pode levar à perda da posse de bola. Mantenha o Oliver... digo, o boneco, sob vigilância constante.
— Eu não aguento mais — ofegou Freya, sentando-se na grama quando o pai finalmente deu o sinal de pausa. — Meus pulmões estão queimando.
— É o oxigênio limpando as ideias românticas — Erling brincou, aproximando-se com garrafas de água. — Escutem, eu chamei vocês aqui cedo porque tenho um anúncio.
As três ficaram em alerta. Quando Erling Haaland fazia um "anúncio" com aquele tom de voz, geralmente envolvia uma mudança de país ou um novo regime alimentar rigoroso.
— Na próxima semana, teremos o jantar de fundação da nossa nova fundação beneficente — Erling explicou, sentando-se com elas na grama. — Muitos jornalistas estarão lá. E, como vocês insistiram, eu decidi que os... rapazes... podem ser os acompanhantes de vocês. Oficialmente.
As trigêmeas quase se engasgaram com a água.
— Oficialmente? — Astrid repetiu. — Tipo, na frente das câmeras?
— Sim — Erling suspirou, parecendo que estava admitindo uma derrota dolorosa. — Mas há um preço. Se eles vão aparecer ao lado das minhas filhas em um evento público, eles precisam passar pelo "Protocolo Viking de Etiqueta e Segurança".
— O que é isso? — Ingrid perguntou, temerosa.
— É um treinamento de mídia e comportamento — Erling explicou seriamente. — Eles virão aqui hoje à tarde. Eu vou ensiná-los a como se portar, como apertar as mãos de patrocinadores e, o mais importante, como garantir que nenhum fotógrafo chegue perto demais de vocês. Se eles querem ser os "namorados das Haaland", precisam agir como zagueiros de elite.
— Você vai dar um curso de segurança para os nossos namorados? — Freya começou a rir. — Pai, o Thomas não consegue nem segurar uma bandeja sem tremer as mãos perto de você!
— Então ele vai aprender — Erling levantou-se. — O treino acabou. Vão tomar banho. Maria preparou o café da manhã especial. E avisem aos pinguins: às 14:00, no escritório. Traje esporte fino.
À tarde, a tensão na mansão era palpável. Liam, Oliver e Thomas chegaram pontualmente, os três parecendo que estavam indo para um interrogatório da Interpol. Eles foram conduzidos ao escritório de Erling, uma sala repleta de troféus, chuteiras de ouro e uma mesa de carvalho maciço que parecia grande o suficiente para planejar a invasão de um pequeno país.
As meninas ficaram do lado de fora, com os ouvidos colados na porta de madeira pesada.
— Eu não consigo ouvir nada — sussurrou Astrid. — O isolamento acústico desse escritório é muito bom.
— Eu ouvi a palavra "flanco" — disse Ingrid. — E algo sobre "exposição desnecessária".
Lá dentro, Erling estava sentado atrás da mesa, com os três rapazes sentados em cadeiras desconfortavelmente baixas à sua frente.
— Senhores — começou Erling, abrindo uma pasta — este é o manual de conduta para o evento de sexta-feira. Item um: contato físico. Em público, o limite é o braço dado ou a mão no ombro para guiar. Nada de demonstrações excessivas de afeto. As câmeras estão em todo lugar.
— Entendido, Sr. Haaland — disse Oliver, anotando tudo freneticamente.
— Item dois: conversas com a imprensa — Erling continuou. — Se algum jornalista perguntar sobre o relacionamento de vocês, a resposta é padrão: "Estamos focados no apoio à fundação e na excelência acadêmica". Nada mais. Não deem manchetes. Eu sou o único que dá manchetes nesta família.
— E se perguntarem sobre o seu desempenho na última temporada? — perguntou Liam, tentando ganhar pontos.
Erling olhou para ele com um olhar gélido.
— Se perguntarem sobre mim, você sorri, diz que eu sou uma inspiração e passa a palavra para a minha filha. Você é um acompanhante, Liam, não meu agente.
O "treinamento" durou duas horas. Erling os fez praticar apertos de mão, ensinou-os a identificar seguranças disfarçados na multidão e até fez uma simulação de como sair rapidamente de um local se houvesse um cerco de paparazzi. No final, os três rapazes saíram do escritório suando, mas com uma postura visivelmente mais ereta.
— Como foi? — Freya perguntou, correndo para Thomas.
— Eu acho... acho que agora eu sei como evacuar um prédio em chamas enquanto protejo uma celebridade — Thomas respondeu, atordoado. — Seu pai é um gênio tático, Freya. Mas ele me deu medo quando explicou o que acontece com quem "quebra a linha de defesa".
Naquela noite, após os rapazes irem embora, a família Haaland se reuniu para o jantar. Erling parecia satisfeito consigo mesmo, como se tivesse acabado de fechar uma transferência milionária.
— Eles têm potencial — admitiu Erling, servindo-se de salmão. — O Oliver tem uma boa compreensão de espaço. O Liam precisa trabalhar a compostura sob pressão. E o Thomas... bem, o Thomas é um bom ouvinte.
— Você realmente vai deixá-los ir ao evento? — Maria perguntou, sorrindo para o marido.
— É um teste, Maria — disse ele. — O mundo vai vê-los. Se eles não conseguirem lidar com o flash de uma câmera ao lado das minhas filhas, como vão lidar com as dificuldades reais da vida? Eu estou apenas preparando o terreno.
As trigêmeas trocaram olhares de alívio. Apesar de todo o controle e das regras absurdas, elas sabiam que aquilo era a aceitação do pai. Ele estava parando de tentar esconder as filhas e começando a ensiná-las (e aos seus parceiros) a como navegar no mundo que ele mesmo habitava.
— Pai? — Ingrid chamou.
— Sim?
— Obrigada por tentar. A gente sabe que não é fácil para você.
Erling parou de comer e olhou para as três. Por trás da fachada de atleta indestrutível e pai rigoroso, havia um homem que via o tempo passar rápido demais.
— Não é fácil — ele admitiu, a voz mais suave. — Mas eu percebi uma coisa hoje. Eu posso ser o melhor atacante do mundo, mas não posso impedir que o relógio avance. Vocês estão crescendo. E se eu não puder estar em campo com vocês o tempo todo, preciso garantir que quem estiver ao lado de vocês saiba o valor do que está protegendo.
O silêncio que se seguiu foi caloroso. Pela primeira vez em semanas, não havia câmeras térmicas, nem treinos punitivos, nem táticas de intimidação. Havia apenas uma família tentando encontrar o equilíbrio entre o amor e a liberdade.
— Mas não se enganem — Erling acrescentou, quebrando o clima emocional com um sorriso travesso. — O treino das cinco da manhã na segunda-feira continua de pé. E eu comprei novos bonecos de treinamento. Desta vez, eles têm sensores de proximidade. Se vocês chegarem a menos de dez centímetros deles, um alarme toca no meu quarto.
— PAI! — as três gritaram em uníssono, jogando guardanapos nele.
Erling gargalhou, sua risada viking ecoando pela casa. O caos em dose tripla estava longe de terminar, mas, por enquanto, o placar estava em harmonia. O "Time Haaland" estava pronto para o seu próximo grande desafio, e, sob a orientação do seu capitão eterno, elas sabiam que não havia jogo que não pudessem vencer — fosse no gramado ou no coração.