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O Clássico da Sobrevivência
A atmosfera em Manchester estava eletrizante, mas dentro da Mercedes-Benz personalizada da família Haaland, a tensão era de outra natureza. Não era o nervosismo de uma final de campeonato, mas algo muito mais volátil: o primeiro jogo oficial em que as trigêmeas levariam seus namorados para o camarote privado de Erling no Etihad Stadium.
Erling estava sentado no banco do passageiro, com os braços cruzados e o olhar fixo no horizonte, enquanto Maria dirigia. Atrás deles, o silêncio era interrompido apenas pelo som de mensagens chegando nos celulares. Ingrid, Astrid e Freya estavam em um estado de antecipação que beirava o pânico.
— Lembrem-se das regras — disse Erling, sem se virar. — No camarote, vocês são representantes da marca Haaland. Nada de camisas de outros times, nada de comentários táticos absurdos e, pelo amor de Odin, digam aos seus convidados para não pedirem autógrafos aos meus companheiros de equipe no intervalo. É pouco profissional.
— Pai, eles já sabem — suspirou Astrid, revirando os olhos. — Eu mandei um PDF de dez páginas com o seu "Código de Conduta do Estádio". O Liam até decorou os nomes de todos os fisioterapeutas para não parecer um turista.
— Um PDF? — Erling finalmente sorriu, um brilho de orgulho surgindo em seu rosto. — Essa é a minha garota. Organização é a chave para o sucesso.
Ao chegarem ao estádio, a logística foi executada com precisão militar. Eles entraram pela garagem privativa, evitando o cerco de fãs e jornalistas. Quando a porta do camarote se abriu, os três rapazes já estavam lá, parecendo três estátuas de sal vestidas com roupas sociais impecáveis. Liam, Oliver e Thomas levantaram-se em uníssono, como se um general tivesse entrado na sala.
— Boa tarde, Sr. Haaland — disseram os três, quase em coro.
Erling caminhou até eles, avaliando cada um com um olhar clínico que faria um olheiro da liga alemã tremer.
— Sentem-se — ordenou ele, apontando para as poltronas de couro que davam para o gramado. — O jogo começa em quinze minutos. Eu estarei observando o campo, mas Maria estará observando vocês. E eu confio mais nos olhos dela do que no VAR.
Maria apenas sorriu, servindo-se de uma taça de água e piscando para as filhas, que se acomodaram ao lado de seus respectivos namorados.
O jogo começou com a intensidade típica da Premier League. Erling, que estava sendo poupado naquele dia devido a uma leve fadiga muscular, não conseguia ficar parado. Ele comentava cada lance, cada erro de posicionamento e cada passe mal executado com uma ferocidade que deixava os rapazes em estado de choque.
— Veja isso, Oliver! — Erling apontou para o telão. — O lateral-esquerdo deu três passos para dentro sem cobertura. Isso é um convite para o desastre! O que você faria se fosse o ponta ali?
Oliver, que estava segurando a mão de Ingrid por baixo de uma manta, engasgou-se com um pedaço de canapé.
— Eu... eu atacaria o espaço vazio e buscaria a linha de fundo, senhor? — respondeu ele, tentando manter a voz firme.
— Exato! — Erling bateu no braço da poltrona. — Pelo menos um de vocês tem visão de jogo. Liam, o que você achou daquela marcação no meio-campo?
Liam, o torcedor do United que estava fazendo um esforço hercúleo para não comemorar as jogadas do time adversário, limpou a garganta.
— Achei que faltou pressão no portador da bola, Sr. Haaland. Eles deram muito tempo para o armador pensar.
Erling estreitou os olhos, analisando Liam por um longo segundo.
— Você está sendo diplomático porque sabe que eu estou ouvindo, ou realmente entende de transição defensiva?
— Eu sou um estudante do esporte, senhor — Liam respondeu, sentindo o suor frio escorrer pelas costas.
A tensão aumentou quando o time da casa sofreu um gol aos trinta minutos. O estádio soltou um gemido coletivo, e Erling levantou-se abruptamente, caminhando até o vidro do camarote.
— Inaceitável! — rugiu ele. — Como eles podem deixar um buraco daqueles na pequena área? Se eu estivesse lá, aquele zagueiro já estaria pedindo substituição por trauma psicológico!
As trigêmeas tentavam manter a compostura, mas Astrid não aguentou.
— Pai, senta! Você está bloqueando a visão de todo mundo e assustando o Thomas. Ele nem tocou no suco dele desde que o jogo começou.
Thomas, o jogador de críquete, forçou um sorriso amarelo.
— Está tudo bem, Astrid. Eu estou apenas... processando a intensidade do futebol de alto nível. É muito mais rápido que o críquete.
— Tudo é mais rápido que o críquete, Thomas! — rebateu Erling, voltando ao seu lugar, mas ainda vibrando de indignação. — Até o crescimento da grama é mais rápido que o críquete!
No intervalo, o camarote foi servido com um banquete que faria qualquer nutricionista chorar. Erling, no entanto, decidiu que aquele era o momento perfeito para um "debriefing" tático. Ele pegou um guardanapo e uma caneta e começou a desenhar diagramas.
— Escutem aqui — disse ele, chamando os três rapazes para perto. — No segundo tempo, o jogo vai abrir. Se vocês querem ser dignos de estar aqui, precisam entender o que é o "instinto assassino". Ingrid, Freya e Astrid não são apenas meninas bonitas. Elas são Haalands. Elas esperam excelência. Se vocês não conseguem analisar um 4-3-3 sob pressão, como esperam protegê-las no mundo real?
— Erling, deixe os meninos comerem — Maria interveio, aproximando-se e colocando a mão no ombro do marido. — Você está agindo como se estivesse no vestiário antes de uma final.
— A vida é uma final, Maria! — Erling exclamou, mas relaxou um pouco. — Tudo bem. Vamos falar de algo mais leve. Thomas, me diga... se uma bola de críquete atingisse a cabeça de um defensor, ele ganharia um tiro livre?
— Não, senhor — Thomas respondeu seriamente. — Ele ganharia uma concussão e uma saída de campo em uma maca.
Erling riu, uma gargalhada genuína que pareceu quebrar o gelo.
— Gostei de você, Thomas. Você tem um senso de humor mórbido. É um bom traço para um defensor.
O segundo tempo foi uma montanha-russa de emoções. O time de Erling empatou o jogo, e a comemoração no camarote foi explosiva. Ingrid e Oliver pularam juntos, Astrid e Liam trocaram um abraço rápido antes de Liam se lembrar de sua lealdade clubística e se soltar, e Freya e Thomas apenas sorriram um para o outro, perdidos em seu próprio mundo.
Erling observava tudo pelo canto do olho. Ele viu como Oliver protegia Ingrid da agitação quando o gol saiu, como Liam sussurrava algo para Astrid que a fazia rir, e como Thomas segurava a mão de Freya com uma delicadeza que demonstrava um respeito profundo.
Perto do final do jogo, houve um lance polêmico. Um pênalti não marcado a favor do time da casa. O estádio entrou em erupção, e Erling estava prestes a começar um novo discurso inflamado contra a arbitragem quando percebeu que Liam estava discutindo fervorosamente com um convidado de outro camarote através da divisória de vidro.
— Foi falta clara! — gritava Liam, esquecendo completamente sua neutralidade. — O ângulo de entrada foi por trás! Você precisa de óculos ou de um curso de arbitragem básico?
Erling parou e observou o rapaz. Um sorriso de satisfação surgiu em seus lábios.
— Olhe para ele, Maria — sussurrou Erling para a esposa. — O pequeno "Red Devil" está defendendo o meu time.
— Ele não está defendendo o seu time, Erling — Maria riu. — Ele está defendendo a honra da sua filha, que ficou indignada com o lance. Ele é um bom menino.
Quando o apito final soou e o jogo terminou em um empate suado, Erling levantou-se e estendeu a mão para os três rapazes.
— Vocês sobreviveram ao camarote — disse ele, com uma voz que misturava autoridade e uma aceitação relutante. — Não foram perfeitos. Oliver, você precisa trabalhar sua análise de impedimento. Liam, sua lealdade clubística ainda é um problema, mas gostei da sua paixão na discussão. E Thomas... continue no críquete, mas aprenda a beber suco sob pressão.
As trigêmeas suspiraram de alívio. Elas sabiam que aquele era o selo de aprovação máximo que receberiam em um ambiente de futebol.
— Vamos para casa — disse Maria. — Eu preparei um jantar que não envolve diagramas táticos ou análise de vídeo.
Enquanto caminhavam para a saída, Erling ficou um pouco para trás com as filhas.
— Ei — chamou ele, baixinho.
— O que foi, pai? — perguntou Ingrid.
— Eles não são tão ruins — admitiu ele, olhando para os três rapazes que caminhavam à frente, conversando sobre o jogo com um entusiasmo genuíno. — Mas digam ao Liam que, se eu vir uma postagem dele com a camisa do United amanhã, ele vai ter que correr dez voltas no jardim com o meu cachorro.
— Eu digo a ele, pai — Astrid riu, abraçando o braço do pai. — Eu digo a ele.
— E Ingrid? — Erling continuou.
— Sim?
— O Oliver... ele realmente atacou o espaço vazio na resposta sobre o ponta. Diga a ele que eu tenho um par de chuteiras autografadas para ele. Mas só se ele prometer que nunca mais vai usar aquela manta no meu camarote. Ele parecia um vovô assistindo a um jogo de bocha.
As três irmãs riram, o som ecoando pelos corredores agora vazios do estádio. Elas sabiam que a proteção de Erling nunca desapareceria, que o ciúme seria uma constante e que cada namorado seria testado até o limite. Mas, naquela tarde, sob as luzes do Etihad, elas perceberam que o "gigante" norueguês estava finalmente aprendendo a dividir o campo.
Ao entrarem no carro, Erling olhou para o estádio uma última vez. Ele era um homem de recordes, de gols e de vitórias. Mas, ao ver as risadas de suas filhas e a maneira como elas se sentiam seguras e amadas, ele percebeu que o maior troféu de sua vida não estava em uma galeria, mas ali mesmo, no banco de trás daquela Mercedes, em meio ao caos, ao ciúme e à doce e inevitável passagem do tempo.
— Maria? — Erling chamou, enquanto o carro ganhava a estrada.
— Sim, Erling?
— Você acha que o Thomas conseguiria rebater uma bola de futebol com um taco de críquete? Eu estava pensando em um novo tipo de treinamento cruzado...
— Erling Braut Haaland, nem pense nisso! — Maria exclamou, enquanto as trigêmeas começavam a protestar em uníssono.
A noite em Manchester estava apenas começando, e para a família Haaland, o próximo jogo — o jogo da vida real, dos namoros e do amadurecimento — estava apenas no primeiro tempo. E, com Erling no comando, seria, sem dúvida, uma temporada inesquecível.