Fácil de amar
O Entrelaçar de Cores na Varanda dos Bang
A noite de sábado em Seul trazia uma brisa fresca que balançava as cortinas de linho da mansão. Na varanda espaçosa, o aroma de jasmim se misturava ao cheiro reconfortante de chá de gengibre e canela que vinha da cozinha. Era um daqueles momentos raros em que o tempo parecia desacelerar, permitindo que a família Bang apenas existisse, sem as pressões da indústria musical ou das passarelas de moda.
Sora estava sentada em uma das poltronas de vime, com as pernas encolhidas e um brilho diferente no olhar. Ao seu lado, Minjae relaxava em um pufe, observando as luzes da cidade ao longe. Bang Chan, o patriarca que parecia carregar o sol no sorriso, ocupava a cadeira de balanço, observando seus filhos com uma serenidade que só os anos de superação poderiam trazer.
— Então, Sora... — começou Chan, quebrando o silêncio com um tom de voz que misturava curiosidade e acolhimento. — Você finalmente vai nos contar o nome da moça que está fazendo você desenhar corações nos croquis de seda?
Sora soltou uma risada nervosa, ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha.
— O nome dela é Jiwoo, Appa. Ela é curadora de arte. Nós estamos... bem, estamos juntas há quase dois meses. Eu ia contar antes, mas queria ter certeza de que não era apenas uma fase de inspiração criativa.
— Dois meses? — Minjae interveio, dando um empurrão de leve no ombro da irmã. — E eu aqui, achando que era o único escondendo segredos românticos por três meses com a Hana. Estamos todos no mesmo barco da cautela, então?
— É uma característica da família — disse Chan, rindo baixo. — Nós, os Bang, tendemos a proteger o que é precioso até estarmos prontos para mostrar ao mundo.
Da cozinha, o som rítmico de uma faca picando legumes e o chiado de uma chaleira serviam como trilha sonora. Seungmin estava preparando lanches noturnos, mantendo-se em silêncio, mas ouvindo cada palavra. Ele era o pilar silencioso, aquele que processava tudo antes de emitir um veredito, geralmente carregado de sabedoria e um toque de ironia.
— Mas sabe, Appa... — Sora olhou para Chan, a expressão ficando um pouco mais séria. — Eu fiquei pensando muito sobre como vocês dois começaram. Eu e o Minjae crescemos vendo vocês como o casal perfeito, mas eu sei que nem sempre foi fácil. Especialmente para você, não é?
Chan suspirou, recostando a cabeça e olhando para o teto da varanda. Ele sabia que esse dia chegaria, o dia em que os filhos fariam perguntas mais profundas sobre as raízes daquele amor que sustentava a casa.
— Não foi nada fácil, Sora. — Chan sorriu, uma lembrança distante brilhando em seus olhos. — Houve um tempo em que eu era a pessoa mais confusa da Coreia do Sul. Eu tinha essa imagem de mim mesmo, o líder inabalável, o cara que "seguia o script" da sociedade. Eu me achava o homem mais hétero do mundo. Tinha tido namoradas, gostava daquela dinâmica... até que o Seungmin começou a se tornar o centro dos meus pensamentos de um jeito que eu não conseguia explicar.
— E a diferença de idade? — perguntou Minjae, curioso. — Isso pesou muito para você?
— Pesou — admitiu Chan. — No início, eu sentia que precisava protegê-lo, não apenas como líder, mas como alguém mais velho. Eu me sentia culpado por sentir o que sentia. Pensava: "Ele é tão jovem, ele tem tanto a descobrir, e eu estou aqui, querendo prendê-lo a mim". Eu lutei contra isso por muito tempo. Eu tentava me convencer de que era apenas uma amizade intensa, um carinho de irmão.
Nesse momento, Seungmin apareceu na porta da varanda, equilibrando uma bandeja com sanduíches de pepino, torradas com geleia e pequenas xícaras de chá. Ele depositou a bandeja na mesa de centro com movimentos precisos.
— Ele era um idiota — disse Seungmin, sem rodeios, sentando-se no braço da poltrona de Chan. — Passou meses tentando me empurrar para outros encontros ou fingindo que não ficava com ciúmes toda vez que alguém se aproximava de mim.
— Eu estava tentando ser nobre! — defendeu-se Chan, segurando a mão de Seungmin e entrelaçando seus dedos de forma automática.
— Você estava sendo teimoso — rebateu Seungmin, embora seu olhar fosse doce. — Ele tinha medo do que o mundo diria, e tinha ainda mais medo de admitir que a vida que ele tinha planejado não era a que o faria feliz.
Chan apertou a mão de Seungmin, voltando-se para os filhos.
— O seu Appa Seungmin foi muito mais corajoso do que eu. Ele sempre soube quem era. Eu tive que desconstruir tijolo por tijolo daquela parede de "heterossexualidade padrão" que eu tinha construído ao meu redor. Foi assustador perceber que a pessoa que eu amava desafiava todas as minhas certezas. Mas, no momento em que eu finalmente aceitei... foi como se eu pudesse respirar pela primeira vez.
Sora observava os dois, sentindo uma onda de alívio.
— Eu me senti um pouco assim com a Jiwoo — confessou ela. — Eu sempre achei que ia acabar namorando algum designer de moda pretensioso, mas quando a conheci, percebi que o que eu buscava não era um perfil, era uma conexão. Só tive medo de que, por ser uma mulher, as pessoas vissem nossa família de um jeito ainda mais crítico.
— As pessoas sempre vão ter algo a dizer, Sora — disse Seungmin, sua voz firme e calmante. — Elas falaram quando eu e o Chan assumimos, falaram quando adotamos vocês, e falam até hoje sobre como criamos nossos filhos. Mas olhe para esta varanda. Olhe para nós. A única opinião que realmente importa é a das pessoas que estão dispostas a sangrar por você.
Minjae, que estava em silêncio, absorvendo tudo, finalmente falou:
— Eu sinto que, com a Hana, eu também estou aprendendo algo novo todos os dias. Por ter crescido com vocês, eu nunca tive preconceito, claro, mas eu tinha medo de não saber como ser um "bom homem" em um relacionamento heterossexual, já que meu exemplo de masculinidade era tão... diferente do que os outros garotos tinham.
Chan soltou uma risada calorosa, levantando-se para servir mais chá para o filho.
— Minjae, meu filho, a masculinidade que te ensinamos não é sobre quem você ama, mas sobre como você ama. Se você for para a Hana metade do homem que o Seungmin é para mim, ela será a mulher mais sortuda do mundo.
— E se você for para ela o que o Chan é para mim — acrescentou Seungmin, com um brilho maroto nos olhos —, você vai ser um romântico incurável que faz discursos motivacionais às três da manhã. Prepare o café, porque ela vai precisar.
A varanda foi inundada por risadas. Minjae jogou uma almofada no pai, que a pegou no ar com agilidade.
— Mas falando sério — continuou Sora —, eu fico feliz que possamos conversar assim. Jiwoo estava nervosa para conhecer vocês. Ela disse que "os Bang" são uma lenda de superação.
— Diga a ela que não somos lendas — disse Chan, voltando a se sentar e puxando Seungmin para mais perto. — Somos apenas quatro pessoas tentando fazer o melhor que podem em um mundo complicado. Traga-a para o jantar na próxima semana. Queremos conhecê-la.
— E traga a Hana também, Minjae — disse Seungmin. — Se vamos abrir o coração nesta varanda, que seja com a casa cheia. Eu faço o meu famoso guisado.
— O guisado do Appa Seungmin? — Minjae fingiu horror. — Elas vão se apaixonar pela comida e nos largar para fugir com você.
— É um risco que vocês terão que correr — brincou Seungmin, recostando a cabeça no ombro de Chan.
A noite continuou com histórias de turnês antigas, de como Hyunjin provavelmente tentaria dar conselhos de moda para Jiwoo e de como Felix certamente choraria de emoção ao conhecer as namoradas dos "sobrinhos".
Chan olhava para Sora e Minjae e sentia que o ciclo estava se completando. Ele se lembrou da dor física e emocional de anos atrás, do medo de não ser um bom pai, do pavor de que o mundo machucasse seus filhos por causa da configuração de sua família. Mas ali, vendo a maturidade de Sora ao falar de sua namorada e a sensibilidade de Minjae ao buscar conselhos sobre Hana, ele percebeu que o amor que ele e Seungmin plantaram era solo fértil.
— Sabem — disse Chan, a voz mais baixa e carregada de emoção —, houve uma época em que eu achei que nunca teria isso. Uma varanda silenciosa, filhos crescidos e felizes, e o homem que eu amo ao meu lado. Eu achei que o preço da minha carreira e da minha identidade seria a solidão.
Seungmin apertou a mão dele, um gesto silencioso de apoio que dizia tudo o que precisava ser dito.
— Você sempre foi pessimista, Channie — sussurrou Seungmin, mas com um carinho imenso. — Eu sempre soube que chegaríamos aqui.
— Eu sei que soube — admitiu Chan. — Você sempre foi o que tinha a visão mais clara.
Sora levantou-se e deu um beijo na bochecha de cada um dos pais.
— Obrigada por serem quem são. Por não terem desistido um do outro quando as coisas ficaram difíceis. Isso deu a mim e ao Minjae a coragem de sermos quem somos hoje.
— É — concordou Minjae, levantando-se também. — Eu ia dizer algo sarcástico, mas vou apenas concordar com a Sora desta vez. Vocês são incríveis.
Os dois jovens entraram para a casa, deixando o casal sozinho na varanda. O silêncio voltou, mas agora era um silêncio preenchido pela satisfação de uma missão bem cumprida.
Chan puxou Seungmin para o seu colo, ignorando os protestos leves do marido sobre estarem em um lugar aberto.
— Você ouviu o que eles disseram, Minnie? — perguntou Chan, escondendo o rosto no pescoço de Seungmin. — Nós fizemos um bom trabalho.
— Nós fizemos o trabalho possível, Chan. Eles é que são pessoas maravilhosas por conta própria. Mas sim... eles parecem felizes.
Chan suspirou, sentindo o perfume de Seungmin, aquele cheiro que era seu porto seguro há mais de duas décadas.
— Eu ainda não acredito que você me aguentou por tanto tempo. Especialmente naquela fase em que eu agia como se não te amasse.
— Foi irritante — admitiu Seungmin, virando-se para olhar nos olhos de Chan. — Mas valeu a pena esperar você acordar para a realidade. Você é um pouco lento, Bang Chan, mas quando decide amar alguém, você o faz com o mundo inteiro.
— Eu amo você com o mundo inteiro, Seungmin. E amo a vida que construímos.
— Eu também — disse Seungmin, selando as palavras com um beijo calmo e profundo, um beijo que carregava a história de dez anos de casados e uma eternidade de companheirismo.
Lá fora, a cidade de Seul continuava seu ritmo frenético, mas naquela varanda, o tempo permanecia estático. As cores do arco-íris que Sora e Minjae estavam começando a pintar em suas próprias vidas tinham vindo da paleta de amor incondicional que Chan e Seungmin haviam misturado com lágrimas, suor e muita coragem.
A família Bang estava pronta para o futuro, não importava qual fosse a melodia que a vida decidisse tocar a seguir. Porque, enquanto tivessem uns aos outros e aquela varanda para compartilhar a verdade, eles seriam sempre, e para sempre, inquebráveis.
— Chan? — chamou Seungmin, já quase cochilando nos braços do marido.
— Sim?
— Não esqueça de comprar mais gengibre amanhã. O jantar de sábado vai ser grande.
Chan riu, beijando o topo da cabeça de Seungmin.
— Pode deixar, meu amor. O gengibre e todo o resto. Eu cuido de tudo.
E, sob o manto das estrelas coreanas, a paz finalmente reinou absoluta no coração do líder que um dia teve medo de amar, mas que descobriu que o amor era a única liderança que realmente importava.