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Fácil de amar

O Legado do Coração e as Cores do Desejo

Aos vinte e dois anos, Bang Minjae não era mais o garoto franzino que buscava refúgio nos cantos sombreados da mansão. Ele se tornara um homem de ombros largos, com a mandíbula marcada e um talento para a produção musical que fazia Bang Chan inflar o peito de orgulho toda vez que passava pela porta do estúdio. Mas, apesar de toda a confiança que exalava no palco ou atrás de uma mesa de som, Minjae sentia-se um completo amador diante do turbilhão que era o seu coração naquele momento.

O motivo tinha nome, sobrenome e um riso que parecia uma melodia em lá maior: Park Hana.

Minjae estava sentado no sofá da sala, fingindo ler um livro de teoria musical, mas seus olhos não saíam da tela do celular. Ele esperava uma mensagem dela. Hana era estudante de artes plásticas, amiga de faculdade de Sora, e tinha o tipo de energia vibrante que iluminava qualquer ambiente. O problema não era o sentimento em si, mas o fato de que Minjae, criado em um lar onde o amor entre dois homens era a base de tudo, sentia-se estranhamente perdido sobre como navegar em seu primeiro relacionamento sério com uma mulher.

Ele olhou para a cozinha, onde Seungmin preparava um café. Seungmin era sua rocha. O homem que sangrara por ele, que o ensinara a ter voz e que, há mais de uma década, mantinha uma relação de devoção absoluta com Chan. Minjae sabia que Seungmin era homossexual; nunca houve segredos sobre isso. O amor de seus pais era a coisa mais natural do mundo para ele. No entanto, havia certas nuances sobre a atração por mulheres que ele achava que Seungmin talvez não compreendesse da mesma forma instintiva.

— Você está encarando essa página há vinte minutos, Minjae — a voz de Seungmin cortou o silêncio, carregada daquele tom analítico e levemente sarcástico que nunca mudara. — Ou a teoria de contraponto ficou muito mais interessante, ou você está com um problema que não se resolve com partituras.

Minjae suspirou, fechando o livro com um baque surdo.

— É tão óbvio assim, Appa?

Seungmin caminhou até a sala, entregando uma xícara de café ao filho antes de se sentar na poltrona à frente.

— Para quem te conhece desde os dezesseis? É como ler uma partitura de iniciante. É a Hana, não é?

— É. Nós estamos saindo há três meses, mas... as coisas estão ficando sérias. E eu me sinto um idiota. Eu não sei se estou fazendo as coisas certo.

Seungmin cruzou as pernas, observando o filho com um olhar suave.

— O que seria "fazer certo", Minjae? O amor não tem um manual de instruções, independentemente de quem você está amando.

— Eu sei, mas... — Minjae hesitou, buscando as palavras. — Você e o Appa Chan são o meu maior exemplo. Mas você sempre soube quem era, não é? Você sempre amou homens. Eu sinto que, se eu te perguntar como entender a cabeça de uma mulher ou como lidar com essa atração específica, pode ser... estranho?

Seungmin soltou uma risadinha curta, balançando a cabeça.

— Você acha que eu sou um alienígena por ser gay? Eu entendo de seres humanos, Minjae. Mas, se o que você busca é a perspectiva de alguém que entende os dois lados da moeda... — Seungmin apontou com a cabeça para o corredor — ...você deveria falar com o seu pai.

Minjae franziu o cenho.

— O Chan?

— O Chan é bissexual, Minjae — disse Seungmin de forma casual, bebendo um gole de seu café. — Ele teve namoradas antes de mim. Algumas bem sérias, inclusive. Ele entende essa "dualidade" que você está sentindo melhor do que eu.

Minjae arregalou os olhos. Ele sabia que o pai era aberto sobre tudo, mas eles nunca tinham tido uma conversa profunda sobre o passado romântico de Chan antes de Seungmin. Para Minjae, Chan e Seungmin eram uma unidade eterna, como se tivessem nascido um para o outro e nada tivesse existido antes.

— Eu não sabia disso — murmurou Minjae.

— Vá falar com ele. Ele está no estúdio do jardim tentando finalizar uma mixagem e, provavelmente, precisando de uma desculpa para parar e tomar um ar.

Minjae levantou-se, sentindo um frio na barriga. Ele caminhou pelo jardim, onde as flores de cerejeira começavam a cair, criando um tapete rosa suave. O estúdio de Chan era um anexo moderno, isolado acusticamente. Ele bateu na porta e entrou após ouvir um "entra" abafado.

Bang Chan estava cercado por telas de LED, com os fones de ouvido no pescoço e o cabelo loiro bagunçado. Ele sorriu ao ver o filho.

— E aí, produtor? Veio me mostrar aquele beat novo?

— Na verdade, não — disse Minjae, sentando-se na cadeira giratória de couro. — Eu vim pedir um conselho. Um conselho de homem para homem. Ou melhor... de filho para pai.

Chan girou a cadeira, focando toda a sua atenção em Minjae. Ele percebeu o tom sério e a leve hesitação no olhar do jovem.

— Aconteceu alguma coisa? Alguém te machucou?

— Não, nada disso. É sobre a Hana. E sobre... mim.

Minjae respirou fundo e contou sobre como se sentia. Falou sobre a confusão de ser criado em um ambiente onde a homossexualidade era o padrão de amor que ele via todos os dias, e como, ao se descobrir interessado por mulheres, sentia que faltava uma peça no quebra-cabeça de sua identidade.

— O Appa Seungmin me disse que você é bissexual — disse Minjae, olhando nos olhos do pai. — Ele disse que você entenderia como é gostar de mulheres, mas também entenderia por que eu me sinto meio perdido tentando conciliar tudo isso com a nossa realidade.

Chan relaxou os ombros, um sorriso compreensivo surgindo em seus lábios. Ele se inclinou para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos.

— O Seungmin sempre sabe quando passar a bola para mim — comentou Chan com ternura. — Sim, Minjae. Eu sou bissexual. Eu amei mulheres antes de me apaixonar perdidamente pelo homem que está lá na cozinha. E vou te dizer uma coisa: o coração não muda de idioma só porque o gênero do objeto de desejo mudou.

— Mas é diferente, não é? — perguntou Minjae. — A dinâmica, o jeito de tratar... eu fico com medo de ser bruto demais ou de não entender as sutilezas dela.

— Escute bem — disse Chan, a voz ganhando aquele tom de liderança protetora que Minjae tanto respeitava. — Mulheres não são uma espécie diferente, Minjae. Elas são pessoas. O que a Hana quer de você é o mesmo que o Seungmin quer de mim: respeito, vulnerabilidade e parceria. A diferença física existe, claro, e você vai descobrir as sutilezas disso com o tempo, mas o segredo de um relacionamento não está no gênero. Está na comunicação.

Chan fez uma pausa, lembrando-se de sua própria juventude.

— Quando eu era mais jovem, eu achava que precisava ser um tipo de "homem diferente" quando estava com uma garota. Achava que precisava ser o protetor inabalável, o cara que nunca chora. Mas sabe o que eu aprendi? As mulheres que eu amei valorizavam muito mais quando eu mostrava minhas fraquezas do que quando eu tentava ser um herói de filme de ação.

— Eu sinto que preciso provar algo — confessou Minjae. — Por ter dois pais, eu não quero que ela pense que eu não sei como ser um "namorado de verdade" para ela.

Chan soltou uma risada calorosa, levantando-se e colocando a mão no ombro de Minjae.

— Minjae, você é o filho de Bang Chan e Bang Seungmin. Você cresceu vendo o que é lealdade de verdade. Você viu um homem lutar fisicamente para proteger o outro. Você viu um homem cuidar do outro em silêncio por anos. Se alguém sabe o que é ser um "parceiro de verdade", esse alguém é você. Não importa se você está namorando uma mulher, um homem ou qualquer pessoa. O que nós te ensinamos foi a amar.

Minjae sentiu um peso sair de seus ombros. O conselho do pai não era sobre técnicas de sedução ou sobre como entender a psicologia feminina, mas sobre validar quem ele era.

— Então, eu não preciso mudar nada?

— Só precisa ser você mesmo. Seja gentil, seja honesto e, pelo amor de Deus, não tente esconder seus sentimentos. Mulheres têm um radar para desonestidade emocional muito mais aguçado do que o nosso — Chan piscou para o filho. — E outra coisa: o fato de você gostar de mulheres não invalida nada da nossa família. Você não está "fugindo" do padrão. Você está apenas vivendo a sua verdade, assim como eu vivi a minha até encontrar o Seungmin.

— Obrigado, Appa — disse Minjae, sentindo-se genuinamente mais leve. — Eu acho que estava complicando as coisas na minha cabeça.

— É o que os Bang fazem de melhor — brincou Chan. — Nós somos intensos. Agora, me diga... você já apresentou ela para a Sora oficialmente como sua namorada? Porque se não, sua irmã vai descobrir e ela vai ser muito menos gentil do que eu nos interrogatórios.

Minjae riu, lembrando-se da natureza superprotetora e curiosa de Sora.

— Ainda não. Eu queria ter certeza de tudo primeiro.

— Vá em frente. E se precisar de dicas de lugares para encontros... eu ainda lembro de alguns restaurantes em Seul que são infalíveis.

Minjae levantou-se para sair, mas parou na porta.

— Appa?

— Oi?

— Eu fico feliz por você ter me contado. Sobre ser bissexual. Eu sinto que te conheço um pouco mais agora.

Chan sorriu, um sorriso que iluminou todo o estúdio.

— Nós sempre seremos um livro aberto para você, Minjae. Nunca se esqueça disso.

Minjae voltou para a casa principal com o coração em paz. Ele encontrou Seungmin ainda na sala, agora lendo o livro que Minjae abandonara.

— E então? — perguntou Seungmin, sem tirar os olhos da página. — O "velho" te deu as respostas que você queria?

— Ele me deu as respostas que eu precisava — corrigiu Minjae, sentando-se ao lado de Seungmin. — Mas eu ainda acho que você é o melhor cozinheiro da casa, então não conte para ele.

Seungmin fechou o livro e sorriu, aquele sorriso raro e vitorioso.

— Eu já sabia disso. Agora, ligue para essa menina e convide-a para jantar aqui no próximo sábado. Se ela sobreviver ao interrogatório da Sora e às piadas ruins do Chan, ela é a pessoa certa para você.

Minjae riu, pegando o celular. Pela primeira vez em semanas, ele não sentia medo do futuro. Ele tinha a força de Chan, a sabedoria de Seungmin e a certeza de que, não importa quem escolhesse amar, ele sempre teria um lar para onde voltar.

Naquela noite, as luzes da mansão Bang brilharam um pouco mais intensas. No jardim, o vento soprava as pétalas de cerejeira, e dentro de casa, o som do riso e da conversa fluía como uma melodia perfeita. Minjae finalmente entendeu que o amor não era uma questão de gênero, mas de coragem. E coragem era algo que sua família tinha de sobra.

Ele digitou a mensagem para Hana: "Quer jantar na minha casa no sábado? Meus pais estão ansiosos para te conhecer. E não se preocupe... eles são um pouco intensos, mas são as melhores pessoas que eu conheço."

A resposta veio em segundos: "Eu adoraria, Minjae. Mal posso esperar."

Minjae sorriu para o celular, sentindo que, finalmente, sua própria música estava começando a encontrar o ritmo certo. E, no fundo da sala, ele viu Chan e Seungmin dividindo um fone de ouvido, balançando a cabeça em sincronia com alguma nova demo, provando que, no final das contas, o amor era a única linguagem que realmente importava.