Fácil de amar
O Eco do Silêncio e o Peso do Perdão
A luz da manhã filtrava-se pelas cortinas de linho da mansão dos Bang, trazendo uma claridade suave que contrastava com a tempestade emocional dos dias anteriores. O silêncio da casa não era mais carregado de tensão, mas sim de uma calmaria cautelosa, como o mar após um naufrágio.
No quarto de hóspedes, que Sora já havia começado a decorar com esboços de moda e almofadas coloridas, Minjae estava sentado na beirada da cama. Seus dedos traçavam os padrões do cobertor, mas seus olhos estavam distantes. O inchaço em seu rosto havia diminuído, revelando tons de roxo e amarelo que contavam a história daquela noite terrível. No entanto, eram as feridas internas que mais doíam. Cada vez que fechava os olhos, ele ouvia o som da garrafa quebrando e o gemido de dor de Seungmin ao ser atingido.
Ele se levantou devagar, sentindo o corpo rígido. Com passos silenciosos, ele caminhou pelo corredor até a cozinha. Ele sabia que Chan já deveria ter saído para a gravadora para resolver as questões legais com os advogados, e Sora provavelmente estava em seu ateliê.
Seungmin estava lá, sentado à mesa da cozinha com uma caneca de chá entre as mãos. Ele usava um casaco de tricô largo que escondia a tipóia em seu braço, mas os curativos em seu rosto eram impossíveis de ignorar.
Minjae parou na porta, o ar subitamente faltando em seus pulmões. A culpa, que vinha cozinhando em seu peito desde o hospital, finalmente transbordou.
— Seungmin-hyung... — O sussurro de Minjae foi quase inaudível.
Seungmin levantou o olhar e sorriu, um gesto que ainda parecia um pouco forçado devido aos pontos no lábio, mas que transbordava calor.
— Bom dia, Minjae. Você dormiu bem? Há panquecas no balcão, Sora fez antes de se enfurnar no andar de cima.
Minjae não se moveu. Ele olhou para o braço imobilizado de Seungmin e sentiu uma pontada aguda de remorso.
— Eu não devia ter ligado para você — disse o garoto, as lágrimas começando a embaçar sua visão. — Foi minha culpa. Se eu não tivesse sido tão fraco, se eu tivesse aguentado... você não estaria assim. Você é um cantor, sua imagem, seu corpo... eu estraguei tudo.
Seungmin suspirou e deixou a caneca de lado, fazendo um gesto com a mão livre para que Minjae se aproximasse.
— Venha aqui, Minjae. Sente-se comigo.
O garoto obedeceu, arrastando os pés e sentando-se na cadeira oposta, mantendo a cabeça baixa como se esperasse uma bronca que ele acreditava merecer.
— Olhe para mim — pediu Seungmin, sua voz de barítono soando firme e doce. — Minjae, olhe para mim.
Quando o jovem finalmente levantou o rosto, Seungmin estendeu a mão e tocou levemente o ombro do menino.
— A única pessoa culpada pelo que aconteceu é o homem que levantou a mão para nós. Você não é culpado pelas escolhas de um agressor. E você nunca, jamais, deve se desculpar por pedir ajuda para salvar sua vida.
— Mas ele te machucou — soluçou Minjae, as primeiras lágrimas caindo sobre a mesa de madeira. — Ele disse coisas horríveis sobre você e o Chan-hyung. Ele te bateu porque eu liguei. Se eu tivesse ficado quieto...
— Se você tivesse ficado quieto — interrompeu Seungmin, suavizando o tom —, eu estaria agora em um necrotério identificando o corpo de um dos meus alunos favoritos, e o Chan estaria destruído para sempre. Você acha que eu prefiro um braço inteiro a ter você vivo aqui na minha frente?
Minjae soltou um soluço engasgado, cobrindo o rosto com as mãos.
— Eu senti tanto medo... — confessou o garoto entre soluços. — Eu achei que ele ia me matar, e depois eu achei que ele ia matar você. Eu nunca quis que você se envolvesse naquela sujeira.
Seungmin levantou-se com dificuldade, a dor nas costelas protestando a cada movimento, e deu a volta na mesa. Ele puxou Minjae para um abraço desajeitado, mas protetor, acomodando a cabeça do garoto contra seu peito, longe do braço machucado.
— Escute bem o que vou te dizer — disse Seungmin, acariciando o cabelo de Minjae. — Eu faria tudo de novo. Dez vezes, cem vezes. Aquela "sujeira" que você mencionou? Não era sua. Era dele. E quando você ligou para nós, você nos deu a chance de tirar você de lá. Você não foi fraco, Minjae. Você foi a pessoa mais corajosa que eu já conheci. Pedir ajuda é o ato de bravura mais difícil do mundo.
— Mas e as coisas que ele disse? — Minjae perguntou, a voz abafada contra o casaco de Seungmin. — Sobre vocês dois... ele foi tão cruel.
Seungmin soltou uma risada curta, sentindo uma leve pontada de dor, mas ignorando-a.
— Minjae, o Chan e eu estamos juntos há muito tempo. Nós enfrentamos câmeras, tabloides, empresas e fãs antes mesmo de você saber o que era música. O que um homem ignorante e amargurado pensa sobre o nosso casamento não tem poder nenhum sobre a realidade do que sentimos. O ódio dele não diminui o amor que temos por esta família. E agora, você faz parte dela.
Minjae se afastou um pouco, limpando o rosto com a manga da blusa, olhando para Seungmin com uma mistura de admiração e incredulidade.
— Vocês realmente querem que eu fique? Eu não quero ser um fardo.
— Um fardo? — A voz de Sora veio da entrada da cozinha. Ela estava com um lápis preso atrás da orelha e manchas de giz nas mãos. — Minjae, eu já desenhei três casacos inspirados na sua "vibe" de produtor misterioso. Se você for embora, minha coleção de outono vai para o lixo. Você quer carregar essa culpa também?
O garoto soltou uma risadinha fraca, a primeira em dias. Sora se aproximou e bagunçou o cabelo dele.
— Além disso — continuou ela, tornando-se séria —, o Appa Chan já está comprando o melhor equipamento de som para o seu novo quarto. Ele está agindo como um pai babão que acabou de ganhar um novo brinquedo. Boa sorte tentando escapar dele agora.
Seungmin sorriu para a filha, agradecido pela leveza que ela trazia.
— Viu só? — disse Seungmin. — Nós somos um pouco intensos, eu admito. Mas ninguém aqui te vê como um problema. Nós te vemos como o Bang Minjae.
— Bang Minjae... — O garoto testou o nome na língua, um brilho de esperança surgindo em seus olhos. — Soa... soa como se eu pertencesse a algum lugar.
— Porque você pertence — afirmou Seungmin. — Agora, coma suas panquecas. Preciso que você esteja forte para me ajudar a trocar esses curativos mais tarde. Já que você se sente tão "culpado", pode começar sendo meu enfermeiro particular.
Minjae sorriu de verdade dessa vez, um sorriso que alcançou seus olhos.
— Eu posso fazer isso, Hyung. Prometo ser o melhor enfermeiro.
— Ótimo — disse Seungmin, voltando para sua cadeira com a ajuda de Sora. — E Minjae?
O garoto parou com um pedaço de panqueca no garfo.
— Sim?
— O som daquela garrafa quebrando? Para mim, não foi o som de algo sendo destruído. Foi o som de uma porta se fechando para o seu passado e se abrindo para o seu futuro. Não tenha medo do barulho. O que importa é a música que vamos fazer a partir de agora.
Minjae assentiu, sentindo o peso em seu peito finalmente se dissipar. Ele sabia que o caminho para a cura total seria longo e que os pesadelos ainda viriam em algumas noites, mas, pela primeira vez em dezesseis anos, ele não estava sozinho. Ele tinha um mestre que se tornou pai, um ídolo que se tornou protetor e uma irmã que já planejava seu guarda-roupa.
Enquanto ele comia, o som do carro de Bang Chan estacionando na garagem ecoou pela casa. Poucos minutos depois, o ex-líder entrou na cozinha, o rosto cansado transformando-se instantaneamente em um sorriso largo ao ver os dois à mesa.
— Cheguei! — anunciou Chan, deixando uma pasta de documentos sobre o balcão e indo direto beijar a testa de Seungmin e apertar o ombro de Minjae. — Tenho boas notícias dos advogados. Mas primeiro... alguém deixou panquecas para o dono da casa?
A risada de Minjae preencheu a cozinha, harmonizando-se com o tom baixo de Seungmin e a empolgação de Sora. A sinfonia da família Bang estava apenas começando, e desta vez, não haveria notas dissonantes de medo ou dor que eles não pudessem superar juntos.