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Fada e pirata

O Brilho Oculto por Trás das Lentes

O sol de Solaria estava em seu ápice, banhando o palácio com uma luz âmbar que costumava ser o prelúdio de tardes alegres. No entanto, dentro da grande sala de reuniões, o clima era de seriedade. Stella, Bloom e Jim estavam debruçados sobre mapas de rotas comerciais e relatórios de segurança das fronteiras mágicas. Stella, agora uma rainha consolidada e imponente, usava um vestido de seda amarelo-girassol que parecia irradiar poder, enquanto Bloom, ao seu lado, mantinha a postura de uma conselheira e guerreira nata. Jim, com seus cabelos azul-violeta presos e trajando um colete de couro refinado, ouvia tudo com a atenção de quem sabe que o perigo mora nos detalhes.

A reunião foi bruscamente interrompida pelo som de passos rápidos e desajeitados no corredor de mármore. A porta pesada se abriu com um estrondo, e uma pequena figura tropeçou para dentro da sala.

Luna, aos sete anos, era a imagem da doçura. Seus cabelos loiros estavam presos em duas marias-chiquinhas que pendiam frouxas, e seus óculos de armação redonda e grossa estavam levemente tortos no rosto. Ela estava ofegante, e suas bochechas redondas, que Jim carinhosamente chamava de "bolinhos de sol", estavam manchadas de vermelho e molhadas por lágrimas grossas.

— Mamãe! — soluçou a menina, correndo em direção ao trono de Stella, ignorando completamente os ministros que se retiravam apressadamente diante do olhar gelado de Jim.

Stella levantou-se num salto, o coração disparado.

— Luna! Meu amor, o que aconteceu? Você se machucou?

A menina escondeu o rosto nas dobras do vestido da mãe, os ombros sacudindo violentamente.

— Ela disse que eu sou feia, mamãe! — Luna gritou entre soluços. — A Selina disse que eu pareço um sapo de óculos e que eu sou pesada demais para ser uma fada de verdade. Ela disse que ninguém gosta de mim porque eu não brilho como você!

O silêncio que se seguiu na sala foi cortante. Bloom sentiu uma labareda de raiva protetora aquecer seu peito, e o semblante de Jim escureceu instantaneamente. Ele descruzou os braços, a mão descendo instintivamente para o cabo da adaga, um gesto reflexo de quem queria caçar quem quer que tivesse ousado ferir o seu "pequeno raio de luz".

Stella ajoelhou-se no chão frio, sem se importar com o protocolo ou com o tecido caro de seu vestido, e puxou a filha para um abraço apertado.

— Oh, minha pequena... olhe para mim. — Stella afastou a franja da testa de Luna, limpando as lentes dos óculos da menina com a ponta dos dedos. — Isso não é verdade. Nem uma palavra.

— É verdade sim! — Luna protestou, a voz embargada. — Eu sou gordinha e esses óculos me deixam estranha. Eu queria ser igual a você, mamãe. Você é perfeita. Todo mundo ama a Rainha Stella. Ninguém quer brincar com a princesa que tropeça nos próprios pés.

Jim aproximou-se, sua presença geralmente intimidadora tornando-se suave como uma brisa noturna. Ele se agachou do outro lado de Luna, forçando um sorriso de canto que costumava derreter a insegurança da menina.

— Então a pequena Selina acha que sabe alguma coisa sobre beleza, não é? — Jim disse, a voz aveludada carregada de um desdém divertido. — Deixe-me contar um segredo, Luna. Piratas e reis têm algo em comum: eles sabem que o ouro mais valioso nem sempre é o que mais brilha por fora.

Luna olhou para ele, os olhos azuis grandes e úmidos por trás das lentes.

— Mas você é bonito, Jim. E a tia Bloom é linda.

Bloom deu um passo à frente e sentou-se no chão com eles, formando um círculo de proteção ao redor da menina.

— Luna, você sabia que quando eu tinha a sua idade, em Gardenia, eu também me sentia um peixe fora d'água? — Bloom começou, sua voz doce e calma. — Eu era a menina ruiva e estranha que acreditava em fadas enquanto todo mundo só pensava em videogames. As outras garotas faziam piada do meu cabelo, diziam que eu parecia um fósforo aceso. Eu passava horas chorando no meu quarto, achando que nunca seria "normal".

Luna parou de soluçar por um momento, surpresa.

— Você? Mas você é a Fada da Chama do Dragão!

— E eu só descobri isso porque parei de tentar ser o que elas queriam que eu fosse — Bloom continuou, piscando para ela. — Ser diferente não é um defeito, Luna. É o sinal de que você tem algo que elas não conseguem entender.

Stella, vendo que a filha estava começando a ouvir, levantou-se e foi até uma escrivaninha próxima. Ela abriu uma gaveta secreta e retirou um pequeno álbum de fotografias com capas de veludo desgastadas.

— Venha cá, Luna. Eu nunca mostrei isso para ninguém, nem mesmo para o Brandon — confessou Stella, abrindo o álbum.

Luna e os outros se aproximaram. Na primeira página, havia a foto de uma pequena Stella, talvez com oito anos. Ela usava óculos cujas lentes eram tão grossas que seus olhos pareciam gigantes, e seu cabelo era um emaranhado de cachos rebeldes que pareciam brigar com a tiara.

— Essa sou eu — disse Stella, rindo da própria imagem. — Eu os chamava de "óculos de fundo de garrafa". E eu também não era essa sílfide que você vê hoje. Eu amava os doces da cozinha real de Solaria, e minhas bochechas eram tão grandes quanto as suas.

— Você usava óculos? — Luna tocou a foto com a pontinha do dedo, maravilhada.

— Usei por anos — Stella afirmou, abraçando a filha de lado. — E as outras princesas eram cruéis. Elas diziam que eu nunca seria a fada mais brilhante porque minhas lentes bloqueavam a luz do sol. Mas veja só... a luz nunca veio dos meus olhos, Luna. Ela vinha daqui de dentro. E a sua luz é tão forte que esses óculos são apenas a moldura de uma obra de arte.

Jim soltou uma risada curta, mas carregada de uma memória amarga.

— Vocês fadas tiveram sorte — comentou ele, encostando-se na perna do trono. — Minha infância foi em um navio pirata, cercado por homens que só respeitavam a força. Eu era o menor da tripulação, magricela e desajeitado. Eles me chamavam de "isca de tubarão". Eu apanhei muito e ouvi coisas piores do que essas que essa menina disse para você.

Luna olhou para Jim com tristeza.

— Eles eram maus com você?

— Eram — Jim admitiu, seus olhos violetas brilhando com uma intensidade antiga. — Mas eles me ensinaram uma lição valiosa, mesmo sem querer. Eles me disseram que eu não pertencia àquele lugar. E eles tinham razão. Eu não pertencia à mediocridade deles. Assim como você não pertence ao grupo dessas crianças que não conseguem ver a rainha que você está se tornando.

Ele estendeu a mão e ajeitou os óculos no nariz de Luna com um toque gentil.

— Luna, esses óculos permitem que você veja o mundo. E o mundo é um lugar perigoso para quem não presta atenção. Use-os como sua armadura. E quanto ao que ela disse sobre você ser "pesada"... bem, isso só significa que você é mais difícil de ser derrubada pelo vento. Um pirata prefere um navio sólido e resistente do que um barquinho de papel que rasga na primeira tempestade.

Luna deu um pequeno sorriso, o primeiro daquela tarde.

— Então eu sou um navio sólido?

— O mais sólido de Solaria — afirmou Jim, com uma piscadela.

Bloom abraçou Luna por trás, aninhando o queixo no ombro da menina.

— Luna, a beleza de Solaria não está na perfeição. Está na luz que aquece. E você aquece o coração de todo mundo neste palácio. A Selina só está tentando apagar o seu brilho porque ela tem medo de que você brilhe mais que ela. E quer saber? Você já brilha.

Stella pegou as mãos da filha, seu olhar agora sério e maternal.

— Amanhã, você vai voltar para aquela escola. Você vai usar seus óculos, vai caminhar com a cabeça erguida e, se alguém disser qualquer coisa, você vai apenas sorrir. Porque você sabe algo que eles não sabem.

— O que eu sei, mamãe? — perguntou Luna, curiosa.

— Você sabe que tem a Fada da Chama do Dragão, a Rainha de Solaria e o pirata mais perigoso da Terra do Nunca ao seu lado — Stella respondeu, com um brilho travesso nos olhos. — E se alguém fizer você chorar de novo, eles terão que lidar conosco.

Jim soltou um rosnado baixo e divertido.

— Eu já estou preparando o meu discurso para os pais da Selina. Vai envolver muitas ameaças de exílio em pântanos cheios de sapos gigantes.

Luna finalmente soltou uma gargalhada alta, o som preenchendo a sala e dissipando a tensão. Ela abraçou os três ao mesmo tempo, um abraço coletivo que selava a promessa de proteção.

— Obrigada, tia Bloom. Obrigada, Jim. Obrigada, mamãe.

— Agora — disse Stella, levantando-se e limpando o resto das lágrimas de Luna —, que tal irmos até a cozinha real? Ouvi dizer que o chef preparou aqueles bolinhos de mel que você adora. E eu acho que todos nós merecemos um pouco de açúcar depois de tanta emoção.

— Eu aceito — disse Jim, oferecendo o braço para Luna como um verdadeiro cavalheiro. — Mas só se a princesa me permitir a primeira mordida.

Luna aceitou o braço dele, caminhando com uma nova confiança, seus óculos brilhando sob as luzes do palácio. Bloom e Stella seguiram atrás, trocando um olhar de cumplicidade. Elas sabiam que o mundo ainda seria difícil para Luna, que as inseguranças voltariam em outros momentos, mas naquele dia, elas haviam construído um alicerce.

Enquanto caminhavam pelos corredores, Jim sussurrou algo no ouvido de Luna que a fez rir novamente. Bloom tocou o braço de Stella.

— Você viu como ele olhou para ela? — sussurrou Bloom. — Ele realmente a ama como se fosse dele.

— Ele é o tio pirata que toda princesa deveria ter — Stella sorriu, observando Jim fingir uma luta de espadas imaginária com Luna usando um rolo de pergaminho que encontrara no caminho. — E nós somos a família mais estranha e maravilhosa de todas as dimensões.

Naquela tarde, em Solaria, não houve reuniões políticas ou estratégias de guerra. Houve apenas risadas, bolinhos de mel e a certeza de que, enquanto estivessem juntos, nenhuma sombra ou palavra cruel seria capaz de apagar a luz de Luna. Pois ela não era apenas uma menina de óculos e bochechas redondas; ela era o tesouro mais precioso de um pirata e o sol mais quente de duas fadas que dariam o mundo para vê-la sorrir.

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