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Fada e pirata

Sombras sob a Coroa de Ouro

O tempo em Solaria parecia correr de forma diferente, guiado pelo ciclo das três luas e pelo brilho constante do sol que nunca se punha de verdade. Os anos haviam transformado o palácio. O que antes era um refúgio de silêncio e protocolos rígidos, agora ecoava com os risos de uma nova geração. Bloom e Jim haviam construído seu próprio ninho naquele reino solar; a filha deles, Rose, herdara os cabelos azul-violeta do pai e o fogo indomável da mãe, sendo a companhia constante e a sombra adorada de Luna.

Luna, agora uma adolescente, florescera de uma maneira que deixava os súditos boquiabertos. A beleza da Rainha Stella era lendária, mas Luna carregava algo a mais: uma mistura da elegância solar com uma profundidade serena, herdada talvez da convivência com Bloom. Seus óculos de infância haviam dado lugar a olhos azuis cristalinos que pareciam enxergar a alma das pessoas. No entanto, o coração de Luna era um território guardado. Com Brandon, seu pai biológico, a relação era cordial, mas distante como duas estrelas em galáxias diferentes. Para ela, a figura paterna, o homem que ensinara a empunhar uma adaga e a detectar uma mentira antes mesmo de ser dita, sempre fora Jim.

A agitação no quarto de Luna naquela semana era palpável. O baile do Colégio Real de Solaria era o evento do século para qualquer jovem da nobreza. E o convite viera: o Príncipe Kael, de um reino vizinho, pedira que ela fosse seu par. Para uma garota que passara a infância se sentindo o "sapo de óculos", aquele era o momento da validação definitiva. Stella estava em seu elemento, desenhando um vestido que mudava de cor conforme a inclinação da luz, enquanto Bloom ajudava com os detalhes mágicos e Rose corria pelo quarto tentando imitar a postura de uma debutante.

Mas o brilho se apagou em uma tarde de terça-feira.

Luna voltara da escola em silêncio absoluto. Não houve o relato empolgado sobre os ensaios de dança, nem a consulta sobre qual penteado usar. Ela simplesmente subiu as escadarias, trancou a porta de seus aposentos e lá permaneceu. A notícia correu pelos corredores através das fofocas dos servos: Kael fora visto no jardim da academia com outra princesa, anunciando publicamente que Luna era "estável demais" e que ele preferia alguém com mais "faísca". Na linguagem cruel dos adolescentes reais, ele a trocara por uma opção mais conveniente politicamente.

Três dias se passaram. A bandeja de comida deixada à porta mal era tocada.

— Ela não abre a porta nem para a Rose — comentou Bloom, preocupada, enquanto caminhava pelo corredor com Jim. — Tentei falar com ela hoje de manhã e recebi um "me deixem em paz" tão frio que quase apagou minha chama.

Jim parou diante da porta de carvalho entalhado, os braços cruzados sobre o peito. Seus olhos violetas estavam estreitos, carregados de uma irritação que ele tentava controlar.

— Ela está fazendo o que eu fazia na Terra do Nunca quando perdia uma batalha — murmurou Jim. — Está se escondendo nas sombras para lamber as feridas. Mas o problema é que ela está deixando as feridas inflamarem.

Stella aproximou-se, vindo da direção oposta. Seus olhos estavam vermelhos, sinal de que também sofrera em silêncio pela dor da filha.

— Ela não quer me ver, Bloom. Ela acha que eu não entendo, que porque sou a "Rainha da Beleza", nunca fui rejeitada. Ela está sendo ignorante comigo, me tratando como se eu fosse uma estranha que só se importa com aparências.

— Chega disso — disse Jim, a voz soando com a autoridade de um capitão. — Ela não está comendo, não está vivendo e está deixando um idiota qualquer ditar o valor dela. Vamos entrar.

— Jim, ela trancou com magia de barreira — avisou Stella.

Jim deu um sorriso de canto, aquele brilho perigoso de pirata retornando ao rosto.

— Princesa, você esqueceu com quem se casou? Não existe tranca, física ou mágica, que segure um homem que viveu séculos roubando segredos da Rainha das Sombras.

Com um movimento rápido e um sussurro em uma língua antiga da Terra do Nunca, Jim tocou a maçaneta. A barreira dourada de Luna brilhou intensamente, resistiu por um segundo e depois se dissolveu como fumaça. Ele abriu a porta com firmeza.

O quarto estava na penumbra. As cortinas pesadas bloqueavam o sol eterno de Solaria. O cheiro de perfume caro misturava-se ao ar abafado de um ambiente fechado por tempo demais. Luna estava encolhida na cama, envolta em um cobertor, olhando para a parede oposta.

— Eu disse para irem embora! — gritou Luna, a voz rouca. — Eu não quero ouvir que "vai ficar tudo bem" ou que "existem outros príncipes". Saiam!

— Primeiro — começou Jim, caminhando até a janela e abrindo as cortinas de um só golpe, ignorando o protesto de Luna contra a luz —, você não dá ordens para mim. Segundo, sua mãe e a Bloom estão preocupadas o suficiente para considerar derrubar esta parede se você não falasse. E terceiro, você cheira a tristeza e falta de banho. Isso não é comportamento de uma capitã.

Luna sentou-se na cama, o cabelo loiro bagunçado, os olhos inchados. A beleza que todos admiravam estava ali, mas obscurecida por uma máscara de amargura.

— O que você sabe, Jim? — ela disparou, usando o nome dele sem o afeto habitual. — Você é um pirata arrogante que sempre consegue o que quer. A Bloom é a fada mais poderosa do universo. E minha mãe... bem, ela é a perfeição em forma de gente. Vocês não sabem o que é ser a segunda opção. O que é ser trocada como se fosse um acessório fora de moda.

Stella deu um passo à frente, a voz trêmula mas firme.

— Luna, você acha que minha vida foi um desfile de vitórias? Eu fui rejeitada pelo seu pai. Eu tive que governar este reino sozinha enquanto escondia minha gravidez de um conselho que queria me depor. Eu passei noites em claro achando que nunca seria boa o suficiente para ser rainha e mãe ao mesmo tempo.

— Mas você é linda! — Luna explodiu, levantando-se da cama. — Você brilha! Eu olho no espelho e só vejo a garota que o Kael não quis. Eu comecei a pensar... talvez ele tenha razão. Talvez eu seja sem graça. Eu parei de comer aquelas porcarias que o chef faz porque achei que, se eu ficasse mais magra, talvez ele voltasse. Eu estou paranoica, mãe! Eu sinto que todo mundo no colégio está rindo de mim pelas costas.

Bloom aproximou-se, colocando as mãos nos ombros da afilhada.

— Luna, escute bem. A insegurança é um monstro que se alimenta do silêncio. Se você der a ele o seu tempo, a sua comida e a sua alegria, ele vai crescer até te devorar por inteiro. Você está deixando um rapaz que nem sequer sabe o que quer da vida definir quem é a Princesa de Solaria?

— Ele me humilhou, tia Bloom — sussurrou Luna, as lágrimas voltando a cair.

Jim aproximou-se, parando bem na frente dela. Ele era mais alto, e sua sombra projetava-se sobre ela, mas não de forma ameaçadora, e sim protetora.

— Olhe para mim, pequena — ordenou ele. Luna ergueu os olhos. — Durante séculos, eu menti para mim mesmo. Eu dizia que não precisava de ninguém, que o amor era uma fraqueza de mortais tolos. Eu me escondia atrás de uma aparência jovem porque tinha medo de envelhecer e ver que minha vida não tinha sentido. Sabe quem me tirou desse buraco?

Ele apontou para Bloom e Stella.

— Foram elas. Não porque me disseram palavras bonitas, mas porque me mostraram que a minha verdade valia mais do que qualquer máscara. Você está tentando se moldar para caber na visão de um príncipe medíocre. Se você fizer isso, Luna, você vai passar o resto da vida sendo uma sombra.

— Mas e o baile? — perguntou ela, a voz pequena. — Todos vão estar lá com seus pares perfeitos.

— O baile é apenas uma festa, Luna — disse Stella, aproximando-se e acariciando o rosto da filha. — Mas a sua vida é o reino. Você é a futura governante deste lugar. Uma rainha não chora porque não foi convidada para dançar; ela chora se o seu povo sofre. E agora, você está fazendo o seu povo — nós — sofrer por causa de uma bobagem.

Luna olhou para os três. A arrogância de Jim, a força de Bloom e a resiliência de Stella. Ela sentiu uma pontada de vergonha pela forma como os tratara nos últimos dias.

— Eu fui horrível com vocês — admitiu Luna, baixando a cabeça.

— Você foi uma adolescente sendo uma adolescente — Jim deu de ombros, embora seu olhar fosse terno. — Eu já lidei com tripulações amotinadas mais educadas, confesso. Mas eu não trocaria você por nenhuma princesa "com faísca" do universo.

— Então, o que eu faço? — perguntou ela, limpando o rosto. — Eu não quero ir e ser a piada da noite.

— Você não vai ser a piada — afirmou Bloom. — Você vai entrar naquele salão e vai ser a própria luz. Não porque você tem um par, mas porque você é Luna de Solaria.

— E se você não quiser ir com um príncipe — Jim interveio, com um brilho malicioso nos olhos —, eu ficaria honrado em escoltar a princesa mais bonita do reino. Eu ainda sei dançar aquela valsa chata que sua mãe me obrigou a aprender.

Luna soltou uma risada genuína, a primeira em dias.

— Você faria isso, Jim? Iria a um baile de colégio cheio de adolescentes barulhentos?

— Eu enfrentaria um exército de Hook e feras da Terra do Nunca por você — disse ele, seriamente. — Um salão de festas cheio de garotos mimados é apenas um passeio no parque.

Stella abraçou a filha com força.

— Agora, você vai comer. O chef preparou um banquete porque eu disse a ele que minha filha ia voltar a brilhar hoje. E depois, vamos trabalhar naquele vestido. Se o Kael queria faísca, vamos mostrar a ele o que acontece quando o sol decide incendiar o céu.

Luna sentiu o peso no peito diminuir. A paranoia e a insegurança ainda estavam lá, espreitando nos cantos de sua mente, mas a presença daqueles três adultos — que eram sua verdadeira âncora — tornava o monstro muito menor.

— Eu amo vocês — sussurrou Luna.

— Nós sabemos — disse Bloom, beijando a testa dela. — Agora, Luna, prometa uma coisa: nunca mais deixe de comer ou de viver por causa de alguém que não consegue enxergar o óbvio.

— Eu prometo — respondeu a garota, com uma nova determinação nos olhos.

Jim caminhou até a porta, parando antes de sair.

— E Luna? — Ele olhou por cima do ombro. — Se aquele tal de Kael chegar perto de você para pedir desculpas, não aceite. Apenas sorria e diga que ele não tem o nível necessário para navegar nas suas águas.

Luna sorriu, um sorriso que carregava a elegância da mãe e a audácia do pirata.

— Pode deixar, Jim. Eu sei exatamente o que fazer.

Naquela noite, o quarto de Luna não estava mais nas sombras. A luz de Solaria entrava pelas janelas, refletindo-se nos espelhos e nos olhos de uma jovem que estava aprendendo que a beleza não era um convite para um baile, mas a coragem de ser exatamente quem se é, mesmo quando o mundo tenta dizer o contrário. E, enquanto as risadas de Rose ecoavam pelo corredor e o cheiro de comida fresca subia da cozinha, Luna percebeu que, com aquela família, ela nunca seria a segunda opção. Ela era o próprio sol.

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