Voltar ao resumo

Fada e pirata

O Refúgio das Pétalas de Ferro e Seda

O palácio de Solaria fervilhava com a opulência de um império que nunca dormia sob o sol eterno. Nos corredores, o som de sedas arrastando-se pelo mármore e o tilintar de joias preciosas compunham a sinfonia da realeza. No entanto, no centro de seus aposentos, a Rainha Luna observava-se no espelho com uma sensação de dualidade. Ela vestia um traje inspirado nas antigas tradições otomanas, uma escolha que Stella, com seu olhar apurado para a moda, refinara com tecidos solarianos. O vestido era de um carmesim profundo, com bordados em fios de ouro que serpenteavam pelas mangas longas e fluidas, e um manto de seda translúcida que caía sobre seus ombros como uma cascata de luz.

Ela parecia uma imperatriz de eras passadas, imponente e inalcançável. Mas, sob as camadas de luxo, o coração de Luna batia no ritmo das batidas de um tambor de couro, ecoando o chamado do Vale das Sombras.

— Você está deslumbrante, querida — disse Stella, entrando no quarto com um sorriso radiante. — Essa estrutura de gola alta e os bordados pesados dão a você uma autoridade que até os ministros mais teimosos respeitam.

— Obrigada, mamãe. — Luna terminou de prender o pingente de obsidiana, que agora era uma peça central de seu traje, montado em um broche de ouro. — Mas você sabe que não estou vestindo isso para os ministros.

Stella suspirou, um brilho de compreensão suavizando seu rosto.

— Eu sei. Você vai vê-lo.

— Nós vamos — corrigiu Bloom, surgindo à porta ao lado de Jim. A fada ruiva usava trajes de viagem práticos, enquanto Jim mantinha seu estilo pirata, embora com um colete de couro mais nobre, adequado à escolta real. — Não deixaríamos você atravessar o desfiladeiro sozinha, especialmente agora que a tribo se tornou seu segundo lar.

— Além disso — acrescentou Jim, ajustando a bainha de sua espada —, eu preciso conferir se aquele guerreiro de olhos escuros ainda se lembra de como tratar uma dama de Solaria. Ou se ele precisa de um lembrete vindo da Terra do Nunca.

Luna riu, sentindo a leveza que só sua família conseguia proporcionar.

— Ele se lembra, Jim. Ele sempre se lembra.

A viagem até o Vale das Sombras foi feita com menos pressa do que nas vezes anteriores. Eles não fugiam de nada; eles caminhavam em direção a algo. À medida que a vegetação mudava e o ar se tornava mais seco e carregado com o cheiro de sálvia selvagem, Luna sentia a armadura da rainha se dissolver. Quando os picos avermelhados do vale surgiram no horizonte, a ansiedade no peito de Luna não era de medo, mas de antecipação.

Puma estava lá, exatamente onde prometera estar. Ele estava encostado em uma rocha na entrada da aldeia, observando o horizonte. Ele não usava adornos reais, apenas suas calças de couro, suas tatuagens e a calma de quem pertence à terra. Quando a comitiva real se aproximou, ele não se curvou com a servidão de um súdito, mas endireitou o corpo com o respeito de um igual.

— O sol traz a beleza de volta ao vale — disse Puma, sua voz ressonando no ar quente.

Luna desmontou, seus trajes otomanos balançando com o movimento. O contraste era gritante: a seda carmesim e o ouro contra a poeira e o couro do Vale. Mas, nos olhos de Puma, Luna não viu surpresa, apenas aceitação.

— Eu trouxe minha família — disse Luna, indicando Stella, Bloom e Jim.

— Eles são bem-vindos à nossa mesa e ao nosso fogo — respondeu Puma, fazendo o sinal de paz da tribo, a mão sobre o coração.

Nas horas seguintes, o grupo mergulhou nos costumes da tribo. Stella, para surpresa de Luna, sentou-se com as tecelãs nativas, discutindo técnicas de pigmentação natural com a mesma paixão com que discutia alta costura em Solaria. Bloom ajudava os curandeiros a organizar ervas mágicas, trocando conhecimentos sobre a Chama do Dragão e as raízes da terra.

Jim, por sua vez, encontrou um desafio à sua altura. Ele e alguns guerreiros da tribo iniciaram uma competição amistosa de arremesso de facas.

— Nada mal para um homem que vive em barcos — comentou um dos guerreiros, após Jim acertar o centro de um tronco distante.

— Barcos ou cavalos, o segredo é o equilíbrio — respondeu Jim, com um sorriso de canto, embora estivesse claramente impressionado com a precisão dos nativos. Ele olhou de relance para Luna e Puma, que caminhavam afastados, e relaxou os ombros. Ele via a paz no rosto da afilhada.

Puma levou Luna para um mirante natural, um platô que dava vista para todo o vale. Eles caminharam em silêncio por um tempo, o som do vestido de seda de Luna roçando nas pedras criando um ruído rítmico.

— Você veste as roupas da sua cidade — observou Puma —, mas seus pés caminham sobre a nossa terra sem tropeçar. Você é uma rainha que sabe onde pisa.

— Às vezes sinto que estou dividida, Puma — confessou ela, parando à beira do precipício. — Lá, eu sou o sol que todos olham. Aqui, eu sou apenas Luna. E eu não sei qual das duas é a verdadeira.

Puma aproximou-se. Ele era um homem que entendia a natureza; ele sabia que uma árvore não era apenas suas folhas ou suas raízes, mas o conjunto de tudo.

— Por que escolher? — perguntou ele. — O rio é água na montanha e água no mar. Ele muda de forma, mas sua essência é a mesma. Você é a seda e é a obsidiana.

Luna olhou para ele. O guerreiro emanava uma tranquilidade que a desarmava completamente. Pela primeira vez em muito tempo, a memória da agressão, o fantasma da dor física e a sensação de estar "quebrada" pareceram distantes, como um sonho ruim que o sol da manhã dissipara.

Ela sentiu uma coragem súbita, uma faísca de desejo de conexão que ela achava que havia sido extinta para sempre. Luna deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. Puma permaneceu imóvel, como uma rocha, respeitando o espaço dela, esperando, como sempre prometera.

Luna estendeu a mão e tocou o braço de Puma. A pele dele estava quente do sol, firme e real. Ela não recuou. Em vez disso, ela se aproximou mais, sentindo o calor que emanava do corpo dele. Com um movimento lento, Luna envolveu os braços ao redor da cintura de Puma, escondendo o rosto em seu peito.

Foi um abraço simples, mas para Luna, foi uma revolução. Era a primeira vez que ela abraçava um homem fora de sua família sem sentir o impulso de lutar ou fugir. Ela sentiu os braços fortes de Puma envolverem-na de volta, um abraço protetor, mas suave, que não pedia nada além daquele momento.

— Você é forte, Luna — sussurrou ele contra o cabelo dela.

Luna afastou-se apenas o suficiente para olhar nos olhos dele. Ela viu a admiração, o carinho e a paciência infinita. Com um sorriso tímido, ela se inclinou e beijou a bochecha de Puma, um toque leve que deixou a pele dele formigando.

— Obrigada por esperar — disse ela.

— Eu esperaria mil vidas — respondeu Puma.

Eles voltaram para o centro da aldeia quando o sol começou a se pôr. Era hora de partir. Stella, Bloom e Jim já estavam montados em seus cavalos, despedindo-se dos novos amigos.

Puma caminhou até o garanhão de Luna. Ele segurou a rédea enquanto ela montava, o vestido carmesim espalhando-se sobre o lombo do cavalo branco. Ele se aproximou e, seguindo o costume da tribo para despedidas sagradas, inclinou-se e beijou a testa de Luna.

— Vá com o sol, Flor de Obsidiana.

— E que as sombras o protejam até minha volta — respondeu Luna.

Enquanto o grupo galopava de volta para o palácio, Luna sentiu uma plenitude que nunca experimentara. O vento soprava através das camadas de sua roupa cara, mas ela não se sentia mais presa por ela. Ela olhou para o lado e viu Jim observando-a com um olhar de aprovação silenciosa, e Stella sorrindo com lágrimas de felicidade nos olhos.

Luna percebeu, naquele galope sob as estrelas, que seu coração estava finalmente completo. Ela não precisava ser apenas a rainha perfeita ou a vítima sobrevivente. Ela era a mulher que podia vestir seda e ouro no palácio e, no dia seguinte, abraçar um guerreiro na poeira de um vale esquecido.

Ela não era um deserto. Ela era uma terra fértil de um jeito diferente, onde a amizade, o amor e a autodescoberta floresciam em cores que nenhuma joia de Solaria poderia igualar. Luna esporeou o cavalo, rindo alto enquanto corria em direção ao horizonte, sentindo que, finalmente, os laços simples da vida eram a coroa mais valiosa que ela jamais usaria.

Entrar com Telegram

Confirme o login no bot.