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Fada e pirata

O Galope do Sol e o Silêncio das Sombras

— Vossa Majestade, os relatórios das fronteiras do sul indicam que a praga da magia seca recuou totalmente — informou o conselheiro, ajustando os óculos com um nervosismo que Luna já considerava parte da decoração da sala. — As terras da Tribo do Vale das Sombras estão florescendo novamente.

Luna assentiu, sentindo o peso da coroa de ouro sobre a cabeça. Já se passara um ano desde sua coroação, e a rotina de rainha era um ciclo interminável de papéis, protocolos e sorrisos diplomáticos. Ela era boa nisso, muito melhor do que Stella esperava, mas havia uma parte de sua alma que ainda se sentia presa entre as paredes de mármore do palácio.

— Excelente notícia, conselheiro — disse ela, levantando-se com a elegância que Bloom a ensinara a manter mesmo sob pressão. — Por hoje é só. Preciso de ar.

— Mas, Majestade, o banquete com os embaixadores de Eraklyon... — o homem começou a protestar, mas Luna já estava na porta.

— Diga a eles que a rainha foi inspecionar a saúde das pastagens — interrompeu ela, com um tom que lembrava a audácia de Jim.

Minutos depois, Luna estava nos estábulos reais. Ela não escolheu a carruagem ou a escolta de honra. Selou seu próprio cavalo, um garanhão branco chamado Estrela, e partiu. Ela precisava sentir o vento no rosto, o cheiro da terra e a liberdade que só o horizonte aberto de Solaria poderia proporcionar.

O galope foi intenso. Luna deixou a capital para trás, atravessando os campos dourados e entrando nas zonas de transição onde a vegetação se tornava mais densa e selvagem. Ela cavalgou por horas, perdida em pensamentos, sentindo o pingente de obsidiana bater levemente contra seu peito. Sem perceber, ela cruzara os limites das terras conhecidas, entrando nos domínios profundos da Tribo do Vale.

O sol estava começando a descer, pintando o céu com tons de violeta e laranja, quando um assobio agudo cortou o ar.

Estrela relinchou, assustado, empinando-se. Luna, embora pega de surpresa, manteve a sela com a firmeza de quem fora treinada por piratas e guerreiras. Das sombras de um desfiladeiro de pedras vermelhas, um jovem guerreiro saltou, empunhando uma lança com ponta de pedra. Seus olhos estavam cheios de desconfiança, e ele gritou algo na língua nativa, claramente confundindo a rainha com um invasor ou um espião.

Antes que Luna pudesse invocar sua magia ou explicar sua identidade, o som de cascos pesados ecoou contra a rocha.

— *Halt!* — O comando ecoou, poderoso e inquestionável.

Um cavaleiro surgiu no topo da elevação, montado em um cavalo robusto e escuro. Ele desceu a encosta com uma habilidade que desafiava a gravidade. Era Puma. Ele não usava a armadura rústica da última vez, mas sim uma túnica de couro leve que deixava seus braços fortes à mostra, adornados com novas pinturas de guerra que simbolizavam a vida e a proteção. Seu rosto, embora jovem, carregava uma maturidade que parecia vir da própria terra.

Puma posicionou seu cavalo entre Luna e o guerreiro agressor, sem desmontar. Ele apenas ergueu a mão, e o jovem da lança imediatamente baixou a arma, curvando a cabeça em sinal de respeito e desculpas.

— Ela é a Rainha do Sol — disse Puma em sua língua, mas Luna reconheceu o tom de reverência. Ele se virou para ela, os olhos escuros brilhando com uma mistura de surpresa e um prazer contido. — Você cavalgou para longe de casa, Flor de Obsidiana.

Luna respirou fundo, tentando acalmar o coração acelerado.

— Eu precisava de espaço, Puma. Acabei não percebendo o quanto me afastei.

— O horizonte é traiçoeiro para quem busca silêncio — Puma comentou, aproximando seu cavalo do dela. — Mas você está em nossas terras agora. E em nossas terras, uma rainha não é uma estranha, é uma convidada de honra.

Ele indicou o caminho que subia o vale.

— Venha. O sol está se pondo e os ventos do deserto são frios. Conheça a nossa casa, agora que ela respira novamente graças à sua ajuda.

Luna hesitou por um segundo, pensando no protocolo, na segurança e na preocupação que sua ausência causaria. Mas então, ela olhou para Puma. Havia algo naqueles olhos — uma honestidade brutal, uma calma que não pedia nada em troca — que a atraía como um ímã.

— Eu adoraria — respondeu ela.

Eles cavalgaram lado a lado. O caminho para a aldeia da Tribo do Vale era um espetáculo de natureza bruta. Puma falava pouco, mas quando falava, era para apontar uma planta medicinal ou contar a história de uma constelação que estava surgindo no céu. Ele era como o Puma dos contos antigos: ágil, atento e profundamente conectado ao ambiente.

Ao chegarem à aldeia, Luna ficou encantada. Não havia o ouro excessivo de Solaria, mas sim uma harmonia de cores naturais. As tendas eram feitas de peles pintadas, e o centro da aldeia era uma grande fogueira onde crianças corriam e anciãos teciam cestos. Ao verem Luna, o povo não se ajoelhou com medo; eles sorriram e tocaram o peito, um gesto que ela agora sabia significar "minha alma reconhece a sua".

Puma a levou para conhecer os costumes. Ela provou uma bebida feita de raízes doces, sentou-se no chão de terra batida para ouvir as canções rítmicas das mulheres e, por algumas horas, esqueceu-se de que era a Rainha Luna. Ali, ela era apenas Luna.

— Você parece diferente aqui — observou Puma, enquanto se sentavam um pouco afastados da fogueira principal, observando o céu estrelado.

— Eu me sinto diferente — admitiu ela. — No palácio, eu sou o que as pessoas precisam que eu seja. Aqui... eu sinto que sou apenas parte do mundo.

Puma olhou para as mãos dela, que agora estavam levemente sujas de poeira e suco de frutas.

— O mundo não se importa com títulos, Luna. A terra só quer saber se você consegue caminhar sobre ela com respeito. E você consegue.

Enquanto isso, a quilômetros dali, o Palácio de Solaria estava em estado de sítio emocional.

— Como assim ela não voltou?! — o grito de Stella ecoou pelo salão de guerra. Ela estava pálida, as mãos apertando o braço da poltrona. — Já é quase meia-noite!

— Nós vasculhamos as rotas principais, Stella — disse Bloom, tentando manter a calma, embora seus próprios olhos estivessem fixos no mapa. — Mas o rastro do Estrela some perto das Terras Distantes.

Jim estava encostado na parede, limpando uma de suas adagas com uma obsessão perigosa. Seus olhos violetas estavam escuros de raiva e preocupação.

— Se alguém tocou nela... — Jim começou, a voz soando como um rosnado baixo. — Se aquele maldito conselho ou algum oportunista de Eraklyon resolveu fazer graça...

— Jim, acalme-se — pediu Bloom, embora sua voz estivesse trêmula. — Luna é uma fada poderosa e uma cavaleira treinada. Ela sabe se cuidar.

— Ela sabe se cuidar contra monstros, Bloom! — rebateu Jim, guardando a adaga com um estalo metálico. — Mas ela ainda está curando o coração. Ela é vulnerável a si mesma. Eu vou buscá-la. Agora.

— Eu vou com você — disse Stella, levantando-se. — Não consigo ficar aqui esperando o sol nascer sem saber onde minha filha está.

Na aldeia, alheia à tempestade que se formava no palácio, Luna caminhava com Puma em direção aos estábulos improvisados. A noite estava fresca e o silêncio era interrompido apenas pelo estalar da lenha na fogueira distante.

— Eu preciso voltar, Puma — disse ela, sentindo uma pontada de culpa. — Minha mãe e meus tios devem estar loucos de preocupação. Eu perdi a noção do tempo.

Puma parou e a olhou. A luz das tochas criava sombras profundas em seu rosto, destacando a mandíbula forte e o olhar intenso. Ele deu um passo à frente, entrando no espaço pessoal dela, mas desta vez Luna não recuou. Ela não sentiu o desejo de fugir.

— Eu entendo — disse ele, a voz baixa e rouca. — Uma rainha pertence ao seu povo. Mas a mulher... a mulher que eu vi hoje, ela pertence a este vale.

Luna sentiu o coração falhar uma batida.

— Puma, eu não posso... você sabe o que aconteceu comigo. Você sabe que eu não sou como as outras mulheres da sua tribo. Eu não posso dar a você o que um guerreiro geralmente espera.

Puma estendeu a mão e, com uma delicadeza infinita, tocou a ponta do pingente de obsidiana no pescoço dela. Seus dedos roçaram a pele de Luna, e ela sentiu um arrepio que não era de medo, mas de uma eletricidade nova e desconhecida.

— Eu não sou um guerreiro comum, Luna — ele sussurrou. — E eu não procuro uma mulher para carregar meu nome em um filho. Eu procuro uma alma que caminhe ao meu lado na escuridão e no sol. Eu vi a sua força antes de ver a sua dor. E a sua dor não me assusta.

Ele se inclinou um pouco mais, o cheiro de ervas e terra que emanava dele envolvendo Luna.

— Eu vou esperar, Flor de Obsidiana — prometeu Puma, solenemente. — Vou esperar o tempo que for necessário. Se você precisar de anos para se curar, eu estarei aqui. Se você nunca quiser ser tocada, eu serei apenas o seu escudo. Mas não pense, nem por um segundo, que você é menos do que a mulher mais completa que eu já conheci.

Luna sentiu as lágrimas transbordarem, mas eram lágrimas de alívio. Ela encostou a testa no peito de Puma por um breve segundo, sentindo a batida firme e constante do coração dele. Era um porto seguro.

O momento foi interrompido pelo som de asas mágicas e o brilho de chamas ruivas no céu. Bloom e Stella desceram no centro da aldeia como meteoros, seguidas por Jim, que saltou de um portal de sombras com a espada em punho.

— LUNA! — O grito de Stella foi um misto de fúria e choro.

A rainha se afastou de Puma, recompondo-se rapidamente.

— Mãe! Jim! Bloom! Eu estou bem!

Jim avançou, os olhos fixos em Puma. Ele analisou a postura do guerreiro, a proximidade entre os dois e o fato de Luna estar ilesa e, estranhamente, mais calma do que quando saíra do palácio.

— O que significa isso? — Jim perguntou, a voz carregada de desconfiança, apontando a espada levemente na direção de Puma.

— Significa que eu fui convidada para um jantar, Jim — Luna disse, colocando-se na frente de Puma com uma autoridade que fez o pirata hesitar. — Puma me protegeu de um mal-entendido e me mostrou a hospitalidade do seu povo. Não há motivo para armas.

Stella correu até a filha, abraçando-a como se ela pudesse desaparecer a qualquer momento.

— Você nos matou de susto, Luna! Por que não mandou uma mensagem mágica?

— Eu... eu precisei esquecer que a magia existia por algumas horas, mãe — confessou Luna, olhando por cima do ombro de Stella para Puma.

Bloom aproximou-se, observando o guerreiro nativo com um olhar clínico. Ela viu o respeito nos olhos de Puma e a forma como ele mantinha a cabeça erguida diante da fúria de Jim.

— Peço desculpas pela intrusão, Guerreiro Puma — disse Bloom, com a diplomacia de uma líder. — Mas nossa família é um pouco... superprotetora.

Puma inclinou a cabeça para Bloom e depois para Jim, ignorando a ponta da espada que ainda brilhava à luz da lua.

— Eu entendo o valor de proteger o que é precioso — disse Puma. Ele olhou para Luna uma última vez. — O caminho de volta é seguro sob a luz das estrelas, Majestade.

Luna montou em Estrela, sendo escoltada por sua família barulhenta e preocupada. Enquanto o grupo se afastava, ela olhou para trás. Puma ainda estava lá, uma figura solitária e poderosa contra o fogo da aldeia.

Durante a viagem de volta, Jim cavalgou ao lado dela, o silêncio durando longos minutos até que ele finalmente falou:

— Ele é um bom homem, Luna. Selvagem, mas honesto. Eu consigo ver isso.

Luna sorriu para o tio, surpresa com a concessão.

— Ele é, Jim. Ele me fez uma promessa.

— Que tipo de promessa? — perguntou Stella, curiosa e ainda um pouco trêmula.

— A promessa de que o tempo não importa — respondeu Luna, olhando para o horizonte onde o sol logo voltaria a nascer. — E que o silêncio pode ser compartilhado.

Naquela noite, ao deitar-se em sua cama real, Luna não sentiu o vazio habitual. Ela tocou o pingente de obsidiana e percebeu que a cura não era um destino, mas uma jornada feita de pequenos passos, galopes audazes e a coragem de deixar alguém esperar por você. Solaria tinha uma rainha, mas Luna, finalmente, estava começando a ter a si mesma. E em algum lugar no Vale das Sombras, um guerreiro vigiava a noite, cumprindo a primeira hora de uma promessa que duraria a vida inteira.

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