Família,amor,ciúmes e união
O Eclipse da Razão e o Jogo das Sombras
A manhã seguinte ao churrasco não trouxe a paz esperada, mas sim uma ressaca coletiva que parecia ter peso e forma. A mansão Bergmova, geralmente um templo de disciplina atlética, exalava um aroma residual de fumaça, cloro e o arrependimento tardio de quem misturou cachaça artesanal com confidências perigosas.
Julia foi a primeira a despertar, sentindo cada centímetro de seus músculos protestar. O sol atravessava as cortinas de linho, atingindo o rosto sereno de Ekaterina, que dormia com um braço jogado sobre os olhos, a imagem perfeita da calma após a tempestade. Julia observou a esposa por alguns segundos, lembrando-se das promessas sussurradas sobre praias desertas e uniformes de juíza. Um sorriso involuntário surgiu em seus lábios, mas foi rapidamente substituído por uma careta quando o choro estridente de Léo ecoou pelo corredor através da babá eletrônica.
— O dever chama, capitã — murmurou Julia, deixando um beijo rápido no ombro nu de Kate antes de se levantar.
Ao descer as escadas, o cenário no andar de baixo era digno de um filme de comédia adolescente que deu errado. Nicolas estava caído no sofá da sala, com uma perna pendurada para fora e a boca aberta. No tapete, Thiago parecia ter se fundido com uma almofada gigante. A cozinha, no entanto, era onde o verdadeiro caos residia. Gabriella estava de pé, usando óculos escuros dentro de casa, tentando desesperadamente operar a máquina de café expresso.
— Se você fizer qualquer barulho acima de dois decibéis, Bergmann, eu peço demissão da nossa amizade — Gabi resmungou, sem se virar.
— Bom dia para você também, Gabi — Julia respondeu, pegando Léo no colo, que agora balançava os braços ruivos com entusiasmo. — Onde está a disposição da mulher que queria fazer todo mundo dançar axé às três da manhã?
— Ela morreu e foi substituída por esse espectro que precisa de cafeína — Gabi finalmente conseguiu tirar o café e virou a xícara como se fosse um remédio. — E aqueles dois ali na sala? Vão acordar quando? A Kate prometeu um exército de carros para eles lavarem.
— A Kate não esquece promessas de castigo, Gabi. Você sabe disso.
Como se fosse invocada pelo som de seu nome, Ekaterina Antropova surgiu no topo da escada. Ela não parecia ter ressaca. Vestia um conjunto de moletom cinza, o cabelo loiro preso em um rabo de cavalo perfeito e uma expressão que dizia que o período de carência havia terminado.
— Dez minutos — disse Kate, sua voz cortando o ar como um saque viagem. — Dez minutos para Nicolas e Thiago estarem na garagem com baldes, esponjas e sem camisas. O sol está forte, vai ajudar a suar o álcool.
— Kate, tenha piedade, eles são crianças — Gabi tentou intervir, mas um olhar de Kate a fez se calar.
— Crianças não tentam entrar em festas com identidades falsas, Gabriella. Agora, Julia, me dê o Léo. Vou dar o café dele enquanto você tenta ressuscitar o seu irmão e o sobrinho da Gabi.
O processo de "ressurreição" envolveu Julia jogando almofadas nos adolescentes e o som de Kate batendo tampas de panela na cozinha. Meia hora depois, o quintal da mansão tornou-se o cenário de um trabalho forçado. O SUV de Julia, o esportivo de Kate e até o carro compacto de Gabi estavam alinhados.
— Isso é tortura medieval — reclamou Nicolas, mergulhando a esponja no balde com sabão.
— Isso é consequência — rebateu Kate, sentada na varanda, observando-os enquanto segurava Léo, que se divertia vendo a espuma voar. — E se eu vir uma mancha sequer nos vidros, vocês começam tudo de novo.
Julia sentou-se ao lado da esposa, aproveitando a brisa leve. O clima entre elas estava mais leve, mas a tensão sexual da noite anterior ainda vibrava como uma corda de violino esticada.
— Você está sendo muito dura, não acha? — perguntou Julia, embora estivesse gostando da visão dos dois trabalhando.
— Eu estou sendo justa, ruiva — Kate respondeu, virando-se para ela. — Se não impusermos limites agora, o que será de Léo quando ele tiver a idade deles? Ele já é teimoso o suficiente com um ano.
— Ele tem a quem puxar — provocou Julia, recebendo um leve empurrão no ombro.
A tarde passou entre o som da mangueira e as reclamações abafadas dos meninos. Gabi, recuperada pelo café e por um banho gelado, decidiu que o dia precisava de um fechamento à altura do caos. Ela se aproximou do casal com um brilho perigoso nos olhos.
— Meninas, estive pensando... A brincadeira do copo ontem foi interrompida. E eu ainda sinto que há segredos nesta casa que precisam vir à tona.
— Gabi, por favor, o estoque de cachaça acabou e a minha paciência também — Julia avisou.
— Não precisa de bebida agora. Vamos fazer algo diferente. Um jogo de "Eu Nunca", mas com apostas reais. Quem perder, cumpre um desafio escolhido pelo grupo.
— Eu não gosto de desafios escolhidos por você, Gabriella — disse Kate, desconfiada. — Geralmente envolvem humilhação pública ou danças ridículas.
— Prometo que será algo... interno. Apenas para nós cinco. Nicolas e Thiago, venham aqui! Pausa no trabalho.
Os meninos se aproximaram, exaustos e ensopados de água e sabão. O grupo se sentou em círculo na grama, sob a sombra da grande mangueira.
— Regras simples — Gabi começou. — Eu digo "Eu nunca fiz tal coisa". Quem já fez, levanta a mão. Quem levantar a mão mais vezes ao final de dez rodadas, ganha o direito de dar uma ordem para quem não levantou nenhuma.
— Isso não faz sentido matemático, Gabi — Nicolas pontuou.
— Cala a boca, Nicolas, a lógica é minha. Vamos lá. Eu nunca... tive um crush em uma colega de time adversária durante um jogo oficial.
Julia e Kate levantaram as mãos simultaneamente. Elas se olharam e riram.
— Bom, essa foi óbvia — comentou Gabi. — Próxima. Eu nunca... usei o nome da Antropova para conseguir reserva em restaurante lotado.
Julia, Nicolas e Gabi levantaram as mãos. Kate olhou para a esposa, indignada.
— Julia! Até você?
— O restaurante era maravilhoso, amor, e a fila era de duas horas! — justificou-se a ruiva.
O jogo seguiu com perguntas leves até que Thiago, querendo se vingar da bronca da manhã, lançou a bomba.
— Eu nunca... ouvi uma conversa atrás da porta que não deveria ter ouvido.
Nicolas levantou a mão devagar, olhando para Kate com uma expressão de "me desculpe".
— Nicolas... — Kate começou, a voz ficando perigosamente baixa. — O que exatamente você ouviu?
— Ontem à noite — Nicolas confessou, a voz quase um sussurro. — Eu estava indo para a cozinha pegar água depois que vocês subiram... e eu ouvi a Julia chamando a Kate de "minha capitã" de um jeito que... bem, eu acho que vou precisar de terapia.
O silêncio que se seguiu foi quebrado por um grito de choque de Gabi e uma gargalhada histérica de Thiago. Julia enterrou o rosto nas mãos, sentindo que sua dignidade alemã havia sido definitivamente enterrada naquele jardim. Kate, surpreendentemente, não ficou brava. Ela apenas arqueou uma sobrancelha e olhou para o irmão.
— Se você ouviu isso, Nicolas, então ouviu a parte em que eu disse que você seria o primeiro a ser mandado para um internato na Sibéria se não calasse a boca?
— Não, essa parte eu perdi! — Nicolas respondeu rápido, levantando-se. — Acho que vou voltar para os carros. O sabão é mais seguro que esta conversa.
— Volte aqui, espertinho! — Gabi o puxou de volta. — O jogo ainda não acabou. Agora é a minha vez de ser maldosa. Eu nunca... fiz algo proibido dentro de um avião da seleção.
Julia e Kate hesitaram. Elas trocaram um olhar cúmplice, lembrando-se de um voo de dez horas para o Japão, uma manta da companhia aérea e a cabine da classe executiva quase vazia na madrugada. Lentamente, as duas levantaram as mãos.
— Meu Deus! — Gabi gritou. — Vocês são piores do que eu imaginava! A ruiva brava e a russa de gelo são, na verdade, as rainhas do perigo!
— Gabi, cala a boca! — Julia exclamou, jogando uma toalha na amiga. — A gente estava em um momento de... estresse pré-torneio.
— Sei, estresse — ironizou Thiago. — Devo anotar isso como técnica de relaxamento para o próximo campeonato da escola?
— Se você fizer isso, eu mesma te levo para o aeroporto — Kate avisou, mas havia um brilho de diversão em seus olhos.
A tarde caiu, e o churrasco da noite anterior foi substituído por um jantar mais calmo, mas não menos caótico. Léo, agora devidamente alimentado e calmo, passava de colo em colo. A dinâmica da casa estava voltando ao normal, mas com uma camada extra de intimidade e segredos compartilhados que só o caos é capaz de gerar.
Quando os meninos finalmente terminaram os carros e foram tomar banho, e Gabi se retirou para seu quarto alegando que precisava de "sono de beleza para processar os traumas", Julia e Kate ficaram sozinhas na sala. A TV estava ligada em um canal de esportes qualquer, mas nenhuma das duas prestava atenção.
Julia estava deitada com a cabeça no colo de Kate, sentindo os dedos longos da esposa acariciando seus fios ruivos.
— Sabe, Antropova — começou Julia, fechando os olhos —, apesar de todo o desastre, de quase termos sido presas por causa do seu irmão e da Gabi ser a pessoa mais inconveniente do mundo... eu gosto disso.
— Gosta do quê? Do desrespeito ou das revelações embaraçosas? — perguntou Kate, com um sorriso suave.
— Da vida real. De não sermos apenas as "máquinas de vôlei" que o mundo vê. Aqui, a gente pode ser... bom, a gente pode ser a capitã e a juíza.
Kate soltou uma risada baixa, inclinando-se para beijar a testa de Julia.
— Você nunca vai me deixar esquecer essa história do uniforme, não é?
— Nunca. Inclusive, acho que a "juíza" precisa fazer uma inspeção no quarto agora para ver se a "capitã" está seguindo as normas de conduta.
Kate levantou-se, puxando Julia pela mão com uma agilidade que desmentia o cansaço do dia.
— As normas russas são muito rígidas, Bergmann. Você tem certeza de que está pronta para o relatório final?
— Eu nasci pronta, Antropova.
Enquanto subiam as escadas, Julia olhou para trás, vendo a casa em silêncio, os carros brilhando na garagem e o sentimento de que, não importa o tamanho do caos que Nicolas, Thiago ou Gabriella trouxessem, o alicerce que elas construíram era à prova de qualquer tempestade.
Mas, antes de entrarem no quarto, Julia parou e sussurrou:
— Mas amanhã, Kate... amanhã a gente realmente precisa conversar sobre a praia deserta.
Kate sorriu, fechando a porta atrás delas e trancando-a, garantindo que, desta vez, nem Nicolas nem ninguém ouviria absolutamente nada.
— A praia já está nos planos, ruiva. Mas esta noite, o ginásio é só nosso.
O silêncio da mansão Bergmova foi finalmente completo, preenchido apenas pelo som do vento nas árvores e pela promessa de que, no vôlei ou na vida, o melhor jogo é sempre aquele jogado com paixão, entrega e um toque saudável de abusada loucura.