Família,amor,ciúmes e união
Entre Redes e Redemoinhos
O silêncio que se seguiu à saída triunfal de Gabriella, Nicolas e Thiago era quase milagroso. Gabi, em um surto raro de utilidade doméstica, decidira levar os dois adolescentes e o pequeno Léo para uma expedição ao shopping e ao supermercado. Julia ainda conseguia ouvir o eco da voz de Gabi gritando ordens sobre como prender corretamente a cadeirinha do bebê enquanto o carro se afastava pelo portão eletrônico.
Na varanda dos fundos, o sol da tarde filtrava-se pelas folhas das árvores, criando um padrão de luz e sombra sobre a rede de fios tramados onde Julia e Ekaterina estavam agora devidamente instaladas.
— Finalmente — suspirou Kate, acomodando-se melhor no espaço apertado, puxando Julia para cima de seu corpo. — Achei que a Gabi nunca ia conseguir organizar aquela caravana.
— Ela estava motivada pela promessa de que eu pagaria o almoço se ela trouxesse tudo da lista — Julia riu, apoiando os cotovelos no peito da esposa e olhando-a nos olhos. — Você está muito relaxada para quem quase teve um colapso nervoso ontem.
— A punição está em andamento, Bergmann. Os carros estão limpos e a casa está vazia. Isso é tudo o que eu preciso para recuperar minha sanidade — Kate passou a mão pelo rosto de Julia, afastando uma mecha ruiva que insistia em cair sobre os olhos verdes. — E de você, é claro.
Julia não precisou de mais convites. Ela se inclinou, selando seus lábios nos de Kate em um beijo que começou lento, carregado da preguiça boa da tarde, mas que rapidamente ganhou urgência. As línguas se encontraram em um ritmo familiar e faminto, uma dança de domínio e entrega que fazia a rede balançar suavemente. Kate soltou um suspiro baixo contra a boca de Julia, suas mãos grandes descendo das costas para a cintura da ruiva, apertando com firmeza.
— Você está muito abusada desde ontem — murmurou Julia entre beijos, sentindo a mão de Kate deslizar para baixo, encontrando o volume de suas curvas por cima do short de algodão.
— É o efeito colateral de ter você só para mim, sem ninguém gritando ou pedindo pizza — Kate respondeu, a voz rouca. Ela deu uma mordida leve no lábio inferior de Julia, seguida por um beijo úmido no pescoço.
Julia arqueou as costas quando sentiu a mão de Kate subir por baixo de sua blusa, os dedos frios contrastando com a pele quente de seu abdômen. Um gemido baixo escapou da garganta da ruiva quando Kate desferiu um tapa firme e sonoro em sua bunda, um estalo que ecoou na varanda silenciosa.
— Kate! — Julia exclamou, embora o sorriso em seu rosto e o brilho nos olhos dissessem que ela não estava nem um pouco ofendida.
— Foco, Bergmann — Kate provocou, voltando a atacar o pescoço da esposa com mordidas pequenas e precisas que faziam Julia estremecer.
A ruiva enterrou os dedos nos cabelos loiros de Kate, puxando-a para mais perto, querendo eliminar qualquer espaço entre elas. O calor estava subindo, a respiração de ambas ficando curta, e a rede parecia pequena demais para a intensidade do que estava acontecendo. Julia soltou um gemido mais alto quando Kate encontrou um ponto sensível logo abaixo de sua orelha, sugando a pele com uma possessividade que deixaria uma marca clara no dia seguinte.
— Elas... eles podem voltar a qualquer momento — Julia tentou alertar, embora suas mãos estivessem ocupadas demais explorando os ombros largos da russa.
— A Gabi disse que ia demorar. Ela quer comprar roupas novas para o Thiago e...
O som estridente de um motor cortou o momento. O portão eletrônico rangeu, e o barulho de pneus no cascalho anunciou o fim prematuro do paraíso.
— Não é possível — Kate rosnou contra a pele de Julia, fechando os olhos por um segundo em pura frustração.
— Elas voltaram rápido demais! — Julia saltou da rede, ajeitando a blusa e o cabelo com movimentos frenéticos, enquanto Kate se sentava, passando a mão no rosto para disfarçar a expressão de desejo interrompido.
Segundos depois, a porta da cozinha escancarou-se. Gabriella entrou carregando duas sacolas plásticas, seguida por Nicolas e Thiago, que pareciam estar no meio de uma discussão acalorada sobre marcas de refrigerante. Atrás deles, Nicolas carregava o bebê conforto com um Léo muito acordado e sorridente.
— Missão cumprida! — anunciou Gabi, jogando as sacolas na mesa. — O shopping estava um inferno, o Léo tentou comer o cartão de crédito do Nicolas e eu decidi que compras são um esporte radical demais para mim.
— Vocês demoraram trinta minutos — Kate observou, a voz gélida, ainda sentada na rede.
— Pareceu uma eternidade — rebateu Gabi, notando o rosto corado de Julia e a marca avermelhada no pescoço de Kate. Ela deu um sorriso malicioso. — Ah, desculpem. Interrompi o "momento romântico"?
— Gabriella, cale a boca — Julia pediu, indo em direção a Nicolas para pegar o filho.
— Toma aqui, tia Ju. Esse pequeno é um monstro — disse Nicolas, entregando o bebê. — Ele passou o caminho todo tentando chutar a nuca do Thiago.
Léo, ao ver as mães, soltou um grito de alegria pura. Julia o pegou no colo e voltou para a rede, sentando-se ao lado de Kate. Gabi, sem qualquer cerimônia, pegou o bebê da mão de Julia e o colocou sentado exatamente no meio das duas jogadoras, na rede.
— Pronto, agora a família está reunida! — Gabi riu, ignorando os olhares mortais de Kate. — Léo, cuida das suas mães, elas estavam precisando de supervisão.
O pequeno ruivo, alheio à tensão sexual que acabara de dissipar, começou a pular na rede, agarrando-se à blusa de Kate e tentando puxar o cabelo de Julia. O sorriso dele era tão contagiante que a irritação de Kate derreteu em segundos. Ela segurou o filho pela cintura, impedindo-o de cair, e deu um beijo em sua bochecha gordinha.
— Você é um sabotador, sabia? — Kate sussurrou para o bebê, que respondeu com uma gargalhada aguda.
Julia decidiu que a rede estava ficando cheia demais. Ela desceu, colocou Léo no chão da varanda e espalhou alguns brinquedos que estavam em um cesto próximo.
— Deixa ele engatinhar um pouco. Ele precisa gastar energia antes do banho.
Enquanto Léo explorava o chão, tentando alcançar uma bola colorida, Julia voltou para a rede, encostando-se em Kate. O bebê, no entanto, não queria ficar longe. Ele engatinhava até a beirada da rede, esticava as mãozinhas e puxava os pés de Julia, soltando gritinhos de satisfação.
— Olha isso — Julia apontou, rindo. — Ele não deixa a gente em paz nem por um segundo.
— Ele sabe onde está a diversão — Kate comentou, descendo a mão para acariciar a cabeça do filho, que agora tentava escalar a perna da rede.
Enquanto isso, o caos se deslocava para a cozinha, que era integrada à varanda por grandes portas de vidro.
— Nicolas, eu já disse que esse cereal é o meu! — a voz de Thiago ecoou, irritada.
— O seu é o de chocolate, esse aqui é de aveia, seu tonto! — Nicolas rebateu.
— Parem de gritar! — Gabi berrou mais alto que os dois. — Thiago, guarda o leite. Nicolas, coloca as frutas na fruteira e pare de comer o presunto direto da embalagem! É nojento!
— Nojento é o seu gosto para sapatos, Gabi! — Nicolas retrucou.
Julia e Kate assistiam à cena da rede, como se estivessem assistindo a uma comédia de erros.
— Sabe — Julia começou, observando Léo agora tentando morder a própria sandália no chão —, a Gabi reclama, mas ela adora esse caos.
— Todos eles adoram — Kate concordou, passando o braço pelos ombros de Julia. — Mas eu ainda acho que o Léo é o "pior neném" da história quando se trata de timing. Ele tem um sensor para quando estamos prestes a ter cinco minutos de privacidade.
— Ah, com certeza — Julia riu. — Lembra da semana passada? A gente mal começou a conversar no chuveiro e ele começou a bater na porta com aquele martelo de plástico.
— Ele é um agente infiltrado da federação para garantir que a gente não se distraia do vôlei — Kate brincou, atraindo a atenção de Léo, que ao ouvir a risada da mãe, tentou novamente se levantar apoiando-se na rede.
Gabi apareceu na porta, com um pano de prato no ombro e uma expressão de exaustão fingida.
— Sério, como vocês aguentam? O Nicolas e o Thiago são como dois filhotes de Doberman disputando um osso. E o Thiago ainda teve a audácia de dizer que o Léo puxou a teimosia da Julia.
— E ele mentiu? — Kate perguntou, arqueando uma sobrancelha.
— Ei! — Julia protestou. — Ele puxou a determinação alemã. A teimosia irracional é toda do lado russo da família.
— Irracional? — Kate virou-se para Julia, os olhos brilhando com um desafio divertido. — Eu sou a pessoa mais lógica desta casa, Bergmann.
— Lógica? Kate, você passou meia hora ontem tentando convencer o Léo de que o brócolis era um "pequeno jogador de vôlei" para ele comer. Isso não é lógica, é desespero.
Gabi soltou uma gargalhada, encostando-se no batente da porta.
— O Léo é o chefe desta casa, aceitem. Ele é o pior neném porque ele sabe exatamente como manipular cada uma de vocês. Ele olha para a Kate com aqueles olhos azuis e ela faz qualquer coisa. Ele dá um sorriso banguela para a Julia e ela esquece que estava brava porque ele quebrou um vaso.
— Ele não quebrou, ele... testou a gravidade — Julia defendeu, fazendo Kate rir.
— Viu? — Gabi apontou. — Manipuladas.
A conversa foi interrompida por um barulho de algo caindo na cozinha, seguido por um "Foi o Thiago!" de Nicolas.
— EU VOU MATAR VOCÊS DOIS! — Gabi gritou, correndo de volta para dentro.
Julia suspirou, recostando a cabeça no peito de Kate. Léo agora havia desistido de escalar a rede e estava sentado no chão, concentrado em tentar desamarrar o cadarço do tênis de Julia.
— Você acha que um dia a gente vai ter uma tarde normal? — perguntou a ruiva.
Kate beijou o topo da cabeça de Julia, apertando-a um pouco mais forte.
— O que é "normal", Julia? Para nós, o normal é isso. É barulho na cozinha, ciúmes bobos, o Léo interrompendo a gente e a Gabi sendo a Gabi.
— É — Julia sorriu, sentindo o coração aquecido. — Eu acho que não trocaria esse caos por nenhum silêncio do mundo.
— Nem eu — Kate concordou. — Mas assim que o Léo dormir e aqueles três forem para os quartos deles... eu ainda quero terminar aquela conversa na rede.
Julia olhou para a esposa, vendo a promessa nos olhos azuis de Kate. Ela se inclinou e deu um selinho rápido na loira.
— É um trato, Antropova. Mas se o Léo acordar de novo...
— Se ele acordar, a gente contrata a Gabi como babá noturna permanente — Kate decidiu, fazendo Julia rir alto.
Léo, vendo as mães felizes, soltou o cadarço e começou a bater palminhas, o som pequeno e alegre preenchendo a varanda. O sol começava a se pôr, pintando o céu de laranja e rosa, as mesmas cores que pareciam refletir a vida das Bergmova: vibrante, quente e perfeitamente caótica. Entre uma mordida de Léo no brinquedo e um grito de Gabi na cozinha, Julia percebeu que a felicidade não era a ausência de ruído, mas sim a harmonia que elas encontravam dentro de todo aquele barulho.