Família caos
O Despertar dos Desejos e o Caos dos Hormônios
A manhã na mansão Bergmann-Antropova começou com o sol filtrando-se pelas cortinas de seda, mas o brilho lá fora não chegava nem perto da intensidade do temperamento de Julia naquela manhã. A gravidez, agora com três meses, parecia ter amplificado cada traço da personalidade da ruiva. Se ela já era brava e sentimental antes, agora era uma bomba-relógio com pavio curto e um apetite que desafiava a lógica.
Julia estava sentada à mesa da cozinha, observando com olhos semicerrados enquanto Kate preparava o café da manhã. A russa, sempre impecável mesmo de pijama, movia-se com a elegância de uma pantera, mas o clima entre as duas estava tenso.
— Kate, esse ovo está muito... amarelo — Julia reclamou, empurrando o prato alguns centímetros para longe.
Kate parou o que estava fazendo e respirou fundo, contando mentalmente até dez em russo. Ela amava Julia mais do que tudo, mas a fase "abusada" da esposa estava testando seus limites.
— Julia, o ovo é um ovo. Ele tem gema. Gemas são amarelas — Kate respondeu, a voz carregada de uma paciência forçada que beirava a irritação.
— Não precisa falar comigo como se eu fosse uma idiota — Julia rebateu, os olhos já começando a marejar. — Eu só disse que ele está *muito* amarelo. Parece que você fez de propósito para me dar enjoo.
— Eu fiz de propósito? — Kate virou-se, os olhos azuis faiscando. — Eu acordei trinta minutos mais cedo, depois de um treino exaustivo ontem, para fazer exatamente o que você pediu! E agora o ovo é o inimigo?
— É, é o inimigo! — Julia levantou-se, a mão na cintura, a barriga começando a marcar levemente o tecido do vestido leve. — E você está sendo grossa. Você não me ama mais agora que eu estou ficando inchada.
Kate jogou o pano de prato na bancada, a possessividade e o ciúme misturando-se à frustração.
— Não diga bobagens! Você sabe que eu te desejo a cada segundo do dia, mesmo quando você está agindo como uma criança mimada. Mas eu não sou de ferro, Bergmann.
Nesse momento, Gabi entrou na cozinha, seguida por Thiago e Nicolas, que ainda pareciam meio sonolentos. Gabi, sempre pronta para o deboche, captou a tensão no ar instantaneamente.
— E lá vamos nós, round dois da manhã — Gabi comentou, pegando uma torrada diretamente do prato de Nicolas. — O que é hoje? A cor do céu ou o jeito que a Kate respira?
— Cala a boca, Gabi! — Julia e Kate gritaram em uníssono.
Gabi levantou as mãos em sinal de paz, rindo.
— Viu só? A sintonia do casal continua incrível. Thiago, anota aí: nunca engravide uma ruiva brava, ou você vai acabar discutindo sobre a tonalidade de uma gema de ovo.
— Ei! — Nicolas defendeu a irmã, embora com um sorriso de canto. — Minha irmã também não é a pessoa mais fácil do mundo quando está brava. Ela fica com aquela cara de "vou te deportar para a Sibéria".
Thiago, o sobrinho de Gabi, sentou-se à mesa e tentou ignorar o drama, mas era impossível.
— Eu só queria saber se vai ter panqueca — ele disse baixinho.
— Não vai ter panqueca! — Julia disparou, sentando-se novamente e começando a chorar do nada. — Porque a Kate me odeia e o ovo está amarelo demais!
Kate fechou os olhos, sentindo uma pontada de culpa ao ver as lágrimas da esposa. O lado protetor da russa falou mais alto. Ela caminhou até Julia, ignorando os risinhos de Gabi ao fundo, e envolveu a ruiva em um abraço apertado.
— *Moya lyubov*... me desculpe — Kate sussurrou no ouvido dela, a voz suavizando. — Eu não te odeio. Eu te amo tanto que chega a ser doentio. Eu faço outras panquecas, ok? Do jeito que você quiser.
— Com calda de chocolate e picles? — Julia perguntou, fungando e olhando para cima com olhos pidões.
Um silêncio horrorizado caiu sobre a cozinha.
— Picles? — Thiago repetiu, fazendo uma careta de nojo. — Tia Ju, isso é crime em pelo menos vinte países.
— Deixa a mulher comer o picles dela, Thiago — Gabi interveio, embora também parecesse enojada. — Se ela quiser comer cimento com açúcar, a Kate vai buscar a betoneira.
Léo entrou na cozinha saltitando, alheio à discussão sobre gastronomia duvidosa. Ele subiu na cadeira ao lado de Julia e colocou a mãozinha sobre a barriga da mãe.
— Mãe Ju, o bebê já consegue ouvir? — Léo perguntou, os olhos curiosos.
Julia sorriu, a tempestade emocional passando tão rápido quanto veio.
— Sim, meu amor. Ele já consegue ouvir os sons aqui de fora.
Léo inclinou a cabeça, encostando a orelha na barriga de Julia.
— Bebê, aqui é o Léo. Não escuta a tia Gabi, ela é doida. E a mãe Kate está brava, mas ela é legal. Quando você sair, eu vou te ensinar a jogar vôlei, mas você tem que prometer que não vai quebrar meus carrinhos.
— Ele vai ser um levantador, Léo — Nicolas brincou. — Com o tamanho dessas duas mães, o moleque vai ser um gigante.
— Ou uma gigante — Kate corrigiu, sentando-se ao lado de Julia e passando o braço pelos ombros dela, de forma possessiva. — E vai ser a melhor jogadora da Rússia ou do Brasil.
— Brasil, com certeza — Julia retrucou, já recuperada. — Não quero meu filho sofrendo naquele gelo que você chama de país.
— O gelo faz o caráter, Bergmann — Kate rebateu, os olhos brilhando com o desafio.
— Ah, começou a guerra geopolítica — Gabi revirou os olhos. — Léo, pergunta para elas se o bebê vai ter o nariz de batata da Julia ou a cara de nojo da Kate.
— Gabi! — Julia jogou um guardanapo nela.
— Mãe — Léo ignorou a brincadeira dos adultos —, como o bebê foi parar aí dentro? Você engoliu uma semente?
Thiago engasgou com o suco. Nicolas tentou esconder o riso atrás da mão. Kate ficou subitamente interessada em examinar as unhas, deixando a batata quente para Julia.
— Bem... — Julia começou, ficando levemente vermelha. — É... é como uma sementinha, sim. Uma sementinha de amor que a mãe Kate e eu plantamos juntas.
— E por onde ele vai sair? — Léo continuou, implacável na sua busca por conhecimento. — Pelo seu umbigo? Porque o umbigo é tipo uma porta, né?
— É, Léo, é uma porta com senha — Gabi interveio, salvando as amigas. — E a senha é "muito choro e fralda suja". Agora vai comer sua fruta antes que a Mãe Kate resolva te colocar para treinar saque na parede.
A manhã seguiu com o caos habitual. Julia, alternando entre o deboche e a sensibilidade, exigia atenção constante, enquanto Kate, apesar de brava com as exigências absurdas, não conseguia ficar longe da esposa por mais de cinco minutos.
Mais tarde, enquanto Nicolas e Thiago tentavam estudar na sala e Gabi assistia a um jogo antigo de vôlei comentando alto cada erro das jogadoras, Julia decidiu que precisava de algo muito específico.
— Kate! — ela gritou do quarto.
Kate, que estava no escritório resolvendo pendências do clube, apareceu na porta em segundos, o semblante preocupado.
— O que houve? Está sentindo dor?
— Eu quero aquela blusa preta sua. A de seda.
Kate franziu a testa.
— Aquela que eu ganhei de presente e que você disse que era "nojenta" de tão cara?
— Essa mesma — Julia disse, sentada na cama com os cabelos ruivos espalhados. — Eu quero o seu cheiro. E quero que você venha aqui deitar comigo agora.
— Julia, eu estou no meio de uma reunião importante por e-mail...
— A reunião pode esperar. O seu filho e eu não — Julia cruzou os braços, fazendo um biquinho que ela sabia ser o ponto fraco da russa.
Kate suspirou, derrotada. Ela foi até o closet, pegou a blusa e a entregou para Julia, que a vestiu imediatamente, parecendo uma criança usando roupas de adulto, já que Kate era consideravelmente mais larga de ombros.
— Você é tão abusada, Bergmann — Kate murmurou, deitando-se ao lado dela.
— E você adora — Julia rebateu, aninhando-se no peito de Kate. — Admita, Antropova. Você ama que eu seja assim.
Kate não respondeu com palavras. Em vez disso, ela a puxou para mais perto, o braço envolvendo a cintura de Julia com uma força que demonstrava todo o seu senso de proteção.
— Eu amo você de qualquer jeito. Brava, surtada, comendo picles com chocolate... Só tente não gritar comigo na frente do Nicolas, ele já acha que eu sou pau-mandado.
Julia soltou uma risada gostosa, o som ecoando pelo quarto.
— Mas você é, Kate. Só ainda não aceitou totalmente.
Lá embaixo, o som de uma bola de vôlei batendo no chão do quintal indicava que Léo e os meninos haviam começado um jogo improvisado. Gabi gritava instruções técnicas absurdas, e Thiago reclamava que Nicolas estava usando a altura para trapacear.
— Eles vão quebrar algum vaso — Julia comentou, fechando os olhos, sentindo o perfume de Kate.
— Deixe que quebrem — Kate respondeu, beijando a testa da esposa. — Eu compro outro. Contanto que você e o bebê estejam bem, o resto da casa pode cair.
Julia sorriu, sentindo-se finalmente em paz. A gravidez era um desafio, os hormônios eram uma tortura e a convivência com Gabi e os adolescentes era um teste de paciência diário. Mas, ali, nos braços da russa brava e possessiva que ela chamava de esposa, tudo fazia sentido. O pequeno Léo tinha razão em querer um irmão; aquela casa tinha amor de sobra para transbordar, mesmo que esse amor viesse acompanhado de gritos, desejos estranhos e ovos amarelos demais.