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Família caos

Desejos de Meia-noite e Ataques de Ciúme

A rotina na mansão Bergmann-Antropova seguia um ritmo que oscilava entre o comercial de margarina e um episódio de reality show caótico. Com a gravidez de Julia avançando para o quarto mês, a ruiva parecia ter desenvolvido superpoderes: um olfato de perdigueiro, uma capacidade de chorar assistindo comercial de sabão em pó e, principalmente, uma criatividade gastronômica que beirava o insano.

Eram duas da manhã quando Julia cutucou as costelas de Kate. A russa, que tinha o sono pesado de quem passava o dia saltando em quadra, apenas resmungou algo em sua língua nativa e tentou puxar o edredom.

— Kate... Kate, acorda. Ekaterine! — Julia insistiu, a voz subindo um tom, já carregada daquela irritação latente.

— *Chto?* O que aconteceu? — Kate despertou de sobressalto, os olhos azuis arregalados na penumbra. — O bebê? Você está passando mal?

— Eu estou com fome — anunciou Julia, sentando-se na cama com os braços cruzados sobre a barriga que agora já era uma curva proeminente e adorável.

Kate soltou um suspiro longo, deixando a cabeça cair no travesseiro.

— Julia, são duas da manhã. Você jantou duas vezes. A segunda vez foi aquele macarrão com... o que era aquilo?

— Era molho pesto com pedaços de pêssego em calda. E estava ótimo, não ouse julgar — Julia rebateu, os olhos já começando a brilhar com as lágrimas prontas para cair. — Mas agora eu quero outra coisa. Eu quero açaí. Com leite condensado e... batata palha.

Kate sentou-se na cama, passando a mão pelo cabelo loiro bagunçado. Ela olhou para a esposa, vendo o beicinho que Julia fazia, e sentiu aquela onda de possessividade e proteção que a dominava sempre.

— Batata palha, Julia? Você quer transformar nosso filho em um experimento químico? — Kate perguntou, mas já estava se levantando e procurando um par de calças de moletom.

— Você está me chamando de estranha? É isso? — A ruiva fungou. — Eu sabia. Você me acha nojenta agora que eu quero combinações salgadas e doces.

— Eu nunca disse isso — Kate rosnou baixinho, aproximando-se e segurando o rosto de Julia com as duas mãos, forçando a ruiva a encará-la. — Eu acho você a mulher mais irritante e maravilhosa do mundo. E se você quer açaí com batata palha, eu vou revirar essa cidade até encontrar um lugar aberto. Mas se eu chegar lá e você decidir que quer sushi, eu juro que te tranco no quarto.

Julia sorriu entre as lágrimas, dando um selinho rápido e possessivo na esposa.

— Traz dois potes. O bebê disse que quer muito.

Kate saiu do quarto bufando, mas com um sorriso de canto que não conseguia esconder. Ao descer as escadas, deu de cara com Nicolas na cozinha, assaltando a geladeira. O adolescente estava com os fones de ouvido no pescoço e um pote de sorvete na mão.

— Indo buscar os desejos da fera? — Nicolas perguntou, rindo da cara da irmã.

— Não comece, Nicolas. Um dia você vai casar com uma mulher brava e vai entender o que é ser um motorista de aplicativo de luxo às duas da manhã — Kate respondeu, pegando as chaves do carro. — Onde está o Thiago?

— Dormindo. Ele teve treino pesado hoje. A tia Gabi também apagou no sofá da sala de cinema.

Kate assentiu, mas antes de sair, lançou um olhar severo para o irmão.

— Se a Julia descer e pedir algo, não dê. A última vez você deu chocolate amargo e ela chorou por uma hora porque o chocolate era "triste".

— Pode deixar, capitã — Nicolas brincou, batendo continência.

Cerca de quarenta minutos depois, Kate retornou. Ela encontrou a sala de estar levemente iluminada. Gabi estava acordada, sentada no sofá com Léo, que havia perdido o sono e estava aninhado ao lado da "tia".

— Ela ainda está viva ou já devorou os lençóis? — Gabi perguntou, ajeitando os cachos. — O Léo acordou querendo saber se o irmão já tinha nascido. Acho que ele sonhou com o bebê.

— Mãe Kate! Você trouxe o doce? — Léo correu até ela, abraçando suas pernas.

— Trouxe, pequeno. Mas é para a Mãe Ju. Vá para a cama, amanhã temos treino cedo no jardim — Kate disse, dando um beijo no topo da cabeça do filho.

Ela subiu as escadas e entrou no quarto. Julia estava sentada no chão, organizando umas roupinhas que tinham ganhado de presente, com uma expressão pensativa. Ao ver Kate com os potes, os olhos da ruiva brilharam.

— Você demorou! — Julia reclamou, mas o tom era mais de alívio do que de briga.

— Tive que convencer o dono da lanchonete que eu não era uma louca por pedir batata palha extra no açaí — Kate sentou-se no chão ao lado dela, abrindo os potes.

Julia começou a comer com uma satisfação que fazia Kate sentir um calor no peito. No entanto, o clima mudou drasticamente quando Julia pegou o celular para ver as notificações.

— Quem é essa "Carol Vôlei" que curtiu sua foto de treino ontem, Kate? — Julia perguntou, o tom de voz mudando instantaneamente de "grávida faminta" para "esposa ciumenta nível máximo".

Kate congelou com a colher no ar. Ela conhecia aquele tom. Era o prenúncio de uma tempestade.

— É uma levantadora da liga juvenil, Julia. Ela só curtiu a foto. Eu nem conheço a garota pessoalmente.

— Curtiu por quê? Ela quer que você ensine ela a bloquear? Ou ela quer ver você de perto com esse uniforme que fica marcando seus ombros? — Julia largou o açaí, os olhos faiscando. — Eu estou aqui, parecendo um balão, e você recebendo curtidas de novinhas.

— Julia Bergmann, olhe para mim — Kate disse, a voz ficando fria e possessiva, o que ironicamente era a única coisa que acalmava a ruiva nessas horas. — Eu não dou a mínima para quem curte minhas fotos. A única pessoa que eu quero que me olhe é você. E se você continuar com esse ciúme sem fundamento, eu vou deletar minha conta e jogar meu celular na piscina.

— Você faria isso? — Julia perguntou, a voz vacilante.

— Eu faria qualquer coisa para você parar de criar cenários na sua cabeça — Kate aproximou-se, colando sua testa na de Julia. — Você é minha. O Léo é meu. Esse bebê é meu. Entendeu?

Julia suspirou, o ciúme sendo substituído pela carência. Ela se jogou nos braços de Kate, derrubando quase metade da batata palha no tapete caro.

— Desculpa. Eu me sinto feia, Kate.

— Você está grávida, não feia. Você está radiante — Kate sussurrou, beijando o pescoço da ruiva. — E se eu pegar qualquer pessoa olhando demais para você, eu quebro o bloqueio delas na próxima partida, você sabe disso.

— Eu sei. Você é bruta, Antropova.

— E você adora — a loira rebateu, sorrindo.

Na manhã seguinte, a casa acordou com o som de Gabi gritando na cozinha.

— QUEM FOI O ANIMAL QUE DERRAMOU AÇAÍ NO TAPETE PERSA DA SALA?

Julia e Kate, que tinham acabado de descer, trocaram olhares cúmplices. Léo, Nicolas e Thiago já estavam à mesa, rindo da indignação de Gabi.

— Foi o bebê — Julia disse com a maior cara de pau do mundo, sentando-se e pegando uma fatia de melancia.

— Ah, claro! O feto saiu do útero, desceu a escada, fez um lanche e voltou — Gabi ironizou, limpando a sujeira. — Bergmann, você está ficando muito abusada com essa história de gravidez. Thiago, não olhe para ela, o deboche é contagioso.

— Deixa ela, Gabi — Nicolas defendeu. — A ruiva está gerando um herdeiro para a dinastia russa. Ela tem imunidade diplomática.

— Dinastia russa o caramba — Julia retrucou, apontando a melancia para o cunhado. — Vai ser brasileiro, vai sambar e vai ganhar o ouro olímpico pela seleção brasileira, não é, Kate?

Kate, que estava servindo café, apenas deu de ombros com um sorriso enigmático.

— Vamos ver. Se tiver o meu braço, vai querer jogar pela Rússia. Se tiver o seu temperamento, vai ser expulso de quadra no primeiro set por xingar o juiz.

A mesa explodiu em gargalhadas. Até Léo riu, mesmo sem entender toda a piada.

— Mãe Ju — Léo chamou, puxando a manga da blusa de Julia —, a tia Gabi disse que se o bebê for menina, ela vai ensinar a fazer tranças. Mas se for menino, ela vai ensinar a dar o "drible da vaca".

— A Gabi não vai ensinar nada que envolva gírias de futebol para o meu filho — Julia decretou, lançando um olhar mortal para a amiga.

— Ih, começou a ditadura — Gabi brincou, levantando-se. — Vamos, meninos! Thiago, Nicolas, treino na areia em dez minutos. Léo, você é o nosso juiz oficial.

Os três saíram correndo para a área externa, deixando o casal sozinho na cozinha. Kate caminhou até Julia e colocou as mãos sobre os ombros dela, massageando levemente.

— Você está melhor hoje? — perguntou a russa.

— Estou. Só... preocupada. A consulta é hoje à tarde, não é?

— Sim. Vamos ver como o pequeno intruso está se desenvolvendo — Kate beijou a bochecha de Julia. — E nada de brigar com a médica se ela disser que você precisa maneirar no açúcar.

— Eu não brigo, Kate. Eu apenas argumento com ênfase — Julia corrigiu, fazendo Kate rir.

À tarde, o consultório médico estava silencioso, um contraste gritante com a mansão. Kate segurava a mão de Julia com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos. A russa podia ser a jogadora mais fria e intimidadora da Europa, mas ali, diante da tela do ultrassom, ela parecia uma adolescente nervosa.

— Tudo parece perfeito — a médica comentou, movendo o transdutor pela barriga de Julia. — Coração batendo forte. O desenvolvimento está excelente.

Julia olhou para a tela, as lágrimas escorrendo livremente. Kate não desviou o olhar por um segundo sequer.

— É... é um menino ou uma menina? — Kate perguntou, a voz falhando levemente.

A médica sorriu, fazendo suspense.

— Vocês querem saber agora?

— Sim! — as duas responderam juntas.

— Bom, parece que o Léo vai ter que dividir os carrinhos dele. É um menino.

Julia soltou um soluço de alegria, enquanto Kate fechava os olhos e encostava a testa na mão de Julia, murmurando algo em russo que parecia uma prece de agradecimento.

— Outro menino — Julia sorriu, acariciando o rosto de Kate. — Mais um homenzinho para você mimar e eu educar.

— Ele vai ser lindo como você — Kate disse, finalmente olhando para Julia com uma ternura que derreteria o gelo mais espesso da Sibéria.

Quando voltaram para casa, a recepção foi digna de final de campeonato. Gabi tinha organizado um "chá revelação" improvisado em dez minutos, com bexigas que ela provavelmente roubou de alguma festa antiga do Thiago.

— E aí? É um novo levantador ou uma nova ponteira? — Gabi gritou assim que elas cruzaram a porta.

— É um menino, Gabi! — Léo gritou, antes mesmo das mães falarem, pois ele já tinha visto a foto do exame na mão de Kate.

O grito de comemoração de Nicolas e Thiago ecoou pela casa. Gabi abraçou Julia com tanta força que Kate teve que intervir, puxando a esposa para perto de si com seu habitual instinto possessivo.

— Cuidado com ela, Gabi. Não é um saco de pancadas — Kate rosnou, mas havia um brilho de felicidade nos olhos.

— Ai, que ciumenta! — Gabi riu. — Parabéns, suas loucas. Mais um Bergmann-Antropova para a gente aturar.

A noite terminou com todos reunidos na varanda, observando o céu estrelado. Léo já estava dormindo no colo de Nicolas, e Thiago conversava com Gabi sobre o próximo torneio escolar. Julia estava aninhada na rede com Kate, o silêncio finalmente caindo sobre a mansão.

— Sabe, Kate — Julia começou, a voz sonolenta —, eu estava pensando...

— Lá vem — Kate brincou. — Qual o desejo agora? Melancia com mostarda?

— Não — Julia riu, dando um tapa leve no braço da esposa. — Eu estava pensando que, apesar de eu ser surtada e você ser nojenta de tão abusada... a gente faz um time muito bom.

Kate apertou o abraço, sentindo o pulsar da vida que crescia dentro de Julia e a presença do filho que já corria pela casa.

— O melhor time do mundo, ruiva. O melhor do mundo.

E ali, sob a luz da lua, a mansão Bergmann-Antropova finalmente encontrou sua paz, sabendo que em poucos meses, o caos seria multiplicado, o amor seria redobrado e, provavelmente, Kate teria que sair muitas outras vezes às duas da manhã para buscar açaí com batata palha. E ela faria tudo de novo, sem reclamar (muito).

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