Família caos
O Ultimato na Linha de Fundo
A atmosfera no centro de treinamento estava carregada com o cheiro de suor, borracha de tênis e a eletricidade estática que precedia grandes confrontos. Julia Bergmann, sentada na arquibancada superior, usava um boné escuro e óculos de sol, tentando passar despercebida enquanto observava o treino da seleção. Noah dormia serenamente no carrinho ao seu lado, alheio ao drama que a mãe ruiva estava prestes a desencadear.
Lá embaixo, na quadra principal, Ekaterine Antropova era uma força da natureza. Seus movimentos eram precisos, brutais e elegantes. Julia sentia o orgulho habitual, mas ele estava sendo rapidamente sufocado por uma irritação corrosiva. Carol, a jovem levantadora que vinha sendo a sombra de Kate nas últimas semanas, estava mais próxima do que o necessário.
O treino técnico de bloqueio e cobertura havia acabado de ser interrompido para um breve descanso. Julia viu quando Kate se aproximou da linha de fundo para pegar sua garrafa de água. Carol a seguiu imediatamente. A ruiva sentiu o estômago revirar. Pela lente dos óculos, ela viu a cena se desenrolar como se estivesse em câmera lenta.
Carol disse algo que fez Kate sorrir — aquele sorriso de lado, abusado, que Julia considerava sua propriedade exclusiva. Então, a garota deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal da russa. A mão de Carol subiu, tocando o ombro suado de Kate para limpar um fio de cabelo imaginário, e então deslizou para a nuca da loira. Kate não se afastou. Pelo contrário, ela se inclinou levemente para ouvir o que a garota sussurrava. A distância entre os lábios das duas era perigosamente curta.
O mundo de Julia Bergmann ficou vermelho.
— Mas que audácia... — murmurou Julia, a voz trêmula de fúria.
Ela não pensou. Apenas travou as rodas do carrinho de Noah, certificando-se de que ele estava seguro, e desceu as escadas da arquibancada com passadas largas e decididas. O som de seus passos ecoava no ginásio, mas ela não se importava. Gabi, que estava do outro lado da quadra conversando com o treinador, viu a ruiva se aproximar e arregalou os olhos, percebendo que o furacão Bergmann havia chegado.
Kate ainda estava inclinada, o olhar azul fixo em Carol, quando uma mão firme e gelada agarrou seu braço e a puxou para trás com uma força surpreendente.
— Acho que você se esqueceu de onde termina o treino e onde começa a falta de vergonha, Antropova — a voz de Julia chicoteou o ar, fria e letal.
Kate tropeçou levemente, surpresa pela intervenção súbita. Carol recuou, o rosto empalidecendo instantaneamente ao dar de cara com a ruiva furiosa.
— Julia? O que você está fazendo aqui? — Kate perguntou, tentando recuperar a compostura, embora o brilho de culpa em seus olhos fosse evidente.
— O que eu estou fazendo? — Julia riu, um som seco e sem alegria. — Eu vim ver se a minha esposa ainda se lembrava que tem uma família em casa, ou se ela estava ocupada demais tentando descobrir o sabor do gloss dessa garota no meio do ginásio!
— Não é nada disso, Julia! — Carol tentou intervir, a voz trêmula. — Estávamos apenas...
— Cala a boca! — Julia disparou, apontando o dedo para a jovem. — Eu não estou falando com a estagiária. Eu estou falando com a mulher que dorme na minha cama e que, aparentemente, tem a memória muito curta.
O silêncio no ginásio era absoluto. Jogadoras, comissão técnica e funcionários pararam para assistir ao desmonte da capitã russa pela ponteira alemã-brasileira. Kate sentiu o peso dos olhares e sua postura se enrijeceu. O orgulho russo começou a bater de frente com a fúria de Julia.
— Você está fazendo uma cena, Julia — Kate disse, a voz baixando para um tom perigoso. — Estamos em público. Respeite o meu ambiente de trabalho.
— Respeitar o seu trabalho? — Julia deu um passo à frente, batendo no peito de Kate com o indicador. — E o respeito por mim? E o respeito pelo Noah, que está ali em cima enquanto você flerta na linha de fundo? Você quer respeito, Antropova? Então comece a agir como alguém que o merece!
— Eu não estava flertando! — Kate explodiu, segurando o pulso de Julia. — Ela estava me pedindo um conselho sobre o posicionamento das mãos!
— Com a boca colada na sua? — Julia rebateu, os olhos cheios de lágrimas de raiva. — Você me acha idiota? Eu vi, Kate. Todo mundo viu. Você deixou ela entrar no seu espaço. Você deixou ela te tocar. E você gostou da atenção, como sempre gosta!
Gabi correu até elas, tentando intervir antes que as agressões passassem do nível verbal.
— Gente, chega! — Gabi sussurrou, ficando entre as duas. — Julia, o Noah pode acordar. Kate, o treinador está vindo para cá. Vamos resolver isso no vestiário ou em casa, pelo amor de Deus.
— Não tem nada para resolver — Julia disse, soltando o braço das mãos de Kate. — O recado está dado.
Ela se virou para Carol, que ainda estava estática.
— E você... se eu vir você a menos de dois metros da minha esposa novamente, eu não vou me importar com contratos ou ligas. Eu vou acabar com a sua carreira antes mesmo de você aprender a dar um saque viagem. Fui clara?
Carol apenas assentiu, trêmula. Julia virou as costas e caminhou de volta para a arquibancada, pegou o carrinho de Noah e saiu do ginásio sem olhar para trás.
Kate ficou parada no meio da quadra, o peito subindo e descendo com força. A raiva, a vergonha e o medo de ter cruzado uma linha perigosa lutavam dentro dela. Ela olhou para Gabi, que apenas balançou a cabeça em sinal de negação.
— Dessa vez você se superou, russa — disse Gabi, séria. — Se eu fosse você, nem voltava para casa sem um plano de paz muito bom. Ou um colete à prova de balas.
A viagem de volta para a mansão foi um inferno de silêncio para Kate. Ela chegou uma hora depois de Julia, tendo ficado para trás para ouvir o sermão do treinador sobre "distrações na quadra". Quando entrou em casa, o ambiente estava gélido. Nicolas e Thiago estavam na cozinha, comendo em silêncio absoluto, sinalizando que a patroa ruiva estava em estado de guerra.
Kate subiu as escadas e encontrou a porta do quarto principal trancada. Ela suspirou, encostando a testa na madeira.
— Julia, abre a porta. Precisamos conversar — Kate pediu, a voz cansada.
— Não temos nada para conversar, Antropova — Julia respondeu de dentro do quarto. — Suas coisas estão no quarto de hóspedes. Aproveite o espaço, já que você gosta tanto de liberdade.
— Julia, não seja infantil! Eu não beijei ninguém!
— Mas queria! — Julia gritou. — A intenção estava lá, Kate. O jeito que você olhou para ela... eu conheço esse olhar. É o olhar de quem está gostando do jogo. Só que esse jogo tem consequências.
Kate socou a porta, frustrada.
— Eu amo você! Eu não quero aquela garota!
— Então prove! — Julia rebateu. — Porque, até agora, a única coisa que você provou é que eu não sou o suficiente para manter os seus olhos longe de qualquer uma que te elogie.
Kate passou a noite no quarto de hóspedes, rolando de um lado para o outro. A imagem de Julia no ginásio, ferida e furiosa, não saía de sua cabeça. Ela sabia que tinha errado ao permitir a proximidade de Carol, mesmo que não tivesse a intenção de trair. O ego falara mais alto, e agora o preço era o silêncio da mulher que era sua vida.
Na manhã seguinte, a mansão continuava sob lei marcial. Julia cuidava de Noah e Léo com uma eficiência robótica, ignorando a existência de Kate. Gabi tentava aliviar o clima com piadas, mas até ela percebeu que a ferida era profunda.
— Kate, você precisa fazer alguma coisa grande — Gabi sugeriu, enquanto as duas observavam Julia no jardim com as crianças. — A Ju está se sentindo substituível. Com o pós-parto, os hormônios... ela precisa saber que é a única.
Kate observou Julia. A ruiva estava sentada na grama, fazendo Noah rir enquanto Léo corria ao redor delas. Ela parecia tão forte e, ao mesmo tempo, tão frágil. A russa sentiu um aperto no peito que nenhuma derrota em quadra jamais lhe causara.
Naquela tarde, Kate não foi ao treino. Ela ligou para o clube, inventou uma indisposição e passou o dia no escritório da mansão. Quando a noite caiu, ela preparou o terreno.
Julia estava na varanda, na rede, tentando relaxar após um dia exaustivo. O cheiro de jasmim do jardim estava intenso. Ela ouviu passos e, antes que pudesse reclamar, Kate sentou-se na beirada da rede.
— Se você veio pedir desculpas de novo... — Julia começou, mas foi interrompida.
Kate estendeu um envelope e um celular novo.
— O que é isso? — perguntou Julia, desconfiada.
— O envelope é o meu pedido de transferência para o turno da manhã, onde a Carol não treina. Já está assinado pelo treinador — Kate explicou, a voz baixa e firme. — O celular é o meu novo número. Só você, a Gabi, o Nicolas e o clube têm. O antigo foi desativado. Todas as fotos, mensagens e contatos de pessoas que não fazem parte da nossa família foram deletados.
Julia olhou para os objetos, surpresa.
— Kate, você não precisava mudar de turno...
— Precisava — Kate a interrompeu, pegando a mão de Julia. — Porque eu fui fraca. Eu deixei o meu ego ser alimentado por alguém que não significa nada, enquanto a pessoa que significa tudo para mim estava sofrendo. Eu não quero que você tenha um único segundo de dúvida sobre quem manda no meu coração, Julia.
Julia sentiu as lágrimas voltarem, mas desta vez não eram de raiva.
— Você quase a beijou, Kate. Eu vi.
— Eu estava em transe, Julia. Um transe idiota de vaidade — Kate confessou, aproximando-se. — Mas no momento em que eu ouvi a sua voz, foi como se eu tivesse levado um choque. Nada no mundo, nenhuma Carol, nenhuma medalha, vale o brilho de mágoa nos seus olhos. Eu sou sua, Julia. De corpo, alma e até nas minhas atitudes mais idiotas.
Kate puxou Julia para o seu colo na rede, envolvendo-a com seus braços longos e protetores.
— Eu sou possessiva, Kate. Eu sou brava e surtada — Julia murmurou contra o ombro da loira.
— E eu sou nojenta, abusada e ciumenta — Kate completou, dando um beijo na testa da ruiva. — Somos um desastre, Bergmann. Mas somos o nosso desastre.
Julia finalmente relaxou, escondendo o rosto no pescoço de Kate. O cheiro da russa — agora limpo, sem o suor do treino — era o seu lar.
— Se ela chegar perto de você de novo... — Julia ameaçou, a voz abafada.
— Ela não vai. Ela pediu para ser trocada de grupo depois do seu "show" no ginásio — Kate riu baixo. — Você a assustou de verdade, ruiva.
— Bom. Que ela saiba que a russa tem dona. E que a dona morde mais forte do que a capitã.
Kate sorriu, o olhar possessivo voltando a brilhar. Ela inclinou o rosto de Julia e a beijou com uma intensidade que selava o acordo de paz. Não era apenas um beijo; era uma promessa de lealdade renovada sob o luar.
— Eu te amo, Julia. Nunca duvide disso — sussurrou Kate.
— Eu também te amo, sua russa insuportável.
Naquela noite, a rede balançou suavemente, carregando o peso de duas vidas que, apesar das turbulências, não sabiam existir separadas. O ultimato na linha de fundo havia sido dado e aceito. A capitã estava de volta ao seu porto seguro, e a ruiva, enfim, tinha sua paz de volta. A mansão Bergmann-Antropova voltava ao seu caos habitual, mas agora, com a certeza de que a rede que as sustentava era feita de algo muito mais forte do que simples cordas: era feita de uma entrega que não admitia intrusos.