Família caos
O Ultimato Sob o Luar
O silêncio na mansão Bergmann-Antropova era, na verdade, um campo minado. Desde que Noah chegara, a alegria do novo membro da família parecia andar de mãos dadas com uma tensão elétrica que ameaçava explodir a qualquer momento. O estopim, como sempre, atendia pelo nome de Carol. A jovem levantadora não apenas curtia as fotos de Kate; agora, ela enviava mensagens constantes, vídeos de jogadas pedindo "análise técnica" e, no último treino aberto, Julia viu com os próprios olhos a garota tocar o braço de sua esposa com uma intimidade que fez o sangue da ruiva ferver.
Quando chegaram em casa naquela noite, a tempestade desabou. Não foi uma discussão baixa ou contida. Foi um embate de titãs. No corredor, as vozes ecoaram, assustando até Gabi, que se trancou no quarto com Léo para poupar o menino do espetáculo.
— Você acha que eu sou cega, Ekaterine? — Julia gritou, as mãos trêmulas de raiva. — Eu vi as mensagens! "Oi, Kate, o que achou desse levantamento?". Ela não quer sua opinião técnica, ela quer você! E você, com esse ego do tamanho da Rússia, deixa ela alimentar essa fantasia!
— Julia, chega! — Kate rebateu, a voz ríspida, os olhos azuis faiscando como gelo sob o sol. — Eu já bloqueei a garota nas redes sociais, o que mais você quer? Que eu peça demissão do clube? Que eu pare de jogar porque você decidiu que todo mundo é uma ameaça?
— Eu quero que você tenha respeito! — Julia deu um passo à frente, o rosto vermelho. — Se você não me ama mais, se não tem mais o mesmo desejo por mim, se eu virei apenas a mãe dos seus filhos e a pessoa que reclama dos pontos da cesárea, então fique com ela de vez! Vá lá, ensine a ela tudo o que quiser, mas pare de me fazer sofrer com essa sua indiferença disfarçada de "profissionalismo"!
Kate travou. O golpe de Julia foi baixo e doloroso. Antes que a russa pudesse responder, o choro de Noah ecoou pelo monitor de bebê, agudo e exigente. Julia soltou um riso amargo, limpando uma lágrima solitária.
— O seu filho está chamando. Já que você está tão ocupada sendo uma estrela, deixa que a "esposa chata" cuida dele.
Julia virou as costas e entrou no quarto do bebê, batendo a porta com força suficiente para fazer os quadros do corredor tremerem.
Lá dentro, a penumbra era quebrada apenas por uma luz noturna suave. Julia pegou Noah do berço, sentindo o peso reconfortante do filho. Ela sentou-se na poltrona de amamentação, o coração ainda martelando contra as costelas. Enquanto o bebê buscava o seio e finalmente se acalmava, Julia permitiu-se chorar em silêncio. Ela se sentia pequena, exausta e, pela primeira vez em anos, insegura sobre o lugar que ocupava na vida da mulher que amava.
Cerca de vinte minutos se passaram. A porta do quarto rangeu suavemente. Pelo reflexo da janela, Julia viu a silhueta alta de Kate. A russa não entrou de imediato; ficou parada no batente, observando a cena sagrada de Julia amamentando o filho delas. A raiva de Kate havia evaporado, substituída por uma angústia profunda ao ouvir as palavras de Julia sobre "não ser mais amada".
Kate caminhou lentamente e parou ao lado da poltrona. Ela estendeu a mão para tocar o cabelo ruivo de Julia, mas a esposa esquivou-se do toque.
— Julia — sussurrou Kate, a voz agora desprovida de qualquer agressividade. — Coloque o Noah no berço. Ele já dormiu.
— Eu não quero conversar, Kate. Vá dormir no quarto de hóspedes ou na rede, tanto faz — disse Julia, sem olhar para cima.
— Nós vamos conversar agora — Kate insistiu, com uma firmeza que não aceitava negativas. — E não vai ser aqui dentro. Noah precisa dormir e eu não quero mais gritos. Vamos lá fora. Agora, Julia.
Julia suspirou, sentindo o cansaço vencer a resistência. Ela ajeitou Noah no berço, cobriu-o com a manta e, sem dizer uma palavra, passou por Kate, saindo para a varanda dos fundos, onde a rede ainda balançava levemente com a brisa da noite.
O ar fresco da noite pareceu limpar um pouco da fumaça da briga. Julia encostou-se no parapeito, abraçando o próprio corpo. Kate parou a poucos metros, mantendo uma distância respeitosa, mas os olhos fixos na ruiva.
— Como você pode dizer aquilo? — Kate começou, a voz carregada de mágoa. — Como pode dizer que eu não tenho mais desejo por você? Que eu prefiro uma garota que nem sequer conhece metade da minha história?
— Porque é assim que você me faz sentir, Kate! — Julia virou-se, os olhos brilhando no escuro. — Você é possessiva comigo, me marca como se eu fosse sua propriedade, mas quando se trata das pessoas que te cercam, você deixa essas janelas abertas. Você gosta de ser admirada, e eu fico aqui, tentando curar meu corpo, tentando ser uma boa mãe, sentindo que estou perdendo a mulher por quem eu me apaixonei para o brilho das quadras.
Kate deu um passo à frente, invadindo o espaço de Julia. Ela segurou os ombros da ruiva com firmeza, obrigando-a a encarar a intensidade de seu olhar.
— Escute bem, Julia Bergmann — disse Kate, a voz vibrando com uma emoção crua. — Eu sou uma pessoa difícil. Eu sou arrogante, sou bruta e, às vezes, sou nojenta de tão focada no meu trabalho. Eu sei disso. Mas nunca, nem por um segundo, o meu desejo por você diminuiu. Pelo contrário. Ver você carregar o Léo, ver você passar por tudo o que passou para trazer o Noah ao mundo... isso não te torna menos desejável. Isso te torna uma deusa para mim.
Julia tentou desviar o olhar, mas Kate segurou seu queixo, forçando a conexão.
— A Carol não é nada — continuou a russa. — Ela é um ruído de fundo. Se eu não fui clara o suficiente antes, serei agora: eu não dou a mínima para ela ou para qualquer outra levantadora que tente se aproximar. Eu sou sua. De uma forma que ninguém mais poderia ser. Eu pertenço a você, Julia. E me dói fisicamente saber que você duvida disso.
— Então por que você não corta de vez? — Julia perguntou, a voz falhando. — Por que deixa que ela sinta que tem espaço?
— Porque eu sou lenta para perceber essas coisas, Julia! Para mim, é apenas vôlei. Mas se isso te machuca, se isso te faz pensar que nosso casamento está em risco, eu acabo com isso amanhã. Eu falo com a diretoria, eu mudo de horário de treino, eu faço o que for preciso. Mas não diga que eu não te desejo. Isso é a maior mentira que você já contou.
Kate puxou Julia para mais perto, eliminando qualquer espaço. O calor do corpo da russa envolveu Julia, quebrando a última resistência da ruiva.
— Eu tenho medo, Kate — confessou Julia, escondendo o rosto no peito da esposa. — Medo de não ser mais o suficiente para você.
— Você é mais do que eu mereço — Kate sussurrou, beijando o topo da cabeça de Julia. — Você é o meu match point, todos os dias.
Kate afastou-se apenas o suficiente para olhar nos olhos de Julia. Com um movimento lento e deliberado, ela pegou a mão de Julia e a colocou sobre seu próprio coração, que batia descompassado.
— Sente isso? É por você. Sempre foi.
O clima mudou. A tensão da briga transformou-se em uma eletricidade diferente, mais pesada e carregada de necessidade. Kate inclinou-se e capturou os lábios de Julia em um beijo faminto, possessivo, que reivindicava cada centímetro da ruiva. Não era um beijo de reconciliação suave; era um beijo de redenção e desejo acumulado.
Julia respondeu com a mesma intensidade, as mãos subindo para a nuca de Kate, puxando-a para mais perto. O ciúme, a dor e a insegurança foram queimados naquele contato. Naquele momento, sob o luar da varanda, Carol e o mundo lá fora deixaram de existir.
— A rede... — Julia murmurou entre beijos, a respiração ofegante.
Kate sorriu, aquele sorriso abusado que Julia tanto amava. Ela pegou a esposa no colo, ignorando qualquer cansaço, e a acomodou na rede de algodão. O balanço suave da rede acompanhou o ritmo dos corpos que se reencontravam.
— Eu te amo, ruiva surtada — Kate sussurrou contra a pele do pescoço de Julia, marcando-a com uma leveza que prometia muito mais.
— E eu te odeio por me fazer te amar tanto, russa nojenta — Julia rebateu, puxando Kate para outro beijo.
Naquela noite, a briga chegou ao fim. Não com palavras diplomáticas, mas com a certeza física de que, apesar de todos os obstáculos e de todas as "Carols" que pudessem surgir, o vínculo entre Julia e Kate era inquebrável.
Horas depois, quando a madrugada já ia alta, as duas permaneciam abraçadas na rede, cobertas por uma manta leve que Kate buscara no meio tempo. O silêncio agora era confortável, preenchido apenas pelo som da respiração uma da outra.
— Kate? — chamou Julia, a voz sonolenta.
— Sim?
— Amanhã... eu vou com você ao treino. Só para garantir que a "inspiração" da garota seja devidamente direcionada para a bola, e não para a minha esposa.
Kate soltou uma risada baixa, apertando o abraço.
— Eu não esperava nada diferente de você, Bergmann. Pode ir. Vai ser um prazer mostrar para todo mundo quem é a dona da capitã.
Julia sorriu, fechando os olhos. O ciúme ainda estava lá, uma parte intrínseca de quem ela era, mas a insegurança havia partido. Ela sabia que, não importa o quanto as outras olhassem, no final do dia, era na rede de Julia que Ekaterine Antropova sempre encontraria seu descanso.
A mansão Bergmann-Antropova estava, enfim, em paz. Pelo menos até o próximo surto de Julia ou a próxima atitude abusada de Kate. Mas, para elas, era exatamente assim que a vida deveria ser: um jogo intenso, onde o amor sempre vencia no tie-break.