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Família,ciúmes e tentação

Entre o Fogo do Desejo e o Gelo da Ausência

A manhã seguinte ao almoço com Gabi e Kisy parecia carregar uma ressaca emocional. O sol entrava pelas janelas da mansão, iluminando os brinquedos de Nicolas espalhados pelo tapete e o berço portátil onde Léo tirava um cochilo matinal. Kate estava na cozinha, o aroma de café recém-passado era a única coisa que tentava acalmar seus nervos. Ela sentia o peso do olhar de Julia desde que acordaram; um olhar que oscilava entre o desejo profundo e uma desconfiança que parecia não ter fim.

Julia entrou na cozinha com passos silenciosos, vestindo apenas um camisetão de Kate que ficava enorme em seu corpo escultural. Ela se aproximou da bancada, mas não disse nada. O silêncio era uma corda esticada, pronta para arrebentar.

— Você ainda está pensando no que o Nicolas disse ontem, não é? — Kate quebrou o gelo, servindo uma xícara de café para a esposa.

— No que ele disse ou no que a Gabi plantou na cabeça dele? — Julia cruzou os braços, ignorando a xícara. — Outro bebê, Kate? A gente mal consegue ter cinco minutos de paz sem que seu irmão ou o Léo interrompam a nossa... "ginástica".

Kate deu um passo à frente, envolvendo a cintura de Julia com seus braços fortes. Ela colou o corpo ao dela, sentindo o calor da pele ruiva.

— Eu disse que ia pedir com jeitinho, lembra? — Kate sussurrou, a voz vibrando contra o pescoço de Julia, enquanto uma de suas mãos descia perigosamente para apertar a nádega da ruiva com a mesma possessividade da noite anterior. — Eu quero mais um pedacinho nosso correndo por aqui, Julia. Mas primeiro, eu quero você.

Julia fechou os olhos, a respiração falhando por um segundo. O toque de Kate era sua maior fraqueza. No entanto, antes que o clima pudesse evoluir, o celular de Kate, esquecido sobre a mesa, vibrou. Uma notificação brilhou na tela.

*Alice: "Kate, você esqueceu sua joelheira no meu carro depois do treino de sexta. Quer que eu leve na sua casa hoje?"*

O mundo pareceu parar. Julia se desvencilhou do abraço de Kate com uma rapidez violenta. Seus olhos verdes, antes nublados de desejo, agora brilhavam com uma fúria gélida.

— No carro dela, Ekaterina? — A voz de Julia saiu baixa, o que era muito mais perigoso do que um grito. — Você me disse que ela era só uma caloura. O que a sua joelheira estava fazendo no carro dela na sexta-feira?

Kate olhou para o celular e depois para Julia, sentindo o pânico subir pela garganta.

— Julia, não é o que você está pensando! Na sexta, depois do treino, o meu carro não ligava. Ela me deu uma carona até a esquina para eu pegar um Uber. Eu devo ter deixado cair no banco de trás. Eu juro!

— Você mentiu para mim! — Julia gritou, a voz ecoando pelas paredes altas da mansão. — Você disse que tinha vindo direto para casa! Você entra aqui, me beija, diz que me ama, e estava escondendo que estava de gracinha com essa garota?

— Eu não estava de gracinha! Eu não contei porque sabia que você ia reagir exatamente assim! — Kate tentou se aproximar, mas Julia recuou, as lágrimas de raiva começando a descer.

— Você não tem o direito de me chamar de louca quando você me dá motivos para desconfiar! — Julia apontou para a porta. — Sai, Kate.

— O quê? Julia, essa é a nossa casa...

— Eu não quero saber! — Julia estava fora de si, o ciúme possessivo nublando qualquer lógica. — Se a companhia dela é tão boa a ponto de você andar no carro dela e esconder de mim, vai buscar sua joelheira e fica por lá! Eu não vou ficar aqui sendo a esposa idiota que cuida do bebê enquanto você se diverte com a novata!

— Você está sendo dramática e injusta! — Kate rebateu, sua paciência finalmente se esgotando. — Eu faço tudo por essa família! Eu aguento seus surtos, suas crises, e você me expulsa da minha própria casa por causa de uma carona de cinco minutos?

— Sai agora! — Julia pegou a primeira coisa que viu pela frente — um pano de prato — e jogou em direção a Kate, embora o gesto fosse mais simbólico do que agressivo.

Kate a encarou por longos segundos. O silêncio que se seguiu foi doloroso. Sem dizer mais uma palavra, a loira pegou as chaves do carro e o celular. Ela saiu pela porta da frente, e o barulho do motor arrancando foi como um tiro no peito de Julia.

As horas que se seguiram foram um tormento. Julia tentou se focar em Léo e em Nicolas, mas sua mente era um campo de batalha. Ela se sentia traída, não necessariamente por uma traição física, mas pela omissão. Para uma mulher possessiva como ela, o segredo era pior que a ação.

Nicolas, percebendo o clima, ficou quieto em seu quarto, enquanto Julia passava o tempo na poltrona do quarto de Léo, amamentando o bebê com os olhos fixos na parede. A mansão parecia grande demais, fria demais sem a presença vibrante de Kate.

Dois dias se passaram. Kate não voltou para casa. Ela enviou mensagens curtas dizendo que estava ficando em um hotel perto do centro de treinamento para "dar espaço" a Julia. A ruiva, por sua vez, não respondeu. Ela queria que Kate sofresse, mas quem estava sofrendo era ela. O orgulho a impedia de ligar, mas a saudade a consumia.

Na terceira noite, o silêncio da mansão foi quebrado pelo som da porta da frente se abrindo. Julia, que estava na sala terminando de organizar as roupas de Léo, sentiu o coração disparar. Kate entrou. Ela parecia exausta, com olheiras profundas e o cabelo loiro preso em um coque desleixado.

Elas se olharam de longe. Nenhuma palavra foi dita por quase cinco minutos.

— Eu não aguento mais ficar longe de casa — Kate disse finalmente, a voz rouca. — E eu não aguento mais essa distância entre a gente, Julia. Eu apaguei o número da Alice. Pedi para o técnico me trocar de grupo nos treinos. Eu não fiz nada de errado, mas se isso te machuca, eu abro mão de qualquer convivência com ela.

Julia sentiu a armadura começar a ruir. Ela caminhou lentamente até Kate.

— Você me deu um susto, Kate. Eu tenho medo... medo de que você se canse de mim, dessa rotina, da minha braveza... e procure algo mais leve.

Kate segurou o rosto de Julia com as duas mãos, obrigando-a a olhar em seus olhos.

— Nada no mundo é mais leve do que estar com você, mesmo quando você está furiosa. Eu sou sua, Julia. Só sua. Você ainda não entendeu isso?

Julia soluçou, escondendo o rosto no peito de Kate. A loira a apertou com força, beijando o topo de sua cabeça ruiva.

— Me desculpa por ter te mandado embora — sussurrou Julia.

— Me desculpa por não ter sido totalmente honesta sobre a carona. Eu só queria evitar a briga, mas acabei criando uma pior.

O clima de reconciliação começou a esquentar rapidamente. O arrependimento e a saudade se transformaram em uma necessidade física urgente. Kate começou a beijar o pescoço de Julia com uma intensidade renovada, suas mãos descendo para a cintura da ruiva, puxando-a para mais perto, como se quisesse fundir seus corpos.

— O Nicolas e o Léo? — Julia perguntou entre um beijo e outro.

— O Nicolas está na casa da Kisy, ela passou aqui para pegá-lo faz uma hora para um "dia de jogos". E o Léo... — Kate olhou para o monitor do bebê no balcão — ...está em um sono profundo. Temos a casa só para nós.

Kate não esperou. Ela pegou Julia no colo, as pernas da ruiva se entrelaçando na cintura da loira instantaneamente. Elas subiram as escadas aos tropeços, trocando beijos vorazes que saboreavam a paz recuperada.

Dentro do quarto, a luz da lua entrava pela fresta da cortina. Kate jogou Julia na cama e ficou por cima dela, prendendo seus pulsos acima da cabeça.

— Você me expulsou de casa, Bergmann — Kate provocou, o olhar brilhando com um desejo perigoso. — Agora você vai ter que compensar cada minuto que eu passei naquele hotel sozinha.

— Com prazer, Antropova — Julia respondeu, arqueando o corpo para encontrar o de Kate. — Começa agora. E não para até eu esquecer meu próprio nome.

A noite foi uma sinfonia de reconciliação. Não havia mais espaço para Alice, para joelheiras ou para inseguranças. Ali, entre os lençóis de seda, elas eram apenas duas mulheres que se pertenciam inteiramente.

Horas depois, exaustas e suadas, elas estavam abraçadas sob o edredom. O silêncio agora era confortável, preenchido apenas pelo som das respirações sincronizadas.

— Julia? — Kate chamou baixinho, traçando círculos na pele das costas da ruiva.

— Hum?

— Sobre o que o Nicolas disse... sobre o bebê novo.

Julia deu um leve sorriso, virando-se para encarar a esposa.

— Você ainda quer isso? Mesmo depois de toda essa confusão?

— Mais do que nunca — Kate disse seriamente. — Eu quero encher essa casa. Quero que a gente tenha motivos para brigar por quem vai trocar a fralda, e não por quem deu carona para quem.

Julia puxou Kate para um beijo calmo e doce.

— Tudo bem, loira. Mas só daqui a um tempo. Vamos aproveitar o Léo... e vamos aproveitar a gente.

— Combinado — Kate sorriu, fechando os olhos. — Mas eu vou continuar pedindo com jeitinho todos os dias.

Julia riu, sentindo-se finalmente em paz. O ciúme ainda estava lá, guardado em algum lugar, mas o amor de Kate era um escudo muito mais forte. Elas adormeceram assim, entrelaçadas, prontas para enfrentar qualquer novata, qualquer briga e qualquer desafio que o futuro decidisse colocar no caminho daquela mansão.

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