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Família complicada

O Banquete das Sombras e o Sorriso do Herdeiro

A poeira da chegada monumental dos Baskerville ainda não havia baixado, mas Vikir já sentia o peso de mil olhares cravados em suas costas. O pátio da Academia Colosso parecia ter encolhido sob a presença de Hugo e Osiris. No entanto, para o alívio (ou maior estresse) de Vikir, o anúncio bombástico de sua identidade não foi tão explícito quanto ele temia. Embora Peri estivesse pendurada em suas pernas, a maioria dos estudantes — ainda em estado de choque — preferia acreditar em uma explicação menos absurda do que "o plebeu bolsista é um príncipe de sangue da família mais letal do mundo".

— Vejam só — murmurou Osiris, caminhando com uma elegância predatória ao redor de Vikir, enquanto os amigos deste, Tudor, Sancho e Bianca, recuavam um passo. — Parece que o nosso... "colaborador externo" cuidou muito bem da pequena Peri durante suas viagens.

Osiris parou diante de Vikir, um sorriso enigmático brincando nos lábios. Ele não o chamou de irmão, nem de Baskerville. Ele sabia que Vikir valorizava o anonimato, e o caos que Osiris amava envolvia justamente brincar com a verdade sem revelá-la totalmente.

— Senhor Osiris — disse Vikir, inclinando levemente a cabeça, mantendo a fachada de um subordinado respeitoso, mas eficiente. — Não esperava que a comitiva trouxesse as crianças para um ambiente de treinamento militar.

— Ah, mas você sabe como o Patriarca é — respondeu Osiris, lançando um olhar para Hugo, que estava ocupado demais gritando com o Diretor da Academia sobre o tamanho dos estábulos. — Ele não consegue ficar longe de seus "tesouros". E como você é o único que sabe exatamente como Peri gosta que cortem suas maçãs, sua presença foi... solicitada.

Pomeria, a sobrinha de Vikir, aproximou-se e puxou a manga do uniforme de Vikir com impaciência.

— Tio Sombra! — exclamou a menina, fazendo Tudor e Bianca arregalarem os olhos. — Você ouviu o que eu disse na gravação? A Peri precisa da coroa! O vovô comprou uma, mas ela disse que só você sabe colocar do jeito que não cai quando ela corre.

Vikir sentiu um suor frio. "Tio Sombra". Era um apelido carinhoso, mas perigosamente descritivo.

— Pomeria — disse Vikir, sua voz saindo baixa e controlada —, aqui eu sou apenas um estudante. Vocês deveriam estar com os guardas.

— Deixe-as — interveio Osiris, cruzando os braços. — Afinal, quem melhor para proteger as crianças do que o "melhor cão de guarda" que já passou pelos portões de ferro? Diga-me, Vikir, como estão seus estudos? Aprender a ler livros é tão difícil quanto aprender a ler o movimento de uma lâmina no escuro?

Tudor, que observava a interação com o queixo caído, finalmente criou coragem para falar.

— Com licença... Senhor Osiris? O senhor conhece o Vikir de onde? Ele... ele trabalhou para a sua família?

Osiris virou o rosto lentamente para Tudor, uma pressão invisível emanando de sua presença que fez o jovem guerreiro quase perder o fôlego.

— De onde o conheço? — Osiris soltou uma risada curta e gélida. — Digamos que Vikir é uma peça essencial nas engrenagens da nossa casa. Ele é... um especialista em resolver problemas que outros não conseguem. Um talento que meu pai, o Patriarca, não gosta de desperdiçar. Por isso ele está aqui, não é, Vikir? Para "estudar" as fraquezas deste lugar.

As palavras de Osiris eram como lâminas de dois gumes. Para os amigos de Vikir, parecia que ele era um espião ou um servo de elite altamente treinado. Para Vikir, era uma provocação direta sobre sua vida dupla.

— Eu sou apenas um bolsista, senhor — insistiu Vikir, embora a pequena Peri estivesse agora tentando escalar seu colo.

— Um bolsista que carrega a neta do Patriarca Baskerville como se fosse um saco de batatas e não é executado por isso — observou Bianca, cruzando os braços e estreitando os olhos. — Vikir, tem algo que você não está nos contando.

Antes que Vikir pudesse responder, Hugo van Baskerville caminhou em direção ao grupo. O chão parecia vibrar a cada passo do gigante de ferro. Ele ignorou os estudantes, os professores e até o diretor, parando diretamente na frente de Vikir.

— Ela não dormiu ontem — rosnou Hugo, apontando para Peri. — Ficou apontando para aquela maldita tela mágica e fazendo o sinal de "silêncio". O que você ensinou para essa criança, seu moleque atrevido?

Vikir suspirou, pegando Peri no colo de uma vez por todas. A menina imediatamente encostou a cabeça em seu ombro, fechando os olhos com um suspiro de contentamento.

— Ensinei que o silêncio é a melhor arma contra inimigos e contra avôs barulhentos — respondeu Vikir, sem demonstrar medo.

Um suspiro coletivo de horror percorreu os estudantes ao redor. Ninguém falava daquele jeito com Hugo van Baskerville e vivia para contar a história. No entanto, Hugo apenas bufou, uma fumaça quase visível saindo de suas narinas.

— Você sempre tem uma resposta pronta. Amanhã, ao amanhecer, quero você no campo de treinamento. Não me importa se você é um "estudante". Se você não mostrar a esses filhotes de cachorro o que é o estilo Baskerville, eu mesmo vou arrancar esse seu disfarce de plebeu na frente de todo mundo.

Hugo virou as costas e saiu, gritando ordens para os cavaleiros começarem a descarregar as provisões.

— Bem — disse Osiris, dando um tapinha condescendente no ombro de Vikir —, parece que você tem uma noite agitada pela frente. A pequena princesa precisa de sua coroação rosa, e você... bem, você precisa inventar uma história muito boa para seus amigos.

Osiris piscou para Vikir, um brilho de puro divertimento em seus olhos, e seguiu o pai.

Vikir ficou parado no meio do pátio, segurando uma criança de cinco anos em um vestido rosa bufante, enquanto seus amigos o cercavam como se ele fosse um espécime raro de monstro marinho.

— Vikir... — começou Sancho, a voz trêmula. — O Patriarca Baskerville acabou de te ameaçar ou de te dar um conselho de carreira?

— Os dois — respondeu Vikir, começando a caminhar em direção à área de visitantes, onde as crianças seriam instaladas. — Agora, se me dão licença, eu tenho que encontrar uma fita rosa que combine com safiras.

— Ele não negou! — gritou Tudor enquanto Vikir se afastava. — Ele não negou que é um especialista daquela família de monstros! Vikir, volta aqui e explica por que a menina loira te chama de pai nos gestos!

Vikir não voltou. Ele sabia que o mistério sobre sua linhagem ainda estava seguro por um fio fino de ambiguidade, mas a paz de sua vida de plebeu havia morrido no momento em que Hugo decidiu que Peri precisava de um vestido rosa para visitar a academia.

Naquela noite, nos aposentos luxuosos montados para a família Baskerville, o caos era de uma natureza diferente. Não era o caos da guerra, mas o de uma família que não sabia lidar com a normalidade.

— Não, Osiris! — exclamou Pomeria, batendo o pé. — O vestido de amanhã tem que ser o de babados! O Tio Sombra disse que ela parece uma flor de lótus nele!

— Eu nunca disse isso — corrigiu Vikir, sentado em uma poltrona enquanto Peri tentava trançar seus cabelos negros com fitas coloridas.

— Você pensou! — rebateu Pomeria com a lógica impecável de uma criança.

Osiris, sentado à mesa com uma taça de vinho, observava a cena com um sorriso satisfeito.

— Sabe, Vikir, seria muito mais fácil se você simplesmente assumisse seu lugar. Imagine o terror no rosto daqueles estudantes se soubessem que o "plebeu quieto" é, na verdade, o sucessor que todos pensavam estar morto ou exilado.

— Eu prefiro o terror que eles sentirão amanhã no treino — disse Vikir, sentindo Peri colocar uma pequena coroa de plástico em sua própria cabeça. — Se eles souberem quem eu sou, tentarão me agradar ou me evitar. Como plebeu, eu posso ver quem eles realmente são quando estão sob pressão.

— E você? — perguntou Osiris, sua voz baixando de tom, tornando-se mais séria. — Quanto tempo mais vai fingir que não sente falta do peso da espada de sangue em suas mãos? Você está brincando de boneca, irmão.

Vikir olhou para Peri, que agora sorria para ele, orgulhosa de sua "obra de arte" no cabelo do pai.

— Às vezes — disse Vikir —, proteger uma boneca é mais difícil do que conquistar um reino, Osiris. Mas não se preocupe. Amanhã, no campo, eu lembrarei a todos por que os Baskerville são chamados de Cães de Caça de Ferro.

Osiris brindou ao ar.

— Mal posso esperar. Especialmente para ver a cara daquela garota de cabelos brancos, a Bianca, quando ela perceber que o homem que ela admira é o mesmo "monstro" que ela tanto teme nos livros de história.

Vikir não respondeu. Ele apenas fechou os olhos, permitindo que Peri continuasse seu trabalho. O disfarce estava rachando, e o ferro por baixo estava começando a brilhar. Em três dias, a academia não veria apenas um treinamento; eles veriam o despertar de uma linhagem que nunca dorme. E Vikir, entre laços cor-de-rosa e espadas de aço, teria que decidir qual lado de sua alma prevaleceria.