Família complicada
O Despertar do Cão de Ferro e o Pesadelo Cor-de-Rosa
O sol mal havia começado a riscar o horizonte da Academia Colosso quando o som metálico de lâminas chocando-se ressoou pelo pátio principal. Não era o som comum dos treinos matinais dos alunos; era algo mais pesado, mais rítmico, como o pulsar de um coração feito de aço.
No centro do campo, os estudantes do primeiro e segundo ano estavam alinhados, tremendo não apenas pelo frio da manhã, mas pela presença opressora de Hugo van Baskerville. O Patriarca estava parado como uma estátua de granito, os braços cruzados sobre o peito largo, observando cada movimento com um desprezo mal disfarçado.
— Lixo. — A voz de Hugo cortou o ar como uma guilhotina. — Se isso é o que o Império chama de elite, então estamos destinados à ruína. Vocês não seguram uma espada, vocês seguram colheres de chá.
Osiris, sentado em uma cadeira de veludo trazida especialmente para o campo, parecia estar se divertindo imensamente. Ao seu lado, Pomeria balançava as pernas, comendo pequenos doces, enquanto Peri, sentada no colo de Osiris, observava tudo com seus grandes olhos azuis. Peri usava um vestido rosa ainda mais extravagante que o do dia anterior, completo com pequenas asas de fada presas às costas.
— Papai está sendo muito bonzinho hoje, não acha, Peri? — comentou Osiris, limpando uma migalha do rosto da sobrinha. — Ele ainda não quebrou as costelas de ninguém.
Vikir, que estava misturado aos alunos tentando manter sua fachada de "Vikir, o plebeu", sentiu um calafrio. Ele sabia que o olhar de Hugo estava constantemente voltado para ele.
— Você aí. O de óculos. — Hugo apontou para um aluno veterano que era considerado um prodígio na academia. — Ataque-me. Com tudo o que tem. Se você conseguir me fazer mover um pé, eu poupo sua turma do treinamento de resistência hoje.
O aluno, encorajado pela promessa, avançou com um grito de guerra, desferindo um golpe de esgrima refinado. Hugo nem sequer sacou sua arma. Com um movimento imperceptível, ele atingiu o pomo da espada do jovem com a lateral da mão, desarmando-o e mandando-o ao chão com um simples empurrão de mana.
— Patético. — Hugo rosnou. — Quem mais? Ninguém?
— Talvez — começou Osiris, sua voz carregada de uma malícia que fez Vikir apertar o cabo de sua espada de treinamento — devêssemos chamar alguém que realmente saiba como um Baskerville luta. Alguém que está escondido entre as ovelhas, fingindo ser uma delas.
Os olhos de toda a turma se voltaram para onde Osiris apontava. Vikir suspirou internamente. Ele sabia que não havia escapatória.
— Vikir. — A voz de Hugo foi um comando absoluto. — Saia da fila.
Tudor e Bianca, que estavam ao lado de Vikir, recuaram.
— Vikir, não vá — sussurrou Bianca, os olhos arregalados. — Ele vai te matar se você não for cuidadoso.
Vikir não respondeu. Ele caminhou até o centro do pátio com passos medidos. Sua postura mudou. Os ombros, antes levemente curvados para parecerem menos ameaçadores, endireitaram-se. A aura de "aluno comum" evaporou, sendo substituída por uma frieza cortante que fez o ar ao seu redor parecer congelar.
— Senhor. — Vikir fez uma breve reverência.
— Pegue uma espada de verdade — ordenou Hugo. — Não brinque com esses gravetos de madeira.
Um dos cavaleiros da escolta Baskerville lançou uma espada de aço negro para Vikir. Ele a pegou no ar com uma facilidade desconcertante, girando o pulso para sentir o peso da lâmina.
— Tio Sombra vai ganhar! — gritou Pomeria, batendo palmas. — Vai, Tio Sombra! Mostra pra eles como você corta os monstros!
Os alunos começaram a sussurrar freneticamente. "Tio Sombra?". "Ele conhece a família?".
— Ataque-me como se quisesse me matar, Vikir — disse Hugo, desembainhando uma de suas espadas curtas. — Ou eu farei com que esse seu ano de "estudos" termine em um funeral.
Vikir não hesitou. Em um piscar de olhos, ele desapareceu.
Para os estudantes comuns, foi apenas um borrão. Para Hugo e Osiris, foi o movimento perfeito de um predador. O som do aço contra o aço ecoou como um trovão. Vikir desferia golpes com uma precisão cirúrgica, cada movimento calculado para explorar as aberturas na defesa de Hugo.
A pressão de mana no pátio tornou-se insuportável. Alguns alunos caíram de joelhos, incapazes de respirar sob o peso da intenção assassina que emanava do duelo.
— Veja, Peri! — Osiris apontava, rindo enquanto a menina batia palminhas silenciosas. — É assim que o seu "papai" dança. Ele é muito bom nisso, não é? Mas olha só, ele está tentando não rasgar o uniforme da escola. Que fofo.
Hugo bloqueou um golpe descendente de Vikir, os pés afundando alguns centímetros no pavimento de pedra. Um sorriso selvagem apareceu no rosto do Patriarca.
— Melhor! — rugiu Hugo. — Mas você está hesitando! Está com medo de que seus amiguinhos vejam o monstro que você é?
Vikir girou o corpo, a lâmina negra traçando um arco de energia carmesim que forçou Hugo a recuar um passo completo. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Vikir parou, a ponta da espada tocando levemente o chão, a respiração calma como se tivesse acabado de dar um passeio matinal.
— Eu movi o pé — disse Hugo, guardando a espada. — O treinamento de resistência está cancelado para a sua turma. Em vez disso, vocês todos vão observar enquanto Vikir os ensina a forma básica do Cão de Caça.
Os alunos estavam em choque. Tudor parecia ter esquecido como fechar a boca. Bianca estava pálida, olhando para Vikir como se nunca o tivesse visto antes.
— Vikir... — balbuciou Tudor. — O que... o que foi aquilo? Você acabou de lutar de igual para igual com o Patriarca Baskerville?
Vikir limpou a lâmina e a devolveu ao guarda, ignorando a pergunta do amigo. Ele caminhou em direção a Osiris e as crianças.
— Você exagerou — disse Vikir para o irmão mais velho.
— Eu? — Osiris fingiu indignação. — Eu apenas queria que Peri visse o herói dela em ação. Olhe para ela, está radiante.
Peri estendeu os braços para Vikir. Ele a pegou, sentindo as asas de fada de plástico roçarem em seu rosto. A menina tocou a bochecha de Vikir e fez um gesto rápido com as mãos, que significava: "Você cheira a ferro".
— É o cheiro do trabalho, pequena — murmurou Vikir, sua expressão suavizando de uma forma que assustou ainda mais os alunos que observavam de longe.
— Tio Sombra! — Pomeria correu até ele e o abraçou pelas pernas. — O vovô disse que se você ganhasse, a gente ia tomar chá com bolo de morango! Ele comprou uma confeitaria inteira na cidade e mandou trazer pra cá!
Hugo aproximou-se, limpando o suor da testa. Sua presença ainda era aterrorizante, mas havia um brilho estranho em seus olhos quando olhava para as netas.
— É verdade. O bolo já deve ter chegado. — Hugo olhou para Vikir com severidade. — E você virá conosco. Temos que discutir sua falta de agressividade no terceiro movimento.
— Eu tenho aulas, senhor — tentou Vikir.
— Eu sou o instrutor convidado deste ano — rebateu Hugo com um sorriso de escárnio. — Suas aulas são o que eu disser que são. E agora, a aula é sobre como não deixar sua filha e sua sobrinha esperando pelo açúcar.
Enquanto o grupo se afastava em direção às tendas luxuosas dos Baskerville, Osiris caminhava ao lado de Vikir, cutucando-o com o cotovelo.
— Sabe, "Vikir, o Plebeu", as fofocas na academia vão ser maravilhosas amanhã. "O misterioso bolsista que é o favorito do Patriarca". "O guerreiro das sombras que carrega fadinhas rosa".
— Eu vou te matar enquanto você dorme, Osiris — disse Vikir, sem emoção.
— Oh, que medo! — Osiris riu alto, atraindo a atenção de todos. — Peri, ouviu isso? Seu pai está sendo malvado com o tio de novo. Vamos pedir para o vovô dar um castigo nele?
Peri negou com a cabeça vigorosamente e abraçou o pescoço de Vikir com mais força, escondendo o rosto em seu ombro.
— Viu só? — Vikir deu um raro sorriso de canto. — Ela gosta mais de mim.
— Só porque você deixa ela usar essa coroa ridícula o dia todo — resmungou Hugo, embora estivesse carregando Pomeria nos ombros. — Eu disse que a de ouro maciço era melhor, mas ela insistiu nessa de plástico porque "combina com o Tio Sombra". O que isso sequer significa?
— Significa que ela tem bom gosto, pai — disse Osiris, divertido. — Plástico é resiliente e barato, exatamente como o disfarce do Vikir.
Ao chegarem à tenda principal, uma mesa gigantesca estava posta, coberta com todos os tipos imagináveis de doces e bolos. Peri foi colocada em uma cadeira alta que parecia um trono em miniatura, e Hugo pessoalmente começou a cortar fatias de bolo de morango para ela, com uma delicadeza que desafiava seu tamanho monumental.
— Coma tudo — ordenou Hugo para a pequena. — Se você ficar magra demais, aquele diretor estúpido da academia vai pagar com a cabeça.
Peri apenas sorriu e começou a comer, oferecendo a primeira colherada para Vikir. Ele aceitou, sob o olhar atento e divertido de sua família.
— Isso é um caos — murmurou Vikir, sentindo o açúcar do bolo.
— É o caos dos Baskerville — corrigiu Osiris, servindo-se de chá. — E admita, irmão... é muito melhor do que a sopa rala do refeitório dos alunos.
Vikir olhou para Peri, que agora tinha um pouco de chantilly no nariz e apontava para a coroa dele, exigindo que ele a colocasse de volta. Ele suspirou e colocou o adereço de plástico sobre seus cabelos negros.
— É — admitiu Vikir em voz baixa. — É um pouco melhor.
Lá fora, a Academia Colosso ainda tentava processar o que tinha visto. O Cão de Caça de Ferro havia mostrado os dentes, mas, de alguma forma, ele também estava usando uma coroa de princesa. E ninguém, absolutamente ninguém, tinha coragem de rir. Porque, por trás do rosa e do açúcar, o sangue dos Baskerville ainda fervia, pronto para devorar qualquer um que ousasse interromper o chá da tarde da pequena Peri.