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Família complicada

O Sorriso da Lâmina e o Peso do Sangue

O segundo dia de treinamento na Academia Colosso começou sob uma atmosfera de terror absoluto. Se o primeiro dia fora um choque de realidade, o segundo prometia ser uma descida direta aos infernos. Hugo van Baskerville não era um homem de meias medidas, e sua ideia de "aquecimento" consistia em fazer os alunos correrem quilômetros carregando toras de madeira enquanto arqueiros da elite Baskerville disparavam flechas sem ponta, mas com força suficiente para quebrar costelas, em suas direções.

Vikir, mantendo sua posição entre os alunos, executava as tarefas com uma eficiência mecânica que não passava despercebida. Ele evitava os disparos com movimentos mínimos, economizando energia, enquanto Tudor e Sancho ao seu lado pareciam estar prestes a desmaiar.

— Vikir... como você... ainda está respirando normalmente? — ofegou Tudor, desviando de uma flecha que zumbiu perto de sua orelha. — Aquela luta ontem... e agora isso... você é um monstro.

— Economize fôlego — respondeu Vikir, sua voz tão estável quanto se estivesse sentado em uma biblioteca. — Se você não controlar o diafragma, seus músculos vão entrar em colapso antes do meio-dia.

No centro do campo, em um palanque elevado, Osiris observava a cena com um tédio elegante. As crianças, Peri e Pomeria, não estavam presentes; Hugo decidira que o ambiente de hoje seria "pesado demais para os olhos das flores da casa", enviando-as para uma excursão monitorada aos jardins botânicos da academia sob a proteção de vinte guardas de elite. Sem a distração das sobrinhas, Osiris estava livre para focar em seu passatempo favorito: infernizar a vida de seu irmão mais novo.

— Pai — disse Osiris, levantando-se e alongando os braços —, esses alunos são lentos demais. Se continuarmos nesse ritmo, levaremos dez anos para torná-los "aceitáveis". Por que não damos a eles uma demonstração real?

Hugo, que estava observando o progresso de Vikir com um olhar de aprovação severa, bufou.

— O que você sugere, Osiris?

— Um duelo de exibição — propôs o herdeiro, seus olhos brilhando com uma luz predatória enquanto fixava Vikir na multidão. — Entre instrutores. Quero ver se o nosso "bolsista prodígio" ainda consegue acompanhar o ritmo de quem nunca parou de caçar.

Hugo cruzou os braços, um sorriso de lado surgindo em seu rosto cicatrizado.

— Vikir! Saia da formação!

O silêncio caiu sobre os alunos enquanto Vikir caminhava para o centro, deixando a tora de madeira cair no chão com um baque surdo. Ele olhou para Osiris, que descia do palanque com a graça de uma pantera.

— Você não consegue simplesmente ficar sentado e beber seu chá, não é? — murmurou Vikir quando os dois ficaram frente a frente.

— E perder a chance de ver você suar na frente dos seus amigos? — Osiris riu, desembainhando uma espada longa de prata finamente decorada. — Jamais. Além disso, estou começando a achar que esse seu disfarce de "plebeu sofredor" está ficando sem graça. Talvez eu devesse contar a todos sobre a cicatriz que você tem no ombro esquerdo, aquela que você ganhou protegendo o...

— Osiris. — A voz de Vikir subiu um tom, carregada de um aviso gélido.

— O quê? — O mais velho inclinou a cabeça, a imagem da inocência fingida. — Só acho que a verdade é muito mais emocionante do que a ficção.

Sem mais avisos, Osiris atacou.

Diferente do estilo brutal e esmagador de Hugo, Osiris lutava com uma velocidade e precisão que beiravam o sobrenatural. Sua lâmina era um rastro de luz prateada que buscava os pontos vitais de Vikir com uma insistência irritante. Vikir, usando apenas a espada de aço negro que lhe fora confiada, bloqueava e desviava, seus pés desenhando círculos perfeitos na terra.

O choque das espadas criava ondas de choque que faziam os alunos mais próximos recuarem. Era uma dança de morte, um diálogo entre dois irmãos que falavam a língua do sangue melhor do que qualquer outra.

— Você está lento, irmãozinho! — provocou Osiris, desferindo uma estocada que Vikir desviou por milímetros, sentindo o vento da lâmina passar por seu pescoço. — A vida acadêmica amoleceu seus reflexos. Onde está aquele instinto assassino que fez os bárbaros do norte tremerem?

— Está guardado para inimigos reais — rebateu Vikir, contra-atacando com uma série de golpes baixos que forçaram Osiris a saltar para trás. — Não para irmãos que gostam de se exibir.

Osiris soltou uma gargalhada genuína, seus olhos brilhando com o prazer da luta. Ele girou a espada e aumentou a velocidade.

— Sabe — disse Osiris enquanto as lâminas se travavam, os rostos dos dois a poucos centímetros de distância —, eu estava pensando... por que continuar com essa farsa? Eu poderia simplesmente gritar para todos aqui que você é o herdeiro da linhagem principal, o Cão de Caça que sobreviveu ao abismo. Imagine o respeito... o medo!

— Eu não quero medo, Osiris. Eu quero silêncio — sibilou Vikir, empurrando a espada do irmão com uma força súbita que o desequilibrou.

Vikir não deu trégua. Ele avançou como uma sombra, sua espada tornando-se um borrão negro. Ele não estava mais apenas se defendendo; ele estava punindo a arrogância de Osiris. Cada golpe era um aviso, cada movimento uma ordem de silêncio.

Os alunos assistiam, paralisados. Eles nunca tinham visto nada parecido. Nem mesmo os professores da academia possuíam aquele nível de maestria. Bianca, observando de longe, sentia o coração martelar contra as costelas. Ela conhecia aquele olhar de Vikir — era o olhar de alguém que não pertencia ao mundo dos homens comuns.

— Chega! — gritou Hugo, sua voz reverberando por todo o campo.

Os dois irmãos pararam instantaneamente. A ponta da espada de Vikir estava a centímetros da garganta de Osiris, enquanto a lâmina de Osiris apontava para o coração de Vikir.

— Uma exibição aceitável — declarou Hugo, embora seus olhos mostrassem que ele estava satisfeito com a agressividade de ambos. — Osiris, volte para o seu lugar. Vikir, volte para o treinamento dos alunos.

Osiris guardou a espada com um floreio elegante, limpando uma gota de suor da testa.

— Você é muito tenso, Vikir — comentou ele enquanto caminhavam para longe do centro do pátio, longe o suficiente para que os alunos não ouvissem. — Eu estava quase desistindo de te ajudar com esse disfarce. É exaustivo fingir que você é apenas um "colaborador" talentoso.

Vikir parou e agarrou o braço de Osiris, seus dedos apertando o tecido da túnica do irmão com uma força que faria qualquer outro homem gritar.

— Escute bem — disse Vikir, sua voz um sussurro perigoso. — Você vai manter sua boca fechada. Se você arruinar o que eu construí aqui por puro capricho, eu juro que vou contar para a Pomeria que foi você quem "acidentalmente" quebrou a boneca de porcelana favorita dela no mês passado.

Osiris empalideceu subitamente. O sorriso presunçoso desapareceu, substituído por um olhar de puro pavor.

— Você não ousaria... ela me odiaria para sempre. Ela me chamaria de "Tio Malvado" por toda a eternidade!

— Tente-me — desafiou Vikir, soltando o braço do irmão. — Continue brincando com o meu disfarce e veja o que acontece quando voltarmos para o castelo.

Osiris soltou um suspiro dramático, mas havia um brilho de adoração em seus olhos. Ele adorava quando o irmão mostrava suas presas, mesmo que fosse contra ele.

— Você é cruel, Vikir. Realmente um Baskerville de sangue puro. Tudo bem, eu manterei o segredo... por enquanto. Mas você terá que me pagar um jantar de verdade, nada dessa comida de hospital que eles servem aqui.

Vikir não respondeu, apenas voltou para a fila de alunos, onde Tudor e Sancho o olhavam como se ele fosse uma divindade caída.

— Vikir... — começou Sancho, hesitante. — Você quase matou o herdeiro dos Baskerville.

— Ele estava aberto — respondeu Vikir simplesmente, pegando sua tora de madeira e colocando-a sobre os ombros novamente. — Vamos. Ainda faltam dez voltas.

O restante do dia foi um borrão de dor física para os estudantes, mas para Vikir, foi um exercício de paciência. Ele sentia os olhos de Hugo e Osiris sobre ele o tempo todo, uma pressão constante que o lembrava de quem ele realmente era.

Ao entardecer, quando os alunos foram finalmente liberados, exaustos e cobertos de lama, Vikir dirigiu-se à área das tendas. Ele precisava ver Peri. O estresse de lidar com sua família era muito maior do que qualquer treinamento físico.

Ele encontrou as crianças no jardim privativo que Hugo mandara cercar. Peri estava sentada em uma manta, cercada por livros de ilustrações, enquanto Pomeria tentava ensinar etiqueta para um grupo de coelhos que os guardas haviam capturado para ela.

Ao ver Vikir, Peri iluminou-se. Ela correu em sua direção, ignorando a lama em seu uniforme, e abraçou suas pernas.

— Cuidado, pequena — murmurou Vikir, pegando-a no colo. — Estou sujo.

Peri não se importou. Ela tocou o rosto de Vikir e fez um gesto que ele conhecia bem: "Você está bravo?".

— Não estou bravo — mentiu ele, sentindo a tensão deixar seus ombros. — Apenas cansado de lidar com o seu Tio Osiris.

— O Tio Osiris é um bobo! — exclamou Pomeria, aproximando-se com um coelho nos braços. — Ele tentou dizer que a Peri não podia levar a coroa para o jardim, mas o vovô brigou com ele!

Vikir olhou para a pequena coroa rosa que ainda adornava a cabeça de Peri, agora um pouco torta após um dia de brincadeiras. Ele a ajustou com cuidado.

— O vovô fez a escolha certa — disse Vikir.

Nesse momento, Hugo e Osiris aproximaram-se. O Patriarca parecia menos um monstro de guerra e mais um homem idoso exausto, enquanto Osiris ainda parecia estar tramando algo.

— Vikir — disse Hugo, sua voz grave ressoando no jardim. — O diretor da academia quer dar um banquete em nossa honra amanhã à noite. Ele insiste que todos os "alunos de destaque" compareçam.

Vikir sentiu um nó no estômago.

— Isso inclui você — acrescentou Osiris com um sorriso maldoso. — E o pai decidiu que, como você é o nosso "especialista", você deve se sentar à mesa principal conosco. Como um convidado de honra da família Baskerville.

— Isso vai destruir qualquer chance de eu passar despercebido — protestou Vikir.

— Pense nisso como um teste final de infiltração — disse Hugo, cruzando os braços. — Se você conseguir se sentar à nossa mesa, ser tratado como um de nós e ainda convencer seus colegas de que é apenas um "plebeu sortudo", então você realmente superou meus ensinamentos.

Vikir olhou para Peri, que sorria para ele, e depois para Osiris, que piscava cinicamente.

— Vocês são impossíveis — suspirou Vikir.

— Somos Baskervilles — corrigiu Osiris, abraçando o irmão pelos ombros. — E amanhã, irmãozinho, o mundo vai ver como um Cão de Caça se comporta em um banquete. Prepare-se. Eu ouvi dizer que a Bianca e o Tudor estão morrendo de curiosidade para saber por que o Patriarca te olha com tanto... carinho.

Vikir apenas fechou os olhos, desejando que o próximo ano passasse o mais rápido possível. Mas no fundo, enquanto sentia o peso de Peri em seus braços e a presença vibrante de sua família ao redor, ele sabia que, apesar do caos e do perigo de seu disfarce ruir, aquele era o único lugar onde o ferro de sua alma realmente se sentia em casa.

A noite caiu sobre a Academia Colosso, trazendo consigo o silêncio inquieto de centenas de alunos que temiam o amanhã. Mas na tenda dos Baskerville, entre risadas infantis, discussões sobre vestidos rosas e ameaças de contar segredos de infância, o sangue falava mais alto que o ferro. E Vikir van Baskerville, o homem que caminhava entre dois mundos, preparava-se para o maior desafio de sua vida: sobreviver a um jantar em família.