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Família na Rocinha

O Mirante, o Dogão e o Nosso Mundo

O sol começava a baixar no horizonte, pintando o céu da Rocinha com tons de laranja e violeta, quando Kaelton desligou o motor da sua moto zerada na garagem da mansão. Ele olhou para Lua, que ainda terminava de ajeitar a mochila pequena nas costas. Ela estava radiante. Usava um short jeans que, para o gosto possessivo de Kael, estava curto demais, mas ele tentava se controlar — afinal, no morro, todo mundo sabia de quem ela era filha e, principalmente, de quem ela era namorada.

— Pronta, docinho? — Kael perguntou, estendendo a mão para ela. — O movimento tá começando a ficar bom lá embaixo.

— Pronta, ursinho! — Lua sorriu, segurando a mão dele com firmeza. — Eu quero ir naquele lugar que dá para ver o mar e o Cristo ao mesmo tempo. E quero o lanche do seu Jorge.

Kael riu, puxando-a para perto e selando seus lábios num beijo rápido, mas carregado de promessa.

— Seu desejo é uma ordem, princesa. Vamos a pé hoje? O clima tá gostoso, a gente vai trocando uma ideia e sentindo o asfalto.

— Vamos! — ela deu pulinhos de animação, o jeito doce e infantil que o TDAH e o autismo às vezes traziam à tona, deixando Kael ainda mais rendido.

Eles saíram pelo portão lateral, e o contraste entre o luxo da mansão Allegretti e a pulsação frenética da comunidade foi imediato. O cheiro de comida vindo das janelas, o som dos radinhos dos vapores na contenção, o barulho das motos passando e o "boa tarde" constante dos moradores. Para Lua, aquele era o seu quintal. Para Kael, era o seu reino em ascensão.

— Coé, Kael! Tá bonitão, hein, cria? — gritou um dos moleques que ficava na esquina, vigiando a entrada da rua.

— Na atividade, irmão! — Kael respondeu com um aceno de cabeça, sem soltar a mão de Lua nem por um segundo.

Eles começaram a descer as ruelas. Kael conhecia cada beco, cada atalho. Ele guiava Lua com um cuidado quase sagrado, sempre atento a qualquer degrau ou buraco que pudesse fazê-la tropeçar. Quando chegaram a um dos pontos mais altos, perto da localidade conhecida como "Caminho do Boi", ele parou.

— Olha lá, vida. — Kael apontou para o horizonte.

Dali, a vista era de tirar o fôlego. A imensidão do mar de São Conrado brilhava como se tivessem jogado diamantes na água, e o Cristo Redentor, lá longe, parecia abençoar a montanha de casas sobrepostas que formavam a Rocinha.

— É muito lindo, Kael... — Lua suspirou, encostando a cabeça no ombro dele. — Parece que o mundo é pequeno daqui de cima, né?

— O mundo é gigante, Lua. — Kael a abraçou por trás, envolvendo a cintura dela e sentindo a maciez da pele dela contra os seus braços tatuados. — Mas, pra mim, o mundo se resume a essa visão aqui e a você no meu colo. O resto é só cenário.

Lua virou-se nos braços dele, passando as mãos pelo pescoço de Kael, brincando com a correntinha de prata que ele usava.

— Você fala umas coisas que me deixam com frio na barriga — ela confessou, as bochechas ficando vermelhas.

— É porque eu te amo de um jeito que nem eu entendo, docinho. — Ele se inclinou, capturando os lábios dela num beijo mais profundo.

O beijo tinha gosto de liberdade e de juventude. Kael sentia o corpo de Lua colado ao seu, a curva do quadril dela encaixando perfeitamente nas suas mãos. Ele deu uma leve apertada, ouvindo um suspiro baixo da namorada.

— Kael... aqui não... — ela murmurou entre os beijos, embora não fizesse menção de se afastar.

— Eu sei, eu sei. — Ele riu baixo, a voz rouca contra o ouvido dela. — É que tu me deixa maluco, Lua. Esse seu jeito, esse seu cheiro... eu tenho que me segurar muito pra não te levar pra um canto agora mesmo.

Ela riu, dando um tapinha no peito dele, e voltaram a andar. O próximo destino era sagrado: a barraca do Seu Jorge, o dogão mais famoso da parte alta.

— Fala, Seu Jorge! — Kael cumprimentou o senhor de cabelos brancos que comandava a chapa com maestria. — Capricha naqueles dois completos, com tudo que tem direito. E muita batata palha pra minha pequena aqui.

— É pra já, Kaelton! Pra filha do homem e pro genro preferido, eu faço até com recheio extra — brincou o idoso, piscando para eles.

Enquanto esperavam, sentados em dois banquinhos de plástico na calçada,