Família na Rocinha
O Brilho do Morro e o Gosto do Desejo
— Aqui, docinho, caprichado como você gosta — disse Seu Jorge, entregando os dois lanches prensados, envoltos em guardanapos de papel que já começavam a ficar transparentes por causa da gordura da chapa.
Lua pegou o dela com os olhos brilhando. O TDAH fazia com que ela tivesse algumas fixações alimentares, e o "dogão" do Seu Jorge era uma delas. Tinha que ser exatamente daquele jeito: o pão bem selado, a batata palha transbordando e o molho especial que só aquele senhor sabia fazer. Ela deu a primeira mordida e fechou os olhos, soltando um murmúrio de satisfação que fez Kael soltar uma risada anasalada enquanto devorava o dele.
— Tá bom demais, né? — Kael perguntou, limpando o canto da boca com o polegar. — Nada supera a comida do morro, papo reto.
— É perfeito, ursinho — Lua respondeu, com a voz um pouco abafada pela comida. — O papai vive querendo levar a gente naqueles restaurantes caros lá na Barra, mas eu prefiro mil vezes ficar aqui com você.
Kael sentiu o peito inflar. Ele sabia que Guilherme Allegretti dava do bom e do melhor para a família, mas havia algo na simplicidade da Lua que o deixava cada vez mais fascinado. Ela não precisava de luxo para ser feliz; ela precisava de atenção, de carinho e de alguém que entendesse o seu ritmo único.
Eles terminaram de comer entre risadas e trocas de olhares. Kael pagou Seu Jorge, deixando uma nota de cinquenta e dizendo para o senhor ficar com o troco, um gesto que já era comum para ele, que agora tinha seu próprio dinheiro vindo do trabalho e de uns "corres" lícitos que o sogro o ajudava a gerenciar.
— Vamos caminhar mais um pouco? — sugeriu Kael, estendendo o braço para que ela se enroscasse nele. — Quero te mostrar como a iluminação nova ficou lá na curva do S. Os moleques capricharam nos LEDs.
— Vamos! Eu gosto de ver as luzes — Lua concordou, ajeitando o vestidinho que insistia em subir um pouco mais do que o esperado a cada passo que ela dava.
Enquanto desciam, o movimento da Rocinha parecia atingir o seu ápice. Era o horário em que muitos trabalhadores chegavam do asfalto e a "vida noturna" da comunidade despertava. O som de um funk proibidão ecoava de longe, vindo de algum paredão de som, mas ali, onde eles estavam, o clima era mais tranquilo.
Kael percebia os olhares. Os homens da contenção, armados e atentos, faziam um sinal de respeito quando ele passava. Alguns olhavam para Lua com admiração, mas desviavam o olho rapidamente ao encontrarem o semblante sério de Kaelton. Ele era um cara de boa, mas todos sabiam que, se mexessem com a "Princesa da Allegretti", o garoto virava um bicho.
— O pessoal tá olhando muito hoje, Kael... — Lua sussurrou, sentindo-se um pouco sobrecarregada pelo excesso de estímulos visuais e sonoros, algo comum para sua condição.
Kael parou imediatamente, puxando-a para um recuo entre dois prédios de alvenaria, um lugar mais escuro e silencioso.
— Ei, olha pra mim — ele pediu, segurando o rosto dela com as duas mãos. — Foca só na minha voz, tá bom? Tá tudo bem. Eu tô aqui. Ninguém vai encostar em você, ninguém vai te incomodar.
Lua respirou fundo, fechando os olhos e sentindo o calor das mãos de Kael. O toque dele era a sua âncora.
— Desculpa, ursinho. Às vezes fica tudo muito barulhento na minha cabeça.
— Não precisa pedir desculpa por nada, Lua. Nunca — ele disse, baixando o tom de voz para um sussurro rouco. — Quer que eu te leve pra casa?
— Ainda não. Eu quero ficar mais um pouco com você. Longe de todo mundo.
Kael sorriu de canto, aquele sorriso que fazia as pernas de Lua fraquejarem. Ele a conduziu por um beco estreito que ele conhecia como a palma da mão, subindo uma escada de cimento íngreme que levava ao topo de uma laje inacabada de um primo dele que estava viajando. Era um lugar privilegiado, isolado do burburinho principal, com uma mureta baixa e uma visão panorâmica de toda a favela e das luzes da cidade lá embaixo.
Quando chegaram ao topo, a brisa da noite bateu no rosto deles, trazendo o alívio necessário.
— Aqui é melhor? — perguntou ele, sentando-se na mureta e puxando-a para ficar entre suas pernas.
— Muito melhor — Lua suspirou, relaxando o corpo contra o peito dele. — Aqui o silêncio é bonito.
Kael abraçou a cintura dela, enterrando o rosto no pescoço de Lua, aspirando o cheiro de baunilha que parecia exalar dos poros dela. Ele começou a distribuir beijos lentos ali, sentindo-a se arrepiar por inteiro.
— Você é tão linda, Lua... — ele murmurou contra a pele dela. — Às vezes eu nem acredito que você é minha namorada. Que o brabo do Allegretti me deu essa confiança toda.
— Ele gosta de você, Kael. Ele diz que você tem "visão" — ela riu baixinho, virando o rosto para encontrar o dele. — E eu também gosto. Gosto muito.
Kael não esperou mais. Ele selou seus lábios nos dela em um beijo profundo, explorador. A língua dele pedia passagem com uma urgência que ele tentava controlar, mas a resposta de Lua era sempre tão doce e entregue que ele acabava perdendo o freio. As mãos de Kael desceram das costas dela para as coxas fartas, apertando a carne macia por cima do tecido fino do vestido.
— Kael... — ela arfou, o coração batendo rápido contra o peito dele.
— Eu te desejo tanto, garota — ele confessou, parando o beijo apenas para encostar a testa na dela, ambos ofegantes. — Cada pedaço de você. Esse seu corpo de pera, essa sua boca... eu fico possesso só de imaginar outro cara olhando pra você.
— Ninguém olha como você, ursinho — ela disse, com os olhos meio nublados pelo desejo crescente. — Você me olha como se eu fosse a única coisa importante no mundo.
— Porque você é.
Ele voltou a beijá-la, desta vez com mais intensidade. Uma das mãos de Kael subiu, entrando por baixo do vestido de Lua, sentindo a pele quente da barriga dela até chegar à renda da calcinha. Lua soltou um gemido baixo, escondendo o rosto no ombro dele. O contraste entre a inocência dela e a vontade que ele sentia era o que mais o enlouquecia.
— A gente devia parar... — Kael disse, embora sua mão continuasse o movimento lento de cariciar a pele dela. — Se o seu pai descobre que eu tô aqui em cima, numa laje escura, passando a mão em você desse jeito, ele me apaga antes de eu pedir perdão.
Lua deu uma risadinha travessa, o que surpreendeu Kael.
— O papai tá ocupado com a mamãe. Eu ouvi quando eles entraram na lavanderia antes da gente sair. Acho que ele não vai sentir nossa falta tão cedo.
Kael soltou uma gargalhada alta, quebrando um pouco a tensão erótica do momento.
— Caralho, o tio Guilherme não perde tempo mesmo! O homem é um animal. Mas ele tá certo, a tia Letícia é um espetáculo. Dá pra ver de onde você puxou toda essa beleza.
Ele a puxou para mais perto, sentando-a de lado no seu colo, sobre a mureta. Agora eles estavam na mesma altura. Kael segurou a nuca dela, trazendo-a para um beijo mais calmo, cheio de ternura.
— Eu quero cuidar de você pra sempre, Lua. Quero me formar naquela faculdade, ganhar meu dinheiro, mas nunca sair daqui de perto de você.
— Você promete? — ela perguntou, com a vulnerabilidade que só mostrava para ele. — Porque às vezes eu acho que sou difícil de lidar. Eu esqueço as coisas, eu fico nervosa com barulho, eu...
— Shhh — ele a interrompeu com um selinho. — Eu amo cada detalhe seu. Amo quando você se concentra nos seus desenhos, amo o jeito que você cuida do Bernardo e amo até quando você fica teimosa. Você não é difícil, Lua. Você é rara. E eu não troco essa nossa "confusão" por nenhuma paz no mundo.
Lua sorriu, o aparelho preto brilhando sob a luz da lua. Ela se sentia segura. No meio de um morro em guerra constante com o mundo exterior, dentro dos braços de Kaelton, ela encontrava a paz que sua mente barulhenta tanto buscava.
Eles ficaram ali por um longo tempo, apenas observando as luzes da Rocinha. Kael apontava para os lugares e contava histórias de infância, de como ele jogava bola naqueles becos antes de sonhar em ser engenheiro. Lua ouvia tudo com atenção, guardando cada palavra como se fosse um tesouro.
— Tá ficando tarde, vida — Kael disse finalmente, olhando o relógio no pulso. — Melhor a gente descer antes que o tio Guilherme resolva fazer a ronda noturna e encontre a gente aqui.
— Ah, já? — ela fez um biquinho de decepção.
— É pro seu bem, docinho. Eu quero continuar vivo pra te ver amanhã — ele brincou, dando um último beijo demorado na testa dela.
Eles desceram a escada com cuidado. No caminho de volta, o movimento já estava mais calmo, mas o cheiro de churrasquinho ainda pairava no ar. Kael a acompanhou até a porta da mansão, parando na sombra do muro alto.
— Entregue, sã e salva — ele disse, fazendo uma reverência de brincadeira.
— Obrigada pelo passeio, ursinho. Foi o melhor dia.
— Todo dia com você é o melhor dia, Lua.
Ele esperou que ela entrasse e que a porta pesada de madeira fosse trancada. Só então ele caminhou em direção à sua própria casa, sentindo o sangue pulsar nas veias. Ele tinha ambição, tinha força, mas acima de tudo, ele tinha um propósito. E o nome desse propósito era Luanara Allegretti.
Dentro da mansão, Lua subiu as escadas na ponta dos pés. Ao passar pelo quarto dos pais, ouviu o som baixo da televisão ligada e a voz de Guilherme resmungando algo carinhoso para Letícia. Ela sorriu. Sua família era intensa, barulhenta e, às vezes, perigosa para quem estava de fora, mas ali dentro, o amor era a única lei que realmente importava.
Ela entrou no seu quarto, jogou a mochila no canto e se jogou na cama, ainda sentindo o cheiro do perfume de Kael em suas roupas. Pegou o tablet e começou a esboçar um novo desenho: dois jovens sentados em uma laje, sob um céu estrelado, cercados por mil luzes pequenas.
Lá fora, a Rocinha não dormia. Mas na mansão dos Allegretti, o silêncio finalmente reinava, guardando os sonhos de uma princesa e os planos de um jovem que estava pronto para conquistar o mundo, desde que ela estivesse ao seu lado.