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Família na Rocinha

Pagode, Picanha e Pente Carregado

O domingo na Rocinha amanheceu com aquele céu azul típico do Rio, sem uma nuvem pra contar história. O sol já estava estalando desde cedo, e na mansão dos Allegretti o clima era de festa. Guilherme tinha decidido que o dia seria de lazer, e quando o dono do morro decidia fazer um churrasco, a estrutura era de outro nível. O som já estava montado na área da piscina, um pagode retrô tocando baixo por enquanto, e o cheiro de carvão queimando já começava a subir.

Guilherme estava na beira da churrasqueira, vestindo apenas um short de tactel preto da Nike e um chinelo de dedo. O corpo suado destacava cada músculo e cada tatuagem, enquanto ele manejava uma faca de chef com a perícia de quem também sabia ser letal na cozinha. No ombro, o radinho não saía, mas hoje estava no silencioso, só pra emergências.

— Kael! — Guilherme gritou, sem tirar os olhos da picanha. — Brota aqui e traz aquela caixa de gelo que tá na despensa. Se a cerveja esquentar, eu te jogo na piscina com roupa e tudo.

— Já tô indo, tio! Calma aí que eu tava ajudando a Lua com as boias do Bê — Kael respondeu, aparecendo logo em seguida.

O rapaz estava no mesmo pique: sem camisa, exibindo o físico de quem malhava sério, e com aquele sorriso de quem estava em casa. Ele carregava a caixa com facilidade, colocando-a do lado do sogro.

— Tá nervoso por quê, tio? O clima tá tranquilão, os acessos tão tudo monitorado. Hoje é dia de aproveitar a família — Kael disse, pegando uma lata de cerveja gelada e estendendo para Guilherme.

— Tu sabe como é, moleque. Quem tem o que eu tenho não dorme no ponto nunca — Guilherme deu um gole longo na cerveja, limpando o bigode aparado com as costas da mão. — Mas hoje o papo é outro. Como tá a faculdade? Não quero saber de tu vacilando com os livros por causa de rabo de saia, nem que seja o da minha filha.

— Tá tudo nos trilhos. Engenharia não é mole não, mas eu não sou de arregar. E a Lua me incentiva pra caramba. Ela é meu combustível, tio.

Guilherme olhou de soslaio para o genro, aquele olhar de "cara fechada" que intimidava qualquer um no morro, mas que para Kael já era rotina.

— Bom mesmo. Se ela chorar por tua causa, tu já sabe que o papo vai ser lá no meu escritório, e não vai ser pra beber uísque.

Enquanto os homens cuidavam do fogo, Letícia e Lua saíram da casa carregando as travessas de acompanhamentos. Letícia estava um escândalo num biquíni cortininha preto com uma saída de praia transparente. A pele branca contrastava com o cabelo preto que balançava conforme ela andava. Lua vinha logo atrás, com um biquíni rosa que realçava seu corpo "pera", as curvas acentuadas atraindo o olhar imediato de Kael.

— Olha só se não são as donas da porra toda — Guilherme comentou, o olhar suavizando na hora ao ver a esposa. — Vem cá, coração.

Letícia se aproximou e deu um selinho demorado no marido, ignorando o calor da churrasqueira.

— Tá muito rabugento hoje ou tá dando pra levar, amor? — ela perguntou, rindo, enquanto arrumava o arroz e a farofa na mesa comprida de madeira.

— Tô na paz, meu bem. Só o Kael que tá querendo me dar aula de como cuidar do morro — Guilherme brincou, dando um tapa leve na bunda de Letícia quando ela se virou.

— Ai, Guilherme! Respeita as crianças — ela repreendeu, mas com um sorriso malicioso nos lábios.

Lua já estava perto de Kael, que não perdeu tempo em passar o braço pela cintura dela, puxando-a para perto.

— Tá linda demais, vida. Esse rosa te deixou uma covardia — Kael sussurrou no ouvido dela, sentindo o perfume de baunilha.

— Para, amor... meu pai tá olhando — Lua disse, ficando levemente rosada, mas se aconchegando no peito dele. — Cadê o meu gordinho?

— Tá no cercadinho lá na sombra, a babá tá de olho, mas ele não para de reclamar — Letícia respondeu. — Acho que ele quer é bagunça.

Não deu outra. Bernardo, o pequeno herdeiro de 8 meses, começou a soltar uns gritos agudos de protesto. Ele estava sentado num tapete emborrachado sob o ombrelone, vestindo apenas uma fralda e um bonezinho virado para trás. Assim que viu o movimento, começou a bater as mãos gordinhas no chão.

— Ih, o campeão acordou com a macaca — Guilherme largou o espeto e foi até o filho.

Ele pegou o bebê no colo com uma facilidade impressionante. O contraste do homem gigante, tatuado e perigoso com o bebê branquinho e gordo era a imagem da família Allegretti. Bernardo parou de chorar na hora, agarrando o cordão de ouro grosso no pescoço do pai e tentando levar à boca.

— Isso não é pra comer não, Bê! É pra tu herdar um dia — Guilherme riu, sentando o filho no seu braço musculoso. — Olha lá, campeão, o Kael tá querendo roubar tua irmã. Vai deixar?

Bernardo olhou para Kael e para Lua, fechou a cara e soltou um resmungo alto, fazendo todo mundo rir.

— Ele é muito ciumento, gente! Igualzinho ao papai — Lua disse, indo até o irmão e apertando suas bochechas. — Vem com a mana, meu gordinho.

Ela pegou o bebê, e Kael se aproximou para brincar com ele, mas Bernardo deu um "chega pra lá" com a mãozinha, se escondendo no pescoço da irmã.

— Tá vendo, Kael? Perdeu o posto — Letícia provocou, servindo-se de uma caipirinha.

O dia seguiu animado. O grupo de pagode, formado por alguns moleques da própria comunidade que Guilherme ajudava, começou a tocar um som mais alto. A música ecoava pela encosta, e lá de cima dava para ver a vida pulsando na Rocinha. No churrasco, o clima era de descontração total, mas a segurança nunca era deixada de lado. Dois seguranças de confiança ficavam em pontos estratégicos da mansão, discretos, mas armados até os dentes.

Depois de comerem, Guilherme puxou Letícia para uma dança lenta perto da piscina, mesmo com o pagode agitado. Ele a segurava com possessividade, as mãos grandes perdidas na curva das costas dela.

— Tu sabe que eu não trocaria isso aqui por nada no mundo, né, coração? — ele murmurou contra o ouvido dela.

— Eu sei, meu bem. Você construiu um império, mas eu sei que o seu lugar seguro é aqui comigo.

— Sempre foi. Tu me aguentou quando eu era só um aviãozinho querendo ser alguém. Hoje eu sou o dono, mas continuo sendo teu — Guilherme a beijou com vontade, um beijo profundo que mostrava que, mesmo depois de tantos anos, o fogo entre eles só aumentava.

Enquanto isso, Lua e Kael tinham se afastado um pouco, indo para uma parte mais reservada da área externa, onde as espreguiçadeiras ficavam viradas para o visual do morro. Bernardo tinha finalmente dormido no colo da babá lá dentro.

— Vem cá, docinho — Kael puxou Lua para o seu colo em uma das espreguiçadeiras.

— Kael, meu pai vai ver... — ela protestou fracamente, mas já estava sentada sobre as pernas dele, sentindo o volume por baixo do short de Kael.

— Ele tá ocupado demais com a tia Letícia, olha lá — Kael apontou discretamente para o casal, que estava num clima quente perto da borda da piscina. — Eu tô com saudade de ontem à noite. Tu me deixou maluco.

— Você que é insaciável, vida — Lua passou os dedos pelo aparelho preto, dando um sorriso tímido que desarmava o rapaz. — Mas eu também amei. Você cuida tão bem de mim.

Kael segurou o rosto dela com as duas mãos, o olhar verde fixo nos olhos puxadinhos de Lua.

— Eu vou te cuidar pra sempre, Lua. Tu é minha princesa, o meu futuro. Eu vou me formar, vou ser o melhor engenheiro desse Rio, e vou te dar tudo o que tu merece, sem precisar depender da correria do morro.

— Eu já tenho tudo o que eu preciso aqui, meu ursinho — ela respondeu, antes de selar os lábios nos dele em um beijo doce, que logo começou a esquentar.

A mão de Kael desceu pela lateral do corpo de Lua, sentindo a curva do quadril que o deixava sem fôlego. Ele apertou a carne macia da coxa dela, subindo um pouco o biquíni rosa.

— Se a gente entrar agora pro quarto, ninguém sente falta — ele sugeriu, a voz rouca.

— Safado! — Lua riu, mas seus olhos brilhavam com o mesmo desejo. — Vamos esperar o sol baixar um pouco. Quero aproveitar o dia com você aqui fora primeiro.

Lá do outro lado, Guilherme observava os dois pelo canto do olho. Ele não era bobo, sabia exatamente o que estava rolando, mas respeitava o espaço. Ele confiava em Kael, o moleque tinha caráter.

— O que foi, amor? — Letícia perguntou, percebendo o olhar do marido.

— Nada, meu bem. Só pensando que a nossa princesa cresceu. E que aquele moleque ali tem sorte de eu gostar dele, senão ele já tava no micro-ondas faz tempo — Guilherme resmungou, mas logo sorriu ao ver Letícia rir da sua marra.

— Deixa eles, Guilherme. A gente também foi jovem e fogoso. Aliás, a gente ainda é, né?

— Com certeza — Guilherme a puxou para mais perto, o corpo colado. — Mais tarde, quando todo mundo for embora e os moleques dormirem, eu vou te mostrar o quanto eu ainda sou fogoso. Vou te foder de um jeito que tu vai pedir pra eu parar, e tu sabe que eu não paro.

Letícia sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ela amava esse lado bruto e direto do marido.

— Mal posso esperar, meu rabugento.

O churrasco continuou tarde adentro. Amigos mais próximos de Guilherme, alguns gerentes de confiança, passaram por lá para cumprimentar o patrão. O clima era de respeito. Todos sabiam que a família era o ponto fraco e, ao mesmo tempo, a maior força de Guilherme Allegretti.

Quando o sol começou a se pôr, pintando o céu do Rio de laranja e roxo, a música mudou para um pagode mais romântico. O morro começou a acender suas luzes, parecendo um presépio gigante e barulhento.

Bernardo acordou e foi levado para a área externa novamente. Dessa vez, ele estava mais calmo, sentado no colo de Guilherme enquanto o pai comia um pedaço de carne. O pequeno tentava imitar o jeito de Guilherme de observar o movimento, com a testa franzida e o olhar sério.

— Olha lá, Letícia! — Lua apontou, rindo. — Ele tá fazendo a cara de "dono do morro".

— É o sangue, minha Luna — Letícia disse, fazendo carinho na cabeça do filho. — Ele já sabe que nasceu pra mandar.

— Vai ser um grande homem — Guilherme sentenciou, dando um beijo na testa do bebê. — Mas enquanto eu tiver vivo, ele vai ser só o meu campeão.

A noite caiu sobre a Rocinha, mas a festa na mansão não dava sinais de acabar. Entre risadas, beijos roubados, o som do pagode e o cheiro de churrasco, os Allegretti celebravam a vida. Ali, no topo do mundo deles, o perigo parecia distante, abafado pelo amor e pela lealdade que unia aquela família. Guilherme olhou para Letícia, para os filhos e para Kael, e sentiu que, apesar de toda a guerra lá fora, dentro daqueles muros, ele tinha vencido.

— A vida é boa, né, tio? — Kael comentou, sentando ao lado dele com uma última rodada de bebidas.

— É boa porque a gente faz ela ser, moleque — Guilherme respondeu, batendo o copo no dele. — Agora aproveita, que amanhã o morro acorda cedo e o trabalho não espera ninguém.

Kael assentiu, olhando para Lua que dançava sozinha com Bernardo no colo, sob a luz da lua que começava a brilhar. Naquele momento, na paz da mansão, tudo o que importava era o agora. E o agora era perfeito.