Família na Rocinha
Marcas de Batom e Cheiro de Pólvora
A segunda-feira na Rocinha não era para amadores. O sol mal tinha batido no topo do morro e o movimento já estava a todo vapor. No escritório da mansão, Guilherme Allegretti terminava de conferir os lucros do final de semana. O ar-condicionado trabalhava no máximo, mas Guilherme sentia o sangue ferver. Ele estava sentado em sua poltrona de couro, o olhar fixo em uma planilha, enquanto limpava uma de suas Glock personalizadas. O barulho do metal estalando era o único som que competia com o radinho, que chiava intermitentemente no canto da mesa de mogno.
— Patrão, os moleque da contenção da entrada da mata avisaram que tem um carro estranho circulando lá embaixo — a voz no rádio saiu rouca e carregada de estática.
Guilherme apertou o botão lateral, a voz saindo grave e sem paciência.
— Visão, foca na placa e me dá o retorno em cinco minutos. Se for os alemão querendo ganhar terreno, já sabe: é sem ideia, manda o aço.
Ele desligou o rádio e suspirou, passando a mão pelo cavanhaque perfeitamente aparado. A porta do escritório se abriu e Letícia entrou, trazendo uma bandeja com café forte e um pedaço de bolo de milho. Ela usava um vestido de alcinha leve, que realçava suas curvas e a pele alva. Os olhos puxados brilhavam com aquela mistura de preocupação e carinho que só ela tinha por ele.
— Bom dia, meu rabugento — ela disse, colocando a bandeja sobre a mesa, bem em cima de um mapa da comunidade. — Já está com essa cara de quem vai morder alguém e o sol nem esquentou direito.
Guilherme soltou a arma, levantou-se e puxou a esposa pela cintura, colando o corpo dela ao seu. Ele tinha quase trinta centímetros de altura a mais que ela, o que sempre o fazia se sentir ainda mais protetor.
— É a lida, coração. O morro não para e tem gente achando que eu tô ficando mole — ele cheirou o pescoço dela, sentindo o perfume doce que ela sempre usava pela manhã. — Mas quando tu entra aqui, o mundo lá fora some.
— Toma seu café, amor. O Bernardo já acordou e está lá na sala tentando escalar o sofá. Ele está cada dia mais parecido com você, até o jeito de franzir a testa quando não ganha o que quer — Letícia riu, dando um selinho demorado nele.
— Aquele moleque vai dar trabalho — Guilherme sorriu de canto, o primeiro sorriso real do dia. — E a Lua?
— No quarto, se arrumando. O Kael passou aqui cedo para deixar uns livros para ela e os dois ficaram de conversinha no portão. Eu tive que dar um grito, senão ela não entrava mais — Letícia comentou, pegando uma xícara de café para si.
Guilherme fechou a cara instantaneamente. O ciúme pela filha era sua maior fraqueza.
— Esse moleque tá ficando muito folgado, Letícia. Daqui a pouco ele traz a mudança pra cá de vez.
— Deixa de ser marrento, Guilherme! O Kael é um menino de ouro, ajuda você em tudo, cuida da nossa princesa como se fosse uma joia. Você sabe que ele é o melhor que ela poderia ter.
— Eu sei, porra. Mas ver ele olhando pra ela daquele jeito... me sobe um sangue — ele resmungou, voltando a sentar. — Mas hoje ele tem serviço. Mandei ele conferir a carga de peças que chegou. Quero ver se ele é bom de conta mesmo ou se a engenharia é só fachada.
No andar de cima, o clima era bem mais leve. Lua estava terminando de passar o gloss nos lábios, olhando-se no espelho. O aparelho preto brilhava quando ela sorria para o próprio reflexo. Ela vestia um short jeans curto e um cropped que deixava sua cintura fina e o quadril largo em evidência. Bernardo estava sentado na cama dela, babando em um mordedor de borracha e olhando para a irmã com seus olhos verdes curiosos.
— O que foi, meu gordinho? Tá achando a mana bonita? — Lua pegou o bebê no colo, enchendo-o de beijos. — Você é o amor da vida da mana, sabia? Mas não conta pro papai, senão ele fica com ciúmes.
Bernardo soltou uma risadinha banguela e puxou um cacho do cabelo ondulado de Lua.
— Ai, Bê! Assim você me deixa descabelada. Vamos descer, que a mamãe já deve ter feito o café.
Ao chegar na sala, Lua encontrou Kael sentado no sofá, mexendo no celular. Ele usava a camisa do uniforme do Outback, onde trabalhava, e o cabelo mullet estava perfeitamente ajeitado. Quando ele viu Lua descendo com o bebê, seus olhos verdes brilharam.
— E aí, vida — Kael se levantou e deu um beijo rápido na testa dela, respeitando a presença da sogra que estava na cozinha logo ao lado. — O gordinho tá impossível hoje, né?
— Nem me fala, Kaelton. Ele não queria me deixar nem passar o gloss — Lua riu, entregando o bebê para o namorado.
Kael pegou Bernardo com habilidade, jogando o pequeno para o alto e fazendo-o gargalhar. O bebê, que geralmente era sistemático, adorava a bagunça que Kael fazia.
— E aí, campeão? Tá pronto pra dominar o mundo hoje? — Kael brincou, sentando com o menino no colo.
— Vida, meu pai está lá embaixo com a cara de poucos amigos — Lua sussurrou, sentando ao lado dele e encostando a cabeça em seu ombro. — Ele falou alguma coisa contigo?
— O de sempre, docinho. Me deu umas missões lá na entrada do morro e perguntou da faculdade. Ele faz essa marra toda, mas eu sei que ele gosta de mim. Ontem ele até me ofereceu um charuto dos caros — Kael piscou para ela. — Mas eu só tenho olhos pra você. Tá linda pra caralho com esse short, sabia?
— Kael! — Lua deu um tapinha no braço dele, corando. — Minha mãe tá ali.
— A tia Letícia é parceira, ela sabe que eu sou louco por ti — ele se aproximou do ouvido dela, a voz ficando mais baixa e rouca. — Se eu pudesse, te levava agora lá pro mirante só pra gente ficar no grudinho.
— Você tem que trabalhar, meu ursinho. E eu tenho que estudar pra prova de biologia — Lua fez um bico manhoso. — Mas de noite você vem pra cá?
— Com certeza. Não durmo direito se não te der um beijo de boa noite.
Nesse momento, Guilherme subiu as escadas do escritório e apareceu na sala. Ele parou na porta, os braços cruzados, observando a cena. O tamanho dele parecia preencher o ambiente.
— Kaelton, tá fazendo o que aí ainda? A carga não vai se conferir sozinha, garoto — a voz de Guilherme ecoou, autoritária.
— Já tô indo, tio. Só tava dando uma atenção pro Bê e pra Lua — Kael se levantou rapidamente, entregando o bebê para Letícia, que acabara de entrar na sala.
— Pois é, a atenção já foi dada. Agora foca no progresso. E ó, nada de ficar de gracinha com as piranhas lá da contenção. Tu tem mulher em casa e o pai dela sou eu — Guilherme disse, apontando o dedo, mas com um brilho de aviso nos olhos.
— Qual foi, tio! Sabe que eu só tenho olhos pro meu docinho aqui. O resto é paisagem — Kael respondeu com confiança, pegando a chave da moto que estava em cima da mesa. — Fui. Tchau, tia Letícia. Tchau, amor.
Kael saiu e logo o barulho da moto potente ecoou pelo pátio da mansão. Lua suspirou, olhando pela janela.
— Papai, você é muito rabugento com ele — Lua disse, abraçando o pai pela cintura.
— Eu sou é esperto, princesa. Esse moleque é bom, mas homem é bicho preguiçoso, tem que ficar em cima — Guilherme beijou o topo da cabeça da filha. — Agora vai estudar, que eu não quero filha minha dependendo de marido pra nada.
A manhã passou rápido. Letícia cuidava de Bernardo, que finalmente tinha tirado uma soneca, enquanto Lua se trancava no quarto com os livros. Guilherme, por sua vez, precisou descer para a "boca" principal para resolver um problema de disciplina entre os vapores.
Lá embaixo, o clima era tenso. Guilherme chegou em sua caminhonete blindada, cercado por seus seguranças mais leais. Ele desceu do carro com aquele olhar de quem ia cobrar uma dívida de sangue.
— Qual é a do desenrolo aqui? — Guilherme perguntou, parando na frente de dois rapazes que tremiam de leve.
— Patrão, o novinho aqui deu mole e perdeu um rádio na feira — um dos gerentes explicou.
Guilherme deu um passo à frente, ficando cara a cara com o garoto.
— Tu sabe quanto custa um rádio desse, moleque? Não é o dinheiro, é a segurança do morro. Se os cana pegam essa frequência, tu bota a vida de todo mundo em risco — Guilherme disse, a voz baixa e perigosa. — Tu vai trabalhar dobrado esse mês pra pagar o prejuízo e vai ficar de vigia na torre 4, doze por doze. Se vacilar de novo, tu sabe que o tribunal aqui é sério.
— Sim, senhor, patrão. Desculpa, não vai se repetir — o garoto gaguejou.
Guilherme deu as costas, satisfeito com o respeito que impunha. Ele encontrou Kael perto do galpão de distribuição, anotando tudo em um tablet. O rapaz estava suado, com a camisa do trabalho jogada no ombro, mostrando os músculos definidos.
— E aí, tio. Tudo certo aqui. A carga veio limpa, as peças tão todas batendo com a nota — Kael informou, entregando o tablet para Guilherme conferir.
— Bom trabalho, Kael. Tu tem visão pra coisa. Já pensou em largar o Outback e ficar só por aqui? Eu te dava uma gerência de logística, tu ia ganhar dez vezes mais — Guilherme sugeriu, testando o rapaz.
Kael olhou para o sogro, sério.
— Tio, eu agradeço a confiança, de verdade. Mas eu quero o meu diploma. Quero ser engenheiro, assinar obra, construir coisa grande. O morro é minha casa, eu ajudo o senhor no que precisar, mas minha meta é outra. E a Lua quer que eu siga esse caminho também.
Guilherme deu um tapinha pesado no ombro de Kael.
— Resposta certa, moleque. Se tu falasse que queria virar bandido, eu te dava um cascudo. O crime é pra quem não tem opção. Tu tem inteligência, usa ela pra sair dessa vida. Mas ó, enquanto tiver por aqui, o braço direito é o meu.
— Tamo junto, tio.
Enquanto os homens resolviam os negócios, na mansão, Letícia e Lua tinham um momento de mãe e filha. Elas estavam na cozinha preparando o almoço. O cheiro de feijão fresco e bife acebolado tomava conta da casa.
— Mamãe, você acha que o papai vai algum dia parar de implicar com o Kael? — Lua perguntou, cortando os tomates para a salada.
— Minha Luna, seu pai é um homem que vive em guerra constante. O ciúme que ele sente de você é a forma dele de te proteger do mundo que ele conhece. Ele sabe que o Kael é um homem de verdade, por isso ele aperta tanto. Ele quer ter certeza de que, se um dia ele não estiver aqui, o Kael vai segurar o rojão — Letícia explicou, com a sabedoria de quem conhecia Guilherme melhor que ninguém.
— Eu amo tanto ele, mãe. O jeito que ele me trata, o respeito... ele nunca tentou me forçar a nada, sempre espera o meu tempo — Lua suspirou, lembrando-se dos momentos a sós com o namorado.
— Eu sei, minha filha. E eu fico feliz por você. Ter um homem que te valoriza é a maior riqueza que uma mulher pode ter. Olha pra mim e pro seu pai. A gente passou por tanta coisa, mas ele nunca deixou de me chamar de coração, nunca deixou de me colocar em primeiro lugar.
Bernardo acordou chorando, interrompendo a conversa. Letícia foi buscá-lo e o pequeno logo estava na cozinha, batendo com uma colher de pau em uma panela vazia, fazendo uma barulheira que ele achava divertidíssima.
— Esse gordinho não tem fim — Lua riu, pegando o irmão no colo e dançando com ele pela cozinha.
O almoço foi servido quando Guilherme e Kael chegaram. A mesa estava farta, como sempre. Guilherme sentou-se na cabeceira, com Letícia ao seu lado. Kael sentou-se ao lado de Lua, e a mão dele logo encontrou a dela por baixo da mesa, um carinho discreto que não passou despercebido por Guilherme, que apenas limpou a garganta e continuou comendo.
— A comida tá uma delícia, tia — Kael elogiou, devorando o bife.
— Letícia cozinha como ninguém — Guilherme afirmou, olhando com desejo para a esposa. — Mas depois do almoço, eu quero a sobremesa, coração.
Letícia deu um sorriso malicioso, entendendo perfeitamente o recado.
— Pode deixar, meu bem. O Bernardo vai ficar com a Lua um pouquinho à tarde.
Lua e Kael se entreolharam, segurando o riso. Eles sabiam que, quando o "patrão" e a "patroa" se trancavam no quarto, ninguém podia incomodar.
Após a refeição, Kael precisou voltar para o trabalho no shopping, mas antes levou Lua até o jardim da mansão para uma despedida rápida.
— Eu volto de noite, tá? — Kael a puxou pela cintura, colando o corpo dela no seu. — Vou passar o dia pensando nessa tua boquinha de aparelho.
— E eu vou estar te esperando, meu ursinho. Toma cuidado na descida do morro, tá? — Lua pediu, passando as mãos pelo pescoço dele.
Kael a beijou com vontade, um beijo que começou lento e foi ficando urgente. A mão dele desceu para a curva do bumbum dela, apertando com firmeza por cima do jeans. Lua soltou um gemido baixinho, sentindo o calor que emanava dele.
— Tu me fode o juízo, Lua — Kael sussurrou entre os beijos. — De noite eu quero mais.
— Eu também, vida. Agora vai, senão meu pai aparece na janela.
Kael montou na moto e saiu, deixando Lua com o coração acelerado. Ela voltou para dentro, vendo o pai pegar a mãe no colo no meio da sala e subir as escadas em direção ao quarto, rindo como se fossem dois adolescentes.
No quarto do casal, Guilherme não perdeu tempo. Assim que fechou a porta, ele prensou Letícia contra a madeira.
— Tu não tem ideia do quanto eu desejei isso o dia todo — ele disse, a voz saindo como um rosnado baixo.
Ele começou a beijar o pescoço dela, as mãos grandes subindo pelo vestido e encontrando a pele macia das coxas. Letícia arqueou as costas, entregando-se ao toque bruto e ao mesmo tempo carinhoso de Guilherme.
— Me fode, Guilherme... me fode como se fosse a primeira vez — ela pediu, a voz sumindo em um suspiro.
Guilherme a jogou na cama, desfazendo-se do seu próprio short em um movimento rápido. Ele a admirou por um segundo, a beleza oriental misturada com as curvas brasileiras, antes de se posicionar entre as pernas dela. Ele entrou nela com força, sentindo o aperto delicioso que só Letícia tinha. O ritmo era intenso, marcado pelos gemidos abafados e pelo som dos corpos se batendo.
— Tu é minha, Letícia. Só minha — ele afirmava, cada estocada sendo uma prova de sua posse.
— Sempre sua, meu amor... sempre sua — ela respondia, as unhas cravadas nas costas tatuadas dele.
Enquanto o prazer consumia o quarto principal, a tarde na Rocinha seguia seu curso. No quarto de Lua, ela tentava se concentrar na biologia, mas sua mente voava para Kael. No berço na sala, Bernardo dormia o sono profundo dos inocentes.
A vida na família Allegretti era assim: uma mistura de perigo, marra, ciúmes e um amor visceral que queimava mais forte que o sol do Rio de Janeiro. Entre o som dos tiros distantes e o silêncio do luxo da mansão, eles seguiam sendo os donos de seu próprio destino, protegendo uns aos outros com unhas e dentes, sob o comando firme do dono do morro e a doçura inabalável de sua rainha.