Família na Rocinha
Vapor de Água e Promessas de Amor
A noite tinha caído pesada sobre a Rocinha, mas o movimento lá fora parecia não ter fim. O som das motos subindo e descendo as vielas, o eco distante de algum funk vindo de um dos becos e o brilho das luzes da comunidade formavam o cenário que Kael observava da varanda do quarto de Lua. Ele tinha acabado de chegar do trabalho, o corpo cansado da rotina pesada entre a faculdade de engenharia e o expediente no Outback, mas bastava sentir o cheiro de baunilha que exalava daquele quarto para que todo o cansaço se dissipasse.
Dentro do quarto, o ambiente era de paz. Bernardo já tinha sido devidamente ninado por Letícia e dormia como um anjo no berço, lá no quarto dos pais. Guilherme estava no escritório, provavelmente resolvendo alguma pendência de última hora com os gerentes, o que dava a Kael e Lua a privacidade que eles tanto valorizavam.
Lua saiu do closet vestindo apenas um roupão de seda rosa, os cabelos pretos e ondulados soltos, caindo em cascata pelas costas. Ela viu Kael encostado na sacada e caminhou até ele, abraçando-o por trás e colando o rosto em suas costas largas.
— Você demorou hoje, meu ursinho — ela sussurrou, a voz manhosa, sentindo o calor da pele bronzeada dele.
Kael se virou no abraço, envolvendo a cintura curvilínea de Lua e puxando-a para perto. Ele depositou um beijo carinhoso na ponta do nariz dela, fazendo o aparelho preto brilhar sob a luz suave do abajur.
— O shopping estava um inferno, vida. Mas o que importa é que eu cheguei. E cheguei doido por um banho e pelo teu colo.
— Então vem — ela disse, pegando a mão dele e o puxando em direção ao banheiro privativo da suíte. — O banho já está pronto.
O banheiro da mansão era um luxo à parte, todo revestido em mármore escuro com detalhes em dourado. O box era amplo, com dois chuveiros de teto que despejavam uma água morna e relaxante. O vapor já tomava conta do ambiente, embaçando os espelhos e criando uma atmosfera íntima e isolada do resto do mundo.
Kael se livrou da roupa rapidamente, revelando o corpo de atleta, malhado e com as tatuagens que Lua tanto amava traçar com os dedos. Ela deixou o roupão escorregar pelos ombros, revelando sua pele branquíssima, meio rosada, e as curvas que faziam Kael perder o fôlego toda vez.
Eles entraram sob a água juntos. O choque térmico inicial deu lugar a um relaxamento profundo. Lua se encostou no peito de Kael, deixando a água cair sobre suas cabeças, enquanto ele passava as mãos grandes pelas laterais do corpo dela, sentindo a maciez de sua pele.
— Você está tão tensa, docinho — Kael murmurou, começando a massagear os ombros dela. — O que foi? Muita matéria na escola?
— Um pouco... e o Bê também está muito chorão hoje. Acho que os dentinhos de cima estão querendo nascer. Passei a tarde tentando acalmar ele — ela respondeu, fechando os olhos e aproveitando o toque dele. — Mas agora eu só quero ficar aqui, quietinha com você.
Kael a virou de frente para ele, segurando seu rosto com as mãos molhadas. Os olhos verdes dele encontraram os negros e puxadinhos dela, e por um momento, o tempo pareceu parar.
— Eu amo o jeito que você cuida de todo mundo, Lua. Você é doce demais, às vezes eu nem acredito que é filha do tio Guilherme — ele brincou, dando um beijo casto nos lábios dela.
— Eu sou Allegretti, Kaelton! Tenho meus momentos de marra também — ela fez um bico fingindo estar ofendida, o que só a deixou mais adorável. — Mas com você eu não consigo. Você me mima demais.
— E vou continuar mimando. Pro resto da vida, se você deixar.
Kael pegou o sabonete líquido de lichia que Lua usava e começou a ensaboar o corpo dela com uma lentidão torturante. Suas mãos deslizavam pelos seios fartos, desciam pela cintura fina e contornavam o quadril largo, aquele corpo "pera" que era a perdição do rapaz. Lua soltou um suspiro longo, jogando a cabeça para trás e deixando a água lavar seu rosto.
— Vida... — ela gemeu baixinho quando sentiu os lábios de Kael encontrarem seu pescoço, distribuindo beijos molhados e mordidas leves. — Assim eu não vou querer sair daqui nunca.
— E quem disse que a gente precisa sair? — Kael respondeu contra a pele dela, a voz rouca de desejo. — A gente podia passar a noite toda aqui, só eu e você, longe de tudo.
Ele a prensou de leve contra a parede de mármore do box, sentindo o volume de sua masculinidade pulsar contra a barriga dela. Lua envolveu o pescoço de Kael com os braços, puxando-o para um beijo profundo, com gosto de água e saudade. A língua dele explorava a boca dela com urgência, encontrando o metal do aparelho e brincando com ele, um detalhe que Kael sempre dizia ser seu ponto fraco.
— Você é minha vida, sabia? — Kael sussurrou entre os beijos, as mãos agora apertando o bumbum dela com firmeza. — Sou maluco por cada pedaço desse teu corpo.
— E eu sou sua, meu ursinho. Só sua — Lua respondeu, a respiração ofegante.
O banho, que deveria ser apenas relaxante, tornou-se uma entrega mútua. Entre o vapor e o som da água batendo no chão, eles se amaram com a intensidade de quem se pertencia por inteiro. Kael a tratava com uma delicadeza que contrastava com sua força, sempre atento a cada reação de Lua, garantindo que ela se sentisse a princesa que realmente era.
Depois de um longo tempo sob o chuveiro, eles finalmente saíram, enrolados em toalhas felpudas. O quarto estava fresco por causa do ar-condicionado, e o contraste com o calor do banheiro fez Lua se encolher. Kael, sempre cuidadoso, pegou o secador e ajudou a secar os cabelos longos dela, um ritual que eles tinham e que Lua adorava.
— Prontinho, minha princesa — ele disse, desligando o aparelho e dando um beijo no topo da cabeça dela.
Lua vestiu uma camisola de seda bem fininha, e Kael apenas um short de moletom. Eles se deitaram na cama king size, que parecia um abraço de tão macia. Lua se aninhou no peito de Kael, passando uma perna por cima das dele, enquanto ele a envolvia com seu braço musculoso.
— Dorme comigo hoje? — ela perguntou, a voz já sumindo pelo sono que começava a chegar. — Meu pai nem vai saber, ele já deve estar desmaiado com a mamãe.
— Eu não ia a lugar nenhum, docinho. Meu lugar é aqui, colado em você — Kael respondeu, fazendo carinho nos cabelos dela.
O silêncio tomou conta do quarto, quebrado apenas pela respiração compassada dos dois. Lua sentia o cheiro de sabonete e pele limpa de Kael, sentindo-se a pessoa mais segura do mundo. Ali, nos braços do seu "ursinho", o morro podia estar em guerra, o mundo podia estar acabando, mas nada a atingiria.
— Kael? — ela chamou baixinho, quase num sussurro.
— Oi, vida.
— Obrigada por ser assim... por me respeitar, por me amar tanto. Às vezes eu fico com medo desse mundo que a gente vive, mas quando eu olho pra você, o medo passa.
Kael apertou o abraço, sentindo o coração de Lua batendo contra o seu.
— Eu nunca vou deixar nada de ruim te acontecer, Lua. Eu estou estudando, estou crescendo, e logo, logo, eu vou te tirar de perto de qualquer perigo. A gente vai ter nossa casa, nossa vida, e eu vou te fazer a mulher mais feliz desse Rio de Janeiro.
Lua sorriu, um sorriso doce e sonolento, e deu um último beijo no peito dele antes de fechar os olhos de vez.
— Eu já sou feliz, meu bem. Muito feliz.
Enquanto Lua adormecia, Kael ficou algum tempo olhando para o teto, ouvindo os sons da noite. Ele sabia da responsabilidade que tinha. Ser o escolhido da filha do dono da Rocinha não era para qualquer um, mas ele não estava ali pelo poder ou pelo dinheiro. Ele estava ali pela menina de aparelho que roubou seu coração quando ele ainda era um moleque.
Lá embaixo, na mansão, o silêncio também reinava. Guilherme e Letícia descansavam após suas próprias batalhas e prazeres. A paz na casa dos Allegretti era um tesouro conquistado a duras penas, mantido pela mão de ferro do patriarca e pela união inabalável daquela família.
Kael sentiu o corpo de Lua relaxar completamente contra o seu. Ele fechou os olhos, deixando-se levar pelo cansaço e pela satisfação de estar exatamente onde queria estar. Naquela noite, o dono do morro podia ser Guilherme, mas o dono do coração da princesa era ele. E isso era tudo o que importava.
O sol nasceria em poucas horas, trazendo novos desafios, novas cobranças e a realidade dura da vida na comunidade. Mas, por enquanto, sob o cobertor caro e o cheiro de baunilha, o amor era a única lei que regia aquele quarto. E no grudinho um do outro, Kael e Lua dormiram o sono dos justos, protegidos pela bolha de carinho que construíram em meio ao caos da Rocinha.