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Família vôlei(caos)

Manhãs de Sol e Pés Fora da Rede

A claridade suave do início da manhã começou a invadir a sala pelas frestas das persianas de madeira, pintando listras douradas sobre o piso de taco e sobre a massa de corpos embolados na rede artesanal. O silêncio que se instalara na casa durante as últimas horas era quase sagrado, quebrado apenas pela respiração serena de Noah e pelo ressonar pesado das duas jogadoras de quase dois metros de altura que haviam desafiado todas as leis da física para caberem juntas naquele espaço de tecido.

O primeiro sinal de que o mundo real continuava girando veio na forma de pés dormentes.

Julia soltou um gemido cavernoso, arrastado e absolutamente dramático, sem sequer abrir os olhos verdes. Suas pernas compridas estavam jogadas por cima das pernas igualmente longas de Kate, e um de seus braços estava completamente dormente por ter servido de travesseiro de apoio para que o bebê não rolasse para o lado.

— Kate... — Julia murmurou, com a voz rouca da manhã e a boca colada na curva do ombro da esposa. — Amor. Acorda. Eu acho que a minha perna esquerda faleceu. Ela se foi. Não sinto mais nada do joelho para baixo.

Ekaterine não abriu os olhos de imediato. A russa apenas soltou um suspiro profundo pelo nariz, o peito subindo e descendo contra a lateral do corpo de Julia. Quando finalmente piscou, revelando os olhos claros ainda embaçados de sono, deu uma risadinha anasalada e provocadora.

— Bom dia para você também, raio de sol — respondeu Kate em tom arrastado, a voz grossa de quem acabara de despertar. — Você fala como se não tivesse sido ideia sua a gente não subir para a cama.

— Minha ideia? — Julia levantou a cabeça bruscamente, o cabelo ruivo formando um ninho espetacular ao redor do rosto. — Eu estava sob coação psicológica de uma criatura de cinco meses que parecia possuída pelo espírito do caos! Se eu fizesse um movimento brusco ontem à noite, aquele menino começava um motim. A culpa é do seu filho.

— Meu filho quando ele chora, seu filho quando ele é fofo, né? Muito conveniente, Bergmann.

No meio das duas, aninhado com os bracinhos abertos e as pernas gordinhas dobradas em posição de sapinho, Noah soltou um longo suspiro e esticou os pés, batendo de leve na coxa de Kate. O bebê loiro abriu os olhinhos azuis, pestanejou diante da luz e, em vez de retomar o drama da madrugada, abriu o sorriso mais descarado, desdentado e luminoso que o universo já havia visto. Uma bolha de baba estourou em seu lábio inferior enquanto ele soltava um gorgolejo alegre.

— Olha a cara de pau desse ser humano — disse Julia, incapaz de segurar o sorriso e o tom debochado, inclinando-se para beijar a bochecha redonda do bebê. — Nem parece que você quase destruiu a minha sanidade mental às duas da manhã, né, seu abusado?

— Ele é um anjinho — Kate defendeu, esticando o indicador comprido para que os dedinhos miúdos de Noah se fechassem ao redor dele. — Você é que não tem espírito esportivo de madrugada.

Antes que Julia pudesse rebater com uma resposta à altura, passos rápidos e pesados começaram a descer a escada de madeira em um ritmo que parecia uma tropa de cavalos em miniatura.

— Mamãe! Mãe Kate! — a voz animada de Léo ecoou pelo corredor antes mesmo de seu corpinho aparecer na sala.

O garoto de sete anos surgiu usando um pijama do Homem-Aranha, os cachos intensamente ruivos apontando para todas as direções imagináveis e uma bola de vôlei oficial da Mikasa firmemente presa debaixo do braço esquerdo. Seus olhos verdes brilhavam com aquela energia inesgotável típica de crianças em dias de folga.

— Shh! Léo, devagar, menino! — sussurrou Kate em tom de advertência, embora o canto da boca traísse sua rigidez com um meio-sorriso carinhoso. — Seu irmão acabou de...

— O Noah tá acordado! — Léo comemorou, ignorando solenemente o pedido de silêncio e jogando a bola no tapete felpudo da sala. Ele correu até a borda da rede e apoiou as duas mãos no tecido, ficando na ponta dos pés para espiar o irmãozinho. — Ele tá rindo! Mãe, sabia que ontem eu sonhei que eu dava um bloqueio no Lucas e a bola caía direto na cara dele?

Julia soltou uma gargalhada alta, passando a mão livre pelos cabelos do primogênito e puxando-o para um beijo estalado na testa.

— Meu Deus, você é mesmo meu filho. O sangue do deboche corre forte nas suas veias. Mas não conta isso pro seu tio agora, que o coitado já foi dormir traumatizado ontem.

— Por que ele foi traumatizado? — Léo perguntou, a curiosidade infantil faiscando nos olhos.

— Porque a vida é cheia de desilusões, meu amor, principalmente quando a gente quer o que não pode ter — respondeu Julia com uma piscadela travessa, referindo-se à conversa da madrugada sobre Gabi.

— Julia, não começa com as suas filosofias tortas logo cedo — Kate repreendeu, sentando-se com cuidado na rede e balançando as pernas compridas para fora até que seus pés descalços tocassem o chão. — Deixa o Lucas em paz.

— Eu não falei nada demais, Antropova! Quem tá com a mente poluída é você — rebateu Julia com falsa indignação, entregando Noah nos braços de Kate para que pudesse finalmente se desenrolar do tecido da rede.

Ao colocar os pés no chão, Julia esticou os braços em direção ao teto, arqueando as costas até que várias vértebras estalassem em sequência.

— Ai, meu senhor amado da glória. Eu tenho vinte e poucos anos, mas meu esqueleto jura que eu já joguei quatro Olimpíadas seguidas carregando pedras nas costas. Preciso de café urgente. Se não entrar cafeína no meu sistema nos próximos cinco minutos, eu viro um monstro pior que o Noah de madrugada.

— Você já é um monstrinho por natureza, Ju — Kate zombou, levantando-se com Noah perfeitamente acomodado no quadril esquerdo. O bebê puxava uma mecha do cabelo loiro da mãe russa com toda a força de suas mãozinhas gordinhas, e Kate nem sequer piscava de dor, acostumada com a rotina. — Vamos para a cozinha antes que você comece a chorar de drama.

A cozinha cheirava a café fresco e torradas amanteigadas. Sentada em um banco alto junto à ilha central, Gabi estava debruçada sobre uma tigela de frutas com iogurte, com o cabelo preso em um coque frouxo e vestindo uma regata de treino preta. Perto do fogão, Lucas mexia uma frigideira grande cheia de ovos mexidos, parecendo incrivelmente desperto para quem tinha ido dormir depois das duas da manhã.

— Olha só quem resolveu abandonar o casulo — Gabi disse, erguendo a caneca de café em uma saudação bem-humorada. — Pensei que vocês duas só iam ressuscitar na hora do almoço.

— Se dependesse da minha coluna, eu nem levantava mais — Julia resmungou, arrastando as pantufas pelo piso de porcelanato e indo direto até a garrafa térmica. Ela serviu uma xícara transbordando e deu o primeiro gole de olhos fechados, soltando um suspiro que pareceu vir da alma. — Isso sim é que é milagre. Bom dia, capitã. Bom dia, Luquinhas, meu solteiro favorito.

Lucas virou-se da frigideira, lançando um olhar desconfiado e semicerrado para a irmã mais velha.

— Bom dia, Ju. E você já começou com a gracinha cedo demais, não acha?

— Eu? Jamais! Eu sou a própria definição da sutileza e da paz matinal — respondeu ela, pegando um pedaço de mamão picado do prato de Gabi com as pontas dos dedos e levando à boca antes que a capitã pudesse reclamar.

— Ei, folgada! Tira a mão das minhas frutas — Gabi ralhou, rindo e empurrando o braço de Julia para longe com o cotovelo. — Vai cortar as suas.

Kate colocou Noah na cadeirinha alta de alimentação presa à bancada e começou a preparar a mamadeira complementar com movimentos práticos e precisos. Léo já havia puxado uma cadeira para perto de Lucas e olhava fascinado para os ovos na frigideira.

— Tio Lucas, bota queijo nos meus ovos? — pediu o menino de sete anos, com a voz mais doce do mundo.

— Claro, campeão. Queijo dobrado pra você — Lucas respondeu, bagunçando os cachos ruivos do sobrinho com a ponta dos dedos limpos.

Julia encostou na bancada ao lado de Kate, cruzando os tornozelos e observando a dinâmica ao redor. Ela olhou de relance para Lucas e depois para Gabi. O rapaz agia com uma leveza visivelmente renovada. A tensão tímida e o medo infantil de cometer uma gafe que o acompanhavam na noite anterior pareciam ter evaporado depois da conversa sincera na sala. Ele conversava com Gabi sobre a chave do campeonato masculino com a naturalidade de dois atletas de alto nível trocando ideias, rindo das piadas rápidas da ponteira sem aquele nervosismo reprimido de quem estava tentando impressionar uma paquera impossível.

Julia deu uma cotoveladinha discreta na cintura de Kate, que testava a temperatura do leite nas costas da mão.

— Viu só como eu sou uma excelente conselheira familiar? — Julia sussurrou baixinho no ouvido da esposa, cheia de si. — O clima tá ótimo. Se dependesse de você, ele ia morrer na dúvida e virar monge.

Kate revirou os olhos azuis, mas havia um brilho divertido em suas feições quando ela virou a cabeça para encarar a ruiva de perto.

— Você não perde uma chance de querer levar os créditos por tudo, não é, Bergmann? Mas me diz uma coisa... o que você conversou tanto com ele ontem enquanto eu fui ver o Léo? Ele parecia que tinha saído de um velório quando começou a falar com você.

Julia abriu um sorriso ladino, inclinando a cabeça para o lado.

— Segredo de irmãos, minha querida. Coisas de alto nível confidencial. Mas relaxa, que o coração do meu irmãozinho agora tá blindado contra ilusões amorosas.

— Sei — murmurou Kate, entregando a mamadeira para Noah, que a agarrou com as duas mãos gordinhas com a mesma voracidade com que disputava uma bola de contra-ataque. — Enquanto não sobrar pra mim ter que consolar ninguém aqui, você pode ser a psicóloga da casa à vontade.

— Gente, o treino de salto de amanhã tá de pé, né? — Gabi interrompeu a bolha das duas, limpando a boca com um guardanapo e olhando de Julia para Kate. — O preparador físico da seleção me mandou a planilha atualizada e ele quer que a gente faça os testes de impulsão vertical antes do fim de semana.

Julia deu mais um gole no café e soltou um gemido preguiçoso.

— Nem me fale de salto, Gabriela. Meu joelho já tá estalando só de você pronunciar a palavra "impulsão". Mas eu tenho que reconhecer que aquele treino específico que o meu treinador da academia passou deu uma boa aliviada nas dores articulares.

O silêncio que se formou do lado de Kate durou apenas dois segundos, mas foi suficiente para Julia perceber o exato momento em que o radar russo de ciúmes foi reativado. A loira pegou um pano de prato, secou as mãos com calma excessiva e virou o rosto para Julia com uma sobrancelha perfeitamente arqueada.

— O treinador de novo, Julia? — perguntou Kate, a voz mansa, mas perigosamente pontual.

Lucas, que estava colocando os ovos mexidos no prato de Léo, soltou um pigarro abafado e virou-se para a pia com uma rapidez olímpica, claramente querendo distância daquele campo minado. Gabi apenas apoiou o queixo nas mãos, abrindo um sorriso largo de quem estava prestes a assistir à melhor comédia da televisão matinal.

— Não começa, Ekaterine — Julia rebateu no mesmo segundo, apontando o dedo indicador na direção da esposa com puro deboche dramático. — Eu tô falando de biomecânica! De fortalecimento de menisco! De ângulo de aterrissagem! Você quer que eu mostre o relatório em PDF com os gráficos de força pra você parar de implicar com o coitado do homem?

— Eu não estou implicando com ninguém — Kate respondeu com a mais pura frieza diplomática, pegando Noah do cadeirão e ajeitando-o no colo para ajudá-lo a arrotar. — Eu só acho curioso como você nunca elogia o meu bloqueio com tanto entusiasmo técnico quanto você elogia as séries desse cara.

— Ah, pronto! — Julia jogou as mãos para o alto, virando-se para Gabi como se pedisse socorro à plateia. — Ela tá comparando o bloqueio de uma gigante da seleção russa e da liga italiana com uma série de agachamento búlgaro! Olha a loucura dessa mulher, Gabriela! Você aguenta isso?

— Não me mete nisso não, Ju — Gabi riu gostosamente, levantando as mãos em sinal de paz. — Entre briga de casal e treino de saque, eu prefiro mil vezes ficar na recepção de viagem. Resolvam aí suas pendências de academia.

— A gente não tem pendência nenhuma — Kate afirmou, agora com um sorrisinho debochado brotando nos cantos dos lábios enquanto dava tapinhas suaves nas costas do bebê. — Até porque eu sei muito bem que quem tem que aguentar as reclamações dela depois do treino sou eu. Se o treino dele fosse tão milagroso assim, ela não estaria gemendo de dor igual a uma senhorinha de oitenta anos desde as sete da manhã.

Léo soltou uma risada com a boca cheia de queijo.

— A mamãe Ju parece mesmo uma vovó gemendo quando levanta do sofá!

— Até você, Leonardo?! — Julia fingiu estar mortalmente ferida no peito, levando a mão ao coração e caindo sentada na cadeira ao lado do filho mais velho. — Traída pelo meu próprio sangue. O filho que eu carreguei na barriga por nove meses agora se junta à oposição loira para manchar a minha reputação atlética. Que desgosto.

— Mas é verdade, mãe — Léo insistiu com a honestidade impiedosa dos sete anos. — Você faz "ai, ai, ai" toda vez que abaixa pra pegar os brinquedos do Noah.

Lucas não aguentou e caiu na gargalhada, apoiando as mãos no balcão da cozinha enquanto ria até os ombros chacoalharem.

— O Léo te destruiu agora, Ju. Sem direito nem a pedido de desafio no vídeo check. Aceita o ponto e vai pro fundo da quadra.

— Vão todos vocês catar coquinho — Julia murmurou, revirando os olhos, mas rindo junto. Ela puxou a bochecha de Léo com carinho e pegou um pedaço de torrada com geleia.

Noah, nos braços de Kate, soltou um arroto sonoro e quase teatral que ecoou perfeitamente no silêncio entre uma risada e outra. Todos na cozinha pararam por um instante e olharam para o bebê, que simplesmente piscou os olhinhos azuis, deu outro sorriso ensopado de saliva e começou a bater as mãozinhas na bancada, como se estivesse aplaudindo o próprio feito.

— Campeão! — Lucas gritou, erguendo o copo de suco em comemoração. — Puxou o tio, com certeza. Educação refinada de primeiro mundo.

— Se ele puxar você na timidez pra falar com as pessoas, a gente tá ferrada — Julia provocou no mesmo segundo, aproveitando a deixa para alfinetar o irmão.

Lucas jogou um guardanapo de papel amassado na direção dela, que desviou habilmente com um movimento de cabeça digno de defesa de líbero.

— Você não presta, Julia, na moral — Lucas disse balançando a cabeça, mas sorrindo com tranquilidade.

O sol agora entrava com força pelas janelas de vidro da cozinha, aquecendo o ambiente e banhando a mesa com uma luz brilhante e reconfortante. A correria insana das temporadas profissionais, as pressões por resultados internacionais e as cobranças diárias pareciam suspensas naquele pequeno refúgio doméstico. Não havia câmeras, nem pressão da torcida, nem cronômetros de tempo técnico; havia apenas uma mesa cheia de migalhas, café quente, risadas soltas e o cheiro doce de um bebê que finalmente havia decidido colaborar com a paz mundial.

Kate caminhou até Julia por trás de sua cadeira, ainda segurando Noah com um braço forte. Com a mão livre, ela acariciou suavemente os fios avermelhados da nuca de Julia, inclinando-se para deixar um beijo carinhoso e calmo no topo de sua cabeça.

— Você tá muito engraçadinha hoje para quem dormiu três horas picadas — Kate sussurrou, a voz macia e sem qualquer resquício daquela falsa zanga de minutos atrás.

Julia ergueu o rosto, encontrando os olhos azuis de Kate com uma ternura desarmada que ela raramente mostrava em público. Ela levou a mão até o rosto da loira, tocando a maçã de seu rosto com afeto sincero.

— Eu sou uma guerreira, amor. Mas se você me amar de verdade mesmo, você vai lavar essa louça inteira enquanto eu levo o Léo pra bater uma bolinha no quintal.

Kate deu uma risadinha seca e negou com a cabeça, já acostumada com os golpes da esposa.

— Nem sonhando, Bergmann. A louça é metade sua. Mas se você prometer que não vai falar do treinador novo pelas próximas vinte e quatro horas, eu posso pensar em lavar as panelas.

— Fechado! Negócio fechado antes que você mude de ideia — Julia aceitou no mesmo instante, levantando-se em um salto da cadeira e batendo palma para chamar a atenção do primogênito. — Vamos, Léo! Pega a bola antes que a capitã Gabi invente de querer dar treino tático pra gente na grama!

— Vôlei! — o garoto gritou, pulando da cadeira com os olhos brilhando e correndo para a porta dos fundos com a Mikasa debaixo do braço.

Gabi balançou a cabeça, rindo enquanto observava a ruiva mais velha correr descalça atrás do filho em direção ao gramado iluminado pelo sol, já gesticulando e reclamando teatralmente da grama molhada de orvalho.

— Vocês duas são um hospício completo — disse Gabi, levantando-se para ajudar Kate a organizar a bancada. — Mas eu não trocaria essa loucura por nada no mundo.

Kate olhou pela janela da cozinha, vendo Julia ajoelhada na grama mostrando para Léo como posicionar os polegares na manchete, enquanto o menino pulava animado e tentava imitar cada movimento da mãe. Noah, seguro no colo da russa, acompanhava as cores brilhantes do lado de fora com curiosidade serena.

— Nem eu, Gabi — Kate respondeu em voz baixa, com um sorriso calmo e satisfeito nos lábios. — Nem eu.

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