Família vôlei(caos)
Entre Redes e Pequenos Gigantes
O gramado dos fundos ainda brilhava sob o orvalho que evaporava devagar com o calor nascente do sol. Julia estava com os pés descalços afundados na grama úmida, segurando a barra do calção de treino com uma das mãos e apontando para a postura de Léo com a outra, já adotando aquela sua expressão clássica de treinadora impiedosa e cheia de trejeitos teatrais.
— Leonardo, preste atenção no movimento — disse Julia, flexionando os joelhos quase até o chão para demonstrar. — Se você dobrar os cotovelos desse jeito na hora do passe, a bola vai parar no telhado do vizinho. E se quebrar a telha dele, adivinha quem vai pagar com a mesada acumulada até 2035?
— Eu nem recebo mesada ainda, mãe! — retrucou o menino de sete anos, rindo alto enquanto ajeitava os bracinhos finos e sardentos à frente do corpo, tentando juntar os antebraços sem dobrar nada. — Você só me dá adesivo de dinossauro quando eu arrumo o quarto!
— Pois então eu vou confiscar os adesivos do tiranossauro rex, que têm altíssimo valor sentimental no mercado paralelo infantil — rebateu ela, jogando a bola para cima de manchete suave. — Vai, posiciona a base. Não pula antes do tempo.
Léo deu dois passos rápidos para frente, calculou o tempo da bola com a intuição aguçada de quem já tinha genes de quadra correndo nas veias e rebateu. A bola subiu retinha, perfeita, desenhando uma parábola suave antes de cair de volta nas mãos estalmadas de Julia.
Na varanda coberta, Kate observava a cena confortavelmente instalada em uma poltrona de vime acolchoada. Noah estava no bebê-conforto ao lado dela, agora devidamente trocado, de banho tomado e vestindo um macacãozinho azul que contrastava com os olhinhos brilhantes. O bebê estava entretido mordendo uma girafa de borracha, emitindo estalos úmidos e grunhidos de satisfação que não lembravam em nada os berros ensurdecedores da madrugada.
— O passe dele é mais limpo que o seu quando a bola vem quebrada na rede, Bergmann! — Kate gritou da varanda, apoiando o cotovelo no joelho e sustentando aquele meio-sorriso irônico que sempre fazia a ruiva bufar. — O Léo já pode entrar na rotação da recepção da seleção alemã fácil.
Julia virou-se em direção à varanda, colocando as duas mãos na cintura e estreitando os olhos verdes em um fingimento escandaloso de ofensa.
— Repete isso aí na minha cara, Ekaterine Antropova! Quero ver você falar isso debaixo da minha rede oficial. Eu sou uma das melhores ponteiras passadoras desse circuito mundial, sua ingrata!
— Sou sincera, meu bem — rebateu Kate, soltando uma gargalhada baixa e empurrando devagar o bebê-conforto com o pé descalço para manter Noah embalado. — Verdades precisam ser ditas para você não amolecer na pré-temporada.
A porta de vidro que dava para a cozinha se abriu com um deslize suave, revelando Gabi e Lucas. A capitã já havia trocado a regata por uma camiseta leve de mangas curtas e segurava uma tigela com laranjas cortadas em quatro partes, enquanto Lucas vinha logo atrás, trazendo uma fita elástica de marcação e dois suportes portáteis que costumavam usar para montar uma mini-rede na grama.
— Se vocês duas começarem a discutir estatística de passe às nove da manhã em pleno domingo, eu vou confiscar todas as bolas dessa casa — alertou Gabi, descendo os dois degraus de pedra com a agilidade costumeira. — Trouxe o combustível dos campeões. Léo, quer laranja ou vai continuar treinando com a sua mãe sargento?
— Laranja! — o garoto abandonou a posição defensiva no mesmo milissegundo, correndo em direção à mesa da varanda como se não tivesse acabado de tomar um café da manhã reforçado.
Lucas ajoelhou-se na grama e começou a prender as extremidades da fita elástica no chão, medindo os passos com precisão. Ele olhou para a irmã, que caminhava até ele massageando a planta do pé direito.
— Tá reclamando do chão úmido, Ju? — Lucas provocou com um sorrisinho de lado. — Quer que eu pegue suas meias de pelúcia lá em cima?
— Não enche a paciência, Luquinhas. Meus pés são instrumentos de trabalho caríssimos e ultra sensíveis — ela respondeu, cutucando as costas do irmão com a ponta do dedão. — E pelo visto você acordou muito engraçadinho hoje. Dormiu bem, foi? Sonhou com os anjos?
Lucas ergueu a cabeça e lançou-lhe um olhar que era pura cumplicidade disfarçada de advertência.
— Dormi ótimo, obrigado. A consciência tá leve, sem nenhuma dúvida existencial pendurada na cabeça.
Julia sorriu de forma triunfal, piscando com um olho só antes de se abaixar para ajudá-lo a esticar a rede improvisada.
— Eu sou a melhor irmã mais velha do planeta, admita logo.
— Não força a barra, Ju. Você é a única irmã que eu tenho, então você é a melhor e a pior por falta de concorrência — Lucas rebateu, levantando-se e batendo a poeira das mãos. — Pronto. Dá pra jogar um dois contra dois de boa. Quem vai ser a minha dupla?
Gabi terminou de chupar uma fatia de laranja e limpou as mãos na toalha de papel, os olhos brilhando com aquele instinto competitivo incontrolável que a tornava lendária nas quadras.
— Eu jogo com o Luquinhas — determinou ela, indo até o lado direito do campo improvisado. — Dupla Bergmann contra dupla internacional. Vocês duas têm coragem ou o quadril já tá travado por causa do show da madrugada?
Kate se levantou da poltrona, esticando os quase dois metros de altura com a elegância preguiçosa de uma pantera acordando da soneca. Ela caminhou até o gramado, parando ao lado de Julia, e cruzou os braços.
— A gente ganha até com o quadril travado, Gabriela. Só não vale reclamar quando eu fechar a paralela e cravar a bola no seu pé.
— Quero ver você fechar paralela sem tênis na grama escorregadia, russa — Gabi zombou, flexionando os joelhos e se posicionando no fundo. — Léo, você é o árbitro principal. Fica ali perto do carrinho do seu irmão e não deixa sua mãe Julia inventar que bola fora foi dentro, porque ela adora roubar ponto.
— Eu não roubo! — Julia protestou aos berros, virando-se para o filho mais velho, que já havia subido em um banquinho de plástico com uma apito de plástico na boca. — Léo, lealdade à pessoa que te colocou no mundo, ouviu bem?
O garoto soprou o apito, emitindo um som estridente e agudo que fez Noah soltar um gritinho animado do outro lado do quintal.
O jogo começou de forma leve, mas em menos de três ralis a intensidade natural daquele grupo transformou o quintal em uma mini arena olímpica. Lucas sacou por baixo com precisão milimétrica, jogando a bola funda. Julia correu de costas, ajustou os passos com maestria e fez um levantamento perfeito de manchete para o meio da rede.
— Vai, Kate! — Julia gritou, saltando para fora da linha para dar espaço à esposa.
Kate entrou na passada larga, subiu com facilidade assustadora e apenas empurrou a bola por cima do bloqueio baixo de Lucas, colocando-a no cantinho vazio da grama. A bola tocou o chão macio com um estalo abafado.
— Ponto nosso! — Julia comemorou, correndo até Kate e pulando nas costas da loira com toda a força, entrelaçando as pernas longas na cintura dela. — Aceita, Brasil! Esse bloqueio tá parecendo uma cerca furada de fazenda!
Kate teve que dar dois passos pesados para trás para não perder o equilíbrio na grama, segurando Julia pelas coxas com uma risadinha exasperada.
— Julia! Você pesa quase oitenta quilos, sua louca! Quer estourar o meu ligamento no domingo de manhã?
— Deixa de ser mole, Antropova! Você levanta cento e vinte quilos no agachamento sem nem suar aquele bigode loiro inexistente, não vai aguentar a sua esposa no lombo? — Julia retrucou de cima, beijando a bochecha corada de Kate repetidas vezes com estalos molhados até a outra soltar um protesto manhoso.
— Desce logo, dramática — Kate riu, soltando-a suavemente no chão e passando a mão no pescoço para limpar a baba do beijo. — E não começa a me desconcentrar que o jogo acabou de começar.
— Segue o jogo! — apitou Léo, gesticulando com o bracinho como se estivesse em uma final de Liga dos Campeões. — Dois a um para o time das mães!
Gabi foi para o saque, girando a bola entre as mãos.
— Vamos lá, Lucas. Foca na recepção dela. A Ju adora reclamar de bola no meio.
Gabi deu um saque flutuante curto, venenoso. A bola veio caindo rápido bem na faixa entre Kate e Julia. A ruiva hesitou por uma fração de segundo, gritou "minha!" tarde demais e teve que se jogar de peito no gramado para evitar que a bola tocasse o chão. Ela conseguiu tocar a ponta dos dedos por baixo, mas a bola subiu torta, cruzando o elástico e caindo direto na mão livre de Lucas, que desceu o braço em uma largadinha indefensável.
Julia continuou deitada de bruços na grama por longos cinco segundos, com os braços abertos e a testa encostada no chão, soltando um gemido abafado contra a terra.
— Alguém anota a placa do caminhão que acabou de passar por cima da minha dignidade — murmurou ela, sem se mover.
Kate se aproximou com passos lentos, parando ao lado do corpo estirado da esposa e olhando para baixo com os braços cruzados e um ar profundamente julgador.
— Que peixinho horroroso, Bergmann. Parece que você se jogou de uma ponte. Onde foi parar aquela biomecânica perfeita que você aprendeu com o seu treinador milagroso da academia?
Julia virou o rosto para o lado, cuspindo uma folhinha de grama que havia grudado em seu lábio inferior, e olhou para Kate com os olhos semicerrados pelo mais puro deboche.
— Você não supera isso, né? Você vai levar esse ciúmes até o nosso túmulo de casal centenário. Se eu morrer antes de você, vou deixar no testamento uma placa na minha lápide dizendo "o treinador da academia era só um senhor de cinquenta anos focado em joelhos".
Gabi e Lucas caíram na gargalhada do outro lado da fita elástica.
— Ele tem cinquenta anos? — Lucas perguntou entre risos. — Kate, você tava com ciúmes de um coroa que passa treino funcional?
— Eu não estava com ciúmes de ninguém — Kate retrucou imediatamente, o rosto ficando levemente avermelhado enquanto ela tentava manter a postura altiva e inabalável. — Eu apenas valorizo o respeito profissional dentro da preparação física. E a Julia exagera em tudo que fala.
— Eu não exagero, eu sou expressiva! Há uma diferença artística abissal entre as duas coisas — Julia rebateu, finalmente rolando de costas e aceitando a mão estendida que Kate oferecia para ajudá-la a levantar.
Ao puxar a ruiva para cima com um puxão firme, Kate não a soltou de imediato. Puxou-a um pouco mais para perto, roçando o nariz na bochecha suja de terra de Julia e murmurando baixo, num tom que só as duas podiam ouvir perfeitamente:
— Se você rasgar mais uma calça de treino nessas quedas dramáticas, eu vou mandar a conta pro seu amigo da biomecânica.
Julia abriu aquele sorriso largo, atrevido e iluminado que sempre desmontava as barreiras da russa em questão de segundos.
— Você me ama demais para ficar brava por causa de calça rasgada, amor.
— Não abusa da sorte — Kate sussurrou de volta, mas seus dedos apertaram a cintura de Julia com uma firmeza carinhosa antes de soltá-la.
Um gemidinho vindo da varanda interrompeu a partida. Noah havia jogado a girafa de borracha longe e agora se debatia no bebê-conforto, com as perninhas batendo no ar e a boquinha começando a tremer daquele jeito perigoso que anunciava tempestade iminente.
— Opa, o alarme tocou — Lucas avisou, guardando a bola debaixo do braço. — Se a gente deixar ele abrir o berreiro, o Léo perde a paciência de árbitro.
— Eu vou lá — Kate se prontificou, caminhando em direção à varanda. — Ele provavelmente só quer sair da cadeirinha. Ele odeia ficar preso quando vê todo mundo andando.
— Puxou a mãe ruiva — Julia comentou em tom conspiratório para Gabi. — Espaçoso desde o nascimento.
Kate pegou o bebê no colo com uma facilidade impressionante. Noah parou de reclamar no mesmo instante em que sentiu o calor do peito da loira, enterrando o rostinho contra a curva do pescoço dela e soltando um suspiro trêmulo de alívio. Kate começou a balançar o corpo no mesmo ritmo calmo da madrugada, beijando os fios dourados da cabecinha dele.
Gabi caminhou até a varanda e sentou-se na mureta de pedra, cruzando as pernas e pegando o apito das mãos de Léo para inspecionar o brinquedo.
— Olha, gente, o treino clandestino foi maravilhoso, mas eu tenho que começar a arrumar a minha mala daqui a pouco — disse Gabi, suspirando com um misto de preguiça e conformismo. — O voo sai no meio da tarde e eu ainda preciso passar na fisioterapia antes do embarque.
Lucas parou ao lado dela, apoiando os braços na grade de madeira com uma tranquilidade visível.
— Se você quiser, eu posso te levar até o aeroporto, Gabi. O trânsito da marginal costuma ficar travado nesse horário de domingo e de carro particular é mais tranquilo do que ficar esperando motorista de aplicativo achar a entrada do condomínio.
Gabi virou-se para ele com um sorriso sincero e grato, dando-lhe um tapinha amigável no ombro.
— Nossa, Luquinhas, você me salvaria demais! Eu odeio depender de corrida em cima da hora, sempre acho que vou perder o check-in. Fechado então. A gasolina fica por minha conta.
— Nem esquenta com isso — ele respondeu, rindo levemente.
Julia, que assistia à interação enquanto limpava a terra dos joelhos com as mãos, trocou um olhar rápido com Kate. A russa ergueu as sobrancelhas loiras de forma sutil, aprovando silenciosamente a dinâmica fácil e leve que havia se instalado entre os dois. A conversa franca da madrugada havia limpado qualquer sombra de constrangimento, deixando para trás apenas a base sólida de uma amizade que claramente duraria por muitas temporadas.
— Bom, já que a capitã vai embora e o meu parceiro de defesa vai fazer o translado oficial — Julia anunciou, entrando na varanda com passos largos e se jogando no sofá ao lado de onde Léo desenhava com giz de cera —, isso significa que o almoço tem que ser algo rápido e decente. Quem vota em massa caseira levanta a mão.
Todos levantaram as mãos, inclusive Léo, que ergueu os dois braços com giz e tudo. Noah soltou um balbucio engraçado e Kate usou a mãozinha do bebê para erguer o braço dele também.
— Unanimidade — Kate decretou com um sorriso. — Mas dessa vez você vai picar o tomate e as folhas de manjericão, Julia. Minhas mãos já estão ocupadas garantindo que o seu caçula não destrua o vaso de plantas.
— Eu pico, eu cozinho, eu sou uma dona de casa exemplar — Julia ironizou, levantando-se e passando a mão na barriga do menino de sete anos. — Vem, Léo. Você vai ser o meu assistente de cozinha oficial. Vamos lavar essas mãos cheias de giz antes que a mãe Kate comece a ter um treco com a higiene da comida.
A cozinha logo se encheu novamente de movimento e aromas acolhedores. O som do molho borbulhando na panela funda misturava-se com as risadas soltas e os comentários exasperados de Gabi sobre as táticas de bloqueio da equipe adversária no último mundial. Lucas ajudava a colocar a grande mesa redonda, enquanto Léo lavava as folhas de manjericão com uma dedicação extrema, quase cirúrgica.
Em um determinado momento, quando Gabi subiu para organizar suas coisas e Lucas foi até o quarto de hóspedes buscar as bagagens, o cômodo ficou um pouco mais tranquilo.
Kate havia acomodado Noah em uma cadeirinha de balanço portátil no canto da cozinha, onde o menino assistia fascinado ao vapor que saía das panelas. A loira caminhou silenciosamente até o fogão, parando logo atrás de Julia. Seus braços compridos envolveram a cintura da ruiva por trás com uma firmeza possessiva e doce, puxando o corpo esguio de Julia contra o seu peito macio.
Julia apoiou a cabeça para trás, descansando no ombro largo de Kate, e suspirou enquanto mexia a colher de pau no molho espesso.
— Cansada? — Kate perguntou baixinho, com a respiração quente roçando a pele sensível da orelha de Julia.
— Um pouco — Julia admitiu, abandonando momentaneamente a pose debochada para se entregar àquele toque conhecido e seguro. — Mas é um cansaço bom. Daqueles que valem a pena. A casa tá cheia, os meninos estão bem, e você tá aqui me apertando igual a um urso russo.
Kate soltou uma risada baixa, vibrando contra as costas de Julia, e descansou o queixo no ombro avermelhado da esposa.
— Eu não sou um urso. Eu sou muito delicada.
— Tão delicada quanto uma marreta de demolição cravando na diagonal — Julia zombou, virando um pouco a cabeça para buscar os lábios de Kate em um beijo calmo, demorado e cheio daquela intimidade que nenhuma rotina pesada de viagens conseguia desgastar.
Quando se afastaram, Kate olhou nos olhos verdes de Julia com uma ternura desarmada.
— O Noah tá mais calmo hoje. A tempestade passou de verdade.
— Passou — Julia concordou, olhando de canto de olho para o pequeno no balanço e depois para Léo, que já tentava roubar um pedaço de queijo parmesão ralado de cima da bancada. — Até a próxima meia-noite, pelo menos. Porque se aquele carrapato loirinho resolver dar show de novo hoje, eu vou trancar você e ele no quarto e jogar a chave pela janela.
— Você não faria isso — Kate sorriu com o canto da boca, dando uma mordidinha suave no lóbulo da orelha de Julia antes de se afastar. — Você não vive sem a gente nem por cinco minutos.
— Convencida — Julia murmurou, jogando um pedacinho de queijo na direção de Kate, que o apanhou no ar com o reflexo apurado de sempre e o engoliu piscando em desafio.
— Léo, me dá essa tigela de queijo antes que você coma tudo e a gente tenha que comer macarrão puro! — Julia gritou, reassumindo sua pose espalhafatosa enquanto a porta da cozinha se abria com o retorno dos outros dois.
Entre o cheiro de comida quente, as discussões intermináveis sobre voleibol, os passos apressados de crianças pela casa e a certeza inabalável do amor que compartilhavam, o domingo avançava perfeito em meio àquele caos tão cuidadosamente construído.