Família vôlei(caos)
Entre Linhas Tortas e Redes Altas
A vela aromática no centro da mesa da sala de jantar já havia queimado até o fim, deixando apenas uma poça de cera endurecida sobre o suporte de cerâmica. Os pratos de porcelana, antes cuidadosamente postos, estavam agora empilhados ao lado da pia. Eram quase onze e meia da noite quando o trinco da porta da frente finalmente girou, quebrando o silêncio fúnebre que dominava a casa.
Julia entrou devagar, com a mochila esportiva pendurada em um dos ombros e o casaco de treino amassado debaixo do braço. Os cabelos ruivos estavam presos em um rabo de cavalo desgrenhado, e o cansaço desenhava sombras escuras sob seus olhos verdes. Ao ver as luzes da cozinha acesas e Kate de costas, guardando o refratário de lasanha fria na geladeira com movimentos secos e duros, a brasileira congelou na soleira.
— Kate... — Julia começou, a voz falhando de exaustão. — O trânsito na saída do centro médico travou completamente por causa de um acidente na marginal. Depois o fisioterapeuta precisou refazer todo o teste de carga no meu tendão porque o aparelho descalibrou e...
Ekaterine fechou a porta da geladeira com um baque sonoro. A loira de quase dois metros de altura virou-se devagar, enxugando as mãos em um pano de prato. Seus olhos azuis, habitualmente serenos, estavam frios como gelo fino sobre água escura.
— O celular existe, Julia — a voz de Kate saiu baixa, mas cortante feito lâmina de barbear. — Três horas. Eu fiquei três horas esperando com a mesa posta. O Léo ficou acordado até as dez querendo te mostrar a maquete da escola e jantar com a gente. Você nem sequer mandou uma mensagem avisando que ia se atrasar.
— Meu celular descarregou no meio da sessão! — Julia rebateu, a defensiva automática subindo como uma muralha, o deboche cansado tentando mascarar a culpa evidente. — Você acha que eu fiquei lá fazendo hora de propósito? Eu estava trabalhando, Ekaterine! Cuidando da perna que paga metade das contas dessa casa!
— Não mete as contas no meio disso, Julia! — Kate deu um passo à frente, a mandíbula cerrada tremendo de raiva contida. — Não é sobre dinheiro, nunca foi sobre dinheiro! É sobre respeito! É sobre prioridade! Há semanas você chega tarde, há semanas qualquer conversa nossa vira uma guerra, há semanas você parece preferir estar em qualquer lugar do mundo menos aqui dentro!
— Porque quando eu chego aqui, a única coisa que eu recebo é cara fechada e cobrança! — Julia gritou, soltando a mochila no chão com força. O som ecoou alto pelas paredes. — Parece que eu tô sempre errada! Se eu treino, tô errada! Se eu faço fisioterapia, tô dando trela pra homem! Se eu respiro, você acha um motivo pra me policiar! Eu não aguento mais essa desconfiança doentia, Kate!
— Doentia?! — Kate explodiu, gesticulando com os braços compridos, o sotaque russa ficando ainda mais carregado pelo desespero da discussão. — Eu cuido dessa casa praticamente sozinha há um mês! O Noah começou a introdução alimentar e você mal sabe que fruta ele comeu ontem! Você tá distante, Julia! E toda vez que eu tento me aproximar, você me ataca com esse seu sarcasmo insuportável!
— Eu não ataco ninguém! — Julia avançou na direção dela, o peito arfando. — Você que se faz de vítima perfeita, a santa Ekaterine que nunca erra, e eu sou a monstra irresponsável que destrói a família, né? É isso que você pensa de mim?!
Um choro agudo e desesperado rasgou o andar de cima. Quase no mesmo instante, o som de passos miúdos no topo da escada fez as duas mulheres congelarem. Léo estava parado no primeiro degrau, usando o pijama do Homem-Aranha, com os olhos vermelhos e assustados encarando a cena na cozinha.
— Mãe?... — a voz de nove anos falhou, trêmula de medo. — Por que vocês tão gritando? O Noah acordou assustado...
A raiva no rosto de Kate se desfez em um piscar de olhos, substituída por uma culpa avassaladora e um cansaço que parecia envelhecê-la dez anos. Ela respirou fundo, fechando os olhos por três segundos intermináveis para se recompor.
— Não é nada, meu amor — Kate disse suavemente, a voz agora doce e controlada, embora embargada. — A gente só... se exaltou conversando. Vai lá pro quarto do seu irmão que a mamãe Kate já tá subindo pra acalmar ele, tá bom?
Léo hesitou, olhando de Julia para Kate, antes de assentir em silêncio e sumir corredor adentro.
Kate passou por Julia sem tocá-la, subindo os degraus em passos pesados. Julia permaneceu imóvel no centro da cozinha, encarando o chão, com as mãos trêmulas e o coração batendo descompassado contra a caixa torácica.
Meia hora depois, após o choro de Noah cessar e Léo ser colocado de volta na cama, Kate desceu até o quarto do casal. Julia estava sentada na beirada do colchão, de cabeça baixa, encarando as próprias mãos no colo. Ela não havia trocado de roupa.
Kate parou diante dela, encostada na cômoda alta. A frieza havia sumido de suas feições, dando lugar a uma resolução dolorosa e serena.
— A gente precisa dar um tempo, Julia — Kate disse em tom baixo.
Julia ergueu o rosto devagar. Por um segundo, a ruiva pareceu que ia soltar uma réplica sarcástica, mas as palavras morreram na garganta ao ver a firmeza nos olhos da esposa.
— O clima dessa casa tá insustentável — continuou Kate, engolindo em seco. — Nós estamos nos destruindo e, pior, estamos fazendo isso na frente dos meninos. O Léo não merece ver a gente berrando na cozinha. O Noah sente essa tensão o tempo todo. Desse jeito, a gente vai acabar se odiando, e eu não quero odiar você.
Julia manteve os lábios cerrados, a postura rígida como se estivesse recebendo um bloqueio triplo indefensável. Ela não chorou; sua armadura de orgulho trancou qualquer lágrima para dentro.
— Eu já procurei um lugar — Kate revelou, com a voz ligeiramente falha. — Aluguei um apartamento mobiliado perto do complexo de treinamento do clube. Fica a dez minutos daqui e do ginásio. Vou pra lá logo pela manhã.
Julia apenas assentiu com a cabeça, seca, sustentando o olhar.
— Você não vai ficar desamparada com os dois — Kate apressou-se em acrescentar, tentando suavizar o golpe. — A Gabi tá chegando de folga amanhã cedo e vai passar uma temporada aqui pra te ajudar na rotina. E o Lucas também chega em alguns dias pra ficar com vocês. Eu vou continuar vindo ver os meninos, buscar na escola, fazer a minha parte. Só... nós duas precisamos respirar.
Julia continuou em silêncio absoluto. Ela engoliu o nó que queimava sua traqueia, ergueu o queixo com aquela teimosia indomável que sempre exibia em finais de campeonato e deitou-se de costas na cama, virando-se para o lado oposto da porta.
— Faz o que você achar melhor, Ekaterine — foi tudo o que Julia disse, com a voz incrivelmente fria e estável.
Na manhã seguinte, quando o sol mal despontava nas cortinas, o barulho discreto das rodinhas da mala de Kate quebrando o silêncio da entrada confirmou a partida. Julia não desceu. Ficou sentada no berço de Noah, encarando o bebê de seis meses que dormia alheio a tudo, com o peito doendo como se uma costela estivesse fraturada por dentro.
***
— Ela fez as malas e foi embora, Gabi. Simples assim — Julia resumiu horas depois, sentada na bancada da ilha da cozinha, enquanto Gabi servia café fresco em duas canecas grandes.
Lucas estava no chão da sala, montando uma pista de carrinhos com Léo para manter o garoto distraído. Gabi suspirou pesadamente, apoiando as duas mãos sobre a mesa e encarando a amiga com compaixão pura.
— Ô, Ju... vocês duas estavam numa panela de pressão há semanas. Duas atletas de ponta, duas personalidades gigantes, dois filhos pequenos... era previsível que uma hora a corda arrebentasse. Mas isso não significa que é o fim. Um tempo às vezes é o único jeito de salvar as coisas antes que passem do ponto de retorno.
— Eu não pedi tempo nenhum — Julia murmurou, com a xícara intocada entre os dedos. — Se ela quis ir, o problema é dela. Eu dou conta da minha vida e dos meus filhos.
— Para de ser marrenta comigo, Julia Bergmann — Gabi repreendeu com doçura firme. — Você tá despedaçada por dentro e eu te conheço desde as categorias de base. Relaxa a guarda pelo menos na minha frente.
Julia desviou o olhar para a janela, mordendo o lábio com tanta força que o sangue quase brotou.
Naquela mesma tarde, Gabi precisava ir ao centro de treinamento para uma reunião com a comissão técnica do clube — o mesmo onde Kate também treinava. Vendo o clima pesado da casa, a capitã propôs levar os meninos para um passeio.
— Vou levar o Léo e o Noah comigo, Ju. O Léo tá agoniado querendo ver a Kate, e o Noah precisa ver a outra mãe dele. Fica aí, descansa esse joelho e toma um banho demorado.
Julia apenas concordou com um aceno vago, sentindo o vazio da casa se expandir a cada porta que se fechava.
No ginásio do clube, o som estridente dos apitos e das bolas quicando na quadra ecoava pela estrutura imensa. Quando Gabi empurrou o carrinho de bebê pela lateral da quadra principal, acompanhada por Léo, o treino da equipe titular já havia terminado.
Kate estava sentada em um dos bancos de reserva, com uma toalha pendurada no pescoço e uma garrafa d'água na mão. Ao seu lado, conversando de forma animada e rindo baixo, estava uma mulher alta de cabelos escuros e uniforme da equipe médica da comissão técnica, gesticulando enquanto mostrava algo na prancheta de estatísticas.
Ao ver a cena, o passo de Léo desacelerou. O garoto franziu o cenho ruivo, o olhar desconfiado fixando-se na desconhecida que parecia tão à vontade ao lado de sua mãe loira.
— Mãe Kate! — Léo chamou, a voz ecoando no espaço amplo.
Kate ergueu a cabeça num sobressalto e seu rosto se iluminou instantaneamente. Ela jogou a toalha no banco e se levantou, abrindo os braços enquanto o primogênito corria em sua direção, colidindo contra o seu quadril em um abraço desesperado.
— Meu amor! — Kate o suspendeu do chão por um segundo, beijando seus cachos avermelhados repetidas vezes. — Que saudade que eu tava de você!
Ela desceu o menino e imediatamente se abaixou diante do carrinho, pegando Noah nos braços. O bebê de seis meses, ao sentir o cheiro inconfundível de Kate, soltou um gorgolejo alto, abrindo a boquinha sem dentes em um sorriso e agarrando os fios curtos do cabelo loiro da russa com as mãozinhas gordinhas. Kate fechou os olhos, apertando o caçula contra o peito com uma força quase dolorosa de alívio.
A mulher de cabelos escuros ao lado sorriu de forma educada, dando um passo para trás para dar espaço à família.
Léo, no entanto, não relaxou. Ele olhou para a mulher e depois encarou Kate com a seriedade implacável que só uma criança de nove anos magoada consegue ter.
— Quem é ela, mãe? — Léo perguntou, a voz firme. — Por que você tá aqui com ela e não tá em casa com a gente? Você e a mãe Ju separaram de verdade? Você não vai mais voltar?
Gabi deu dois passos para trás, afastando-se discretamente para deixar Kate lidar com o filho. A profissional da comissão técnica tocou o ombro de Kate com gentileza, murmurou um "te vejo amanhã na revisão" e se retirou em silêncio para os vestiários.
Kate sentou-se no banco de madeira, acomodando Noah com segurança no braço esquerdo, que sugava a ponta do próprio dedo com avidez. Com a mão direita livre