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Família vôlei(caos)

Território e Tréguas na Madrugada

A respiração cadenciada de Kate ao lado era o único som constante no quarto até que, precisamente às três e quinze da madrugada, um murmúrio insatisfeito rompeu o silêncio. Não era uma tosse, nem um sobressalto passageiro. Era o prenúncio oficial de que Noah havia decidido, mais uma vez, que o berço acoplado à lateral da cama era o pior lugar de todo o hemisfério sul.

O menino de cinco meses não queria mais saber daquele colchão firme e seguro, mesmo que estivesse a menos de vinte centímetros do alcance das mãos das mães. Ele queria o calor sufocante, a maciez do edredom de plumas e, acima de tudo, o contato direto e ininterrupto com o corpo de Julia.

O primeiro protesto veio em forma de gemido esganiçado. Em seguida, os pezinhos calçados com meias listradas começaram a chutar a grade de proteção com um vigor atlético admirável para um bebê. Quando a primeira lágrima escorreu pela bochecha já rechonchuda e vermelha, o choro rasgou a penumbra.

Kate foi a primeira a se mexer. Com a paciência infinita de quem já havia passado por aquilo com Léo anos antes, a russa de quase dois metros de altura arrastou os lençóis de lado sem emitir ruído. Sentou-se na beirada da cama, piscou os olhos azuis para afastar o torpor do sono pesado e esticou os braços longos para o interior do berço.

— Pronto, pronto... calma, meu pequeno leão — Kate sussurrou, a voz ainda mais rouca e grossa pela madrugada, com o sotaque marcando as vogais de forma suave. — A mamãe tá aqui. Não precisa acordar o bairro inteiro.

Ela ergueu o bebê com firmeza e delicadeza cirúrgicas, trazendo a cabecinha loira contra o peito enquanto caminhava alguns passos lentos pelo piso de taco ao lado da cama. Mas Noah não estava interessado em passeios diplomáticos com Kate. Ele se contorcia, esticando os bracinhos pequenos na direção exata de onde Julia permanecia deitada de lado, resmungando em puro drama contra o travesseiro.

— Ele não quer volta na sala, amor — Julia murmurou, com a voz abafada pela fronha. — Ele é um golpista. Ele só quer se enfiar aqui dentro.

— Eu sei muito bem o que ele quer — Kate retrucou em um sussurro exasperado, voltando para a cama e deitando-se de frente para a esposa.

Com cuidado, Kate depositou o pequeno no espaço generoso entre os dois corpos compridos. Noah soltou um suspiro entrecortado de choro e, como se fosse guiado por um radar milimétrico, rolou imediatamente na direção de Julia. As duas mãozinhas gordinhas empurraram a barra da regata de algodão cinza da ruiva para cima com uma pressa quase cômica, procurando o que considerava sua propriedade exclusiva.

Julia bufou, rindo baixo pelo nariz enquanto abria os olhos verdes e ajeitava a própria postura para acolher o caçula.

— Folgado. Mimado pela oposição russa, é isso que você é — disse ela, liberando o seio e guiando a boca sôfrega do bebê até o bico.

Noah abocanhou com sofreguidão, mas bastaram três tragadas vigorosas de leite para que o desespero evaporasse por completo. O choro cessou como mágica. O quarto voltou a ser preenchido apenas pelo som suave de sucção, intercalado por pequenos estalos de língua.

A madrugada, no entanto, não pretendia deixar as duas jogadoras dormirem tão cedo. Noah parecia ter despertado para um modo festivo e silencioso. Enquanto mamava de forma preguiçosa, sem urgência nenhuma, sua mão esquerda começou a explorar o peito farto de Julia, apertando a pele macia com os dedinhos gordinhos, beliscando de leve em um tique sensorial que fazia a ruiva morder o lábio para não soltar um xingamento.

Ao mesmo tempo, Noah esticou o outro bracinho para trás, na direção de Kate, procurando abrigo táctil. Seus pequenos dedos encontraram os fios loiros e curtos da franja da jogadora, agarrando um punhado deles com a força surpreendente de um bebê de cinco meses.

— Ai, Noah... solta o cabelo da mamãe — Kate pediu baixinho, tentando puxar os fios sem machucá-lo, mas sem sucesso. A russa acabou cedendo, inclinando a cabeça mais para perto do travesseiro para não repuxar a raiz. — Ele tá achando que eu sou uma corda de escalada.

— Bem-vinda ao clube — Julia sussurrou de volta, com um sorriso sonolento curvando os lábios. — Ele tá me beliscando aqui embaixo com a precisão de um caranguejo. Se ele puxar mais forte, eu juro que vou cobrar pensão alimentícia retroativa por danos corporais.

— Você adora se fazer de vítima — Kate resmungou de olhos semicerrados, embora um sorrisinho de canto traísse sua pose fechada. Com a mão livre, a loira começou a fazer cócegas lentas na sola do pezinho de Noah, que balançava no ar em pura euforia.

O bebê soltava o bico do seio por alguns segundos, virava o rosto úmido de saliva para encarar Kate na penumbra, dava um sorrisinho banguela e satisfeito com o cabelo dela preso nos dedos, e depois voltava a mamar rapidamente, com medo de perder a fonte.

— Olha a cara desse pilantra — Julia comentou com uma risadinha abafada. — Ele sabe exatamente o que tá fazendo. Ele tem a audácia de uma ponteira que desafia o árbitro no match point.

— Ele é inteligente — Kate defendeu, esticando o indicador para acariciar a bochecha gorducha do filho. — Sabe que aqui ele manda em tudo.

A madrugada arrastava-se em câmera lenta. O relógio digital na mesinha indicava quatro e dez quando os movimentos de sucção de Noah começaram a rarear. A mãozinha que puxava o cabelo de Kate foi relaxando aos poucos, até que os fios escorregaram suavemente entre os dedos do bebê. As pálpebras claras e pesadas começaram a lutar contra o sono, fechando-se lentamente para depois abrirem em sobressaltos curtos, até que finalmente permaneceram coladas. A respiração dele tornou-se profunda, regular e quente contra o colo descoberto de Julia.

A paz parecia estabelecida no cômodo, mas o ar noturno, antes tão leve, começou a carregar um peso silencioso.

Kate permaneceu acordada, encarando o teto com a expressão endurecida. O silêncio prolongado entre as duas atletas não era aquele vazio reconfortante do cansaço; era a rigidez tensa de um pensamento não resolvido. Julia conhecia aquele padrão de memória: a mandíbula travada, a respiração contida e o olhar fixo em um ponto imaginário no escuro.

Julia ajeitou o lençol sobre o corpinho adormecido de Noah com o maior cuidado do mundo e apoiou o queixo na mão, virando-se para encarar a esposa a poucos centímetros de distância.

— O que foi agora, Ekaterine? — perguntou Julia em um sussurro quase inaudível, mas carregado de exasperação contida.

Kate nem sequer virou o rosto de imediato. A loira apenas soltou uma respiração curta pelas narinas antes de responder, a voz num tom monocórdico e áspero:

— Nada, Julia. Volta a dormir.

— Ah, não. Nem vem com esse "nada" — Julia rebateu, semicerrando os olhos verdes. — A gente tá acordada há mais de uma hora. Você tá com essa cara fechada desde que o Lucas falou da academia hoje cedo na cozinha. Eu fingi que esqueci lá embaixo pra não criar caso na frente da Gabi, mas você ainda tá remoendo isso?

Kate virou a cabeça devagar no travesseiro, os olhos azuis faiscando de irritação na penumbra azulada.

— Eu não estou remoendo nada. Só acho que certas intimidades não precisam ser trazidas pra mesa do café como se fossem a coisa mais natural do mundo.

Julia soltou um riso sarcástico, balançando a cabeça em descrença.

— Intimidade? Que intimidade, Kate? O homem é um profissional renomado, tem idade pra ser meu pai e foi contratado pelo clube pra evitar que eu tenha que operar o menisco de novo! Você ouviu a palavra "treinador" e o seu cérebro acionou o modo guerra fria sem nenhum motivo palpável.

— Não é a palavra "treinador", Julia, é o jeito que você fala! — Kate retrucou, o tom subindo perigosamente um oitavo antes de ela se lembrar do bebê entre as duas e puxar a voz de volta para um sussurro ríspido e cortante. — "Ele ensina tão bem, ele tem uma paciência inacreditável, ele explica na régua..." Parece que você nunca teve um preparador físico na vida. Você é expansiva demais, você dá trela, sorri demais, conversa demais. Você sabe muito bem que as pessoas confundem as coisas quando você age assim.

— Eu sou simpática, cacete! — Julia sibilou de volta, gesticulando com a mão livre no ar, sem tirar os olhos da esposa. — Eu não fico de cara feia pra quem tá tentando consertar a minha perna. E você tá insinuando o quê? Que eu tô dando abertura? Que eu tô flertando enquanto faço agachamento unilateral pingando de suor? Olha a insanidade do que você tá dizendo, Antropova!

— Eu não disse que você tá flertando — Kate murmurou, virando o corpo de lado e apoiando o cotovelo no colchão para encará-la de frente, a expressão carregada de uma zanga defensiva e insegura. — Mas eu não sou cega. Aquele cara do ano passado, em Scandicci, começou exatamente assim. "Ah, ele só tá me ajudando a alongar o posterior", "ele é tão atencioso". E no final da temporada o infeliz teve a pachorra de mandar mensagem de madrugada elogiando a sua bunda no uniforme de jogo. Você esqueceu disso? Porque eu não esqueci.

Julia travou por um segundo. A menção ao episódio antigo fez o ar faltar nos seus pulmões por pura raiva e frustração. Ela lembrava perfeitamente: Kate quase havia quebrado a mão na parede do vestiário italiano naquele dia e Julia tinha bloqueado o sujeito imediatamente na frente dela, reafirmando com todas as letras onde estavam seus limites.

— Aquele cara era um idiota que foi demitido na semana seguinte, Kate! — Julia disparou em um sussurro fervoroso, sentindo as lágrimas de raiva arderem na borda dos olhos, cansada daquela desconfiança latente que brotava do nada. — E você jogou isso na minha cara de novo? Depois de tudo? Depois de dois filhos, de uma vida inteira construída, você ainda acha que eu vou dar moral pra qualquer babaca que aparecer na minha frente só porque ele sabe ajustar a carga de um leg press?

Noah deu um sobressalto leve com a tensão no ar, soltando um gemidinho manhoso e buscando o calor do seio de Julia novamente com o nariz. As duas mulheres congelaram instantaneamente. Julia passou a mão suavemente pelas costas do bebê, respirando fundo e esperando o pequeno se aquietar antes de continuar.

Kate permaneceu em silêncio, os ombros tensos e o queixo erguido em uma pose de pura teimosia russa, mas a dureza em seu olhar havia vacilado diante das lágrimas represadas de Julia.

Julia engoliu o nó seco na garganta. O deboche habitual, as piadas teatrais e a pose de jogadora intocável derreteram, deixando apenas uma mulher exausta, com o corpo dolorido de treinos e de amamentação, implorando pela paz da qual tanto precisava.

Ela esticou a mão no espaço estreito entre os dois corpos e tocou a lateral do rosto de Kate, sentindo a pele firme e quente da mandíbula da esposa. O toque fez Kate estremecer de leve, mas a loira não se afastou.

— Para com isso, meu bem... — Julia pediu, com a voz quebradiça, quase sumindo no silêncio da noite. — Tá chato. Sério mesmo. Tá muito chato.

Kate desviou o olhar para o lençol, a mandíbula ainda cerrada, mas a respiração começava a descompassar.

— Não precisa desse ciúmes bobo, Kate. Não tem espaço pra isso na nossa vida — Julia continuou, com os olhos verdes fixos no rosto da loira, desnudando toda a sinceridade crua que guardava no peito. — Meu corpo é só seu. Minha cabeça é só sua. Eu não tenho olhos pra ninguém que pise dentro ou fora de uma quadra, mulher. Eu só tenho você. Você entende isso? Eu só quero você.

As palavras caíram pesadas e limpas na escuridão. Não havia sarcasmo, nem dramatização esportiva. Era a pura verdade de quem havia escolhido dividir a glória, o cansaço, as dores físicas e a criação de dois meninos com a mesma pessoa há anos.

Kate piscou algumas vezes, sentindo a armadura pesada do orgulho ruir sob o peso daquele olhar desarmado. Ela soltou um suspiro longo, que pareceu drenar toda a fúria irracional que a consumia desde a manhã anterior. A mão grande de Kate subiu devagar e cobriu a mão de Julia que descansava em seu rosto, entrelaçando os dedos compridos aos dela e apertando com força.

— Eu odeio quando você fica simpática demais com os outros — Kate murmurou, a voz rouca e finalmente desprovida de qualquer agressividade, revelando a insegurança infantil que tentava esconder atrás da carcaça de jogadora imbatível. — Me dá uma sensação horrível de que qualquer um pode chegar perto de você.

— Ninguém chega onde você tá, sua boba — Julia sussurrou, acariciando a bochecha de Kate com o polegar. — Ninguém nem sonha em chegar. Eu sou completamente apaixonada por você, Antropova. E se eu elogiei o treino daquele homem, foi só porque ele fez o meu joelho parar de doer pra eu conseguir correr atrás do Léo e pular no seu pescoço sem gemer de dor. Só por isso.

Kate fechou os olhos por um instante longo, inclinando a cabeça contra a palma da mão de Julia e deixando um beijo suave na curva de seu pulso.

— Desculpa — Kate disse baixinho, abrindo os olhos azuis que agora brilhavam com um arrependimento genuíno. — Eu tô exausta. A pré-temporada tá pesada, a gente quase não tem tempo de ficar só nós duas, e eu acabo descontando onde não devo.

— Eu sei, amor — Julia suspirou, o alívio afrouxando a tensão que comprimia suas costelas. — Mas não desconta desse jeito. Dói em mim também. A gente é um time, lembra? A gente não joga uma contra a outra dentro desse quarto.

— Nunca — Kate concordou, deslizando o corpo um pouco mais para baixo no colchão até que sua testa encostasse suavemente na lateral da cabeça de Noah, que continuava dormindo como uma pedra no meio das duas.

A mão de Kate desceu do rosto de Julia e foi encontrar a cintura da ruiva, puxando-a com suavidade por baixo das cobertas para aproximar os corpos tanto quanto a presença do bebê permitia. Noah soltou um suspiro quentinho contra a pele de Julia, completamente alheio ao pequeno drama adulto que acabara de ser desarmado acima de sua cabeça.

— Você ainda vai me deixar louca, Julia Bergmann — Kate sussurrou, com um meio-sorriso cansado e doce brincando nos lábios.

— Esse é o meu objetivo principal de carreira, meu bem — Julia respondeu no mesmo tom, fechando os olhos finalmente, sentindo o peso abençoado do sono voltar a puxar seu corpo para baixo. — Agora cala a boca e dorme antes que o seu clone ruivo lá do outro quarto acorde pedindo leite com achocolatado.

— O Léo só acorda às sete — Kate zombou baixinho, beijando a bochecha gordinha de Noah e depois esticando o pescoço para selar os lábios de Julia em um beijo calmo, demorado e sem pressa, que selou de vez a trégua da madrugada.

A quietude perfeita voltou a reinar sobre a casa. A fresta da persiana começava a clarear timidamente com os primeiros reflexos cinzentos da aurora, anunciando que o domingo havia ficado para trás e uma nova semana de treinos se aproximava. Mas ali, sob as dobras quentes do edredom, com os dedos entrelaçados sobre o corpo sereno de Noah e os corações batendo no mesmo compasso exausto e seguro, não havia mais espaço para fantasmas ou ciúmes infundados. Havia apenas o peso doce da família que haviam escolhido ser.

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