Voltar ao resumo

Family chaos

O Tribunal de Austin Waraha: Veredictos, Segredos e um Pouco de Caos

A manhã de domingo na mansão Austin Waraha não começou com o habitual cheiro de café e panquecas. O ar estava pesado, carregado com a solenidade de um julgamento de alta instância. No centro da sala de estar, o sofá de couro italiano parecia um banco de réus. Engfa Waraha, com seus óculos de leitura na ponta do nariz e uma expressão que faria qualquer diretor executivo renunciar ao cargo em segundos, estava sentada ao lado de Charlotte, que mantinha uma postura impecável, segurando um tablet como se fosse o código penal.

— Snack Austin Waraha, sente-se — a voz de Engfa ecoou, firme e desprovida de seu habitual sarcasmo brincalhão.

Snack obedeceu, sentindo-se minúscula. Ela olhou para a mãe Charlotte em busca de um fio de esperança, mas a advogada apenas inclinou a cabeça, observando-a com uma neutralidade profissional que era, de certa forma, mais assustadora que a carranca de Engfa.

— Vamos direto ao ponto, Snack — começou Engfa, cruzando os braços sobre o peito. — Sua irmã, em um momento de... "lucidez" comunicativa, mencionou seus sentimentos pela Patcha. Quero ouvir de você.

Snack respirou fundo, tentando não deixar a voz tremer.

— Eu não sei o que dizer, mamãe Engfa. É só... eu a admiro muito.

— Admiração é o que você tem pela sua professora de tênis, Snack — rebateu Engfa, a possessividade maternal brilhando em seus olhos. — O que vimos ontem foi outra coisa. Patcha é minha melhor amiga. Ela tem 37 anos. Você tem 19. Há abismos sociais, de maturidade e, principalmente, de bom senso envolvidos aqui. Por mais que a Patcha seja "tudo de bom", como você provavelmente pensa, para mim é um não absoluto.

Charlotte interveio, tocando suavemente no braço de Engfa para baixar a temperatura da conversa.

— Engfa, deixe-a falar — Charlotte olhou para a filha caçula com um olhar mais suave, mas ainda analítico. — Snack, não estamos aqui para punir seus sentimentos. Sentimentos não se controlam, mas ações sim. Queremos entender como isso aconteceu. Como essa "admiração" se transformou em algo que te faz trocar de perfume três vezes antes dela chegar?

Snack baixou o olhar para as próprias mãos.

— Não foi planejado — sussurrou ela. — Começou nas férias do ano passado, quando ela ficou conosco na casa de praia. Enquanto vocês duas estavam ocupadas discutindo sobre qual restaurante ir, a tia Patcha passava horas me ensinando sobre como o mercado de ações funciona, mas de um jeito que não parecia uma aula. Ela me ouvia. Ela não me tratava como a "caçula atrapalhada". Ela me via.

Engfa soltou um suspiro pesado, seu coração de mãe apertando-se. Ela sabia que Patcha tinha esse dom de fazer as pessoas se sentirem especiais, era por isso que eram melhores amigas. Mas aceitar isso vindo da própria filha era um salto lógico que ela não estava pronta para dar.

— Entendo — disse Charlotte, anotando mentalmente as palavras da filha. — Você se sentiu validada por alguém que personifica o sucesso que você almeja. Mas Snack, você entende a complicação que isso traz para a nossa dinâmica familiar? Patcha é praticamente sua tia.

— Eu sei! — Snack exclamou, os olhos marejados. — É por isso que eu nunca disse nada! Eu sei que é impossível. Eu só... eu não consigo desligar o que sinto só porque a mamãe Engfa vai surtar.

— Eu já surtei! — Engfa exclamou, levantando-se e começando a andar de um lado para o outro. — Eu estou em pleno surto interno, Snack! Se a Patcha souber disso de forma oficial, eu vou ter que mudar de melhor amiga, e eu não tenho paciência para conhecer gente nova aos 37 anos!

— Engfa, sente-se — Charlotte ordenou, e a CEO obedeceu instantaneamente, sentando-se como um cachorrinho repreendido. — Snack, obrigada pela honestidade. Vá para o seu quarto e reflita sobre a diferença entre amar quem a pessoa é e amar a imagem que você projetou nela.

Assim que Snack subiu as escadas, Engfa enterrou o rosto nas mãos.

— Isso é um desastre, Char. Um desastre completo.

— É apenas o começo — Charlotte disse, com um sorriso enigmático. — Agora, chame a próxima. Sonya!

Sonya Austin Waraha entrou na sala com a confiança de quem já tinha um álibi pronto. Ela se jogou na poltrona, jogando o cabelo castanho-claro para trás, herdado da mãe Charlotte.

— Antes que comecem — Sonya disse, levantando a mão —, eu só fiz um serviço público. A tensão naquela sala ontem estava mais alta que o PIB do país. Eu apenas aliviei a pressão.

— Você traiu a confiança da sua irmã por diversão, Sonya — Engfa disse, tentando retomar sua postura de autoridade. — Isso não é "serviço público", é fofoca corporativa de baixo nível.

— Ah, por favor, mamãe Engfa — Sonya revirou os olhos, usando o mesmo tom sarcástico que a mãe usava em reuniões. — Se eu não falasse, a Becky ia acabar usando isso como chantagem para a Snack lavar o carro dela por um ano. Eu apenas acelerei o processo inevitável. E além disso, por que estamos focando na Snack? Deveríamos falar sobre como a senhora fica nervosa quando a mamãe Charlotte usa aquele terno azul marinho. Isso sim é um tópico interessante.

Charlotte arqueou uma sobrancelha, impressionada com a audácia da primogênita.

— Bela tentativa de desvio, Sonya. Mas o tribunal não aceita táticas de distração. Você sabia do segredo da Snack há semanas e usou isso para provocá-la. Por que não veio até nós?

— Porque eu sou uma Austin Waraha, mamãe — Sonya sorriu de lado. — Nós observamos, coletamos dados e esperamos o momento de maior impacto. É o que vocês fazem nas empresas e nos tribunais, não é? Eu só estou seguindo o legado.

Engfa bufou, sentindo-se derrotada pela própria genética.

— Você é 70% eu, Sonya, e isso me assusta todos os dias. Mas me diga uma coisa: e sobre a Lookmhee? A representante do campus que você não para de seguir no Instagram?

O sorriso de Sonya vacilou por um milésimo de segundo. Ela estava prestes a responder com uma piada quando Becky, que estava "escondida" no topo da escada observando tudo, gritou para que todos ouvissem:

— Ela tem um santuário para a Lookmhee no armário! Ontem ela passou duas horas escolhendo um meme para enviar para ela e depois apagou com medo de parecer "empolgada demais"!

— Becky, sua rata! Eu vou te enforcar! — Sonya gritou, levantando-se da poltrona e apontando para a irmã no andar de cima.

— Ordem no tribunal! — Engfa bateu a mão na mesa de centro, embora estivesse segurando o riso. — Sonya, sente-se. Becky, desça aqui agora. É a sua vez.

Sonya sentou-se, bufando e murmurando promessas de vingança, enquanto Becky Austin Waraha descia as escadas com a calma de um monge tibetano. Ela se sentou ao lado de Sonya, mantendo uma distância segura.

— Becky — Charlotte começou, olhando para a filha do meio com um respeito renovado. — Você é a observadora da família. Você sabia de tudo. Por que o silêncio?

Becky ajustou a postura, o cabelo castanho-escuro caindo perfeitamente sobre os ombros.

— Porque a informação é poder, mamãe — respondeu Becky calmamente. — E porque eu sabia que, se eu contasse, a mamãe Engfa teria a reação que está tendo agora: um colapso dramático que não resolve nada. Eu preferi observar como a Snack lidaria com isso. É um experimento social interessante.

Engfa olhou para Charlotte, perplexa.

— Char, nós criamos três gênios do mal ou três futuras líderes mundiais?

— Provavelmente os dois, amor — Charlotte respondeu, voltando-se para Becky. — E o que você concluiu do seu "experimento", Becky?

— Que a Snack está genuinamente apaixonada, o que é um problema logístico — analisou Becky. — Que a Sonya é incapaz de guardar segredos se houver uma oportunidade de causar caos, o que é uma falha de caráter previsível. E que a mamãe Engfa é possessiva demais para aceitar que suas amigas também são mulheres atraentes para outras gerações.

— Ei! — Engfa protestou. — Eu não sou possessiva, eu sou... protetora!

— Você é possessiva, Engfa — Charlotte corrigiu com um sorriso carinhoso. — Mas Becky, você também tem seus segredos. A capitã do clube de boxe, Freen Sarocha... o que ela diria se soubesse que você analisa a família como se fôssemos espécimes em um laboratório?

Pela primeira vez na manhã, Becky perdeu a compostura. Um leve rubor subiu por seu pescoço.

— Freen não tem nada a ver com isso. Ela é... apenas uma mentora de esportes.

— Uma mentora que você encara por dez minutos seguidos sem piscar — Sonya provocou, recuperando o fôlego. — Eu vi você no treino de sexta-feira. Você parecia uma estátua de mármore venerando uma deusa grega.

— Pelo menos eu não mando memes e apago, Sonya! — rebateu Becky.

— Chega! — Charlotte levantou-se, encerrando a sessão. — O tribunal está em recesso.

Engfa olhou para a esposa, confusa.

— Mas ainda não decidimos as punições! Snack ainda quer a Patcha, Sonya ainda é uma fofoqueira e a Becky... bem, a Becky é assustadoramente inteligente.

Charlotte caminhou até Engfa e colocou as mãos em seus ombros, forçando-a a relaxar.

— Engfa, olhe para elas. Elas são nossas filhas. Elas têm o seu fogo e a minha lógica. Snack vai superar esse crush pela Patcha, ou vai aprender a lidar com ele. Sonya vai aprender que o caos tem um preço. E Becky... bem, Becky vai acabar mandando em todos nós um dia.

Engfa suspirou, olhando para as três meninas que agora começavam uma discussão paralela sobre quem ganharia uma luta entre um urso e um tubarão — uma tática clássica para desviar o assunto de seus próprios sentimentos.

— Eu só me preocupo, Char — murmurou Engfa. — O mundo é difícil. E o amor... o amor é a parte mais difícil de todas. Eu não quero que elas sofram o que nós sofremos para ficarmos juntas.

— Elas não vão — Charlotte garantiu, beijando a bochecha da esposa. — Porque elas têm a nós. E porque, se alguém partir o coração delas, você provavelmente vai comprar a empresa da pessoa e demiti-la, e eu vou processá-la até a quinta geração.

Engfa sorriu, o brilho sarcástico voltando aos seus olhos.

— É verdade. Eu faria exatamente isso.

— Eu sei que faria — Charlotte riu. — Agora, vamos para a cozinha. Eu vou fazer o café, e você vai tentar não interrogar a Snack novamente pelos próximos dez minutos.

— Cinco minutos — negociou Engfa.

— Dez, Engfa.

— Tudo bem, dez.

Enquanto as mães se retiravam, as três irmãs trocaram olhares. A tensão havia passado, mas o jogo estava apenas começando. Snack olhou para as irmãs, um pequeno sorriso surgindo em seus lábios.

— Vocês sabem que a mamãe Engfa vai ligar para a tia Patcha agora mesmo para "sondar" o terreno, não sabem? — Snack comentou.

— Com certeza — disse Sonya, pegando o celular. — E é por isso que eu já mandei uma mensagem para a tia Patcha avisando que a mamãe está em "modo leoa". Ela me deve uma por essa.

— Você é terrível, Sonya — Becky disse, embora houvesse admiração em sua voz. — Mas Snack, a mamãe Charlotte tem razão. Analise seus sentimentos. A Patcha é incrível, mas ela é o passado da mamãe Engfa. Você é o futuro de algo novo.

Snack assentiu, sentindo-se um pouco mais leve. O tribunal Austin Waraha era rigoroso, barulhento e muitas vezes invasivo, mas era o lugar onde ela se sentia mais segura. Entre o ciúme possessivo de Engfa e a lógica afiada de Charlotte, ela sabia que, independentemente de quem seu coração escolhesse, ela nunca teria que caminhar sozinha.

— Tubarão — disse Snack de repente.

— O quê? — Sonya e Becky perguntaram juntas.

— O tubarão ganha do urso. Se for na água, é claro.

As irmãs riram, mergulhando em uma nova discussão boba, enquanto o sol de domingo iluminava a mansão, provando que, naquela família, o caos era apenas outra forma de dizer "eu te amo".