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Family chaos

O Peso da Coroa e o Charme da Deusa

O silêncio na mansão Austin Waraha era raro, quase um artefato de colecionador, mas naquela tarde de domingo, ele reinava — ainda que de forma punitiva. No andar de cima, o som abafado de aspiradores de pó e panos esfregando o chão indicava que o veredito de Charlotte havia sido executado. Sonya estava encarregada de organizar a biblioteca imensa da família, livro por livro; Becky, por ter sido conivente, estava limpando o jardim sob o sol; e Snack, a protagonista do drama, estava confinada à lavanderia, separando as roupas por cores e tecidos, longe de qualquer dispositivo eletrônico.

Na sala de estar, Engfa Waraha estava jogada no sofá, a cabeça pendida para trás e um braço cobrindo os olhos. A CEO, que conseguia intimidar acionistas bilionários com um erguer de sobrancelha, parecia ter sido atropelada por um caminhão de emoções adolescentes.

— Charlotte... — chamou Engfa, a voz saindo abafada. — Você acha que eu deveria interrogar a Patcha também? Eu sinto que preciso de um depoimento oficial. Um contrato de distanciamento social, talvez?

Charlotte, que estava sentada na poltrona ao lado terminando uma taça de vinho branco, soltou uma risada melodiosa que fez Engfa espiar por baixo do braço.

— Engfa, amor, você já interrogou suas filhas até elas confessarem crimes que nem cometeram — disse Charlotte, com aquele tom de voz que misturava diversão e autoridade. — Deixe a Patcha em paz. Ela é sua melhor amiga há anos. Se ela tivesse qualquer intenção inadequada, você saberia. Ela é tão transparente quanto esse cristal.

— Eu não confio na transparência quando se trata das minhas filhas — resmungou Engfa, sentando-se e ajeitando os óculos que insistiam em escorregar. — Eu achei que ser mãe seria mais fácil. Eu achei que elas seriam como robôs que eu pudesse programar para serem sarcásticas, inteligentes e... solteiras até os trinta e cinco anos.

— Você é muito dramática — Charlotte levantou-se e caminhou até a esposa, sentando-se ao lado dela. — Elas são Austin Waraha. O drama está no DNA. E você sabe muito bem de onde vem essa intensidade.

Engfa cruzou os braços, fazendo um biquinho que Charlotte achava adorável, apesar de nunca admitir em público para não ferir o ego da "temida CEO".

— Eu só quero protegê-las, Char. A Snack é tão jovem. E a Patcha... bem, ela é a Patcha. Ela é elegante, bem-sucedida e tem aquele sorriso que até eu admito que é um pouco irritante de tão perfeito.

— Engfa — Charlotte segurou as mãos da esposa, forçando-a a olhar em seus olhos —, pegue leve. Principalmente com a Snack. Você se lembra de quantos anos nós tínhamos quando tudo começou entre nós?

Engfa desviou o olhar, uma sombra de memória cruzando seu rosto castanho.

— É diferente — murmurou ela.

— Não é tão diferente assim — rebateu Charlotte com firmeza. — Nós temos sete anos de diferença. Quando começamos, eu era uma jovem advogada ambiciosa e você já estava consolidada. Lembra-se do escândalo? Da desavença com a sua família?

Engfa soltou uma risada amarga.

— Como esquecer? Os Waraha agiram como se eu tivesse cometido um crime de lesa-pátria. "Uma Austin? Logo uma Austin?", eles diziam. Eles fizeram questão de me deserdar emocionalmente.

— E você se importa? — perguntou Charlotte, acariciando o polegar de Engfa.

— Nem um pouco — Engfa sorriu, um brilho de desafio nos olhos. — Eu trocaria mil heranças e mil sobrenomes por um único dia com você naquela época. Eles podem continuar sem falar comigo até o fim dos tempos. Eu tenho você, tenho as meninas e tenho o império que nós construímos juntas. A opinião deles vale menos que um relatório de estagiário.

— Então — concluiu Charlotte, inclinando-se para frente —, tente ter essa mesma perspectiva com a Snack. Ela está sentindo algo forte. Pode ser apenas uma fase, uma admiração platônica, mas se você agir como um ditador, você só vai empurrá-la para o que você mais teme.

Engfa suspirou, encostando a cabeça no ombro de Charlotte. O perfume da esposa sempre a acalmava, era o seu porto seguro em meio ao caos que ela mesma ajudava a criar.

— Você sempre tem razão. É irritante, sabia? Como você consegue ser a melhor advogada do país e a psicóloga da família ao mesmo tempo?

— Alguém tem que manter as engrenagens funcionando enquanto você surta por causa de perfumes e crushes de dezenove anos — brincou Charlotte, deixando um beijo no topo da cabeça de Engfa.

A noite caiu sobre a mansão, e com ela, o fim dos castigos. As três irmãs desceram para o jantar, exaustas e com cheiro de produto de limpeza, mas visivelmente mais calmas. O jantar transcorreu em um silêncio incomum, interrompido apenas pelo som dos talheres. Engfa observava Snack pelo canto do olho, sentindo uma pontada de culpa ao ver as mãos da filha levemente vermelhas pelo esforço na lavanderia.

— Snack — chamou Engfa, quebrando o silêncio.

A caçula levantou os olhos, alerta.

— Sim, mamãe?

— Eu... eu não vou ligar para a Patcha para interrogá-la — disse Engfa, pigarreando. — Mas eu espero que você mantenha o foco na faculdade. Se eu vir suas notas caírem por causa de "distrações", o próximo castigo será limpar a piscina com uma escova de dentes.

Sonya soltou uma risadinha, que foi imediatamente silenciada por um olhar de Charlotte. Snack, por outro lado, deu um pequeno sorriso aliviado.

— Obrigada, mamãe Engfa. Eu prometo que minhas notas continuarão excelentes.

Após o jantar, quando as filhas já tinham se retirado para seus respectivos quartos — provavelmente para reclamar das mães em um grupo secreto no WhatsApp —, Engfa e Charlotte subiram para o quarto do casal.

Engfa trocou de roupa, vestindo um pijama de seda escuro, e sentou-se na beira da cama, observando Charlotte tirar as joias diante do espelho da penteadeira.

— Char? — chamou Engfa, a voz agora mais baixa e vulnerável.

— Sim, amor?

— Por que você me deixou ter três filhas? — perguntou Engfa, meio a sério, meio brincando. — Todas com genes tão fortes. Todas tão teimosas. É como se eu estivesse lidando com três versões diferentes de nós duas, e nenhuma delas aceita um "não" como resposta.

Charlotte soltou o cabelo, deixando as ondas castanho-claras caírem pelas costas, e caminhou até a cama.

— Porque você queria uma família grande, Engfa. Lembra? Você disse que queria uma casa cheia de risadas e de vida. E agora você tem exatamente o que pediu.

Charlotte sentou-se atrás de Engfa e começou a massagear os ombros tensos da esposa. Os dedos da advogada eram precisos, encontrando cada ponto de estresse acumulado durante o dia de "julgamentos".

— Relaxa, Eng — sussurrou Charlotte perto do ouvido dela. — Você é uma ótima mãe. Só é um pouco... intensa demais.

— Eu sou uma leoa, Char — Engfa fechou os olhos, entregando-se ao toque da esposa. — Eu não sei ser nada menos que isso.

— Eu sei — disse Charlotte, as mãos descendo pelas costas de Engfa. — E é por isso que eu preciso te contar uma coisa agora, enquanto você está relaxada.

Engfa abriu um olho, desconfiada.

— O que foi? Você comprou outro cavalo? Ou decidiu adotar um quarto filho?

Charlotte riu, mas logo recuperou a seriedade.

— Nada disso. Eu recebi uma ligação hoje à tarde. Vou precisar viajar para Chiang Mai amanhã cedo. Tenho um julgamento importante que deve durar cerca de três ou quatro dias.

O efeito da massagem desapareceu instantaneamente. Engfa virou-se na cama, agarrando-se à cintura de Charlotte como se sua vida dependesse disso.

— O quê? Não! — exclamou Engfa, enterrando o rosto na barriga de Charlotte. — Você não pode me deixar sozinha com elas agora! Chiang Mai é longe demais!

— São apenas alguns dias, Engfa — disse Charlotte, tentando não rir do desespero da esposa. — Você sobrevive.

— Eu não sobrevivo! — Engfa olhou para cima, os olhos castanhos brilhando com uma mistura de adoração e pânico. — Eu preciso da minha deusa aqui. Sem você, eu perco o controle da casa em menos de seis horas. A Sonya vai transformar a sala em uma pista de skate, a Becky vai começar a fazer experimentos sociológicos com os vizinhos e a Snack... a Snack pode fugir para a Napatsa Corp!

Charlotte acariciou o rosto de Engfa, sentindo o calor da pele da esposa.

— Você é a CEO de uma das maiores empresas do país, Engfa Waraha. Você comanda milhares de funcionários. Você consegue lidar com três adolescentes.

— Não é a mesma coisa! — protestou Engfa, apertando o abraço. — No trabalho, eu posso demitir as pessoas. Em casa, eu sou apenas o seu cachorrinho que tenta latir para as filhas e acaba sendo ignorado. Eu preciso de você para manter o equilíbrio. Eu preciso de você para eu viver, Char.

Charlotte suspirou, rendida pela vulnerabilidade daquela mulher que o mundo via como inquebrável. Ela se deitou, puxando Engfa para o seu peito, cobrindo as duas com o edredom macio.

— Eu volto logo, prometo — disse Charlotte, a voz suave como uma promessa. — E enquanto eu estiver fora, tente não colocar fogo na casa ou na paciência da Patcha.

— Eu não prometo nada — resmungou Engfa, sentindo o coração desacelerar conforme o cheiro de Charlotte a envolvia. — Mas vou tentar ser uma mãe "legal".

— "Legal" não combina com você, Eng — Charlotte brincou, fechando os olhos. — Apenas tente ser a Engfa que eu amo. Isso já é o suficiente.

— Eu te amo, Char — sussurrou Engfa, já quase pegando no sono.

— Eu também te amo, meu cachorrinho briguento.

O silêncio finalmente se instalou na mansão Austin Waraha. No andar de baixo, as luzes estavam apagadas, mas o espírito de rebeldia, paixão e sarcasmo continuava pulsando em cada quarto. Engfa podia até temer os dias que viriam sem sua esposa ao lado, mas no fundo, ela sabia que aquele caos era o seu maior tesouro. E que, apesar de todos os abismos e desavenças, não havia outro lugar no mundo onde ela preferiria estar do que no centro da tempestade que era sua própria família.