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O Algoritmo do Caos

A atmosfera na mesa VIP da Elysium havia mudado de uma tensão elétrica para algo que Jimin só poderia descrever como um "evento canônico" em sua vida. O perfume de Jeon Jungkook, aquela mistura inebriante de sândalo e perigo, parecia ter criado uma redoma ao redor deles. O resto da boate — a música ensurdecedora, os flashes de luz, os gritos abafados — era apenas ruído de fundo.

Jimin sentia o peso da mão de Jungkook sobre a sua. Era uma mão grande, calejada em pontos estratégicos que denunciavam que ele não passava o dia apenas assinando contratos, mas também emanava um calor que contrastava com sua expressão gélida.

— Você é muito mais silencioso quando quer, Park Jimin — comentou Jungkook, sua voz vibrando baixo, quase um ronronar de alfa.

Jimin inclinou a cabeça, os fios loiros caindo sobre os olhos expressivos. Ele soltou uma risadinha anasalada, aquela que costumava derreter o coração de seus seguidores em lives de madrugada.

— O silêncio é uma ferramenta, Sr. Jeon. Eu só o uso quando o que está na minha frente é mais interessante do que o que eu tenho a dizer.

Jungkook arqueou uma sobrancelha, visivelmente intrigado.

— E eu sou interessante?

— Você é um enigma envolto em um terno sob medida e envolto em boatos de crimes federais — Jimin sorriu, atrevido. — No meu mundo, isso é o que chamamos de 'conteúdo premium'.

Do outro lado da mesa, a situação era igualmente atípica. Kim Seokjin, que normalmente teria uma resposta ácida para qualquer alfa que tentasse intimidá-lo, estava em um impasse fascinante com Kim Namjoon. O braço direito de Jungkook tinha um jeito de falar que fazia Jin se sentir como se estivesse em um debate intelectual, e não em uma boate barulhenta.

— Então você está me dizendo que a estrutura de importação de vinhos da sua família foi baseada em uma falha logística do século dezoito? — perguntou Jin, os olhos brilhando.

Namjoon sorriu, e as covinhas que apareceram foram o golpe final na resistência de Seokjin.

— Exatamente. A maioria das pessoas foca no lucro imediato, mas eu prefiro a história por trás do rótulo. É como o seu restaurante, Seokjin. Não é apenas comida, é uma performance.

Jin levou a mão ao peito, dramaticamente.

— Alguém finalmente entende a minha arte! Jimin, troque de lugar comigo, eu preciso discutir a revolução francesa com este homem.

Jimin nem sequer olhou para trás.

— Agora não, Jin. Estou ocupado tentando descobrir se o Sr. Jeon tem batimentos cardíacos ou se ele funciona à base de pura intimidação.

Yoongi, que estava sendo "escoltado" por Hoseok e Taehyung, soltou um suspiro audível.

— Eu vou para o bar. Se eu ficar aqui mais cinco minutos, vou acabar sendo adotado por essa seita de alfas lúpus.

— Tarde demais, gatinho — Hoseok riu, passando o braço pelo ombro de Yoongi com uma familiaridade que faria qualquer outra pessoa ser atingida por um soco. — Você tem cara de quem sabe apreciar um sintetizador analógico. Vamos, o bar privativo tem um sistema de som que você vai adorar.

Yoongi resmungou algo sobre "alfas folgados", mas não se afastou quando Taehyung o guiou para longe da confusão central.

Jungkook voltou sua atenção total para Jimin. Ele parecia ignorar completamente o fato de que seus homens estavam se dispersando com os amigos do influenciador.

— Você não tem medo, não é? — perguntou Jungkook, sua mão apertando levemente a de Jimin.

— De quê? De você? — Jimin se inclinou mais um pouco. — Eu lido com haters que ameaçam me cancelar dia sim, dia não. Um alfa lúpus com olhar de poucos amigos é quase refrescante. Pelo menos você é honesto na sua intensidade.

— Honestidade é um luxo que pouca gente aqui pode pagar — Jungkook disse, os olhos escuros descendo por um segundo para os lábios cheios de Jimin antes de voltarem para seus olhos. — Por que você faz isso?

— O quê? Sou lindo de nascimento? Genética, eu acho.

— Não. Por que vive através dessa tela? — Ele apontou para o celular jogado no sofá. — Você tem quarenta milhões de pessoas observando sua vida, mas ninguém realmente vê você.

O sorriso de Jimin vacilou por um milésimo de segundo. Foi uma rachadura mínima na máscara perfeita, mas para um observador como Jungkook, foi o suficiente.

— É o meu trabalho, Jeon. Eu vendo sonhos. As pessoas não querem ver o Jimin que acorda com o cabelo bagunçado e esquece de pagar a conta de luz. Elas querem o brilho.

— Eu prefiro o que está por trás do brilho — Jungkook murmurou. — O brilho cega. O que está no escuro é o que é real.

Jimin sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Não era medo. Era... reconhecimento.

— Você fala como alguém que passa muito tempo nas sombras.

— Eu sou as sombras, Jimin.

— Pois eu sou a luz estroboscópica — Jimin rebateu, recuperando sua confiança. — E se você ficar muito tempo perto de mim, vai acabar ficando tonto.

Jungkook soltou uma risada baixa, um som que pareceu vibrar diretamente no baixo ventre de Jimin.

— Eu acho que posso arriscar.

De repente, o celular de Jimin, esquecido no sofá, começou a vibrar freneticamente. A luz da tela iluminou o couro escuro. Era Sora.

Jimin revirou os olhos.

— Minha babá está ligando. Provavelmente viu algum post de alguém que me flagrou aqui e quer saber por que eu ainda não postei nada.

Jungkook olhou para o aparelho com um desdém quase palpável.

— Ignore.

— Eu adoraria, mas ela tem fotos minhas de 2014. É chantagem pura.

Jimin pegou o celular, mas antes que pudesse atender, Jungkook tirou o aparelho de sua mão. Com uma agilidade impressionante, ele bloqueou a tela e colocou o celular no bolso interno de seu próprio paletó.

— Ei! Isso é roubo de propriedade privada! — Jimin exclamou, embora estivesse mais divertido do que irritado.

— Considere um sequestro temporário — Jungkook disse, levantando-se e estendendo a mão para Jimin. — Os dez minutos acabaram, mas eu decidi que quero mais dez. Só que em um lugar onde ninguém possa nos marcar em um story.

Jimin olhou para a mão estendida. Ele sabia que atravessar aquela linha com Jeon Jungkook não seria como sair com um modelo de passarela ou um herdeiro de chaebol. Jungkook era o tipo de homem que deixava marcas.

— Meus amigos vão me matar — Jimin disse, embora já estivesse colocando sua mão na dele.

— Meus homens cuidam deles. Seokjin parece estar se divertindo bastante aprendendo sobre logística com o Namjoon.

Jimin olhou para o lado e viu Jin e Namjoon rindo enquanto dividiam uma garrafa de vinho que custava mais do que um carro popular.

— É, o Jin definitivamente me esqueceu. Ele tem uma queda por homens que usam palavras difíceis e óculos.

Jungkook guiou Jimin para fora da área VIP, mas não em direção à saída principal. Eles seguiram por um corredor discreto, atrás de uma cortina de veludo pesado, onde dois seguranças de porte intimidador abriram caminho imediatamente.

— Para onde estamos indo? — perguntou Jimin, sentindo a adrenalina subir.

— Para o telhado. Preciso de ar puro. E você precisa de um tempo offline.

O elevador privativo era revestido de espelhos e metal escovado. Jimin não resistiu. Ao ver seu reflexo ao lado do de Jungkook, ele sentiu a necessidade instintiva de posar.

— Olha só para a gente. O contraste é incrível. O preto do seu terno com o meu conjunto de seda creme... a estética é impecável. Se eu tirasse uma foto agora, a internet quebraria.

Jungkook se posicionou atrás dele, as mãos repousando casualmente nos quadris de Jimin, observando o reflexo pelo espelho.

— Você não consegue evitar, não é? Tudo é uma moldura para você.

— É como eu vejo o mundo — Jimin admitiu, sua voz ficando mais baixa enquanto sentia a presença do alfa o envolvendo. — Mas admito... a moldura fica muito melhor com você nela.

As portas do elevador se abriram para o ar gelado da noite de Seul. O telhado da Elysium era um jardim suspenso minimalista, com uma vista de 360 graus da cidade iluminada. O barulho da boate lá embaixo era apenas um zumbido distante.

Jimin caminhou até a borda de vidro, abraçando o próprio corpo para se proteger do vento.

— Uau.

— É melhor do que a tela de cinco polegadas? — Jungkook perguntou, parando ao lado dele.

— Um pouco. Mas as cores não têm tanto saturação quanto o meu filtro favorito.

Jungkook tirou o paletó e o colocou sobre os ombros de Jimin. O tecido ainda estava quente e o cheiro de Jungkook envolveu o ômega como um abraço físico.

— Você é impossível, Park Jimin.

— E você é muito intenso, Jeon Jungkook. Por que me trouxe aqui em cima? Não foi só pela vista.

Jungkook olhou para o horizonte, para as luzes da Namsan Tower ao longe.

— Eu lido com pessoas que mentem para sobreviver. Todos os dias. Pessoas que usam máscaras de poder, de lealdade, de medo. Você usa uma máscara de perfeição digital. Eu queria ver o que acontece quando o sinal cai.

Jimin se virou para ele, os olhos brilhando sob a luz da lua.

— O que acontece é que eu fico vulnerável. E vulnerabilidade não gera engajamento.

— Gera conexão — Jungkook corrigiu. — Algo que você não consegue através de uma curtida.

Jimin ficou em silêncio por um momento, observando o perfil esculpido do alfa. Havia uma solidão em Jungkook que espelhava a sua própria, embora fossem de naturezas opostas. Um estava sozinho no topo de um império de sombras, o outro estava sozinho no centro de um palco iluminado por milhões de holofotes.

— Você quer saber um segredo, Sr. Jeon? — Jimin sussurrou, aproximando-se.

— Segredos são a minha especialidade.

— Às vezes, eu posto fotos de lugares onde eu não estou, só para que as pessoas não saibam onde eu realmente estou. Eu crio um rastro de migalhas digitais falso para poder ter dez minutos de paz em uma cafeteria qualquer.

Jungkook sorriu, um sorriso pequeno e genuíno que suavizou suas feições.

— Então você também sabe como se esconder em plena vista.

— Eu sou um mestre nisso.

— Então somos parecidos — Jungkook concluiu. — Dois mentirosos profissionais em uma cidade que nunca dorme.

Jimin riu, uma risada leve que o vento levou.

— Acho que isso nos torna cúmplices.

Jungkook deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles até que seus peitos quase se tocassem.

— E o que cúmplices fazem quando estão sozinhos em um telhado, sem câmeras e sem testemunhas?

Jimin umedeceu os lábios, o coração batendo rápido contra as costelas. Ele estendeu a mão e tocou a gravata de Jungkook, puxando-a levemente.

— Eles aproveitam o silêncio. Ou... eles criam um novo tipo de barulho.

Jungkook não esperou por mais um convite. Ele inclinou a cabeça e capturou os lábios de Jimin em um beijo que foi exatamente como o homem: intenso, dominante e perigosamente viciante.

Não foi um beijo de dorama. Não foi delicado ou hesitante. Foi uma colisão. Jimin soltou um suspiro contra a boca de Jungkook, suas mãos subindo para agarrar os cabelos escuros na nuca do alfa. O sabor de Jungkook era de uísque caro e desejo reprimido.

Quando se separaram, ambos estavam ofegantes. Jimin tinha as bochechas coradas e os lábios inchados, um visual que Sora teria tido um ataque cardíaco se visse, pois não era "apropriado para a imagem de idol da internet".

— Definitivamente melhor do que qualquer filtro — Jimin murmurou, a voz rouca.

Jungkook encostou a testa na dele, seus olhos brilhando com uma chama possessiva.

— Eu não vou devolver seu celular hoje à noite, Jimin.

— Oh? E o que você planeja fazer com o meu tempo, já que me sequestrou digitalmente?

— Eu planejo mostrar a você que existem coisas em Seul que não podem ser capturadas em 4K. E eu quero ser o único a ver sua reação a elas.

Jimin sorriu, sentindo uma excitação que nenhuma notificação de "novo seguidor" jamais lhe proporcionara.

— Você é muito mandão para alguém que eu acabei de conhecer.

— Eu sou um alfa lúpus, Jimin. Está no meu DNA.

— E eu sou um ômega lúpus que tem quarenta milhões de pessoas aos meus pés. Você vai ter que se esforçar mais do que um beijo no telhado para me impressionar.

Jungkook soltou um riso sombrio e o puxou para mais perto pela cintura.

— O desafio foi aceito, Park Jimin. Mas esteja avisado: uma vez que você entra no meu mundo, é muito difícil encontrar a saída.

— Quem disse que eu estou procurando a saída? — Jimin piscou, atrevido. — Eu sempre preferi o VIP, e parece que você é o dono da área mais exclusiva da cidade.

Lá embaixo, a Elysium continuava pulsando, um organismo vivo de som e luz. Mas ali em cima, entre o céu escuro e o brilho da metrópole, uma aliança improvável havia sido selada. O influenciador que vivia para ser visto e o homem que vivia para ser temido tinham encontrado algo que nenhum algoritmo poderia prever: um interesse mútuo que prometia ser muito mais "babadeiro" do que qualquer coisa que a internet já tivesse visto.

E Jimin, pela primeira vez na vida, não estava nem um pouco preocupado com o fato de seu celular estar desligado no bolso de um estranho perigoso. Na verdade, ele nunca se sentira tão conectado.