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O Crepúsculo da Vontade e o Sangue nas Sombras

A luz do sol que filtrava pelas janelas de seda do palácio de Tempest parecia ofensivamente brilhante para Rimuru. O soberano, que outrora saltava da cama com energia inesgotável para revolucionar o mundo, agora via cada centímetro de distância como uma maratona intransponível. Sua pele, antes de um brilho perolado, agora assemelhava-se ao mármore frio e sem vida.

Rimuru tentou ajustar sua postura na cadeira de carvalho da sala de reuniões. Ele insistira em revisar os relatórios de comércio com o Reino de Dwargon, ignorando os protestos silenciosos de Rigurd e as lágrimas contidas de Shuna. Sua mente, auxiliada por Ciel, ainda funcionava com precisão cirúrgica, mas a conexão entre sua consciência e seu corpo físico estava se esfiapando.

— Rimuru-sama, por favor, eu imploro... — Rigurd começou, com a voz tremendo de angústia. — Deixe que cuidemos disso. O senhor não precisa se sacrificar por papéis.

Rimuru tentou dar um de seus sorrisos reconfortantes, mas o gesto resultou apenas em uma careta de dor.

— Eu estou bem, Rigurd. Se eu parar de trabalhar, sinto que vou... — Ele interrompeu a frase quando uma pontada aguda atravessou seu abdômen.

Subitamente, um calor úmido escorreu por seu lábio superior. Rimuru levou a mão ao rosto e, ao retirá-la, viu o carmesim vibrante manchando suas luvas brancas. O sangue não parava; era um fluxo constante que denunciava o colapso interno.

— Rimuru-sama! — O grito de Shion ecoou pela sala, mas antes que ela pudesse se aproximar, a visão de Rimuru girou.

O mundo tornou-se um borrão de cores e sons distorcidos. Ele sentiu o impacto frio do chão, mas não houve dor, apenas um vazio avassalador.

Quando acordou, estava de volta aos seus aposentos. Guy Crimson estava sentado ao pé da cama, as mãos enterradas nos cabelos ruivos, uma imagem de desespero que ninguém no mundo imaginaria ver no Lorde Demônio do Orgulho. No canto do quarto, Diablo estava de joelhos, as unhas cravadas no tapete, sussurrando preces sombrias e maldições contra a própria incompetência por não poder carregar a dor de seu mestre.

— Você acordou — disse Guy, sua voz soando como o ranger de metal. — Você desmaiou por três horas, Rimuru. Três horas em que seu coração mágico quase parou.

— Foi só uma tontura... — Rimuru tentou falar, mas uma crise de tosse o interrompeu.

Ele se curvou, sufocado, e Shuna rapidamente colocou uma bacia de prata sob seu queixo. O que saiu de sua boca não foi apenas saliva, mas coágulos de sangue escuro, carregados de partículas de magículas instáveis.

— Não minta para mim! — Guy explodiu, levantando-se e fazendo a pressão mágica no quarto oscilar perigosamente. — Você está morrendo, Rimuru! Esse... esse herdeiro está te transformando em uma casca vazia! Shuna disse que suas reservas de energia estão abaixo do nível crítico. Você não consegue nem manter sua forma humana sem sofrer.

Rimuru limpou a boca com as costas da mão, seus olhos amarelos encontrando os de Guy. Havia uma tristeza profunda neles, mas também uma teimosia que nem a morte parecia capaz de dobrar.

— Eu sinto o bebê, Guy — sussurrou Rimuru, a voz falhando. — Não é que ele queira me matar. Ele é... ele é poderoso demais. Ele não sabe como se conter. Ele tenta se conectar comigo, mas minha natureza de slime está tentando processar algo que não é biológico, é puramente espiritual.

— Então deixe-me dar minha energia a ele! — Guy segurou os ombros de Rimuru, os dedos tremendo. — Eu sou um Lorde Demônio ancestral! Eu tenho energia de sobra!

— Não funciona assim — interveio Shuna, aproximando-se com uma toalha úmida para limpar o rosto do seu mestre. — O corpo de Rimuru-sama aglutinou a energia de vocês dois para criar essa vida. Qualquer interferência externa agora seria como jogar gasolina em um incêndio. O feto rejeitaria sua energia bruta, Guy-sama, e isso aceleraria a destruição do núcleo de Rimuru-sama.

Diablo, que permanecera em silêncio, levantou a cabeça. Seus olhos vermelhos e dourados estavam injetados.

— Deve haver um artefato, uma magia proibida, um pacto com o vazio... — a voz de Diablo era um sussurro maníaco. — Eu vasculhei as bibliotecas do submundo, eu torturei espíritos ancestrais em busca de uma resposta... Kufufufu... eu não aceito isso. Se o meu mestre partir, este mundo não terá razão para existir. Eu o reduzirei a cinzas antes que o último suspiro de Rimuru-sama deixe seus lábios.

— Cale-se, Diablo — ordenou Rimuru, tossindo novamente. — Ninguém vai destruir nada.

O esforço de falar fez Rimuru empalidecer ainda mais. Ele sentiu um enjoo súbito, uma náusea tão violenta que o fez se contorcer na cama. Shuna rapidamente administrou uma poção calmante, mas até mesmo os remédios de Tempest, os melhores do mundo, pareciam perder o efeito diante daquela condição única.

Nos dias que se seguiram, a rotina de Tempest transformou-se em um velório prolongado. O festival que Guy tanto queria aproveitar tornara-se uma memória amarga. O palácio estava em silêncio absoluto; os servos caminhavam nas pontas dos pés, temendo que o som de um passo mais pesado pudesse quebrar a frágil estabilidade do seu senhor.

Rimuru tentava, com uma coragem que beirava a imprudência, manter alguma normalidade. Em uma tarde, sentindo-se momentaneamente melhor após uma transfusão de magículas estabilizadas por Ciel, ele insistiu em se sentar à mesa de trabalho em seu quarto.

— Rimuru, volte para a cama — Guy rosnou, cruzando os braços enquanto observava o slime em forma de garota tentar segurar uma caneta.

— Só este documento, Guy... é sobre o orfanato... — Rimuru parou. A caneta escorregou de seus dedos pálidos e rolou pelo chão, parando perto dos pés de Guy.

Rimuru suspirou, irritado com sua própria fraqueza. Ele se inclinou para frente, tentando alcançar o objeto. Foi um movimento simples, algo que ele fizera milhares de vezes. Mas, no momento em que seu tronco se curvou, a pressão sobre seu núcleo mágico atingiu um ponto de ruptura.

— Ah... — Um gemido baixo escapou de sua garganta.

A dor foi como se mil agulhas incandescentes estivessem costurando seus órgãos internos. Rimuru não conseguiu completar o movimento. Seus olhos reviraram, as pupilas desaparecendo sob as pálpebras, e seu corpo desabou para o lado.

— Rimuru! — O grito de Guy foi um trovão.

Ele pegou Rimuru antes que ele atingisse o chão, mas o que viu o deixou paralisado de horror. O nariz de Rimuru não estava apenas sangrando; o sangue jorrava, manchando o tapete e as roupas de Guy. O corpo do slime começou a tremer violentamente, uma convulsão mágica que fazia faíscas de energia azul e vermelha saltarem de sua pele.

— Shuna! Diablo! — Guy gritou, sua voz carregada de um pânico que ele nunca sentira em milênios de existência.

A porta foi escancarada. Shuna entrou correndo, seguida por um Diablo que parecia à beira de um colapso mental.

— O núcleo dele está superaquecendo! — Shuna gritou, as mãos brilhando com magia de cura rúnica. — O bebê está tentando nascer antes da hora porque sentiu a instabilidade! Mas Rimuru-sama não tem estrutura para isso agora!

— O que eu faço? — Guy perguntou, segurando Rimuru contra o peito, sentindo o corpo dele oscilar entre o calor febril e o frio gélido da morte. — Diga-me o que fazer!

— Segure-o! Não deixe a forma física dele se desmanchar! — Shuna começou a entoar cânticos de estabilização de alto nível. — Diablo, ajude-me a criar uma barreira de contenção! Se a energia dele explodir, nada restará de Tempest!

Diablo não hesitou. Ele posicionou-se do outro lado da cama, suas mãos tecendo fios de escuridão que se entrelaçavam com a luz de Shuna.

No meio do caos, dentro da mente de Rimuru, uma voz fria e mecânica lutava para manter a ordem.

< Aviso. Integridade do núcleo espiritual: 12%. O feto está drenando as reservas de emergência. Iniciando protocolo de sacrifício de habilidades não essenciais para manter a consciência do mestre. >

"Ciel... não..." pensou Rimuru, em um lampejo de lucidez em meio à escuridão. "Não sacrifique nada... proteja o bebê..."

< Negativo. A prioridade máxima é a sobrevivência do indivíduo Rimuru Tempest. O feto é classificado como uma ameaça de nível catastrófico ao hospedeiro. >

"Ele é... nosso filho, Ciel..." Rimuru sentiu uma lágrima de sangue escorrer por seu olho fechado. "Proteja... os dois..."

Lá fora, o céu de Tempest escureceu, embora fosse meio-dia. Nuvens carregadas de eletricidade mágica giravam sobre o palácio, refletindo a agonia de seu rei. Os cidadãos de Tempest, dos goblins aos dragonutes, caíram de joelhos nas ruas, unindo-se em uma oração silenciosa e desesperada.

No quarto, Guy sentia a vida de Rimuru fugir por entre seus dedos. Ele, o ser que se considerava o ápice da força, estava reduzido a um espectador de uma tragédia que ele ajudara a criar.

— Você não vai morrer, Rimuru — Guy sussurrou no ouvido do slime inconsciente, sua voz tremendo de uma raiva dirigida ao próprio destino. — Eu não permito. Se você for para o submundo, eu irei até lá e trarei sua alma de volta, nem que eu tenha que destruir o ciclo da reencarnação. Você me ouviu? Você é meu!

Rimuru não respondeu. Seus tremores diminuíram, mas não porque ele estava melhorando, e sim porque seu corpo estava ficando sem energia até para convulsionar. O silêncio que se seguiu foi o mais aterrorizante de todos.

Shuna caiu de joelhos, exausta, o suor escorrendo por seu rosto.

— Eu consegui estabilizá-lo... por enquanto — ela arquejou, as mãos ainda trêmulas. — Mas ele entrou em um coma mágico profundo. O bebê entrou em estado de dormência, mas isso é apenas temporário. Rimuru-sama não vai acordar até que encontremos uma forma de alimentar essa criança sem matá-lo.

Guy olhou para o rosto pálido de Rimuru, que agora parecia apenas uma criança dormindo em meio a um campo de batalha. Ele se inclinou e beijou os lábios frios e manchados de sangue do seu amante.

— Diablo — disse Guy, sem desviar o olhar de Rimuru.

— Sim, Lorde Guy — respondeu o demônio, sua voz desprovida de qualquer emoção, o que era muito mais assustador do que seu choro anterior.

— Reúna os Oitagramas. Chame Milim, Ramiris, até aquele idiota do Veldora. Se precisamos de uma fonte de energia infinita que não mate Rimuru, nós vamos encontrá-la. E se o mundo tiver que ser revirado para isso, que assim seja.

Diablo curvou-se profundamente, um sorriso sombrio e letal surgindo em seu rosto.

— Como desejar. A busca começará imediatamente.

Enquanto os subordinados e o amante de Rimuru se preparavam para o que seria a maior operação de resgate da história daquele mundo, o pequeno slime permanecia imóvel, preso em um limbo entre a vida e a criação, carregando em seu ventre uma centelha de poder que poderia ser a salvação ou o fim de tudo o que ele construíra. A batalha pela vida de Rimuru Tempest estava apenas começando, e o preço, todos sabiam, seria pago em sangue e sacrifício.