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O Sussurro do Vazio e a Agonia dos Lordes
O Palácio de Tempest, outrora um símbolo de progresso e alegria vibrante, havia se transformado em um mausoléu de silêncio e mármore frio. O ar estava saturado com uma pressão mágica tão densa que os cidadãos comuns mal conseguiam respirar nas proximidades dos aposentos reais. Rimuru Tempest, o ser que desafiara o destino e unira monstros e humanos, jazia imóvel, uma figura de porcelana azulada perdida em um oceano de lençóis de seda branca.
Já se haviam passado dez dias desde que ele mergulhara no coma mágico. Seu estado era uma montanha-russa de horrores. Ocasionalmente, o corpo pequeno e frágil era sacudido por tremores violentos que faziam o sangue jorrar de seus poros, manchando o leito de carmesim antes que as poções de Shuna pudessem agir. No silêncio da noite, Rimuru murmurava. Eram sussurros quebrados, pedidos de desculpas a pessoas que não estavam lá, ou fragmentos de memórias de uma vida passada na Terra, delírios de uma mente cuja âncora com a realidade estava se partindo.
— Sinto muito... Shizu-san... eu não pude... — a voz de Rimuru falhou, um fio de som que cortou o coração de Guy Crimson como uma lâmina cega.
Guy permanecia sentado ao lado da cama, sua mão grande envolvendo a de Rimuru, que parecia pequena demais, quase etérea. O Lorde Demônio do Orgulho não dormia, não comia e mal falava. Seus olhos vermelhos estavam fixos no ventre de Rimuru, onde uma leve saliência de dois meses indicava a presença do "milagre" que estava matando seu hospedeiro. Às vezes, Guy via a pele de Rimuru ondular levemente naquela região; o bebê se mexia, uma massa de energia consciente e faminta que parecia clamar por mais do que Rimuru podia oferecer.
A porta do quarto se abriu sem aviso. Diablo entrou, seu rosto uma máscara de fúria contida e desespero.
— Guy-sama — disse o demônio primordial, sua voz vibrando com uma nota de perigo — os convidados chegaram. O Octagrama está reunido no salão principal. Eles aguardam sua palavra... e o diagnóstico final.
Guy levantou-se lentamente. Cada movimento seu exalava uma aura de destruição iminente. Ele olhou para Rimuru uma última vez, inclinando-se para beijar a testa suada do slime.
— Eu voltarei logo, meu pequeno. Não ouse nos deixar enquanto eu estiver fora.
O salão de reuniões de Tempest nunca estivera tão carregado. Milim Nava, geralmente a personificação da energia caótica, estava sentada em silêncio absoluto, suas mãos cerradas sobre os joelhos, os olhos rosa-choque fixos na mesa. Ramiris, em vez de voar e fazer piadas, estava pousada no ombro de Beretta, soluçando baixinho em um lenço. Luminous Valentine, Leon Cromwell e até mesmo o enigmático Dagruel mantinham expressões sombrias.
Veldora, o Dragão da Tempestade, estava em um canto, sua aura dourada oscilando de forma irregular. Ele, que compartilhava um vínculo de alma com Rimuru, era quem mais sentia a dor.
— Como ele está? — Milim perguntou, sua voz soando estranhamente pequena, desprovida de sua força habitual.
Guy caminhou até a cabeceira da mesa e socou a superfície de madeira, abrindo rachaduras que se espalharam por todo o comprimento do móvel.
— Ele está morrendo — disse Guy, a palavra saindo como um rosnado. — A criança é uma singularidade mágica. Ela não está apenas consumindo magículas, ela está reescrevendo o código genético e espiritual do Rimuru para se manifestar. Se continuarmos assim, em menos de um mês, o núcleo do Rimuru vai colapsar e ele será absorvido pelo próprio filho.
— Isso é impossível! — Veldora rugiu, levantando-se. — Rimuru é meu irmão de alma! Ele tem reservas infinitas!
— Não são infinitas contra algo que nasce DELE, Veldora — interrompeu Luminous, sua voz fria e analítica escondendo uma profunda preocupação. — O feto é parte do sistema dele. É como se o corpo do Rimuru estivesse tentando lutar contra si mesmo. A poção que eles ingeriram criou uma ponte de compatibilidade que não deveria existir entre seres desse calibre. É um paradoxo biológico.
— Nós pesquisamos nas bibliotecas do Labirinto — disse Ramiris, limpando as lágrimas. — Não há precedentes. Slimes não procriam assim, e Lordes Demônios ancestrais raramente conseguem gerar herdeiros devido à densidade de suas almas. O que Rimuru carrega é... é um Deus em formação. E deuses exigem sacrifícios.
— Eu não me importo com o que essa coisa é! — Guy gritou, sua pressão mágica fazendo as janelas do salão explodirem em mil pedaços. — Eu quero o Rimuru vivo! Se eu tiver que sacrificar metade deste continente para alimentar essa criança com almas e energia até que ela nasça sem drenar o Rimuru, eu o farei!
— E você acha que o Rimuru te perdoaria por isso? — Leon Cromwell falou pela primeira vez, seus olhos frios encontrando os de Guy. — Ele acordaria em um mundo de cinzas, odiando a própria existência e o filho que nasceu do massacre. Você conhece o coração dele, Guy. Ele preferiria morrer a ver Tempest sofrer por ele.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Todos ali sabiam que Leon estava certo. Rimuru era a doçura e a benevolência que equilibrava a crueldade do Octagrama.
Enquanto a discussão prosseguia, um grito agudo ecoou pelos corredores do palácio, vindo dos aposentos de Rimuru. Guy desapareceu em um borrão de velocidade carmesim, seguido imediatamente por Milim e Veldora.
Ao entrarem no quarto, a cena era de puro pesadelo. Rimuru estava arqueado na cama, seus olhos amarelos abertos, mas sem foco, brilhando com uma luz dourada ofuscante. Ele estava tendo uma convulsão tão forte que as juntas de seus braços pareciam prestes a se deslocar. Shuna e Shion tentavam segurá-lo, mas eram repelidas por ondas de choque de energia pura.
— Afastem-se! — Guy ordenou, lançando uma barreira de contenção ao redor da cama.
Rimuru começou a tossir. Não era apenas sangue agora; pequenas partículas de luz azulada — sua própria essência de slime — estavam sendo expelidas. Ele levou a mão à barriga, apertando o local com força, as unhas cravando-se na pele pálida.
— Dói... dói tanto... — Rimuru chorou, as lágrimas escorrendo como rios de mercúrio. — Guy... tire isso de mim... por favor... dói...
O pedido desesperado foi como uma facada no peito de Guy. Ele atravessou a barreira, ignorando as descargas elétricas que queimavam sua pele, e envolveu Rimuru em seus braços, prendendo as mãos do slime para que ele não se machucasse.
— Eu estou aqui, Rimuru! Eu estou aqui! — Guy o apertou contra si, tentando transferir sua própria força vital através do toque.
— Ele está acordado? — Milim perguntou, aproximando-se com os olhos cheios de lágrimas.
— Não — respondeu Shuna, que estava checando os sinais mágicos em um monitor rúnico. — É um despertar reflexivo. O bebê está chutando, e a energia dele é tão corrosiva para o sistema nervoso do Rimuru-sama que o cérebro dele está reagindo à dor extrema, mesmo sem consciência plena.
Rimuru relaxou subitamente, seu corpo ficando pesado nos braços de Guy. O sangramento nasal parou, mas ele permanecia pálido, a respiração curta e superficial.
— Olhem — sussurrou Shion, apontando para o ventre de Rimuru.
Sob a túnica fina, algo se moveu. Não era o movimento suave de um bebê humano; era um pulso rítmico, como um segundo coração batendo com uma força avassaladora. A luz que emanava dali atravessava o tecido, iluminando o quarto com tons de violeta e vermelho.
— Ele está faminto — disse Veldora, sua voz tremendo de pavor. — Eu sinto... ele está tentando alcançar o meu corredor de alma através do Rimuru. Ele quer a energia de um Dragão Verdadeiro.
— Se ele se conectar a você, Veldora, ele pode sugar tudo o que você tem — advertiu Luminous, que acabara de entrar. — E o corpo do Rimuru servirá de condutor. Ele não aguentaria a passagem de tanta energia. Ele derreteria por dentro.
Guy olhou para o rosto de Rimuru, que agora parecia tão frágil que um suspiro poderia desintegrá-lo. O grande Lorde Demônio sentiu algo que não sentia há eras: uma sensação de completa impotência. Ele era o mais forte, o primeiro dos Lordes, o mediador do mundo, mas não podia salvar a pessoa que amava de um inimigo que crescia dentro dela.
— Rimuru... — Guy sussurrou, encostando a testa na dele. — Por que você sempre tem que carregar o fardo mais pesado?
Lá fora, o clima em Tempest refletia a agonia de seu líder. Tempestades de neve, trazidas pela influência de Guy, chocavam-se com ventos furiosos e relâmpagos negros gerados pela instabilidade de Veldora. O povo estava em vigília permanente. Benimaru e os outros generais permaneciam do lado de fora da porta, como estátuas de dor, prontos para qualquer ordem, mas sabendo que não havia inimigo para cortar com suas espadas.
— Guy-sama — Shuna chamou, sua voz carregada de uma nova urgência. — A temperatura corporal dele está caindo drasticamente. O bebê está absorvendo até o calor térmico para se estabilizar. Precisamos fazer algo agora, ou ele entrará em choque necrótico.
Guy tomou uma decisão. Ele olhou para Veldora e Milim.
— Veldora, Milim... vocês são os que têm a maior compatibilidade de magículas com ele. Shuna, prepare um círculo de transferência de alma. Não vamos alimentar o bebê diretamente. Vamos criar um ciclo triangular. Eu, Veldora e Milim forneceremos energia para manter a forma do Rimuru estável, enquanto Diablo e Luminous tentam criar um selo de isolamento ao redor do útero para retardar o crescimento do feto.
— Isso é perigoso, Guy — disse Diablo, seus olhos brilhando. — Se o selo falhar, a pressão acumulada pode causar uma explosão que obliterará tudo em um raio de mil quilômetros.
— Eu não perguntei se era perigoso — rosnou Guy. — Eu dei uma ordem. Se o mundo explodir, que exploda. Mas Rimuru Tempest não vai morrer hoje.
Os preparativos começaram imediatamente. O quarto de Rimuru foi transformado em um laboratório de alta magia. Símbolos rúnicos foram pintados no chão com sangue de dragão e essência de demônio. Rimuru foi colocado no centro, parecendo um anjo caído no meio de um ritual proibido.
Enquanto Shuna entoava os cânticos, Guy segurou a mão direita de Rimuru, e Milim segurou a esquerda. Veldora colocou a mão sobre o peito do slime, fechando os olhos e concentrando sua aura dourada.
— Comecem! — gritou Shuna.
Uma coluna de luz pura disparou em direção ao teto. Rimuru soltou um grito mudo, suas costas arqueando-se enquanto as energias de três dos seres mais poderosos da existência fluíam para dentro dele. Sua pele começou a brilhar, recuperando um pouco da cor, mas o suor que escorria de sua testa era de agonia pura.
O bebê dentro dele reagiu. O pulso no ventre de Rimuru tornou-se frenético, como se a criança estivesse lutando contra o selo que Luminous e Diablo tentavam impor.
— Ele é forte demais! — gritou Luminous, o sangue escorrendo de seus próprios olhos enquanto ela forçava sua magia divina contra a escuridão do selo. — Ele está devorando o selo!
— Aguente firme! — Diablo rugiu, sua forma demoníaca se manifestando parcialmente, chifres e asas surgindo enquanto ele despejava toda a sua essência primordial para conter a divindade nascente.
No meio do turbilhão de poder, Rimuru abriu os olhos. Por um breve segundo, a luz dourada desapareceu, e seus olhos amarelos voltaram a ser límpidos, cheios de uma consciência dolorosa.
Ele olhou para Guy. Não havia medo em seu olhar, apenas uma tristeza infinita e um amor que transcendia as dimensões.
— Guy... — ele sussurrou, o nome mal audível em meio ao rugido da magia. — Pare... você vai se machucar...
— Cale a boca, Rimuru! — Guy gritou, as lágrimas finalmente caindo de seus olhos vermelhos. — Apenas lute! Lute por mim! Lute por nós!
Rimuru sorriu fracamente, um gesto que parecia um adeus.
— Ele... ele é lindo, Guy... eu vi... na minha mente... ele tem os seus olhos...
Antes que Guy pudesse responder, uma explosão de energia branca e carmesim jogou todos para trás. A barreira de contenção estilhaçou-se como vidro. O silêncio que se seguiu foi absoluto e aterrorizante.
A fumaça mágica dissipou-se lentamente. Rimuru estava deitado, imóvel. Seu peito não se movia. A luz em seu ventre havia se apagado, deixando apenas um brilho pálido e residual.
— Rimuru? — Milim chamou, sua voz tremendo.
Guy rastejou até a cama, suas mãos queimadas e trêmulas. Ele tocou o pescoço de Rimuru. Não havia pulso. Não havia fluxo de magículas. O núcleo, a alma, tudo parecia ter desaparecido.
— Não... — Guy sussurrou, a voz falhando. — Não, não, não! RIMURU!
O grito de dor de Guy Crimson ecoou por toda a Tempest, um som tão carregado de agonia que fez as árvores da floresta de Jura murcharem instantaneamente. Ele puxou o corpo sem vida de Rimuru para seus braços, balançando-o como se pudesse acordá-lo de um pesadelo.
No entanto, no meio do desespero, uma pequena e fraca luz começou a pulsar novamente no centro do peito de Rimuru. Não era a luz agressiva do bebê, nem a luz azulada do slime. Era algo novo. Algo que emanava uma calma absoluta.
< Aviso. Protocolo de Emergência "Renascimento da Estrela" concluído com sucesso. O núcleo do indivíduo Rimuru Tempest foi fundido com a essência do herdeiro para evitar o colapso total. >
A voz de Ciel, antes mecânica, agora soava exausta, quase humana.
< Status: Estável. O mestre entrou em um estado de hibernação profunda para gestação assistida. Tempo estimado para o despertar: Indeterminado. >
Guy parou de gritar, olhando para o rosto de Rimuru. O slime não estava morto, mas também não estava mais ali. Ele havia se tornado um casulo, uma promessa de vida protegida por um poder que nem mesmo os Lordes Demônios compreendiam totalmente.
Ele estava vivo. Mas o preço daquela sobrevivência fora a perda de sua consciência e de sua presença no mundo que ele tanto amava. Guy apertou o corpo de Rimuru contra o seu, chorando de alívio e de dor.
Tempest permaneceria em silêncio por muito tempo. O festival fora cancelado, as reuniões adiadas. O mundo esperaria. O Octagrama montaria guarda. E Guy Crimson não sairia daquele quarto até que os olhos amarelos de Rimuru Tempest se abrissem novamente, prontos para ver o filho que quase lhes custara tudo.